Conto
Tio! Olha o Fio!

ANO 1381
O sol ardia no alto; não havia nem o resquício de uma nuvem. A estrada de areia serpenteava entre dunas secas.
Um jovem vinha trôpego, os passos pesados afundando um pouco a cada pisada. Os cabelos compridos e castanhos grudavam no rosto redondo e suado, enquanto a camisa preta e grossa colava em sua barriga saliente.
O ranger de arreios veio antes da voz:
— Tawmir? O que você está fazendo aqui sozinho?
Um cavaleiro se aproximava ao trote, montado num cavalo esguio e coberto de poeira. Tawmir reconheceu na hora e ergueu a mão, meio ofegante.
— Raks? Achei que estávamos livres de ti por uns meses.
— Tá difícil de se livrar de mim, gordinho — respondeu o guarda, puxando as rédeas. — Voltei de Jillar essa semana.
Tawmir arregalou um pouco os olhos.
— Sério? Tu foi lá mesmo?
— Fui.
— E é tudo aquilo que eles dizem?
Raks sorriu de lado e baixou um pouco a voz, como se contasse segredo:
— É outro mundo, Tawmir. Lá não tem essas coisas de conde, rei ou senhor como vemos aqui. A cidade é enorme e cada parte se governa sozinha. E, quando eu digo “parte”, imagina três reinos de Trinn empilhados, flutuando um em cima do outro.
Tawmir franziu a testa, tentando imaginar.
— E ninguém manda em ninguém?
— Até mandam. Mas você escolhe quem te manda. Não gostou de um grupo? Vai pra outro. Paga outra taxa, vive de outro jeito. E o mais doido: funciona. Não vi uma briga de bar, nem sujeira no chão.
— Parece meio bagunçado...
— É, parece, mas dá certo. Lá, até garoto da tua idade tem profissão e anda com espada no mercado.
Tawmir riu, com um sopro pelo nariz.
— Aqui, se eu aparecer com uma, até o meu pai apanha.
— Pois é. Outro mundo.
Tawmir deu de ombros e limpou o suor da testa com o antebraço.
— Vim a pé da aldeia. Tenho que chegar no poço de Eshifal ainda hoje.
Raks arqueou a sobrancelha.
— Atravessando essa estrada nesse calor? Tá ficando maluco, é?
— Preciso entregar isso. — Tawmir deu um tapinha na bolsa de couro presa à cintura. — Um doce que meu pai mandou pro tio.
— Mandaram doce, é?
— Sim — respondeu, tirando um vidro da bolsa. — O teu tá aqui também.
Raks desmontou e pegou o vidro, cheirando como se fosse um perfume raro.
— Caramba... o doce do velho Milto. Isso aqui valia uma escolta armada. Sobe aí, vou te levar até a vila.
Tawmir sorriu, aliviado, e subiu na garupa. O cavalo retomou o trote, e os dois seguiram em silêncio pela estrada, enquanto o sol se erguia num início de tarde abafado.
Mais tarde, o cavalo desacelerou. Tawmir desceu com um grunhido e passou a mão nas costas, encarando os telhados baixos da vila logo à frente.
— Bom, fim da linha pra você, Tawmir — disse Raks, puxando as rédeas. — Vai direto pelo campo ou vai dar a volta, como sempre?
— Vou direto.
O guarda assentiu e girou o cavalo. Tawmir seguiu a pé, cruzando o portão de entrada e, logo adiante, contornou um campo de terra batida.
Alguns garotos corriam pela clareira a cavalo, rindo alto. Giravam bastões de madeira como espadas e batiam uns nos outros de brincadeira. Uma bola de couro explodiu nas costas de um deles.
As armaduras brilhavam como louça recém-lavada, refletindo a luz do sol. As roupas pareciam feitas só pra impressionar, sem um fiapo fora do lugar.
Tawmir tentou passar por fora do campo, mas um dos garotos o notou.
— Olha só... uma batata ambulante! — gritou o cavaleiro, puxando o riso dos outros.
— Aí, bolo fofo! — disse outro, enquanto montados nos cavalos passavam rindo.
Tawmir se encolheu. Suava dentro da camisa preta surrada, os olhos baixos, o corpo pesado de poeira e humilhação. Os outros gargalhavam, prontos pra mais.
— Cara, tu é um porco, sujo e gordo!
Ele hesitou, depois virou o rosto, soltando:
— A tua mãe, infeliz!
A gritaria explodiu outra vez. Dois deles guiaram rápido os cavalos e vieram em disparada, cercando Tawmir no campo. Um deles gritou:
— Repete isso aí, seu lixo!
