Dançando com a Morte Brasileira

Autor(a): Dênis Vasconcelos


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 40: Eca!

Estampando o mesmo sorriso forçado no rosto, fechou os olhos por um breve instante, tentando manter a compostura. Mas o vazio e a sensação agoniante de tê-los fechados o fizeram abri-los novamente em um sobressalto.

Sem perder mais tempo, voltou-se para a maleta, pegando uma foto de cada um e colando-as na identidade.

Sua visão oscilava.

Seu material sempre organizado, mas, ainda assim, tudo parecia fora de lugar.

Procurava por algo que sabia estar ali, mas sua mente se encontrava tão confusa que não conseguia se lembrar do que era. Era uma caneta, e, a todo momento, ela o esperava no lugar de sempre, no meio, bem onde olhava, mas não a via. Seus dedos reviravam a maleta, nervosos.

"Cadê? Cadê?! Me mostra. Meu Deus, me mostra onde eu deix... Achei!"

Pegou a caneta, parada no centro, presa entre as páginas de uma caderneta.

Respirando fundo, virou-se para Nina.

— Nina, por favor, assine aqui — pediu, apontando o local na identidade e estendendo a caneta para a garota.

A menina pegou o objeto sem pressa e, sem hesitação, escreveu apenas: Nina.

Lucas piscou.

"Ué?" — Só Nina? Louis disse que era Nina Vasconcelos.

Antes que pudesse perguntar, os dois irmãos tombaram suas cabeças para a direita, em um movimento sincronizado, olhando-o, fazendo o homem ficar novamente imerso na sensação mais esquisita que já sentira.

Mas, dessa vez, a conclusão da curiosidade foi mais rápida, embora tenha vindo como uma pergunta:

"Esse era o sobrenome da mamãe?"

"Esse era o sobrenome da mamãe?"

Mesmo que Marta nunca tivesse lhes contado sobre isso, como se nada tivesse acontecido, voltaram à posição normal, e Nina completou sua assinatura.

— N...

Lucas abriu a boca para chamá-los novamente, mas antes que dissesse uma única sílaba, Nino surgiu de pé ao lado de Nina.

Seu corpo congelou.

"Pelo amor de Deus... Como ele se moveu tão rápido?"

Imagens de guerra vieram à sua mente. O campo de batalha, os olhos sem vida, a lógica distorcida de um mundo onde existiam coisas que não deveriam existir.

Simplesmente aceitou a estranheza do mundo em que vivia. Não havia outra escolha.

"Magia é tão assustadora assim?"

Nino subiu em outro banco e assinou seu nome. Assim que terminou, os dois viraram os rostos para Lucas ao mesmo tempo.

O agente engoliu seco, alternando o olhar de um para o outro.

Com mãos trêmulas, pegou o pequeno quadrado com tinta para a digital.

Gulp... Po-posso segurar sua mão para mostrar como se faz?

— ...

— ...

...Silêncio.

Os dois apenas o encararam.

O que fez Lucas ficar ainda mais paralisado.

"Eu só quero sumir daqui... Só quero acabar meu trabalho e ir embora..."

Respirou fundo e reuniu toda a coragem que restava.

Gulp... Com licença, Nina.

Aproximou sua mão de maneira tão lenta em direção à dela que, a cada milímetro, seus pelos se arrepiavam a ponto de sentir choque. Uma estática macabra ligava cada pequeno fio de cabelo que saía de sua pele, deixando seus músculos dormentes, falhando em executar a missão.

Então, finalmente... tocou a mão dela.

E o horror absoluto o atingiu.

"Jesus! Isso é um defunto?! Gelada como... como a morte..."

Os olhos arregalados, prestes a saltar de seu rosto. Seu cérebro gritava para que soltasse aquela mão, mas seus músculos se recusavam a obedecer.

Do outro lado, Nino simplesmente o observava.

Nina igualmente, e o homem nem sentia a dor que fazia ao deixar seus olhos arregalados daquela forma. Sua mão foi levando a de Nina até a tinta e, então... Nina percebeu uma coisa.

"Humanos não são gelados assim, esqueci."

Do mais absoluto nada, seu corpo assumiu uma temperatura mais humana. A mudança abrupta e antinatural foi o suficiente para apavorar Lucas, que soltou a mão dela, tropeçando ao se afastar no momento subsequente ao ato da garota.

O ar preso em seus pulmões. Sua mente girava.

Ergueu a mão próxima ao peito em um reflexo automático de esquiva. Seus olhos ainda arregalados, fixos nos dois, que o encaravam sem desviar. Nina, no entanto, manteve a mão exatamente na mesma posição em que ele a havia deixado, perfeita, imóvel.

