Conto

O Gênio das Trevas

 

 

 

ANO 1389

 

O caminho estreito serpenteava pelas montanhas íngremes. O vento carregava poeira e o som seco das pedras que rolavam encosta abaixo. Entre os rochedos, a estrada conduzia até um pequeno agrupado de casas de madeira, cercado por alambrados de troncos gastos e campos maltratados.

Um homem de casaco puído surgiu no limite da estrada. A perna metálica tocava o chão com peso ritmado, cada passo acompanhado pelo ranger do ferro contra a pedra.

Ele apertou os olhos, avaliando a vila decadente.

Um camponês passava com um feixe de lenha nas costas. O viajante ergueu o queixo e chamou:

— Ei, você. — a voz grave ecoou contra as paredes baixas. — Ouvi falar de um rumor. Uma caverna nas montanhas.

O lenhador parou apenas por um instante. Olhou rápido para os lados, depois para o homem.

— Não sei do que fala. — respondeu seco, acelerando o passo.

O grisalho resmungou baixo, entre dentes:

— Droga... sempre o mesmo medo... — fez uma pausa curta. — Parece até que já vivi essa cena antes.

Seguiu pela rua de terra, observando portas que se fechavam discretamente quando passava. Um par de olhos o acompanhou por uma fresta, logo sumindo na escuridão de uma cabana.

Mais adiante, uma mulher velha carregava um balde de água. Ele então se aproximou.

— Diga-me, anciã. — falou baixo, porém firme. — Essa caverna que há aqui perto… dizem que guarda um gênio das trevas.

A mulher estremeceu, deixando a água quase cair.

— Não fale desse nome aqui, menino. — murmurou, quase num sussurro. — Não é de boas maneiras ficar remexendo os espinhos da carne.

Ele apoiou-se na bengala de madeira, inclinando-se para perto dela.

— Me desculpe, senhora. Mas eu não voltarei atrás.

O balde tremia nas mãos da velha.

— Maldição... — disse, os olhos marejando. — Vocês, forasteiros, sempre acham que podem enganá-lo. Sempre termina igual.

O homem endireitou a postura.

— Desta vez, não. — resmungou para si, quase inaudível. — Desta vez, ele me paga.

A mulher baixou a cabeça e recuou, desaparecendo para dentro de sua casa.

A rua voltou ao silêncio. Apenas o vento, o farfalhar das madeiras soltas nos telhados e o olhar severo do viajante, fixo nas montanhas ao fundo.

Ele então abriu a porta da taverna. A madeira rangeu alto, denunciando sua entrada.

Por dentro, o ambiente era sombrio: bancos gastos, mesas manchadas e o cheiro amargo de vinho velho. As conversas se quebraram no instante em que cruzou o batente.

Os aldeões o observaram calados. O brilho metálico de sua mão esquerda, reluzindo sob a luz fraca das lamparinas, fez alguns olhares baixarem rápido para a própria bebida.

Ele caminhou até o balcão, o peso da perna marcando o ritmo — passo seco, rígido, que ecoava no salão. O taberneiro esfregava um copo com nervosismo, evitando encará-lo.

— Vim em busca de respostas. — a voz grave do viajante cortou o ar parado. — Todos aqui falam de uma tal… caverna proibida.

O taberneiro parou o gesto, respirou fundo e sussurrou:

— Não devia repetir esse nome.

De um canto da sala, um aldeão mais velho pigarreou. A pele curtida pelo sol, um facão repousava sobre a sua mesa.

— Forasteiro… já basta o que sofremos. — falou em tom rouco, o facão já erguido, pronto para atacar. — Aquela caverna devora homens. Não queremos atrair a atenção daquele demônio assassino.

O viajante o fitou com firmeza. A barba grisalha, curta e cerrada, acentuava o maxilar tenso. Seus olhos — um deles esbranquiçado, marcado pela opacidade da cegueira parcial — não vacilaram diante do aviso.

O velho avançou com o facão, enquanto o homem apenas estendeu sua bengala em sua direção. Um orifício se revelou na ponta.

— Já ouvi isso antes. — murmurou o velho, recuando mais um passo. — É um daqueles paus de fogo, primo.

— E de treze tiros.

O velho sacudiu a cabeça, quase suplicando:

— Ouça… não é só lenda. Se ele for incomodado… não quero nem imaginar. A caverna não gosta de ser lembrada.

Um silêncio pesado recaiu sobre todos. Apenas o tilintar da madeira contra o metal quando o viajante apoiou-se no balcão. Ele ergueu o queixo, ignorando o aviso, e virou-se para a saída.

