Mininovel – A Cordilheira de Âmbar

Parte 3: Onde a Luz Tocou

ANO 1371

 

As velas de propulsão do Marauder IV se abriram completamente, e o brilho rosado atravessou a névoa pela primeira vez.

A montanha começou a vibrar sob as botas dele.

Pequenas pedras deslizaram encosta abaixo.

Os trilhos enferrujados tremeram no meio da neblina.

As criaturas recuaram primeiro.

Os mortos-vivos também.

Por um instante, até o vento pareceu desaparecer da cordilheira.

Então uma coluna rosada atravessou as nuvens acima da esquadra.

O impacto do ar pressionou o peito dele com força suficiente para fazê-lo recuar meio passo. As flores negras espalhadas pelas costas das criaturas se fecharam completamente enquanto os mortos-vivos cambaleavam entre os trilhos antigos.

— Disparo confirmado — disse uma voz distante do outro lado da transmissão.

As montanhas estremeceram quando a camada eterna explodiu acima da cordilheira numa espiral gigantesca. Vapor cinzento atravessou os picos negros enquanto a abertura crescia lentamente sobre as montanhas.

Então a luz atravessou a névoa.

O braço de Ian subiu diante do rosto.

Os primeiros raios tocaram o âmbar espalhado pelas pedras.

O dourado brilhou imediatamente.

As linhas luminosas que atravessavam trilhos, cavernas e estalactites começaram a pulsar ao mesmo tempo, como veias reacendendo dentro da montanha.

— Ian... o que está acontecendo aí?

O braço abaixou devagar.

Uma das criaturas ergueu lentamente o pescoço na direção da abertura no céu. As flores negras espalhadas pelas costas começaram a se abrir pouco a pouco enquanto a luz atravessava as fibras vegetais do corpo magro.

Outra fez o mesmo.

Depois outra.

As criaturas já não cambaleavam entre as pedras.

Uma delas disparou de repente contra um morto-vivo perto dos trilhos.

Rápida demais.

As garras atravessaram o tórax do cadáver enquanto os dentes arrancavam parte da coluna numa única mordida. Flores negras estremeceram nas costas da criatura, e pequenos botões começaram a surgir entre as pétalas abertas.

Ele acompanhou a cena sem desviar os olhos.

— Eu falei.

Do outro lado da transmissão, nenhum som veio por alguns segundos.

Apenas estalos.

Centenas deles.

O rosto virou na direção das paredes da cordilheira enquanto os casulos começavam a se romper entre as estalactites. O âmbar escorria em fios grossos pelas pedras enquanto criaturas surgiam uma após a outra do líquido dourado.

Algumas deslizavam lentamente para fora das cápsulas.

Outras despencavam direto das paredes e já aterrissavam correndo.

As garras atravessavam pedra.

Metal.

Osso.

Passavam ao redor dele sem sequer olhar em sua direção.

Saltavam pelos trilhos.

Desciam pelas encostas.

Só os mortos-vivos pareciam existir para elas.

— Capitã! — gritou um oficial do outro lado da transmissão. — O que faremos com os outros disparos?

Outra voz surgiu logo depois:

— O Adhuna ainda não saiu da cordilheira!

Mais criaturas atravessavam a névoa agora. Corpos cobertos por musgo escuro, raízes finas atravessando placas ósseas e flores abertas espalhadas pelas costas arqueadas desciam pelas montanhas em velocidade cada vez maior.

Os mortos-vivos começaram a recuar entre os trilhos.

As criaturas avançaram imediatamente sobre eles.

Sem hesitação.

Sem desviar.

Ele deu meio passo para o lado quando duas delas passaram correndo ao mesmo tempo. Um cadáver surgiu logo atrás entre a névoa, mas uma das criaturas saltou primeiro e derrubou o morto-vivo precipício abaixo.

— Elas estão ignorando você...

Ian se abaixou perto das pedras e recolheu o que sobrou do construto destruído. Os dedos fecharam devagar sobre uma das placas metálicas tortas enquanto outra onda de criaturas atravessava a encosta logo atrás.

Mais acima, novos casulos começavam a surgir entre as estalactites iluminadas pelo sol. Lágrimas espessas de âmbar pingavam das flores abertas enquanto raízes atravessavam rachaduras nas pedras e se espalhavam pelos trilhos enferrujados.

Um dos portais inferiores oscilou.

A luz azulada falhou por um instante.

Depois outro.

Então o rasgo inteiro desabou sobre si mesmo.

Faíscas azuladas atravessaram a névoa enquanto vozes começavam a se sobrepor na cabine do Marauder IV.

— Capitã! Os portais estão colapsando!

A névoa continuava se desfazendo lentamente sobre a cordilheira enquanto a luz atravessava os picos negros pela primeira vez em séculos. Trilhos antigos brilhavam entre raízes recém-despertas, e o âmbar escorria pelas cavernas em fios dourados refletindo o sol da manhã.

Os mortos-vivos restantes já não avançavam mais.

As criaturas os perseguiam montanha abaixo em silêncio absoluto.

Muito acima da cordilheira, os encouraçados permaneciam imóveis entre as nuvens abertas pelo disparo. Dentro da cabine do Marauder IV, relatórios surgiam sem parar sobre a mesa central enquanto oficiais cruzavam o aposento carregando mapas e instrumentos mágicos ainda vibrando.

— Capitã! Os números de mortos-vivos continuam caindo!

— Mais três portais colapsaram no setor oeste!

— As criaturas não demonstram comportamento hostil contra o Adhuna!

Lane permaneceu diante da janela.

