Curta – Torneio
Parte 2: Favoritos

ANO 1299
O gongo soou de novo, ecoando sobre a arena úmida da luta anterior. O gelo já havia sumido. O piso estava seco. As placas, recompostas.
As arquibancadas estavam mais agitadas do que antes — os gritos vinham em ondas frenéticas.
— Mudou o clima… — disse Kang, olhando para os lados.
As luzes dos aeroplanos se estreitaram, cruzando o ar até se concentrarem no centro da arena.
— À esquerda, da Irmandade dos Quatro Ventos… Irfen!
A plateia explodiu.
— Acabou.
— Irfen já passou.
— Nem precisava dessa luta.
Uma mulher de postura firme. Humana, cabelos roxos presos em trança. Entrou com passos seguros. Usava armadura leve e segurava uma lança curta. Havia uma vibração quase invisível ao redor dela — um brilho tênue que só aparecia quando o feixe de luz a tocava.
Meo se levantou um pouco para enxergar melhor.
— A maioria torce por ela… favorita. Será ela?
Kang voltou a se sentar.
— Não pode ser — disse ele. — Mesmo pintando o cabelo de azul… continua humana.
A frase foi interrompida quando o narrador apresentou o outro participante:
— À direita, do Deserto de Yskan, Reino de Trinn… Sargiphos, o Portador das Dunas!
A segunda onda de gritos veio da parte menor da plateia. Um homem de estatura média, pele bronzeada e cabelos cacheados entrou batendo o punho no peito, exibindo um sorriso tenso. Já em posição de combate desde o primeiro passo, empunhava a espada larga com uma só mão.
Meo se ajeitou, animado.
— Dois arcanos de armas…
Kang manteve a calma habitual.
— Ele não parece intimidado...
Kang manteve o olhar fixo.
— Ou não entendeu com quem tá lutando.
O público começou a bater os pés nos degraus, o ritmo subindo.
Irfen levantou a mão para ele, em cumprimento.
— Última chance de desistir — disse, com expressão neutra.
Sargiphos sorriu.
— Disputei essa vaga entre vinte mil pelo meu esforço. Se eu cair agora, vai ser lutando.
A voz mágica ecoou:
— Luta… iniciada!
Sargiphos avançou primeiro. Num piscar de olhos, estocou a espada no ar. O impacto da magia atingiu Irfen em cheio; ela foi arremessada para trás, o corpo girando no ar em espiral.
Meo inclinou o corpo para frente.
— Já começou.
Kang acompanhou, sem pressa.
— Parece que ele quer acabar rápido.
Ainda no ar, Irfen ergueu o braço. Uma camada quase invisível em torno dela brilhou por um instante, como vidro sob luz.
Sargiphos desceu em diagonal, a espada riscando o ar.
O impacto atingiu a proteção dela. Não quebrou.
Irfen deu um passo lateral ao tocar o chão e respondeu com um golpe curto. A ponta da lança quase tocou o ombro dele de leve, produzindo um estalo seco. Um feixe branco brilhou no piso — a marca do toque.
Sargiphos sorriu, o ombro tremendo.
— Ainda não acabou! — gritou, cravando a espada no chão.
Três pilares de pedra em forma de gigantescas lâminas brotaram da arena. Ele tocou o primeiro. Sumiu. Reapareceu no segundo. Sumiu. Surgiu no terceiro — atrás dela.
Irfen girou com um murmúrio rápido:
— Terra.
O chão vibrou. Uma onda de choque circular se espalhou. Os pilares desmoronaram, e Sargiphos caiu deitado — mas recuperou o fôlego num salto.
A plateia rugiu.
— Isso!
— Vai, Irfen!
Sargiphos cuspiu um fiapo de poeira, levantou-se e avançou de novo.
— Você não vai ganhar me olhando com essa cara tranquila!
Irfen respondeu, sem alterar a expressão:
— Se eu não ficar tranquila, você me acerta.
Ele riu, no meio da corrida.
— É por isso que eu gosto de lutar com você!
Irfen girou a lança, trazendo o cabo para a frente. Sargiphos ergueu a espada, e os dois colidiram no centro da arena com um baque seco.
A plateia rugiu.
Os golpes vieram rápidos — a lâmina larga tentando abrir o ângulo por força bruta; Irfen desviando com giros precisos do pulso. Faíscas saltavam quando a lâmina raspava no metal da lança.
Sargiphos pressionou:
— Você ainda tá se segurando — disse, quase rindo. — Vai se arrepender se não me levar a sério!
Irfen empurrou a lâmina dele para o lado com um movimento brusco.
— Se eu te levar a sério, você cai na terceira troca.
Ele sorriu, recuando um passo para retomar o ritmo.
— Está blefando!
Avançou de novo. A espada desceu num arco amplo; Irfen inclinou o corpo, por pouco. O corte passou perto o suficiente para arrancar um fio da trança.
A lança subiu em resposta, tocando a parte plana da lâmina e empurrando-a para o lado.
Meo se adiantou na arquibancada.