O velho insistiu ao fundo, sua voz fraca, quase quebrada:

— Não vá, homem. A escuridão de lá dentro não perdoa quem ousa entrar.

— Só o corrigindo: não é demônio, mas um gênio das trevas. — o viajante respondeu.

— Mas em breve não será mais nada. — disse, deixando o rangido da porta encerrar a conversa.

A praça estava quase vazia. Restos de bandeirolas de algum festival longínquo balançavam ao vento, desbotadas pelo tempo. Um ou outro aldeão atravessava a praça, cabeça baixa, carregando cestos, sem ousar parar o olhar no estranho que se aproximava.

Foi nesse vazio que uma voz se ergueu, clara:

— Você é o Thermon, certo?

Um jovem se destacava entre os tons cinzentos e marrons do vilarejo. A armadura de tom alaranjado reluzia, mesmo sob a luz fraca do entardecer, e as botas bem cuidadas contrastavam com o chão empoeirado da praça. Nas costas, uma espada de lâmina roxa cintilava como se fosse feita de vidro polido.

O corpo magro quase parecia pequeno demais para sustentar aquilo, mas o homem mantinha uma postura ereta, o sorriso discreto, como se tudo fosse natural.

Thermon parou, o peso do silêncio ao redor se tornando maior. Não respondeu, apenas sustentou o olhar.

O estranho inclinou levemente a cabeça.

— Sou Regallus. Faço parte da companhia Imadakar. — A pausa foi medida, como se testasse a reação do velho. — Nunca ouviu falar?

Thermon franziu o cenho, e a voz saiu seca:

— Não conheço a sua companhia.

— É famosa, mas talvez nosso nome ainda não tenha chegado tão longe.

Regallus abriu um sorriso calmo, sem mostrar dentes.

— De qualquer forma, ofereço minha ajuda. Sei exatamente o que te trouxe até aqui.

Thermon balançou a cabeça, firme, o olhar frio.

— Não preciso.

— Um homem sozinho contra um gênio? — Regallus arqueou a sobrancelha, ainda sorrindo.

Dois aldeões que passavam apressaram o passo, como se a palavra fosse maldita demais para ser ouvida. O silêncio na praça pareceu ficar mais pesado.

— Isso é raro de se ver.

Thermon lançou-lhe um último olhar breve, de aço. Depois virou as costas, atravessando a praça em passos firmes. Regallus permaneceu parado, até que o vulto do velho se perdesse entre as casas.

— É… Pelo jeito vai ser mais difícil do que eu imaginei.

Um vazio pesado dominava a rua.

Em meio ao caminho tortuoso, Thermon fez uma breve pausa. Tirou de dentro de um embrulho de papel pardo uma garrafa curta, de vidro grosso, e arrancou a tampa de rolha. O cheiro de cachaça subiu no ar, forte e áspero. Levou a garrafa aos lábios e bebeu tudo de uma vez, sem hesitar.

— Ardida como sempre… — resmungou, limpando a boca com o dorso da mão.

Quando terminou, tampou novamente o recipiente vazio e o guardou no mesmo pacote. O gesto foi seco, automático, sem nenhuma cerimônia.

Retomou a marcha.

A trilha avançava pela montanha em curvas longas, cercada de pedras quebradas e arbustos ressequidos. O vento se prendia nas encostas, soprando em rajadas irregulares que pareciam mais arranhar do que refrescar. A cada passo, o mundo ficava mais silencioso — como se os sons da aldeia tivessem sido cortados atrás dele e, agora, só restasse o eco distante de suas próprias passadas.

— E aquele fedelho achando que pode se meter… — murmurou entre dentes. — Armadurinha colorida… mal consegue se sustentar com aquela carcaça dele. Queria ver o infeliz em pânico contra aquele maldito.

Ao fim da subida, o terreno se abria para um lago raso. A água era parada, sem brilho, apenas refletindo o cinza do céu. Nas margens, o chão pedregoso se confundia com a superfície, formando poças que mal cobriam o peito do pé, mas que se aprofundavam de repente até a meia canela em alguns pontos traiçoeiros.

Thermon parou, encarando o reflexo imóvel diante de si.

— Finalmente… aí está.

Diante dele, a escuridão da caverna aguardava. A entrada era larga, mas a rocha em torno dela parecia inclinada para frente, como se tivesse sido talhada para engolir o caminho e ocultar o que houvesse dentro. O ar que saía dali era frio, denso, e carregava um cheiro mineral que lembrava ferro e terra úmida.

Thermon apertou o único olho bom contra a escuridão e, sem se mover, deixou escapar outra frase:

— Que seja.