Tawmir olhou para os lados, sem escapatória. Cuspiu no chão.
— Nem vem. Vocês começaram!
Um dos cavaleiros se aproximou, rindo, e passou o bastão de treino contra o traseiro de Tawmir.
— Ei! Vai se ferrar!
Tawmir disparou pelo campo aberto, o vento quente batendo nas bochechas. O terreno úmido afundava sob as botas.
O som dos cascos ecoou logo atrás. Ele olhou por cima do ombro: dois cavaleiros avançavam.
— Droga, droga, droga... — arfou, a voz entrecortada.
Adiante, uma valeta bloqueava o caminho. Ele acelerou, os passos pesados levantando respingos de barro.
— Preciso chegar lá... — repetiu, como se empurrasse as pernas com as palavras.
Um dos cavaleiros puxou as rédeas; o animal empinou, relinchando, e a corrida se quebrou em gritos e risadas.
Tawmir saltou. Passou pela valeta, mas afundou na lama até os joelhos. Cambaleou e despencou de peito, espalhando Barro pelo rosto e pela roupa.
Risos estouraram atrás dele.
— Olha só o ratão do campo! — zombou um dos cavaleiros.
— Tá pronto pro chiqueiro? — gritou outro, antes de girar o cavalo e seguir caminho.
Tawmir ergueu-se, cuspindo um fiapo de capim preso nos lábios. No Barro, o pote de doce jazia quebrado, a calda dourada se misturando à lama. Ele o pegou com cuidado, afastando os cacos de vidro.
— Pelo menos não me cortou... — murmurou.
Os cavaleiros já se afastavam, o som dos cascos se perdendo no campo. Tawmir limpou o rosto com a manga e ergueu a voz:
— Um dia, vocês pagam por isso!
O vento levou as palavras, sem resposta.
Tawmir entrou pelo portão com passos arrastados. A lama endurecida rachava nas dobras da roupa, esfarelando no chão a cada movimento. O sol castigava o quintal, refletindo no suor que escorria por entre as manchas secas.
— Pelo céu, menino! — uma senhora que estava a porta correu até ele, agarrando seus braços. — O que foi que aconteceu? Você tá... você tá todo...
Ele desviou o olhar, a sombra do cabelo cobrindo metade do rosto.
— Caí na valeta, tia Tâmia.
— Na valeta?! — ela quase gritou. — Mas... como...?
— Fugindo. — Ele deu um meio sorriso sem humor. — Dos filhos dos nobres.
Tia Tâmia levou a mão à boca, horrorizada.
— Que horror, meu filho. Você tá machucado?
— Não. — Ele respirou fundo, o tom Baixo e arrastado. — Eu sou um bosta, eu quero morrer.
— Tawmir! — ela exclamou, como se fosse uma blasfêmia.
— É sério. — Ele passou a mão no rosto, espalhando ainda mais a poeira. — E ainda por cima quebrou o doce.
— Filho, vai pros fundos que o teu primo tá lá — disse a tia, enquanto tampava o nariz com a mão. — Ele vai te ajudar a tira essa lama com a água enquanto eu pego uma roupa do teu tio pra você usar.
Tawmir contornou a lateral da casa sem dizer nada. Nos fundos, encontrou um garoto sentado sob a sombra de uma goiabeira, limpando uma peça de engenho com óleo e areia.
— Jonathor! Tem água por aí? — esbravejou Tawmir enquanto se limpava de lama.
— Que isso, primo? — perguntou Jonathor, ergueu o olhar.
Magro e loiro, de olhos castanhos, Jonathor parecia um daqueles garotos que apanhariam de qualquer mulher que levantasse a voz. Tawmir encostou no portãozinho de madeira, ainda com os pés sujos de lama.
— Aqueles filhos da égua. Olha o que eles fizeram comigo! — disse Tawmir, sem rodeios.
Jonathor ergueu os olhos.
— Quem?
— Aqueles desgraçados dos filhos dos nobres. Aqueles do jogo de lança. Estavam a cavalo. Um deles me chamou de gordura ambulante... eu respondi... ah, eles me pagam.
Jonathor limpou as mãos com um pano.
— Eu conheço eles. Um é primo do Mikael, um amigo meu da cidade. São uns cara nojento pra caramba. Eles fizeram a mesma coisa com o Barojinha semana passada.
— Se eu conseguisse fazer alguma coisa pra me vingar...
— Sozinho, não. Mas talvez... — Jonathor coçou o queixo. — Pera aí, acho que me veio uma ideia!
— Ideia? Que tipo?
