Conto

O sorteio de Verão

 

ANO 900

 

 

O calor se acumulava entre tendas de pano claro esticadas por cordas gastas. Frutas abertas brilhavam sob o sol, cercadas por moscas lentas. O cheiro de carne salgada, poeira e suor se misturava no ar. Entre as bancas, um homem ajoelhado ajustava pesos numa balança de bronze, batendo levemente o metal para conferir o equilíbrio.

— O prêmio é mil peças de ouro — disse alguém.

— E quanto estão cobrando pelo número este ano?

— Um dia inteiro de trabalho — respondeu outro.

Uma mulher segurava um pergaminho numerado com cuidado excessivo, como se fosse frágil.

— Dizem que o último vencedor comprou três casas.

— E gastou tudo em dois anos.

— Ainda assim, viveu como rei. Ajudou amigo, vizinho, parente distante… todo mundo.

O jovem que auxiliava o homem da balança não levantou os olhos.

— Mesmo ganhando isso tudo, quem garante que vocês sabem cuidar do dinheiro? — disse, ajustando outro peso. — Vão jogar fora.

— Você fala assim porque nunca aposta — disse um mercador, cruzando os braços.

— Não aposto em imposto.

— Que imposto?

— O cobrado da burrice.

Alguns riram. Alguém cuspiu no chão.

— Você tá louco. Todo ano alguém ganha.

— Todo ano alguém ganha porque todo ano alguém paga — respondeu o jovem.

Um homem mais velho o encarou, mordendo um pedaço de carne salgada.

— Você fala isso porque tem pai e mãe pra te sustentar. Esse prêmio pode tirar qualquer um dessa vida miserável.

O jovem finalmente ergueu o olhar.

— Claro. Vamos ver este ano se vai ser um parente do nobre… ou algum desconhecido da cidade vizinha, que comprou um único número enquanto vocês gastaram um mês de trabalho.

O velho limpou a gordura dos dedos na túnica.

— Vamos ver, então.

— Vamos ver — respondeu o jovem, sorrindo.

 

***

 

A semana passou rápido. O Novoano chegou com fogos improvisados, vinho ralo e mesas cheias. Vizinhos se cumprimentavam como se o futuro já estivesse decidido. Dormiu-se tarde. Ainda assim, na manhã seguinte, a multidão se acumulava diante da muralha do castelo.

O calor subia das pedras. No alto, o lorde daquelas terras apareceu, acompanhado por escribas. Um cofre foi aberto.

— Atenção ao número — anunciou um deles.

O papel foi desenrolado. O silêncio caiu junto.

— Pertence a… — o escriba leu o nome e hesitou.

— Quem é?

— De onde vem?

O escriba pigarreou.

— Um homem da vila das salinas.

— Nunca ouvi falar — disse alguém.

O jovem da balança deu um passo à frente.

— Eu conheço. Sobrinho-neto do procurador — disse, apontando. — Do seu procurador. Que coincidência.

Alguns se entreolharam. Outros balançaram a cabeça.

— Isso é uma acusação grave.

— Prove.

O rapaz ergueu as mãos, abertas.

— Eu não tenho que provar nada. Todo mundo sabe que eu não aposto nessas porcarias. Mas, se quiserem, eu vou até a Cidade Grande e chamo um paladino pra avaliar isso. Ninguém consegue mentir pra um deles.

— Você nem aposta. Por que tá se metendo? — gritou alguém.

O jovem assentiu.

— Verdade. Você tem razão.

O lorde ergueu as mãos no alto da muralha.

— Acalmem-se. Se o problema é a lisura, podemos sortear outro número agora. Dividimos o prêmio.

O burburinho se espalhou como fogo em palha seca.

— Então o cara da balança tava certo!

— Tem coisa errada nisso!

— Agora não serve mais!

— Está manchado!

— Eu quero meu dinheiro de volta!

O jovem subiu num bloco de pedra.

— Eu vou à Cidade Grande — disse. — Chamar um paladino.

Um murmúrio percorreu a praça.

— Paladino não escuta versão.

— Paladino acaba com isso.

— Ninguém mente pra eles.

O lorde olhou para o povo. Falou baixo, mas foi ouvido.

— Se um paladino vier, este sorteio acaba. Eu serei executado. O próximo nobre cobrará esse valor em imposto — e sem sorteio. É isso que vocês querem?

— Acaba o sorteio? — perguntou alguém.

— Todos — respondeu outro. — Pra sempre.

O silêncio se instalou enquanto o jovem descia a colina.

— Ano que vem pode ser eu — disse uma mulher, apertando o pergaminho.

— Pode ser qualquer um — disse um homem.

— E os paladinos ainda podem nos julgar por cumplicidade.

Ninguém respondeu.

— Ele vai nos arrumar um problema enorme.

— Quer tirar a única chance.

— Quer que a gente continue pobre.

Uma mão segurou um pedaço de pau. Outra, uma pedra.

— Não faz isso — disse uma mulher, em voz baixa.

— Cala a boca!

O jovem já estava distante quando a turba avançou.

— É só justiça — disse uma voz.

— É pelo bem de todos — disse outra.

— Vai ser o nosso segredo.

Eles o alcançaram com facilidade. Só pararam quando o corpo ficou imóvel. Ninguém falou.

O lorde já havia descido da muralha.

No verão seguinte, os números se esgotaram antes do meio-dia.

— Desta vez vai — disse alguém.

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