Conto
Nada além de um condutor

ANO 1375
O sol pendia oblíquo no céu. O mar refletia fragmentos dourados, enquanto as ondas se desfaziam lentas. Cinco dragões cruzavam o firmamento em formação, como uma flecha viva. Suas asas batiam em cadência. Vigiavam o mar.
Sem aviso, um deles estremeceu. Três argolas de luz se fecharam no pescoço, asas e patas. O urro sumiu na altura. Preso, despencou.
Três lanças negras rasgaram as nuvens, presas a cabos que vibravam ao vento. Transpassaram o dorso e o peito com estalos secos. Sangue jorrou. As cordas se tensionaram e puxaram o corpo para cima — e então ele despencou.
Os outros quatro romperam a formação: um girou, outro subiu, dois fugiram. Nenhum ajudou. Apenas instinto: dispersar, sobreviver.
No alto, oculto entre nuvens, flutuava um casco imenso.
— Capitão! Dois subindo em arco!
A embarcação girou sobre o próprio eixo, enquanto revelou a lateral marcada por letras gastas: Torinno II. A madeira escura parecia fundida ao céu.
— Estão vindo direto pro casco!
O aeroplano arfava com três mastros largos, sustentados por estruturas rígidas. Atrás, dois pares de velas em forma de fole batiam em compasso, como pulmões antigos.
— Preparem a comporta inferior!
Na proa, diante da casaria, o fundo do casco se abriu. Um guindaste ergueu o dragão preso. Ainda se debatia, mas sangrava em torrentes.
— Evitem os órgãos! — gritou alguém. — O Capitão quer o condutor intacto!
— Levando para o hangar! Força nas correntes!
Abaixo, os outros dragões subiam. Dois dragões romperam as nuvens em rugidos. Chamas jorraram em direção ao casco.
Um símbolo brilhou na madeira. Linhas róseas se acenderam. As chamas tocaram o encantamento — e sumiram, absorvidas como água na areia.
Um dragão contornou a proa. O outro subiu pela popa.
— Capitão, vamos manobrar! Já que eles gostam de fogo… vamos retribuir.
O Torinno II girou. As velas-fole mudaram o ritmo. Painéis se abriram no flanco: balistas alinhadas, cada uma carregava flechas longas em quadros compactos.
— Preparar todas! Fogo!
As balistas cuspiram lanças encantadas, que caíram como enxame sobre o dragão da frente. Não houve chance de fuga.
Escamas voaram como telhas arrancadas. Flechas cravaram-se no pescoço, asas e costelas. O impacto dobrou a criatura no ar.
O dragão girou e caiu — e lanças maiores vieram logo atrás. Fisgaram patas, dorso e pescoço. Correntes mágicas a travaram. Do outro lado, o primeiro corpo já era recolhido.
Silêncio, um único suspiro.
— Atingido! — gritou um tripulante escorado na borda.
— Ele caiu! — disse outro, com um meio sorriso incrédulo.
No alto, o terceiro mergulhou sobre as velas. Asas roçaram mastros. Dentes bateram contra fios encantados que tilintaram em agonia.
Na proa, uma mulher firme observava. Cabelos escuros presos num enfeite discreto. Vestia vermelho e dourado. No pescoço, um colar dourado com uma pedra escura em brasa.
— Como está o outro? — perguntou ela, sem tirar os olhos do céu.
— Pronto! Pode mandar! — respondeu um tripulante.
— Joguem para estibordo! Deixem-no cair, vamos recolher depois! — ordenou.
— Senhorita Elzalthyn! Não se esqueça dos órgãos! Seu pai recomendou!
— Eu lembro — disse ela, com um gesto breve.
A pedra em seu colar brilhou. Três argolas se prenderam ao novo alvo nas nuvens.
Atrás dela, um jovem aldeão assistia tudo, pálido, imóvel.
Lá embaixo, dois dragões circulavam distantes. A tripulação reagiu. — Velas a bombordo! Aumentar impulso! Vamos atrair os dois!
O Torinno II desceu numa manobra rasante. As velas batiam como corações, os foles pulsavam furiosos. Os dragões morderam a isca.
— Quando cruzarmos a crista, virar o casco! Toda força nos lemes!
O navio subiu em arco e virou de frente.
