Curta – Torneio
Parte 1: A Busca

ANO 1299
— Se ele vier hoje… a cidade não sobrevive.
As muralhas erguiam-se largas e sólidas, engolindo o fluxo constante de visitantes. Um guarda inclinou-se para o outro, olhos presos no horizonte montanhoso.
— Dizem que já cruzou o vale… — respondeu o outro, sem desviar o olhar. — Depois do que aconteceu em Sterling…
A voz seguinte veio mais baixa, quase sufocada pelo barulho da entrada:
— Melhor nem falar disso aqui… ainda mais hoje.
Runas percorriam o contorno do portão, pulsando em intervalos estáveis. A madeira reforçada trazia marcas profundas — nenhuma recente.
O peso das lanças contrastava com a música festiva.
Aeroplanos cruzavam o céu, velas tensionadas pelo vento, projetando véus luminosos do torneio. Músicos tocavam junto à entrada; acordes se misturavam aos pregões e às gargalhadas.
Dentro da cidade, barracas coloridas ocupavam as ruas largas. Vapores doces subiam das panelas abertas. Pequenas magias ornamentais pulsavam nos arcos de tecido suspenso.
A multidão avançava sem hesitar, o chamado da arena abafando qualquer ameaça distante.
Dois viajantes seguiram com o fluxo, no mesmo ritmo da massa.
Nenhum dos dois olhava para os cartazes.
O rugido da arena chegou antes dela.
Um feixe de luz subiu entre arquibancadas lotadas, marcando o início das lutas. A pressão da multidão os empurrou até a entrada do setor do torneio.
Avançaram.
A dupla atravessou os corredores desviando de vendedores e grupos com a naturalidade de quem já fizera aquilo muitas vezes.
O de cabelos dourados ergueu o queixo para o céu aberto da arena. A respiração saiu longa, quase satisfeita, enquanto puxava o sobretudo para trás.
— Olha essa vista, Kang. Dá até pra fingir que tá tudo normal.
O de cabelos azuis soltou um sorriso curto.
— Relaxar… Já fazem anos demais pra eu lembrar quando foi a última vez.
O olhar percorreu o entorno — plateia, estrutura, saídas, ritmo — sem se fixar em nada.
— Cento e vinte anos, certo?
— E você ainda insiste em contar.
Kang riu de leve.
— Incrível, Meo. Como você consegue lembrar de tudo?
— Sou o líder. Alguém precisa lembrar.
Subiram alguns degraus, passando por um trio de jovens discutindo em voz alta; depois, por um competidor ajustando proteções leves. Mais adiante, uma garota puxava nervosamente as tiras do uniforme, sem perceber quem passava ao lado.
O loiro observava cada um de soslaio, sem pressa.
— Esse cenário pode mudar — comentou Kang, ajustando os cabelos azuis metálicos e revelando a orelha pontuda. Baixou a voz. — Se o nosso informante tiver razão.
— Se um deles for mesmo o nosso escolhido… — respondeu Meo, cruzando os braços — a gente aproveita a oportunidade.
— E quem seria esse candidato?
Meo balançou a cabeça.
— Não deu nome — disse ele depois de uma pausa.
— Eu gosto desse tipo de torneio… — disse Kang, olhando a arena. — Às vezes o barulho me descansa mais que calmaria.
Encontraram um espaço livre nas arquibancadas. O loiro afastou um manto deixado por alguém; o de cabelos azuis limpou o banco com a mão. Sentaram-se entre o povo.
— Silêncio já me basta… quando eu tô selando portais.
Crianças passaram correndo pelos degraus.
Um vendedor cruzou o corredor com bandejas fumegantes.
A vibração da arena crescia.
A dupla se dissolveu na excitação geral — olhos fixos no centro.
O palco das lutas erguia-se como um quadrado amplo de pedra polida.
Kang inclinou levemente a cabeça.
— Sem runa nenhuma…
Elevado pouco mais de meio metro, refletia a luz das torres suspensas — simples por fora, brutal por dentro.
O público reagiu quando os aeroplanos começaram a se alinhar acima do estádio. As velas os mantinham suspensos enquanto véus brancos se abriam, projetando imagens nítidas da plataforma sobre a multidão.
Kang cruzou os braços.
— Com essa produção toda… ninguém vai reclamar do resultado.
Meo cruzou as pernas.
— Melhor assim. Quanto mais direto, menos margem. A regra continua a mesma, não?
Kang assentiu.
— Um toque.
— Só isso — completou Meo.
— Quem for tocado primeiro… perde tudo.
Um sorriso curto.
— Simples… mas nunca fácil.
Inclinou a cabeça, observando o campo.
— O povo acha que é velocidade.
— Mas não é.
— Leitura… intenção… antecipação.
Um pulso metálico percorreu a arena.
As vozes amplificadas anunciaram o início da apresentação, e as projeções se expandiram em um clarão suave.
A torcida explodiu.