"Su-su-suas peles estão... mais avermelhadas?"

— Aconteceu alguma coisa?

"Hã?!" A voz de Nina cortou seus pensamentos, despedaçando o pouco de lucidez que sua mente tentava reconstruir.

— Você está enrolando muito, não acha? — completou a garota, o tom firme, mas não rude.

Não queria deixá-lo pensar. Não queria que tivesse tempo para questionar. Um homem com tempo para raciocinar demais poderia se tornar um problema. Não queria nada que pudesse levá-lo a fazer alguma denúncia de estranheza, um comportamento diferente vindo de dois pré-adolescentes "normais".

Mas a Primordial não percebia que sua natureza repulsiva em relação àquela raça gerava isso de forma súbita. Seu sangue, seu olhar imaginando-o morto, implorava para fazer o sangue do humano jorrar. Algo que segurava com muita garra para não sair, um desejo que aguentava quieta para não pôr suas vidas em risco.

— Desculpa, levei um pequeno susto, nada demais, haha! — Lucas riu, a mão indo para a nuca em um gesto clássico e desesperado de quem tentava fingir normalidade.

Mas...

Quando abriu os olhos...

Se deparou com uma cena que...

Deveria ser...

Agradável.

Os gêmeos sorriam.

Um sorriso gentil. Suave.

Mas não era...

Não eram nada gentis em sua perspectiva atual.

"Que... que porra é essa?"

Lucas sentiu mais um tremelique percorrer seu corpo, um frio que deveria ser impossível com tantas camadas de roupas sociais.

Os dois perceberam o que acontecia.

Se continuassem assim, aquele homem poderia sair dali e as coisas poderiam azedar. Precisavam mudar e, então, tentaram criar uma postura, uma abordagem diferente pelo resto do tempo que Lucas permaneceria naquele lugar.

Foi quando, em sincronia perfeita, abriram os olhos.

— O que é pra fazer com esse negócio? — perguntou Nina, seu tom agora carregado de doçura, tentando soar receptiva, muito longe da frieza e falta de paciência passadas.

Lucas não respondeu. Apenas ficou ali, travado, sentindo sua sanidade escapar por entre os dedos.

"Eu não entendo. Estou ficando maluco?"

Então, de repente...

— É assim? — Nina quebrou o silêncio, colocando a palma da mão inteira sobre o quadrado de tinta e sujando-a completamente. "Uma reação infantil assim deve fazer essa escória perder o medo. Espero que Nino entenda meu gesto."

Pensou sem se virar para Nino, apenas com uma reação exagerada, erguendo a palma manchada, olhando-a com os olhos bem esbugalhados, atuando como se tivesse acabado de perceber que havia cometido um erro terrível.

— Hã? Agggh, o que é isso, moço?! Eca! Eca! Eca! — Sacudiu a mão, fingindo estar com nojo.

Lucas piscou.

"Puta merda, tô vendo isso não." Nino observava a cena com um olhar completamente entediado diante da atuação exagerada da irmã. Mas Nina, ciente da lentidão mental do irmão para perceber seus sinais, precisou dar um aviso mais direto.

Atrás de sua cabeça, onde apenas Nino conseguia ver, moldou-se uma forma grotesca: metade do rosto dele, feito de sangue do seu próprio cabelo, e a outra metade, o rosto dela. Uma simbiose bizarra, encarando-o diretamente.

Nino entendeu.

E assumiu um semblante de completo retardado.

Respirou fundo e...

BUOOOOHHH!! O que é isso, moço?! É...! É A AMOEBA DA TELEVISÃO?! — Deu um pulo do banco, os olhos brilhando de um jeito assustadoramente infantil. Aproximou-se da mão de Nina, fingindo observá-la com fascínio. — Quiii... LEGAL! — gritou, jogando os braços para cima em animação exagerada.

"Puta merda..." Nina segurou o riso com todas as forças. Quase explodiu em gargalhadas, caindo no chão com os braços sobre a barriga enquanto rolava sem parar, vendo seu irmão olhar para ela, muito irritado por tê-lo feito passar por aquilo.

"Você me paga, garota!"

Nino virou-se para Lucas, mas antes que sua expressão de desdém se revelasse, trocou-a por um sorriso inocente e animado. Uma criança vestida de preto, pronta para massacrar a humanidade, mas naquele momento, apenas uma criança empolgada.

Lucas piscou algumas vezes, tentando processar.

— É amoeba, moço?!

— Ee-n-... "Quê?" Sua cabeça fritava. A tontura o consumia como se tivesse usado entorpecentes. "Cara... são só crianças... Não devia ter lido os relatórios antes de dormir... Nunca mais faço isso. Filme de terror, café e trabalho de madrugada não combinam..."