— Preparar o canhão de Etherdoorium! — ordenou Elzalthyn.
Comportas se abriram. Um tubo largo ligava a proa ao núcleo. Lá dentro, uma câmara girou, enquanto revelava o brilho de um cristal rosado. — Canhão operacional!
— Estão alinhados! — gritou um oficial.
Porém um dos dragões começou a se desgarrar.
— Deixa comigo — disse Elzalthyn, antes de erguer a mão.
Duas argolas de luz se lançaram, agora atadas ao pescoço e cauda do fugitivo.
O cristal explodiu. Um feixe rosa rasgou o ar — violento, contínuo, uivante.
Atravessou os dois dragões. Os corpos se contorceram, dilacerados. A rajada tocou o mar.
As águas se abriram num clarão. O oceano se rasgou até o fundo, uma fenda se formou. A luz sumiu, sugada pelo abismo. Quando o feixe cessou, não restava nada.
Apenas o vazio.
O aldeão permaneceu estático, os olhos presos no brilho que sumia no horizonte.
— Um canhão… Vocês têm um canhão desse tamanho num navio…
— Em primeiro lugar: É um aeroplano — corrigiu Elzalthyn.
Um tripulante se aproximou, ainda ofegante: — Hiljinac, Imediata Elzalthyn! O capitão Turoennu os aguarda no hangar!
— Não é todo dia que um aldeão chama atenção do meu pai. Você sabe das coisas.
— O mérito é de vocês... e desse aeroplano. Nunca vi nada parecido em Thea.
— Eles até que são comuns no meu mundo. Assim como os dragões no seu.
— Por falar nisso, e aquele negócio das argolas? É você quem faz mesmo?
Elzalthyn sorriu quando puxou o manto e fez o colar surgir entre os tecidos.
— Não. É isso aqui — ela ergueu o pingente como quem exibe um troféu. — Amplifica minha magia. Sem ele, eu não teria feito nem metade do que fiz.
— Então não é só seu talento natural…
— Claro que é — disse ela, rindo. — Mas o colar amplifica demais minha magia.
— Então vem do colar...
— Na verdade, vem do condutor mágico que tem dentro. Com as técnicas certas, dá pra extrair eles de criaturas poderosas. Como dragões.
— Condutor mágico... — ele repetiu. — E cada dragão tem um desses?
— Sim. O que vamos extrair agora, o Purgeno, compra um castelo.
— E eu pensando em vender os corpos... — murmurou.
— Como?
— Pensando alto... Com esse corpo e todo esse poder — ele roçou a voz no ouvido dela ao se encostar —, você podia ser a Rainha de toda Thea. A Rainha Dragão.
Ela o encarou, e depois cobriu o colar enquanto descia em silêncio.
— No fim, você não me respondeu.
— Não? — ela o fitou de lado, o olhar caiu-lhe como um peso, sem parar de descer.
— Por que, cada vez que você usava as argolas, era uma a menos?
Elzalthyn silenciou por dois passos. Depois roçou o braço dele com calma ensaiada. — Sabe… você é mesmo um aldeão especial. Poucos têm essa sua coragem.
— Eu também não era assim. Meus pais eram artesãos, e eu ajudava. Mas um dia um dragão como esses queimou minha cidade, o atelier, e a minha família.
Ela diminuiu o passo.
— Depois disso, viajei por Thea. Aprendi tudo o que pude sobre eles. Mas saber não basta. Um aldeão não vence um dragão sozinho.
— Foi aí que remou até nosso navio?
— Vi o anúncio na taverna. Depois encontrei essa maravilha pousada no Lago Lysurea. Achei que fossem de Omnia, mas não importa. Estavam caçando o que eu só sonhava enfrentar.
— E conseguiu — disse ela, com um leve sorriso.
— E vocês? Não são daqui. Esse navio, esse estilo... é tudo diferente.
— Viemos por um portal. No nosso mundo, eles se surgem o tempo todo. Cada um leva a um canto novo. Rastreamos os instáveis em busca de criaturas raras para caçar.
— E encontraram Thea.
— Sim! Isolada e cheia de histórias sobre dragões. Viemos por eles. Recrutamos caçadores, mas não conseguimos nada. Até você chegar aqui.
