Mininovel – Torneio de Magia

Parte 4: O despertar



ANO 1299

— Vamos até Sterling ver esse Xander — disse Meo, com um sorriso leve. — Faça as honras.

Kang ergueu o braço e o ar se abriu num pequeno portal. Os dois atravessaram como sombras dobradas pelo vento.

Do outro lado, o céu era cinza e pesado de poeira. Sterling já não parecia uma cidade. Torres quebradas afundavam entre raízes negras, e árvores retorcidas brotavam entre casas esmagadas — troncos com olhos de resina e bocas imóveis, cobertos por um musgo que pulsava como se respirasse.

No centro da devastação, algo se movia, e o ar ao redor ondulava com um calor estranho.

Xander caminhava.

Um homem magro e careca — colossal, da altura de um castelo. A pele branca parecia esculpida em pedra morta, enquanto chifres vegetais cresciam da cabeça como galhos antigos. Seus olhos atravessavam a paisagem com uma lentidão que parecia vir de outra era. Cada passo esmagava ruínas inteiras.

— Ele não era desse tamanho… — murmurou Kang.

— Isso não é só magia de crescimento — respondeu Meo.

Ao redor do gigante, centenas de figuras avançavam em silêncio. Druidas e outras criaturas da floresta, marcados por runas incandescentes. Mantos de casca e raiz pendiam dos ombros; alguns carregavam galhadas, outros exibiam carapaças ou membros insetóides que cresciam do próprio corpo. Caminhavam como se cada passo fosse parte de um ritual. Fanáticos. Olhos vazios.

Kang cruzou os braços, observando o exército.

— Sempre achei que esses arquidruidas fossem entidades como a Rainha.

— Talvez um dia sejam — disse Meo. — Quem sabe ainda são novos demais.

Eles flutuavam alguns metros acima da cena, intocados. Xander continuou caminhando sem sequer erguer a cabeça.

— Se quiser — disse Kang — posso acabar com isso agora.

Meo acompanhou o gigante esmagar uma muralha antiga até que ela virasse poeira.

— Verdade… — disse. — Sinceramente, estou tentado a ajudar os humanos.

Kang virou o rosto.

— E por que não ajuda?

Meo demorou um instante antes de responder:

— Porque o que sobra depois?

— Gente viva.

O silêncio pesou entre eles. Outra torre desabou ao fundo.

— Viva… e fraca — disse Meo. — Gente que vai esperar por nós sempre que algo assim aparecer.

Ele voltou o olhar para o exército druídico.

— Eles precisam aprender a se defender.

Kang não desviou os olhos da cidade sendo esmagada.

— Quantos vão morrer até aprender?

Outra parte de Sterling cedeu, e a poeira subiu como uma tempestade lenta.

— Essa resposta nunca foi nossa — disse Meo, por fim.

Kang assentiu devagar. Ainda observou por um segundo… então abriu outro portal.

— Tem razão. Eles precisam aprender.

Os dois desapareceram.

***

Quando atravessaram o portal novamente, horas haviam passado. O sol já estava alto, queimando as pedras claras da praça, e a multidão deixava a arena em ondas barulhentas.

Vendedores gritavam ofertas de almoço — carne assada, pão quente, caldo espesso servido em tigelas improvisadas — enquanto o cheiro de óleo e especiarias se misturava no ar. Artistas de rua disputavam atenção com malabarismos, pequenas explosões de luz e truques ilusórios que arrancavam risadas fáceis.

Acima da praça, um aeroplano de tecido projetava cenas das lutas da manhã. As imagens tremulavam nas velas como se fossem memórias instáveis — golpes repetidos, quedas, o brilho das magias distorcido pelo vento.

Meo e Kang caminharam entre as pessoas sem pressa.

Odara ria com um grupo de amigos, gesticulando enquanto alguém tentava imitar seus movimentos. Mais adiante, Raul, ainda com a máscara grotesca, se gabava para um pequeno círculo de mulheres impressionadas, exagerando cada detalhe da própria luta. Dwiatri, cercada por dois grupos de aventureiros, corrigia algo com paciência, como se ainda estivesse em sala de aula.

Kang observou tudo em silêncio por alguns segundos.

— Pelo menos estão vivos hoje.

Um vento quente atravessou a praça, deslocado demais para aquela hora. As bandeiras presas aos aeroplanos tremeram fora de ritmo. Ninguém pareceu notar.

Meo seguiu andando.