— Estão acelerando.
Kang estreitou o olhar.
— Ele já leu o padrão dela.
Sargiphos tentou um golpe curto e rápido; Irfen aparou de perto. O impacto fez o ar vibrar.
Ele sussurrou, ofegante:
— Vinte mil competidores, Irfen… vinte mil… eu não vou parar aqui.
Ela empurrou a lâmina para baixo com a haste da lança.
— Então pense bem. Os próximos movimentos decidem isso.
Os dois se afastaram ao mesmo tempo.
A plateia bateu palmas eufóricas, o ritmo crescendo.
Sargiphos cravou mais uma vez a lâmina no solo. Uma torrente de pilares em formato de espadas explodiu na arena — dezenas deles.
— Quero ver você fugir de mim agora.
Irfen não mudou a expressão.
— Se você vier até mim, fica mais fácil.
Ele se impulsionou de uma para outra, ganhando altura. No último salto, as pontas se quebraram, liberando poeira que se espalhou como fumaça.
Kang murmurou:
— Movimento simultâneo.
Meo acompanhou, atento.
— Agora.
Irfen passou a mão pela lança. Quatro brilhos diferentes surgiram ao redor — água ondulando no ar, faíscas de fogo, um redemoinho de vento e um brilho terroso sob os pés.
Ela levantou a arma.
Sargiphos caiu sobre ela com um golpe descendente.
Os dois avançaram ao mesmo tempo.
O público levantou.
O choque aconteceu no centro da arena — rápido demais para acompanhar.
A lâmina de Sargiphos afundou mais do que devia.
A luz dos quatro elementos explodiu junto do impacto. A poeira subiu como um véu dourado. Pedra, vento, fogo e água se misturaram numa onda que percorreu o chão, empurrando parte da primeira fileira para trás.
O silêncio veio com a poeira.
Quando ela baixou, os dois estavam parados.
A marca do toque brilhava no braço de Sargiphos…
Meo abriu um sorriso curto.
Kang exalou devagar.
— Por um momento... achei que ele ia vencer.
A voz mágica anunciou:
— Vitória da competidora Irfen!
A arquibancada explodiu — gritos, aplausos, estalos de magia celebrando.
— Eu falei.
— É ela.
— Não tem pra ninguém.
Sargiphos respirou fundo, ainda firme.
— Eu sabia que você ia vencer — disse, erguendo o rosto para a companheira. — Mas obrigado por não pegar leve.
Irfen estendeu a mão.
— Você lutou bem. Eu senti. Não foi fácil.
Ele segurou a mão dela e riu.
— Ótimo. Então posso perder em paz.
A plateia vibrou ainda mais.
Irfen o ajudou a levantar, e os dois saíram conversando, ainda ofegantes. Meo e Kang os observaram descendo a rampa.
— Na sua opinião, nenhum até aqui é o nosso — resumiu Meo.
Kang assentiu.
— É como eu disse: o torneio mal começou.
Pouco depois, a arena já estava restaurada, mas ainda restavam manchas escuras ao longo do piso, como cicatrizes ainda abertas. A plateia esperava em silêncio até o anúncio ecoar:
— Próxima luta! Fay contra Raul!
Fay entrou primeiro. Era uma mulher de postura ereta, com cabelos negros à altura do pescoço e roupas curtas, próprias de clima quente e úmido.
Ao enxergar Raul, inclinou levemente a cabeça.
— Hm. Você é o tal… Raul? — ela sorriu, sem olhar de fato para ele.
Girou a varinha entre os dedos.
— Vamos ver se você dura mais que um aquecimento… mas não vou apostar nisso, Raulzinho.
Raul ajustou a máscara exótica no rosto.
— Hum. Pelo jeito, confiança é o que não te falta.
— É ironia? Fofo. Vamos ver se ainda fala assim quando eu te derreter.
A barreira subiu. Meo cruzou os braços.
— Já começou… — comentou, entediado. — Dentre todas, essa parece que vai se arrastar.
Kang observava atentamente.
— A postura dela é igual à da Irfen. Será uma das estrelas do torneio?
Fay levantou o braço.
— Vamos aquecer isso aqui, Raulzinho.
Duas poções foram lançadas. Os frascos explodiram, e o fogo azul escorreu lento pelo chão, espalhando faíscas viscosas.
Raul recuou, sem alterar o ritmo da respiração.
— Azul… — ele comentou baixo. — Bonito.
— Continua subestimando, vai. Adoro.
Ele abriu as mãos e tocou com a palma no chão.
Um pântano surgiu.
A névoa cobriu o chão, espessa, púrpura, ondulando como se respirasse por conta própria. Quando Raul avançou um passo, a névoa se retraiu ao redor da perna dele e voltou a se fechar logo em seguida.
Depois, a água lodosa subiu até o joelho.
O cheiro azedo alcançou as arquibancadas.
— Transformar o ambiente com essa facilidade… — Kang afastou o corpo da arquibancada. — Estranho… mas não é o tipo que estamos procurando.