Hiljinac riu, sem saber se era acaso ou destino. No fim do corredor, erguiam-se portas entre colunas metálicas. Além delas, o brilho azul-acinzentado do hangar escapava pelas frestas. — Estamos aqui.
Dentro do hangar, três dragões jaziam no chão metálico, com as barrigas abertas, cobertas por panos escuros. O ar tinha cheiro de magia crua e carne estagnada.
Entre eles, o Capitão Turoennu examinava os corpos, mãos para trás. Rosto escuro e vincado, olhos iguais aos da filha, barba branca aparada com rigor, e o casaco surrado.
— Bom trabalho, os dois — disse ao notar a aproximação, tocando a testa da filha com os lábios e estendendo a mão a Hiljinac. — Você vale mais que esses dragões. Se quiser ficar, há lugar para você aqui.
Hiljinac apertou a mão, mas os olhos se demoraram nos corpos. — Capitão... você sabia que existem outros tipos de dragões? Com Inteligência que excede a compreensão de qualquer outro mortal?
— Eu sei — disse Turoennu. — Estou falando com um deles agora.
O silêncio caiu como lona úmida. Elzalthyn franziu o cenho. Hiljinac soltou a mão devagar.
— Não sou como esses. Fui eu quem abriu o portal. Minha intenção era sequestrá-los… talvez vendê-los. Mas os condutores me mostraram outra perspectiva... — Ele abriu os braços, o meio sorriso sem disfarces. — Tenho outra proposta.
Turoennu não se moveu. — Fale. Suas últimas palavras antes de morrer.
— Uma aliança. Eu mostro onde estão todos os dragões de Thea. Em troca…
Ele virou para Elzalthyn, e agarrou sua cintura. Ela saltou para trás. — Eu fico com ela. Quero gerar uma linhagem na sua filha. Ela é digna.
Turoennu respirou fundo. Com um gesto, balistas se armaram. Mas foi tarde demais.
O braço de Hiljinac transfigurou-se, a mão virou garra. Com um golpe, acertou o peito de Elzalthyn. O colar mágico explodiu em fragmentos róseos. Um corte se abriu entre seus seios. — Eu não gosto de ser contrariado — rosnou.
A pele se rompeu. Ossos se distenderam. A espinha se alongou como ponte viva. Escamas azul-escuras e âmbar se espalharam. Garras tomaram o chão com um estrondo.
Um dragão colossal ergueu-se no hangar — muito maior do que aqueles. As asas quase tocavam o teto. O ar se encheu de calor e umidade. Água fervente escorria da língua. — Sem o colar... — disse, a voz reverberando — ...não há mais argolas. Estão perdidos.
Elzalthyn, caída, levantou uma mão até o ferimento e fixou os olhos nele. — Como você vai perceber... não era o colar que me dava forças.
Brilhos se acenderam nas carcaças. As argolas translúcidas saltaram das vísceras dos dragões como uma tocaia bem montada. Em instantes, prenderam patas, cauda, ombros.
O monstro rugiu. Girou o corpo, golpeou com o torso. O casco do navio tremeu. Uma fenda se abriu — vasta o suficiente para os ventos uivantes dos céus baixos rugirem.
— Humana mentirosa! — bradou enquanto Panos, ferramentas e papéis voaram.
— Acho que o Torinno II já era... — murmurou um tripulante.
— Que nada. Com o condutor desse desgraçado, dá pra comprar uns cem Torinnos.
Hiljinac caiu, seu corpo enorme esmagou trilhos. O rugido virou gemido. — Se me matarem... vão perder tudo. Conheço Thea como ninguém.
Turoennu ergueu a mão, pronto para dar a ordem. Mas Elzalthyn falou primeiro.
— Talvez. Mas... o maior condutor está dentro de você. — Os olhos dela brilharam. — Imagino quantos Purgenos sairão daí. Já temos o que precisamos.
Hiljinac ofegou. Uma quarta argola se fechou sobre sua boca. Mesmo assim, sua voz invadiu a mente de todos: — E você, Capitão...? Que honra maior haveria do que sua filha ser desejada por um dragão? Ainda mantenho minha proposta…
Turoennu ficou pensativo. O hangar inteiro permaneceu imóvel. Então ele se virou com calma.
Passou o braço pelas costas da filha e, enquanto a conduzia para fora, falou com um dos tripulantes:
— Evitem atingir os órgãos.
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