Lá embaixo, dezenas das criaturas atravessavam as encostas iluminadas enquanto flores negras se abriam completamente sob a luz do sol. Algumas escalavam paredões inteiros carregando restos necróticos para dentro das cavernas. Outras permaneciam imóveis sobre as rochas, absorvendo luz como animais exaustos depois de uma longa fome.

Os dedos bateram uma vez contra o braço metálico.

— Abram mais espaço nessas nuvens.

Os oficiais viraram imediatamente.

— Capitã?

— Quero luz entrando nessa cordilheira inteira.

As runas rosadas começaram a acender outra vez sob os outros encouraçados.

— Disparos controlados. Só dispersão climática.

Ela pegou o casaco escuro sobre a cadeira.

— O Marauder IV vai descer.

Um dos oficiais ergueu os olhos rapidamente.

— Capitã... a senhora mesma vai?

O casaco deslizou pelos ombros enquanto ela ajustava a gola com uma das mãos.

— Vou buscar o especialista antes que ele resolva denunciar nosso comportamento pros contratantes.

***

Ian estava sentado sobre um trilho enferrujado quando o aeroplano surgiu. As velas negras pulsavam devagar contra o céu iluminado enquanto novos clarões rasgavam a cobertura cinzenta acima da cordilheira. Cada abertura deixava mais luz atravessar as montanhas.

Ao redor dele, algumas criaturas ainda se alimentavam dos restos dos mortos-vivos. Uma permanecia deitada perto de uma pedra aquecida pelo sol, mastigando lentamente fibras necróticas enquanto âmbar escorria das flores abertas nas costas estreitas.

Passos ecoaram pela encosta.

— Então era isso.

O rosto virou.

Lane caminhava na direção dele enquanto o vento agitava parte do cabelo grisalho preso perto da nuca. O braço mecânico refletia a luz dourada espalhada pelas cavernas, e o sobretudo escuro balançava devagar contra as pedras molhadas.

Um pequeno sorriso cansado apareceu.

— Resolveu vir pessoalmente.

— Meu investimento foi grande demais pra avaliação remota.

Ela parou diante dele.

Os olhos percorreram rapidamente o sangue seco espalhado pelo casaco rasgado, os cortes nos braços e os restos metálicos presos ao cinto.

— Seu cachorro metálico?

O olhar caiu por um instante sobre as peças destruídas.

— Acho que ele merece um conserto respeitável. Lá nos Quangras. Tem algum artífice bom pra me indicar?

Quase uma risada escapou dela dessa vez.

Acima da cordilheira, os encouraçados continuavam abrindo clareiras no céu.

— O que eu ainda não entendo... é como os druidas deixaram isso acontecer.

Os olhos dela deslizaram até as cavernas abaixo.

Criaturas atravessavam os trilhos carregando matéria necrótica para dentro da montanha enquanto novos casulos de âmbar surgiam entre as estalactites iluminadas.

— Porque são druidas. — O tom veio seco. — Nunca ligaram pra equilíbrio. Gostam é de manter as mãos na barbárie enquanto destroem o que é dos outros.

O olhar dele acompanhou uma das criaturas desaparecer entre as pedras.

— Então acha que eles sabiam?

— Acho que criaram essas nuvens de propósito.

— Como barreira natural?

— Ou como faca guardada na manga esperando a hora certa.

O vento atravessou a encosta outra vez.

Então os olhos dele desceram até o braço metálico.

— E isso?

Uma sobrancelha arqueou.

— Isso o quê?

O gesto veio discreto na direção do braço mecânico.

— Foi algum acidente?

Ela encarou o próprio braço por alguns segundos.

— Tradição Quangra. Impulso da juventude.

A cabeça inclinou levemente.

Um sorriso torto apareceu no canto da boca dela.

— Na época parecia uma ideia extremamente heroica.

— E era?

— Não. Só estúpida mesmo.

Uma risada baixa escapou dele.

Os dedos metálicos deslizaram devagar sobre o próprio braço.

— Acho que combina menos comigo agora do que combinava antes.

— Concordo.

Os olhos dela subiram devagar.

Dessa vez ele sustentou o olhar.

O vento atravessou o espaço entre os dois enquanto as velas do Marauder IV pulsavam ao fundo e outro disparo abria espaço nas nuvens acima da cordilheira.

Ela desviou primeiro.

— Você realmente não percebe quando faz esse tipo de coisa?

A testa dele franziu.

— Que tipo de coisa?

O ar saiu devagar pelo nariz.

— Esquece.

Mais acima, outro feixe atravessou as nuvens, e uma nova faixa de luz dourada desceu sobre as cavernas mais profundas da montanha.

O brilho alcançou os trilhos antigos.

— Bonito.

Ela acompanhou a luz por alguns segundos.

— Não vou discordar dessa vez.

Então virou de costas.

— Vamos subir. Você tá acabado.

Ele se levantou devagar.

— Isso foi preocupação?

— Não. Foi senso comum.

— Claro.

Os dois começaram a caminhar encosta acima enquanto o Marauder IV aguardava próximo ao penhasco. Atrás deles, sementes de âmbar brilhavam sob a luz recém-chegada, e pequenas formas adormecidas respiravam lentamente dentro dos casulos dourados enquanto raízes novas atravessavam pedra e metal pela cordilheira inteira.

Ela começou a subir sem olhar para trás.

— Depois disso tudo, eu realmente preciso colocar alguma coisa quente pra dentro antes de conseguir dormir.

Ele acompanhou o passo dela devagar.

— Acho que eu também.

Uma sobrancelha ergueu levemente.

Então uma risada curta escapou pelo nariz antes dela voltar a subir a montanha.

O Marauder IV começou a ascender lentamente acima da cordilheira enquanto novas faixas de luz atravessavam as nuvens destruídas.

Muito abaixo deles, o âmbar continuava brilhando entre as cavernas abertas da montanha.

 

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