— E se a gente pegar o pau de fogo primo do meu pai e atirar neles?
— Ah, é... E depois nos levam pro castelo, e já viu né. Aquela coisa só tem um tiro, os outros vão saber que foi nós.
— Pera aí. E se a gente fizer algo que não faça parecer que fomos nós?
Tawmir arregalou os olhos.
— Como assim?
— Uma armadilha. A gente estica uma corda entre duas árvores. Eles voltam pra casa a cavalo sempre pelo mesmo caminho: lá no bosque. A gente se esconde lá, estica a corda, e pronto. A cabeça rola direto no chão.
Tawmir ficou parado por um instante. Os olhos Baixaram, depois voltaram para Jonathor. Os cantos da boca se moveram devagar, até se abrirem num sorriso torto. Um gesto curto, seco, e ele Balançou a cabeça.
— É. Acho que agora eu terei a minha vingança.
O garoto olhou ao redor, certificando-se de que não havia ninguém por perto. Depois, se aproximou devagar, agachando-se ao lado de Jonathor.
— Tava pensando... Aquelas linhas de estandarte que o pessoal fazia?
— O que tem?
— São finas... fortes. Se alguém as molhasse com gema de ovo... e passasse um pouco de vidro moído...
Jonathor arqueou uma sobrancelha, disfarçando um sorriso.
— A gente pode deixar no sol, bem esticado.
— Ia ficar... afiado — completou Tawmir.
— Perigoso.
— Dá pra até pra perder um dedo se alguém for burro de tocar nela.
— Se for um pescoço então... Melhor eu levar as luvas de couro do meu pai.
Os dois se olharam por um instante, como se um pacto silencioso tivesse sido selado.
Passaram a tarde recolhendo materiais. Pegaram uma corda de seda e desfiaram, cacos de vidro, parafina e ovos. Jonathor preparou tudo, com a calma de um artesão. Depois deixou o resto da tarde no sol.
Com a mochila cheia, seguiram pela trilha atrás da casa, atravessando um milharal até a sombra fechada do bosque.
— Cara, e se o plano der errado?
— Dane-se. Eu fujo pra Jillar. Hoje eles me pagam.
A linha já estava quase pronta, esticada entre duas árvores na curva do caminho. O sol vazava pelas folhas, salpicando o chão de lama seca.
— Pera aí... acho que ouvi alguém — disse Jonathor, apoiando-se nas costas de Tawmir enquanto amarrava a corda no alto de um tronco.
Passos leves vinham pela trilha, quebrando galhos secos.
Os dois se encolheram nos arbustos. Tawmir espiou por entre as folhas.
— Ah... é só o Barojinha. — Ele saiu do esconderijo.
Barojinha surgiu, empurrando um ramo com a mão e arqueando a sobrancelha ao ver a cena.
— E aí... o que vocês tão fazendo aí no meio do mato? — disse, com um meio sorriso.
Tawmir respirou fundo, sem a menor intenção de se acalmar.
— Armadilha.
— Ah, é? — Barojinha estreitou os olhos. — Pra quem?
Os punhos de Tawmir cerraram, os nós dos dedos esbranquiçando.
— Pra aqueles cavaleirinhos de merda. Quando passarem por aqui, vão Bater o pescoço ali e morrer.
Barojinha deixou o sorriso voltar.
— É. Esses nobrezinhos merecem. Tomara que pelo menos um se dê mal. Dexa eu ajudar vocês.
Os três ajustaram o ponto de ancoragem: duas árvores, e se esconderam num matagal próximo. O sol já estava se pondo quando ouviram o som de cascos.
— É agora — sussurrou Jonathor. — Fica todo mundo quieto.
Barojinha se levantou para espiar por entre os galhos.
— Eu quero ver — disse ele. — Quero ver quando eles forem degolados.
— Abaixa, eu animal! Se te virem, vão frear o cavalo — respondeu Jonathor. — Fica aqui.
— Só um pouquinho... — Barojinha se esticou mais. Seus olhos focaram na curva.
Algo o paralisou.
— Que foi? — perguntou Tawmir, puxando Ba pela roupa. — Desce!
Barojinha empalideceu.
— É meu tio.
O cavalo surgiu no caminho, trotando com elegância, a crina balançando sob o sol.
O cavaleiro vinha relaxado, segurando as rédeas com uma mão só. Entre as duas margens da estrada, um fio tênue tremulava no ar — quase invisível, captando um lampejo de luz.
Foi então que Barojinha se levantou num salto.
— Tio! Tio, olha o fio!
O homem olhou para o garoto… e depois para a frente.
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