Fay traçou um círculo no ar com o cetro. As pedras da própria arena se ergueram, girando em blocos. Um wyvern tomou forma — áspero, rachado, olhos de brasa.
— Vai.
A criatura avançou imediatamente.
Raul estalou a língua.
— Sempre tem a parte do bicho grande…
Ele se movia rápido dentro da névoa. A cauda do dragão passou raspando, levantando lama e água podre. A arena estremeceu.
Raul apontou a mão; a névoa cobriu o dragão. A pedra cedeu, melando e corroendo aos poucos.
— Ei! — Fay ergueu o braço diante do ar quente. — Não vai estragar meu golem tão cedo!
Ela arremessou uma poção no dragão. A explosão azul empurrou a névoa e reacendeu as rachaduras. O monstro mergulhou de novo contra Raul.
— Ih — Kang se inclinou. — Agora o mascarado vai ter que lidar com isso de perto.
Meo deu de ombros.
— Esse cara não faz sentido… e ainda não mostrou tudo.
A cauda golpeou. Raul se curvou para trás, escapando por pouco. O chão afundou com o impacto. O pântano se expandiu.
A plateia vibrou.
Meo suspirou:
— É por isso que eu odeio esses que trazem bichos. Prolongam a luta demais.
Kang respondeu:
— Prefere a névoa púrpura tóxica?
— Prefiro. Modificar a geografia do terreno exige mais refinamento do que simplesmente invocar.
No centro da arena, Raul limpou a lama das penas coloridas da máscara.
— Bonito golpe. Ensaiou?
— Eu? Não. — Fay sorriu. — E isso é pergunta a fazer?
Ela agitou a varinha e liberou duas bolas de fogo azuladas, enormes.
O wyvern saiu da frente.
Raul atravessou uma delas, cobrindo o rosto com o braço. A explosão o jogou de lado. Parte da roupa incendiou, e se apagou assim que tocou o lodo púrpura.
— Ai. Essa doeu.
— Fica pior — avisou Fay.
A segunda bola explodiu e abriu um clarão na névoa. Raul saltou, caiu no lodo e ficou ali por um segundo, respirando pesado.
Fay levantou ambas as mãos. Uma energia azulada percorreu os seus dedos.
— Cai logo… acaba com isso.
— Não vai ser assim tão fácil! — Raul avançou.
Mas o wyvern o abocanhou pelas costas. Seus dentes rochosos o pegaram pela cintura e o ergueram do chão, sacudindo o mascarado, e o arremessando na lama.
Raul caiu a poucos passos diante dela.
— Engole essa, engraçadinho! — Fay girou sua varinha.
O raio saiu direto. Raul tentou reagir, mas foi arrastado no chão.
O público se calou.
Ele ficou caído na lama, corpo curvado, sustentado por um braço.
A névoa ao redor dele pulsava, lenta, mais densa nas mãos.
O silêncio era absoluto.
Kang engoliu em seco.
— Sem proteção mágica… isso podia matar qualquer um.
Meo mexeu no próprio casaco.
— Ele realmente luta sem defesa mágica. Esquisito demais.
Fay caminhou devagar até ele, chacoalhando uma poção como se testasse o peso.
— Vamos ver se acabou…
Ela parou a um passo.
Olhou para ele no chão.
— Ei, você tá vivo?
Nenhuma resposta.
Ela soltou um riso curto.
— Já deu. Acabou.
Fay estendeu a mão sem pressa, confiante, indo direto ao ombro dele.
A névoa reagiu no instante em que os dedos dela cruzaram o limite.
Subiu — rápida, densa.
Enrolou nas pernas dela e travou o movimento.
— Hã?
— Eu avisei… — Raul murmurou, a voz fraca.
Raul se levantou com dificuldade. Passos arrastados, mas firmes o suficiente.
A névoa acompanhava.
Ele passou por ela.
Parou atrás.
Encostou a mão na nuca dela.
A névoa pulsou uma vez.
E então sumiu.
Fay perdeu a força nas pernas. Caiu de joelhos, as mãos tocando o chão para se apoiar. O corpo não tinha ferimentos visíveis.
Mas não se movia.
A plateia continuou como estava. Não houve palmas nem gritos.
— O que foi isso?
— Isso conta como luta?
— Ela perdeu pra isso?
Os murmúrios cresceram, atravessando a arquibancada.
Meo piscou.
— Isso foi… preciso demais.
Kang manteve os olhos na arena.
— Claro que sim. Mas foi bem calculado.
Raul deixou a arena mancando.
A névoa já tinha desaparecido por completo.
Fay bateu a mão na lama.
— Sério? — ela levantou o tom da voz. — Eu perdi pra isso?
Raul respondeu sem olhar:
— Foi você quem encostou.
Sumiu pelo túnel.
Meo respirou fundo.
— Esse torneio tá estranho.
Kang assentiu.
— Tá… ainda não vi ninguém que valha a pena.
Ele manteve o olhar na arena.
— Talvez a próxima mude isso.
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