Fechou os olhos por um instante, buscando um pilar para se apoiar.

Respirou fundo.

Ao abrir, os gêmeos ainda o encaravam. Mas agora, seus sorrisos e olhares pareciam... normais... Em sua perspectiva. Apenas crianças curiosas diante de algo diferente.

— Nino, ééé... Não é amoeba, é tinta. Desculpa pela minha reação, fui dormir bem tarde, ont... hoje? — Ergueu o olhar, pensativo. — Bem, fiquei assistindo filme de terror e fiquei com medo de ir dormir. Vamos acabar com isso logo, né?

Abriu um sorriso, tentando dissipar a tensão. Nem percebia que os dois pouco se importavam com sua fala — só queriam que ele fosse embora logo.

— Uhum!

— Uhum!

Os murmúrios vieram sincronizados. Mas os pensamentos que seguiram, nem tanto:

"Já deveria ter acabado..." pensou Nina, mantendo a postura meiga, mas ansiosa para matá-lo e sumir com o corpo.

"Anda logo, inseto..." pensou Nino, enojado. Não apenas com o humano, mas com a situação em que se submeteu a agir daquele jeito.

Lucas se aproximou novamente. Nino deu passagem, saindo do lado de Nina no banco.

— Com licença.

Pegou a mão da garota e pressionou seu dedão contra a tinta, depois direcionou para a identidade.

— Era isso. Agora você. — Olhou para Nino, que o observava de baixo, um sorriso sapeca no rosto. — Acha que consegue sozinho?

"Não, não. Consigo não, capeta." pensou, indignado com aquilo. — Uhum!

— Tá, faz então.

— Tá!

— Nina? — A garota olhou para ele. — A tinta sai fácil, é só lavar a mão.

— Tá! — respondeu animada, indo até a pia. Enquanto isso, Nino finalizava sua digital.

Quando Nina voltou, Lucas plastificava as identidades. Mas algo chamou sua atenção...

As digitais eram... iguais.

— Nossa, suas... suas digitais são muito ig...

— Somos gêmeos, moço!

— Somos gêmeos, moço!

Interromperam-no juntos, os sorrisos brincalhões, um ao lado do outro, perfeitamente sincronizados.

Lucas piscou.

— Hummm... É verdade, haha, me esqueci.

Terminando as identidades, pegou o "último passo": a assinatura do alistamento com a ADEDA. Mesmo que já estivessem dentro, precisavam oficializar tudo. Manter os papéis em dia.

Quando colocou os contratos sobre a bancada, os dois assinaram sem nem ler. Sem sequer perguntar o que estavam assinando. Só queriam fazer o que tinha que ser feito, nada mais.

— Ah, ah... Bem, era apenas isso que eu tinha para fazer por aqui — disse de forma suave e baixa, enquanto juntava organizadamente os materiais na maleta.

Entretanto, todavia...

Brr, Brr...

Seu celular vibrou.

— Os celulares!

"Vai embora logo, inferno!" Nina se irritou, pensando que finalmente havia terminado.

Nino apenas manteve o sorriso e os olhos fechados, segurando no fundo de sua alma a sede de sangue que aquele grito despertou dentro dele.

Lucas abriu novamente a maleta e retirou duas caixas, dois aparelhos celulares da ADEDA. Equipamentos de última geração, mais que sete vezes à frente dos dispositivos comercializados para civis.

— Isso são seus novos celulares! Bem, imagino que saibam o que é. São jovens, devem estar familiarizados.

"Não."

"Só some, por favor. Só vaza."

— Agora eu acho que foi tudo! — Com a maleta fechada e em mãos, fez um soquinho com a mão esquerda para os dois antes de ir.

Os gêmeos olharam para a mão.

Foi necessário um esforço absurdo para não esmagarem aquele punho com toda a raiva que sentiam.

T-tap!

Tocaram de leve.

— Hihehi!

Riram juntos.

Seus olhos bem abertos, assistindo Lucas se virar.

— Tchau, crianças!

— Tchaauuu, moço! — A voz de Nina saiu arrastada e exagerada, e Nino quase riu com o tom fofinho usado.

Bam!

A Primordial deu uma cotovelada no irmão, que olhou para ela irritado, vendo o olhar furioso de Nina lançado freneticamente para o homem de costas.

"Cacete, sô!" — Tchaauu, moço!

Lucas os olhou.

Os olhares de guerra que os gêmeos trocavam desapareceram num instante, substituídos pela falsidade de antes.

E então, o agente sorriu de volta.

— Tchau!

Prac!

A porta se fechou.

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