— Vamos para a Cidade do Relógio. Estou com fome.

Kang lançou um olhar breve ao redor, como se medisse o espaço.

— E se derrubaram o portal de lá também?

— Não faz mal.

Um homem passou por eles falando alto, quase rindo:

— Dizem que uma cidade caiu no norte…

— Boato — respondeu o outro, sem sequer diminuir o passo.

Kang ergueu a mão. O ar se abriu outra vez.

— A gente chega mesmo assim.

Meo não olhou para trás.

Eles desapareceram.

***

Quando retornaram da Cidade do Relógio, já era início da tarde. A plateia voltava à arena em pequenos grupos, comentando as lutas da manhã e trocando moedas com apostas rápidas, como se o próximo resultado já estivesse decidido.

No ar, placas mágicas translúcidas começaram a surgir, girando lentamente como constelações embaralhadas acima do campo.

O narrador ergueu a voz:

— E agora… o sorteio das quartas de final!

As placas aceleraram. Luzes se cruzaram, símbolos se rearranjaram — até que, uma a uma, as combinações se fixaram.

Irfen vs Raul

Odara vs Orphen

Procyonju vs Dwiatri

Haseblut vs Alpharchy

Por um instante, silêncio.

Então a arena vibrou.

— Olha só! — disse um espectador. — A Irfen tirou a sorte grande!

— Não vai ter nem graça — respondeu outro. — Pobre mascarado.

Meo e Kang encontraram novamente seus lugares na arquibancada e se sentaram como dois espectadores comuns. O sol batia forte sobre a arena, refletindo nas placas ainda suspensas no ar.

Kang ajeitou a roupa, olhando para o campo.

— E assim seguimos…

Meo não respondeu. Observava a arena como quem encara um tabuleiro muito maior do que aquele.

O olhar de Kang parou por um instante nas placas.

— Orphen contra Odara…

Ele estreitou os olhos.

— Isso resolve metade do problema.

Meo demorou um segundo a responder.

— Ou cria outro.

O gongo soou.

As arquibancadas se comprimiram em um murmúrio denso, como se o próprio ar tivesse recuado para abrir espaço.

Duas presenças surgiram nas rampas.

O narrador avançou um passo, erguendo a voz acima do som:

— Senhoras e senhores! A primeira disputa das quartas de final do torneio! Irfen, a guerreira mágica prodígio… versus Raul, o mascarado do pântano!

O rugido ecoou das arquibancadas, puxado mais forte pelo nome de Irfen.

Ela entrou com passos firmes, o manto azul abrindo atrás do corpo no ritmo preciso dos movimentos. A lança seguia alinhada ao braço como extensão natural, enquanto a aura dourada vibrava ao redor em pulsos controlados. Um grupo nas arquibancadas começou a gritar seu nome em coro.

Raul surgiu do outro lado.

— Que torcida, hein? Vou ter que me esforçar pra ganhar bonito, hã?

Subia de cabeça baixa, a máscara já presa ao rosto, faixas vermelhas apertadas nos braços. Nenhuma aura visível, nenhum gesto chamativo — só o peso distribuído nos calcanhares, o corpo inclinado como um animal prestes a saltar.

Meo observava com os braços cruzados. Kang inclinou levemente a cabeça.

— Esse cara me intriga.

— Parece… — murmurou Meo, a mão no queixo. — Mas não pode ser.

— Nem ela? — perguntou Kang.

— Orphen ou Odara. É o mais provável.

O gongo soou.

As duas energias se ergueram quase ao mesmo tempo. As pedras nas laterais do ringue vibraram enquanto um clarão dourado envolvia Irfen, e um círculo arcano descia da cintura até os pés.

— Magia de velocidade? — disse Raul. — Se você fizer comigo o que fez com o seu amigo, é melhor eu me preparar também, né?

— Fique tranquilo. Eu devia um combate a sério contra Sargiphos. Mas com você… será apenas um toque.

Raul inspirou. O ar vacilou ao redor do torso, os músculos se expandindo sob as faixas enquanto a máscara vibrava junto com o corpo.

— Gostei. Vou usar minha transformação de guerra, então.

Irfen ergueu a palma para conjurar.

Raul já estava em movimento.

O salto rasgou o ar atrás dele e o impacto do pé abriu uma rachadura no chão. A ombreada afundou contra Irfen, fazendo o escudo arcano estalar como vidro grosso antes de ceder em fragmentos pelo impulso. Ainda assim, ela foi arremessada, rolando até bater numa pedra solta do ringue, onde a perna raspou e deixou uma linha fina de sangue.