Ele atravessou o lago raso com passos firmes, ignorando o frio subindo pelos tornozelos. Parou diante da fenda escura, ergueu a mão e murmurou algo rápido, seco. Uma fagulha verde-arroxeada se instalou em seus dedos e se abriu em luz, flutuando como uma chama imóvel.

— Fiz bem em aprender uns truques arcanos… — resmungou, o canto da boca se erguendo num meio-sorriso enquanto mirava a claridade com desdém.

A luz mal afastava a sombra. O ar ali dentro parecia mais denso, abafando o som das próprias passadas. As paredes estreitas respiravam umidade, pingos ecoavam em algum ponto distante, e cada curva parecia empurrar o mundo de fora para mais longe.

— Apareça, Maldito!

Então a escuridão se moveu. Não como vento, nem como sombra projetada, mas como se fosse um líquido viscoso escorrendo pelas pedras. Tomava forma, dissolvia-se, e voltava a crescer, maior, até que o teto da caverna desapareceu por trás de uma massa colossal e sem contorno definido.

A voz veio em seguida. Grave e aguda ao mesmo tempo, como se fosse feita de várias bocas rindo e sussurrando dentro da mesma garganta.

— Ahhh… e veja só quem ousa entrar. — A risada se espalhou pela caverna, vibrando no ar como ferrugem rangendo. — Você me encontrou, humano… e sabe o que isso significa, não sabe?

Thermon ergueu a luz, franzindo o cenho.

— Seu maldito! Hoje você vai pagar por tudo!

— Um desejo. Sempre um desejo… — continuou a voz, se deleitando em cada sílaba. — É assim que a farsa funciona. O prêmio dourado para o tolo que enfia a mão na boca do abismo. Pode pedir. Todos pedem. Todos… sempre pedem.

A massa de trevas oscilou, como se sorrisse sem rosto. As sombras escorriam das paredes e rastejavam pelo chão, chegando perto demais, como se quisessem tocar-lhe os pés.

— Dessa vez será... — Thermon começou a falar, mas engoliu a própria frase. O peito ardeu. A garganta ficou seca. — O que é isso...?

O riso ecoou, suave e venenoso.

— Sentiu outra vez, não foi? — sussurrou o gênio, com várias bocas falando ao mesmo tempo. — O gosto do fracasso. Como se já tivesse estado aqui, dito as mesmas palavras, muitas e muitas vezes… com a mesma ira inútil.

Thermon apertou os dentes.

— Não se engane, criatura das trevas. Você pode ter sido a ruína de meus ancestrais. Mas hoje eu quero esse ciclo.

O riso multiplicou-se, reverberando pelas paredes como se a caverna inteira risse dele.

— Ahh… sim. E é por isso que você se lembra. — A voz escorria, insinuante. — Cada passo que dá, cada palavra que grita, tudo já foi vivido antes. Você carrega as cicatrizes de quem fracassou antes de você. É o mesmo palco, a mesma peça… apenas outro ator.

— Cale essa boca. Apenas aceite o seu destino final…

A massa de trevas pulsou, aproximando-se, e o ar se tornou pesado como lama.

— Então prove. — a voz sibilou, quase carinhosa, quase uma ordem. — Prove que é diferente dos tolos que o antecederam. Peça. Dê forma ao veneno que já arde na sua língua.

Thermon ergueu a chama verde-arroxeada e a encarou como se visse, refletida nela, todos os rostos de sua linhagem perdida.

— Cada geração da minha família… todos caíram diante de você. — Sua voz não tremeu, mas o eco soava mais frágil do que ele gostaria. — O ciclo termina aqui. Vou desejar, sim. Mas não como eles desejaram.

A massa de sombras pulsou, inflando o ar com sua risada dissonante.

— Tolos. Sempre acreditam ter encontrado uma saída. A engenhosidade humana não passa de um brinquedo diante de mim. Sou um resíduo das eras anteriores à tua espécie. — As bocas sem rosto gargalharam juntas. — Peça, velho. Peça e prove o quanto é pequeno.

Thermon cerrou os punhos, puxou de dentro do casaco uma garrafa amassada, embrulhada em papel pardo. Olhou-a com um esgar amargo, como quem encara um velho vício, e então gritou:

— Eu desejo que me possua!

Por um instante, silêncio. Depois, o riso cresceu como um maremoto.

— Possuir um corpo decadente? Esse é o teu grande plano? — A escuridão escorreu em direção à boca do homem. — Pois que seja. Que teu desejo se cumpra.

