Mininovel – Torneio de Magia

Parte 3: Aqueles que celebram a própria ruína

ANO 1299

 

O pântano fétido conjurado por Raul precisou ser escoado por um portal.
A arena levou mais tempo do que o normal para se recuperar.

— Se for comer, essa é a hora — comentou Kang, escorado no assento. — Ainda bem que a barreira não deixa o cheiro subir até aqui.

— Verdade — disse Meo, levantando-se. — Já volto.

Enquanto a arena era preparada, bardos no castelo dos Amberridle começaram a tocar.

As imagens se projetaram nas sedas dos aeroplanos, tremulando no céu como um espetáculo suspenso.

Depois de um longo intervalo, o narrador finalmente entrou na arena.

— Próxima luta: Professora Dwiatri contra a Trapaceira Arcana!

O público se levantou quando Dwiatri surgiu sobre o piso elevado.

Mesmo vestindo trajes cerimoniais, caminhava com o ar de quem estava em casa. Os cabelos negros, soltos, refletiam as luzes da arena. A pele clara contrastava com as vestes brancas recobertas por bordados solares. Os olhos castanhos percorriam o espaço sem pressa — como se nada ali fosse novo.

— Olha essa mulher, Kang — disse Meo, sentando-se novamente. — Parece que já deu essa aula antes.

— Ouvi dizer que foi professora da alta cúpula das famílias que controlam Jillar — respondeu Kang. — Está lutando no próprio quintal.

— Será que a trapaceira tem chance?

— Veremos. Ela não parece abalada pela torcida.

Do outro lado, a mulher-coelho girava duas adagas entre os dedos. Olhos semicerrados. Corpo inclinado para frente.

— A famosa Professora Dourada… — murmurou, inclinando a cabeça. — Sempre quis testar essa reputação.

Dwiatri a observou em silêncio, por um instante além do natural.

— Espero que tenha vindo com algo além dos truques baratos que usou contra meus alunos.

— Não, profe. Pra você eu guardei o melhor.

A trapaceira avançou antes mesmo da contagem terminar.

Dois golpes rápidos.

Um cortando o ar na diagonal.

Outro vindo por baixo.

— Ei!

Dwiatri ergueu a mão.

Três esferas mágicas surgiram ao seu redor, cintilando como fragmentos solares.

A trapaceira rebateu duas com as adagas. A terceira desviou num ângulo impossível e acertou seu rosto.

Ela rolou pela arena e se levantou com dificuldade.

Dwiatri permaneceu imóvel.

— Meus alunos estão me assistindo — disse a professora. — Todos contam comigo.

A mulher-coelho riu.

— Então posso levar a sério também?

— Eu já estava.

A trapaceira passou os dedos pela lâmina. Uma runa brilhou.

Então disparou novamente.

Cinco golpes.

Rápidos demais para acompanhar — um na coxa, outro raspando a cabeça, o terceiro abrindo o branco da veste.

O quarto rasgou o braço.

O quinto não encontrou nada.

O sangue escorreu pela manga.

Dwiatri não olhou para o ferimento.

— E aí, profe? Gostou?

— Concentre-se na luta.

Ela ergueu a mão.

Uma coluna de chamas irrompeu do chão. A trapaceira saltou no último instante.

— Lenta — provocou. — Achei que a professora fosse mais perigosa.

Nas arquibancadas, o público murmurava.

— Ela já acertou!

— Por que a luta ainda não acabou?

Meo franziu o cenho.

— Esses cortes…

Kang assentiu.

— Não contam. Aqui só vale toque físico.

Enquanto as chamas ainda queimavam o piso, Dwiatri estendeu os dedos.

Esferas incolores surgiram ao seu redor.

Uma.

Três.

Oito.

Dezoito.

O público se calou.

A trapaceira arregalou os olhos.

— Dezoito…?

— Eu sabia que você tentaria acelerar a luta — respondeu Dwiatri. — Já que acha que sou lenta.

As esferas fecharam o espaço ao redor dela.

A trapaceira desviava, girava, golpeava o ar com as adagas. Algumas esferas explodiam em faíscas. Outras retornavam em curvas impossíveis.

A pressão aumentou.

Ela recuou um passo.

Depois outro.

Saltos curtos de teleporte piscavam pela arena enquanto tentava abrir espaço.

Uma esfera passou rente ao seu rosto.

Outra cruzou seu campo de visão em um clarão.

A trapaceira rosnou e avançou.

Quando flexionou as pernas para atacar, uma mão pousou em seu ombro.

Leve.

Fria.

A mesma mão que, segundos antes, ainda estava no outro lado da arena.

— Você já perdeu… faz tempo.

As esferas desapareceram.

O campo mágico brilhou.

Por um instante, ninguém reagiu. Então a arena explodiu.

A trapaceira virou o rosto, ofegante, os olhos ardendo de raiva.

— Como assim?

Dwiatri inclinou levemente a cabeça.

— Você olhou para o lugar errado.

Elegante como havia entrado, caminhou até o centro da arena enquanto seu nome ecoava como o da vencedora.

A mulher-coelho saiu cerrando os dentes.