— Tsc… rápido assim?

— Achou que eu ia ficar lento e pesadão, né?

— Não deixa ela conjurar! — gritou alguém da plateia.

Irfen apertou a lança, a luz dourada correndo pela lâmina. Estocou.

Raul agarrou o cabo no meio do movimento e puxou com força.

— Me dá isso pra cá.

A arma saiu da mão dela num tranco e foi arremessada para longe. A plateia explodiu.

— Ele pegou!

— Ele pegou a arma dela!

Raul girou a lança nas mãos, o movimento limpo, natural, como alguém que já conhecia aquele peso.

Irfen não hesitou. Antes mesmo de tocar o chão, já conjurava outra arma — três bastões encaixados. Bateu no solo e deslizou para o ataque.

Metal encontrou metal.

A lança cortava o ar em arcos largos enquanto a barra interceptava com precisão seca. Estalos ecoavam pelo ringue. Irfen recuava meio passo de cada vez.

Raul avançava um passo inteiro.

— Não dá tempo… — ela bufou.

Golpe lateral. Bloqueio.

Irfen girou o bastão por baixo da lança tentando abrir espaço. Raul respondeu com um giro de força, empurrando a arma e arrancando o controle por um instante. O bastão escapou das mãos dela.

Irfen recuperou apoiando a barra no próprio ombro. O braço tremeu.

— Qual o problema desse cara? — disse, saltando para trás. — Magos não lutam assim por tanto tempo.

Raul veio do alto, a lança erguida.

— Acabou.

O movimento travou no meio da descida.

Seco. Fora de tempo.

Os dedos afrouxaram. A lança escorregou e bateu no chão. A outra mão subiu direto à têmpora.

O som da arena falhou por um instante — como se tivesse sido puxado para longe.

— Não… não agora…

O corpo contraiu de forma descompassada. Os músculos tensionaram irregularmente, as faixas esticando enquanto a postura quebrava ainda no ar. A queda veio torta. Ele caiu de joelhos, a mão pressionando a cabeça com força.

A respiração falhou — curta, travada.

A transformação se desfez, como se fosse arrancada dele. Voltou ao corpo magro, comum. Pequenas rupturas de energia escapavam ao redor, tremendo no ar antes de desaparecer. A máscara escorregou do rosto e bateu no chão com um estalo seco.

Kang se inclinou.

— Viu isso?

Meo não respondeu de imediato. Os olhos presos no ringue.

— Ele sentiu.

Kang assentiu, sem desviar o olhar.

Raul tremia. Os lábios ainda se moviam, mas o som não se formava mais. A mão continuava pressionando a cabeça, os dedos abrindo e fechando sem ritmo.

Irfen manteve a arma erguida por um instante, observando.

— O que foi isso…?

Nenhuma resposta.

Ela avançou com cautela.

— Ei… tudo bem com você?

A mão tocou o ombro dele.

O campo mágico desceu no mesmo instante.

O narrador ergueu o braço.

— Ponto! Vitória de Irfen!

A arena explodiu.

— Ele travou!

— Era só encostar!

— Que magia foi essa que Irfen usou?

Irfen ergueu os braços para a torcida, mas lançou um último olhar para Raul antes de se virar.

Os curandeiros já corriam para o ringue.

— A respiração dele tá irregular!

— Levanta— levanta!

Um deles se inclinou, tentando ouvir.

— Não tá falando coisa com coisa…

Meo soltou o ar devagar.

— Não era pra acontecer agora.

Kang cruzou os braços.

— Mas aconteceu.

Os curandeiros ergueram Raul e o levaram para fora, o corpo ainda rígido, a cabeça caída, a mão finalmente soltando a têmpora.

Ao redor, o público já gritava pela próxima luta.

A arena seguia viva.

Normal.

Como se nada tivesse acontecido.

 

***

 

A enfermaria estava quase vazia. O cheiro de ervas queimadas impregnava o ar.

Raul permanecia sentado na maca, o corpo inclinado para frente, a mão ainda pressionando a têmpora como se segurasse algo que insistia em escapar. A respiração vinha irregular, presa em intervalos curtos.

Meo fechou a porta atrás de si.

Kang permaneceu junto à janela, observando o céu.

Raul ergueu o olhar.

— Imagino que não vieram aqui só por causa da minha… cara por trás da máscara.

— Não — disse Meo. — Isso é o de menos.