A fumaça negra se atirou sobre Thermon, forçando-se garganta adentro. Ele cambaleou, as veias do pescoço saltando, a luz nos dedos tremendo como se fosse se apagar. O velho arfou, sufocado, até que, de repente, ergueu-se firme. Os olhos cintilavam de trevas líquidas, e a voz que saiu de sua boca era dupla, humana e abissal.

— Você cumpriu o meu desejo… agora eu cumpro o meu destino.

Então, Thermon ergueu a garrafa. O papel pardo se rasgou sozinho, revelando inscrições rúnicas gravadas no vidro, que ardiam em tons carmesim.

— Nunca mais.

Ele removeu a tampa diante das trevas pulsantes. Os sulcos rúnicos cintilavam em vermelho mortiço.

— Agora acabou… — murmurou, forçando o gênio a se recolher dentro de si mesmo. — De uma vez por todas, vou te selar aqui dentro!

Mas, quando tentou mover a mão para erguer a garrafa e entoar o selo, algo estranho aconteceu. Os músculos travaram. O braço tremia como se fosse puxado em direções opostas, e então, de súbito, obedeceu a uma ordem que não era dele.

A garrafa escapou de seus dedos.

O vidro se espatifou no chão. Um som seco, cruel.

Thermon arregalou os olhos.

— Não… não pode ser…

Seu corpo não respondia. As pernas vacilaram, a respiração acelerou, mas a mão que um instante antes carregava o selo agora tremia sob o controle de outra vontade.

Das profundezas de sua mente, a voz do gênio ecoou, debochada, triunfante:

— Tolo… você me convidou. Disse para eu possuí-lo, mas não especificou como. Posso possuir não apenas a carne, mas também a alma… ou a mente. Então, resolvi possuir a sua vontade.

Thermon gritou por dentro, forçando cada fibra de seu corpo. O rosto se contorceu, cuspindo palavras entrecortadas.

— I-i-isso… ainda não é… o fim…

Seus dentes rangeram. O velho arquejou, puxando com dificuldade sua bengala.

Ele ergueu o orifício dela até a boca, as mãos tremendo entre obediência e rebeldia.

— Se eu… não posso selar… então vou… acabar com tudo…

O riso do gênio percorreu suas veias, vibrando em cada osso.

— Hah! Que doce ironia… Um hospedeiro que explode sua própria carne para me levar junto. Quero ver. Vai ser… delicioso.

Thermon fechou os olhos, os dedos relutantes contra a runa-gatilho improvisada. A faísca prestes a acender.

E então ouviu.

— Não faça isso!

A voz atravessou o breu, clara, humana, desesperada.

Thermon estacou. Os olhos se abriram, o dedo hesitou sobre o mecanismo. Do corredor escuro atrás dele, ofegante, surgiu Regallus.

Thermon arfava, o dedo ainda preso contra a runa-gatilho. A voz do gênio reverberava por dentro dele, quente como ferro em brasa.

Regallus avançou um passo, o peito subindo e descendo em ondas rápidas, a pele reluzindo de suor.

— Thermon! Isso não é real! — gritou, a voz firme apesar do tremor. — Abra os olhos!

O velho vacilou, os músculos em guerra contra si mesmos, a arma tremendo entre suas mãos.

— N-não… não vou voltar atrás…

O riso do gênio espalhou-se pelo espaço, baixo e venenoso.

— Sim, velho. Abra os olhos. Ouça o menino.

Thermon cuspiu saliva misturada a sangue, o rosto contraído em fúria.

— Está tentando me enganar, demônio? Ou isso é medo que eu sinto na sua voz?

Regallus se aproximou mais, os olhos arregalados em desespero.

— Você está preso em um ciclo! Tudo isso já aconteceu, e vai acontecer de novo. E cada vez que você se mata, volta ao começo, sem perceber que já esteve aqui centenas de vezes.

— Saia daqui, garoto! — Thermon juntou forças para gritar. — Não sei por quanto tempo ainda consigo me controlar!

— Resista, Thermon. Eu vim de longe para te salvar! — disse Regallus estendendo a mão. — Quantas vezes mais vai se deixar arrastar até esta caverna? Quantas vezes mais vai morrer aqui?

O silêncio se arrastou por um instante pesado, até que o gênio respondeu com ironia, como se cuspisse veneno:

— Tudo o que ele disse é verdade. Mas e se eu te disser que esse garoto também é uma ilusão? Uma memória quebrada das suas tentativas anteriores. Ele não existe.

O gênio fez uma pausa, enquanto Thermon absorvia suas palavras.

— Assim como sua esperança não existe. Então me diga, velho… é melhor abrir os olhos ou puxar o gatilho?