Os dezesseis competidores surgiram em sequência rápida — silhuetas, cores, posturas. Rostos que apareciam e desapareciam antes de serem plenamente fixados.
Meo apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Bom… nenhum deles é descartável.
Kang manteve os braços cruzados.
— O informante estava certo.
Nem piscou ao dizer:
— O escolhido está aqui.
O estrondo do gongo cortou o ar.
Meo inspirou devagar.
— Se o Xander resolvesse aparecer hoje… estragaria tudo.
Kang soltou um suspiro baixo.
— Esse torneio não era pra acontecer agora. Anteciparam por causa dele.
Meo soltou um riso curto.
— Juntar tanta gente assim, com um ataque iminente… você acha mesmo que eles arriscariam?
Kang deu de ombros.
— Perspectiva. A cidade tá cheia de aventureiros. Se os druidas vierem… vão ter quem segure.
Uma rajada de vento agitou as bandeiras no topo das torres.
— Mas Sterling fica longe. Dias de viagem.
Meo se levantou devagar, o olhar fixo na direção do ruído distante.
— Podem pegar um atalho… — murmurou. — E se vierem… e a gente não tiver encontrado…
Ele suspirou.
— Eu interfiro.
Kang soltou um riso curto.
— Xander contra você… isso nem é luta.
— Também não exagera — disse Meo, sem negar.
Sentou-se novamente, ajeitando o casaco.
— Mas, pelo bem deles… é melhor não atrapalharem nossa seleção.
O gongo ecoou outra vez.
Kang endireitou a postura.
— Vai começar.
O barulho das arquibancadas cedeu de uma vez.
Conversas morreram no meio.
As luzes dos aeroplanos se estreitaram, fechando no centro da plataforma.
A multidão vibrava — presa.
— À esquerda, de Sam Brehim... Procyonju!
Um homem magro, cabelo loiro arrepiado. A parte inferior do rosto coberta por um pano vermelho. Um grimório pesado preso ao corpo. Roupas de cortes rígidos, simétricos.
— À direita… Aurgel. O meio-gigante!
Um sujeito enorme — quase o dobro da largura. Pele acinzentada. Traços duros como pedra talhada.
A voz ecoou pelas projeções. O público respondeu com gritos — mais pelo espetáculo do que pelos nomes.
Meo apoiou o braço no encosto.
— Olha só o sambrehiano… o que você acha que ele usa?
Kang não desviava os olhos.
— Calmo demais. Como quem já decidiu.
Aurgel não avançou.
Nem o público.
Corpos inclinados.
Olhos presos na arena.
Ele apontou para o mascarado.
— Então é esse aí… o grande representante de Sam Brehim.
Alguns riram. Outros trocaram olhares.
— Vocês não deixam ninguém entrar no seu reino… mas saem pra “iluminar” os outros. Que exemplo.
O mascarado não reagiu.
Aurgel deu um passo à frente.
— Eu conheço esse olhar. Como se o seu povo fosse melhor que o meu.
— Se eu fosse você — respondeu o mascarado, pela primeira vez — me concentraria na luta.
Ele abriu o seu livro.
— Ela já começou.
Girou.
Páginas voltadas para o chão.
Teias pálidas começaram a se espalhar — finas, rastejando sobre a pedra.
Meo inclinou levemente a cabeça.
— Magia de baixo nível… não combina.
Aurgel riu.
— Vai tentar me prender com isso?
Saltou com um único impulso.
A sombra dele cresceu sobre a arena.
— Igual fazem com todo mundo de fora?
As teias avançavam, suas pontas como agulhas.
— Vamos ver isso, sambrehiano… racista. Ou vocês só funcionam quando ninguém encosta em vocês?
O ar vibrou. A temperatura despencou.
Uma explosão de gelo engoliu a arena — branca, densa, esmagando tudo no caminho.
Kang estreitou os olhos.
— Isso foi pesado.
— E desnecessário — disse Meo.
Aurgel ainda no alto.
Duas auras vermelhas se acenderam ao redor dele, comprimidas.
— Velocidade — murmurou Meo. — Está encantando o corpo.
A névoa baixou.
As pernas de Procyonju estavam presas no gelo. Imóveis.
Kang observou.
— Mesmo conjurando algum tipo de escudo mágico… ele não tem mais mobilidade.
Aurgel avançou.
— E agora? O que achou das amarras?
O mascarado respirou fundo.
— Que amarras? Você tá lutando sozinho.
Um murmúrio percorreu as arquibancadas.
Aurgel sorriu.
— Justiça poética!
O braço dele se cobriu de gelo — sólido, afiado.
— A revolta dos mundos que vocês rejeitam!
Meo falou baixo:
— Não faz isso…
Kang soltou pelo nariz:
— Acabou.
Aurgel ergueu o braço.
— Toque final!
Um estalo seco — o gelo virou água. O pé deslizou, o corpo perdeu o eixo e caiu aberto.
Procyonju não se moveu. Esperou.
O erro veio — e então tocou.
O gongo vibrou.
— Vitória do primeiro competidor!
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