Kang falou sem rodeios:

— Durante a sua luta, o selo que prende a Rainha do Massacre foi rompido.

Raul franziu o cenho. A mão apertou mais forte contra a cabeça.

— Rainha, é? E o que isso tem a ver comigo—

A frase morreu no meio.

O corpo travou.

Os dedos cravaram na própria testa. A respiração falhou de novo, mais curta, mais alta. Os músculos do pescoço tensionaram como se algo puxasse de dentro.

— Não… — saiu baixo, quase sem ar.

Meo não se moveu, mas o olhar endureceu.

Kang se afastou da janela.

Raul curvou o corpo, os ombros fechando. Os lábios tremiam, tentando formar alguma coisa que não saía inteira.

— Para… para…

O tecido da maca vibrou sob ele, esticado por uma pressão invisível que ondulou o ar ao redor por um instante.

Os dedos perderam força aos poucos. O corpo cedeu junto. A respiração voltou em puxões desordenados, como se estivesse reaprendendo o ritmo.

Raul ficou imóvel, ainda inclinado, até conseguir soltar o ar de vez e levantar um pouco o rosto.

Meo falou baixo:

— Agora entende?

Kang cruzou os braços, olhando direto para ele.

— Não foi uma reação comum.

Raul piscou algumas vezes, tentando focar.

— Eu… não sei o que foi isso.

— Quando o selo se rompe, significa que a Rainha do Massacre despertou — disse Meo. — O mundo inteiro sente. Mas só alguns… fortes o bastante para reconhecer a dissonância… percebem.

Raul soltou um riso curto, sem humor.

— E eu tô na lista agora, é isso?

Kang respondeu:

— Você já estava.

O olhar dele não recuou — mas também não sustentou.

Lá fora, a arena explodiu em aplausos por outra luta. O som atravessou as paredes e se espalhou pelo quarto, deslocado demais para o que estava acontecendo ali dentro.

Raul passou a mão pelo rosto, devagar dessa vez.

— Acho que vocês estão falando com o cara errado.

Kang deu um passo à frente.

— Observamos todos os competidores. Sabíamos que havia alguém realmente poderoso aqui.

Meo completou:

— E agora sabemos quem é.

Raul desviou o olhar por um instante, respirando fundo, como se testasse o próprio corpo.

— Tá… mas vocês estão me dizendo isso porque tem um gigante druida vindo destruir a cidade, certo?

— Xander, o Voraz — disse Kang. — Ele já arrasou Sterling.

Raul ficou em silêncio, o olhar perdido por um momento.

Meo deu de ombros, leve.

— A cidade teve azar. Mas ele não é a verdadeira ameaça.

Kang pousou a mão no ombro dele.

— Se não fosse isso, ficaríamos para lutar. Mas agora precisamos reunir os outros.

Raul ergueu o olhar.

— Então vocês querem que eu fuja?

— Vai depender de você — disse Meo. — Ou fica e defende a cidade… ou vem com a gente e defende algo muito maior.

Outra onda de aplausos atravessou as paredes.

Raul virou o rosto em direção à janela. O som da multidão seguia constante, distante, como se estivesse acontecendo em outro mundo.

A mão ainda tremia levemente.

Ele fechou os dedos.

Respirou fundo.

— Então tá.

Se levantou.

— Eu aceito.

Kang abriu um pequeno portal ao lado da parede. A luz instável recortou o quarto.

— Vamos para Hoshi. Os outros já devem estar esperando.

Raul deu dois passos, mas parou antes de atravessar. Olhou de volta para a janela, para a direção da arena.

Meo se aproximou, parando ao lado dele.

— Eles não fazem ideia…

Raul engoliu seco.

— E se eu ficasse? Conseguiria resolver isso?

Kang respondeu sem se virar:

— Você salvaria a cidade. Xander chega antes do pôr do sol. Você o venceria com facilidade.

Raul soltou o ar.

— Raul… nunca foi meu nome.

Virou de leve, um sorriso de canto surgindo.

— Bruce. Vamos.

Kang ergueu uma sobrancelha.

— Primeiro a máscara, agora o nome. Por que esconder?

Bruce deu de ombros.

— Porque é charmoso. Fico mais misterioso… perigoso…

Meo e Kang se entreolharam.

Bruce virou em direção ao portal.

O passo falhou por um instante.

A mão fechou no vazio — como se algo ainda estivesse lá… observando.

Ele não comentou.

Então atravessaram.

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