— Uma ilusão… — rosnou. — Em que momento?

Ainda havia marcas sutis do pântano de Raul, mas nada que atrapalhasse o próximo combate.

O narrador ergueu a voz:

— Oitavas de final, combate número cinco! Orphen, de Jillar, contra Faymir, artista marcial do Reino do Dragão!

Orphen atravessou o portão leste com passos tranquilos.

O vento fez os cabelos verde-metálicos brilharem sob o sol da manhã. As vestes azul-escuras traziam motivos geométricos e, à cintura, pequenos cristais pendiam como sinos silenciosos.

O ar ao redor dela parecia mais limpo, como se a luz já estivesse sendo moldada antes mesmo de algo surgir.

Do lado oposto, Faymir avançou sem pressa.

Pele bronzeada, olhos vermelhos intensos. O cabelo azul, puxando para o violeta, balançava com leveza felina. Os punhos, cobertos por runas vivas, pulsavam entre sombras arroxeadas e fumaça vibrante.

— Essa é descendente dos féericos — murmurou Meo, inclinando-se à frente. — Será ela?

Kang não respondeu de imediato.

— Cabelos metálicos, orelhas pontudas. Tem os sinais… mas ainda é cedo.

— Tranquila demais… isso não é normal.

Kang não piscava.

— O que procuramos precisa ser assim. Vamos ver… basta um toque.

Meo franziu o cenho.

— E a outra é lutadora. Isso complica.

A contagem terminou.

Faymir avançou.

Um único salto — atravessando metade da arena.

O corpo girou no ar — um chute descendente envolto em brilho etéreo.

— Um chute espiritual… — murmurou alguém.

Orphen ergueu a mão.

Uma placa de cristal azul-escuro nasceu diante dela com um estalo seco.

O impacto rachou a superfície.

Por um instante — sustentou.

Então estilhaçou.

Faymir atravessou os fragmentos sem desacelerar. Já estava perto.

Perto demais.

— Rápida demais — avaliou Kang.

Orphen abriu o braço em meia curva.

O ar girou.

Fragmentos cristalinos surgiram na corrente de vento, formando um ciclone translúcido que subiu do chão. As facetas refletiam o sol em flashes irregulares.

Faymir não parou.

O punho se fechou.

As runas pulsaram.

O segundo salto veio mais baixo.

Mais rápido.

O chute atravessou o ciclone.

A espiral explodiu — vento e estilhaços varrendo a arena.

O público gritou.

Faymir pousou dentro da abertura.

Distância de um passo.

Orphen recuou.

Um único passo — preciso.

O chão estalou.

Pontas cristalinas irromperam da pedra.

Finas. Translúcidas. Afiadas.

Todas na mesma direção.

Faymir avançou mesmo assim.

O pé tocou o solo.

Tarde.

Cristais já subiam ao redor do tornozelo.

Forçou o movimento.

O chão respondeu antes.

As facetas cresceram — fechando os ângulos.

Tentou recuar.

Tarde.

Os cristais se fecharam como pétalas de vidro, prendendo a perna.

Mas Faymir não hesitou.

Girou o corpo.

A perna presa virou eixo.

O outro pé disparou — um chute lateral direto ao rosto de Orphen.

A plateia prendeu o ar.

Orphen inclinou a cabeça.

Por um fio.

O golpe passou raspando.

Um corte fino abriu sua bochecha.

O olhar dela travou por um instante — mínimo.

A arena se calou.

Faymir sorriu.

— Peguei.

Orphen não respondeu.

Deu um passo à frente.

Os cristais reagiram.

Subiram mais.

Agora não prendiam só a perna.

Travavam o movimento.

Faymir forçou.

As runas explodiram em luz.

O ar ao redor tremeu.

Por um instante, as fissuras se espalharam.

Kang se inclinou.

— Força bruta…

Os cristais não quebraram.

Se reorganizaram.

A pressão voltou.

Mais densa.

Faymir travou.

Um segundo.

Foi o suficiente.

Orphen avançou.

Sem pressa.

Como se já estivesse ali.

Parou diante dela.

Faymir ainda tentou mover o braço.

Tarde.

Um dedo tocou sua testa.

Tarde demais.

O campo mágico brilhou.

A arena explodiu.

Os cristais recuaram lentamente, dissolvendo-se em pó luminoso.

Faymir respirou fundo ao se libertar. Testou o peso da perna, girando o tornozelo uma vez. Depois se aproximou.

Inclinou a cabeça.

— Belo controle de campo.

Orphen a observou por um instante.

— Combina com você. — disse, observando os cabelos dela.

Faymir sorriu de canto.

— Uma homenagem aos descendentes dos féericos. Obrigada pela luta.

Orphen assentiu.

— O prazer foi meu.

As duas se curvaram antes de deixar a arena, enquanto o nome de Orphen ecoava entre aplausos.

Meo ainda observava o chão.

— Você viu aquilo?

Kang assentiu.

— Os cristais não cresceram ao acaso.

Apontou para as marcas ainda brilhando na pedra.

— Todos voltados para o centro. Como um prisma … desde o início.

Meo ergueu as sobrancelhas.