Thermon cerrou os dentes, lágrimas escorrendo sem que ele percebesse. Seu corpo tremia, as veias saltadas como cordas prestes a rebentar, retorcendo-se contra a própria vontade.

— Você acha que eu não tenho coragem?

— Eu duvido você atirar — sussurrou o gênio, malícia escorrendo de cada sílaba.

Regallus ergueu a voz, o grito cortando o ar como uma lâmina.

— Se fizer isso, vai apenas reiniciar o ciclo! Só você pode se libertar! Abra os olhos! É a única saída!

Thermon arfava cada vez mais alto, o dedo imóvel contra a runa-gatilho.

— Quebrar… o ciclo… — deixou escapar, em voz rouca.

— Abra os olhos! — implorou Regallus, estendendo a mão.

— Feche-os… e dispare — sussurrou o gênio, com uma doçura cruel. — O fim é inescapável.

O dedo de Thermon vacilou. O coração martelava dentro do peito. O mundo inteiro parecia prender a respiração, à espera do disparo… ou do despertar.

— Tudo bem então.

Thermon abriu os olhos.

A escuridão se partiu diante de um clarão — a lâmina de Regallus cortava o vazio como se fosse tecido, sugando as trevas para dentro de si. A espada pulsava, runas ardendo, enquanto se ouviam gritos que não pertenciam a nenhum ser vivo.

O velho se apoiou quase sem forças no pau de fogo primo, o peito arfando como um fole quebrado.

— Obrigado… — murmurou, cuspindo sangue. — Você… você o derrotou.

Regallus o fitava de cima. O suor escorria por sua têmpora, mas sua respiração era calma.

— Não, Thermon. — disse, sereno. — Nós nem ao menos lutamos contra ele.

O velho ergueu o rosto, confuso.

— Mas… eu vi… eu senti…

— Ilusão.

O vazio se desfez. Onde antes havia caverna sufocante, restavam apenas paredes úmidas e um lago parado.

Regallus guardou a espada.

— Você estava preso aqui. Há muito tempo.

Thermon tremeu.

— Não… impossível. Cheguei há pouco tempo. Você mesmo viu!

— O tempo é enganoso quando se vive em círculos. — a voz de Regallus não oscilava. — Quantas vezes você acha que morreu aqui? Quantas vezes repetiu as mesmas palavras, crendo que era a primeira vez?

O velho engasgou. Não respondeu.

O silêncio pesou entre eles, até que Thermon baixou o rosto e cuspiu, com raiva:

— Esse maldito escapou de mim… Agora vou ter que recomeçar tudo de novo.

— Se quiser, posso ajudar. — disse Regallus, firme. — Preciso da sua habilidade para o que está por vir.

Thermon caminhou com esforço, apoiando-se nas pernas fracas.

— Eu não preciso de você, garoto. Não se meta no meu caminho.

Regallus apenas ergueu a mão.

O espaço ao redor se distorceu. O mundo trocou de pele em um piscar — e, num instante, estavam diante da vila.

— O que você está fazendo? — Thermon arregalou os olhos.

O que antes fora vida e movimento agora era só ruína: casas comidas pela vegetação, janelas quebradas, ruas tomadas pelo silêncio. Um vilarejo inteiro parado, como se o tempo tivesse desistido dele.

— Não… — a voz do velho vacilou. — Isso… isso não pode… Estive aqui… momentos atrás…

Regallus abriu a palma. A ruína se refez diante deles. As paredes se ergueram, as portas se endireitaram, o burburinho voltou por um instante. Pessoas caminhavam pelas ruas, riam, negociavam. A vida retornava.

— Era assim… — disse Regallus, quando uma sombra varreu o céu como uma nuvem negra. Em segundos, corpos secaram onde estavam, caindo como bonecos vazios. O vilarejo inteiro morreu de uma vez.

A ilusão se quebrou, e a ruína voltou ao que era.

Thermon abaixou a cabeça. O rosto contorcido em ódio.

— Fui avisado… — murmurou. — Eu… eu os condenei…

Regallus o observava em silêncio. Depois, falou com calma:

— E o que vai fazer com isso? Sozinho, você não vai conseguir. Nem salvar o que resta, nem matar o que procura. Em Imadakar há recursos. Se deseja justiça… ou vingança, é o único caminho.

O velho demorou a erguer a cabeça. O olhar, amargo, ainda queimava.

Respirou fundo. Cerrou os punhos.

— Muito bem… — disse, a voz rouca. — Vamos. Ele vai pagar por tudo o que me tomou.

Regallus não sorriu. Apenas assentiu.

O vento soprou entre as ruínas, carregando a última poeira de uma vila esquecida, enquanto os dois desapareciam dali.

 

 

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