— Cálculo puro…

Kang cruzou os braços, pensativo.

— Talvez.

Seu olhar seguiu até o portão por onde Orphen havia saído.

— Vamos acompanhar as próximas.

O narrador voltou a erguer a voz:

— Dionirius contra Odara!

O portão norte se abriu.

Dionirius atravessou primeiro.

A pele em tom âmbar queimado parecia viva — como se brasas corressem sob a superfície. Linhas finas, quase rachaduras, pulsavam em vermelho ao longo do corpo. Os olhos, profundos, refletiam luz como metal aquecido. Pequenos chifres curvavam-se para trás, discretos, mas inconfundíveis.

O ar ao redor dele ondulava.

Calor.

— Um meio abissal… — murmurou Meo.

Kang inclinou a cabeça.

— Faz tempo que não vejo um desses fora dos domínios inferiores deles.

— Se a fama for real… são escravistas — Meo cruzou os braços. — Não vão torcer por ele.

Do outro lado, Odara entrou descalça.

Cabelos rosados. Passos leves. O corpo relaxado demais para alguém prestes a lutar.

Quase dançando.

A contagem terminou.

Dionirius não esperou.

O cajado desceu.

Uma rajada branca — cortada por veios vermelhos — rasgou a arena.

Impacto direto.

Odara foi lançada ao chão.

A plateia reagiu em ondas.

— Já acabou?

Dionirius avançou.

Passos firmes. Os cascos batiam no chão, sem pressa. O olhar fixo.

Odara rolou.

Os dedos tocaram o chão por um instante.

Ela se ergueu girando.

A parte superior da sua vestimenta caiu no centro da arena.

Assobios ecoaram.

Dionirius hesitou.

Um único instante.

— Mas que…?

As mãos dela já estavam erguidas.

Duas lanças de luz dispararam.

Ele quebrou ambas com descargas elétricas.

Avançou.

— Agora! — alguém gritou.

O pé dele tocou o tecido no chão.

Metal se fechando — um pé de urso emergiu da arena e prendeu sua perna.

O impacto ecoou.

— Armadilha!

— Ela marcou o chão!

Os gritos preencheram a arena.

Dionirius puxou a perna.

As rachaduras no corpo dele brilharam mais forte.

Calor subiu.

O metal rangeu.

Quase cedeu.
Quase.

Odara já estava ali.

Passos leves.

Sem pressa.

Ela pousou a mão no ombro dele.

Leve.

Preciso.

O campo mágico brilhou.

— Fim.

A arena veio abaixo.

O pé de urso se desfez em fragmentos que afundaram na pedra.

Dionirius se soltou.

Olhou para a própria perna.

Depois virou as costas.

Saiu sem dizer nada.

Odara recolheu a peça de roupa do chão, ajustando com calma.

Sorrisos, vaias e aplausos misturados.

Meo observava a arena.

— Curioso.

Kang cruzou os braços.

— O quê?

— Se fosse outro lutador…

— Estariam vaiando.

Meo assentiu, pensativo.

— Esperta… mas não é o que estamos procurando.

Kang deu de ombros.

— Ainda não. Mas sabe o que está fazendo.

Odara desapareceu pelo corredor.

Meo se levantou.

— Vamos sair um pouco?

Kang olhou de volta para a arena.

— Ainda tem duas lutas.

— Os próximos não interessam aos Onze.

Um segundo.

Kang assentiu.

Os dois deixaram a arquibancada enquanto os servos já avançavam para preparar o próximo combate.

A rua os recebeu com cheiro de pastel, música e vozes misturadas.

— Impressiona como festejam enquanto o reino desmorona — disse Kang.

— Distração mascara o desespero — respondeu Meo. — Pra muitos, isso basta.

Um vendedor agitava bonecos de pano acima da cabeça.

— Réplicas da vencedora Odara! Edição especial, sem roupa!

Kang olhou de relance.

— A trapaceira já virou lenda.

— Inteligente — disse Meo. — Talvez seja isso que falte aos Onze.

Um aeroplano cruzou o céu projetando imagens luminosas.

— Shaulen… contra Haseblut — murmurou alguém na multidão.

— Seria fé contra fé — comentou Meo. — Nos velhos tempos.

A projeção se dissipou entre as nuvens.

Meo parou.

Um cristal brilhava na palma de sua mão.

Kang percebeu o gesto.

— Más notícias?

Meo ficou em silêncio por um instante.

— Sterling caiu.

Meo fechou a mão ao redor do cristal. O barulho da rua continuava ao redor.

— Xander está marchando — completou Meo. — Menos de um dia.

Kang olhou para o estádio ao longe.

— Então começou.

Meo guardou o cristal.

— O torneio sempre foi um pretexto.

Kang franziu o cenho.

— Faz sentido. Quanto mais aventureiros aqui quando o ataque vier, melhor.

O rugido da multidão ecoou do estádio.

Kang cruzou os braços.

— E nós precisamos descobrir se algum deles nos serve.

Meo assentiu.

— Tudo isso antes de Xander avançar…

Ele olhou para o estádio iluminado.

— …se não, o torneio talvez não chegue ao fim.

A arena rugiu ao longe.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora