Mininovel – A Cordilheira de Âmbar

Parte 2: Atirem nas Nuvens

ANO 1371

 

A mão se ergueu na direção da luz.

O brilho atravessou os dedos.

Dentro das cápsulas translúcidas, pequenas criaturas permaneciam enroladas sobre si mesmas: pescoços longos, corpos estreitos cobertos por algo parecido com musgo escuro.

Uma delas se moveu lentamente dentro do âmbar.

A respiração embaçou a parede interna da cápsula.

— Vida.

Pequenas formas se moviam sob o âmbar translúcido, pescoços dobrados sobre corpos estreitos cobertos por fibras vegetais escuras.

A voz de Lane atravessou a esfera, mais baixa dessa vez:

— Você disse... vida?

O rosto se aproximou de uma das cápsulas.

— Não são mortos-vivos. Olha isso.

Os dedos tocaram a superfície dourada.

A criatura do outro lado reagiu devagar.

Não havia olhos propriamente ditos. Apenas fendas opacas acima da cabeça estreita.

— Ossos verdadeiros... tecido vegetal... Parece uma criatura moldada pela própria necrose.

— Parece até com você.

Uma risada curta escapou.

— Até que, pra você, isso foi bem abusado.

As cápsulas se espalhavam pelo teto inteiro da caverna. Algumas rachadas. Outras vazias. O âmbar escorria pelas pedras em fios grossos e luminosos.

Ela demorou um instante antes de responder:

— O senhor tem noção do que acabou de falar?

— O quê?

— “Abusada”.

— Achei apropriado. Você começou.

— E eu achei inadequado.

Um sorriso distraído surgiu no canto da boca dele.

— Então estamos quites.

— Não estamos. Só vou fingir que não ouvi.

Alguma coisa se moveu entre as sombras.

A esfera subiu instintivamente.

Uma criatura magra surgiu sobre um paredão inclinado de pedra.

O corpo lembrava um pequeno herbívoro de pescoço longo, mas as patas terminavam em garras curvas capazes de se prender na rocha escura. Flores negras fechadas cresciam ao longo das costas estreitas.

Ela caminhava sem produzir som.

Nem pedra.

Nem metal.

Nem respiração.

Do outro lado da transmissão, Lane também calou.

A criatura parou junto a um cadáver apodrecido encostado perto dos trilhos antigos.

O pescoço estreito desceu lentamente até a carne podre.

Então mordeu.

Costelas se partiram entre os dentes.

Um passo escapou involuntariamente na direção dela.

Nas costas da criatura, pequenos botões escuros começaram a surgir entre as flores fechadas.

— Capitã... você está vendo isso?

— Estou.

As flores se abriram devagar.

Lágrimas espessas de âmbar escorreram do centro delas, pingando sobre a pedra abaixo. Dentro do líquido dourado, pequenas formas embrionárias começavam a surgir.

A esfera subiu um pouco mais, quase aproximando Lane da cena.

— Elas transformam morte em vida outra vez.

A criatura ergueu a cabeça de repente.

As fendas atrofiadas pareceram farejar a escuridão.

Então fugiu.

Escalou a parede numa velocidade absurda, desaparecendo entre as estalactites enquanto as garras atravessavam pedra e metal enferrujado sem desacelerar.

Uma risada curta escapou.

Quase incrédula.

— Isso era pra ser impossível...

— Você ainda não percebeu? — Ian interrompeu. — Essas coisas são o único motivo de Jillar não estar afogada em mortos-vivos.

O olhar permaneceu preso no teto da caverna.

Centenas de cápsulas douradas pulsavam acima deles.

— Precisamos preservar esse lugar.

— Claro que não. — O corte veio imediato. — Olha o estado delas. Estão morrendo. Quando a última cair, esse surto explode de vez. O jeito mais seguro é apagar tudo agora.

— Ainda não sabemos disso.

— Eu sei o bastante.

A resposta saiu rápida, aguda demais.

O silêncio durou um instante.

— Na verdade... ninguém sabe nada ainda.

A transmissão ficou muda por alguns segundos.

Depois:

— Ian.

— Sim?

— Já escureceu.

Os olhos subiram.

A luz azulada dos portais inferiores dominava completamente as cavernas agora.

As mãos sujas de âmbar deslizaram pelo casaco.

— Só preciso confirmar mais algumas coisas.

— Você tem até o amanhecer.

O sorriso voltou enquanto ele retomava a caminhada.

— Eu sei. Mas acho que já estou perto de terminar.

Ela soltou o ar devagar do outro lado da transmissão.

— Faça o que quiser. Só me avise antes de morrer.

A conexão se encerrou.

Muito acima das cavernas, o Marauder IV atravessava lentamente abaixo das nuvens escuras enquanto o restante da esquadra mantinha formação ao redor da cordilheira.

O silêncio da cabine pareceu maior imediatamente.

Lane permaneceu imóvel atrás da mesa por alguns segundos.

Então o braço metálico bateu contra a madeira.

Um golpe seco.

— Esse garoto...

Ela atravessou o aposento até o compartimento lateral.

A porta metálica fechou atrás dela.

O casaco escuro caiu primeiro sobre a cadeira.

Depois as luvas.

O braço mecânico repousou sobre a bancada ao lado da banheira enquanto o vapor começava a subir pela água quente.

— Uma noite de sono resolve isso.

Afundou devagar na água.

A cabeça repousou contra a borda metálica da banheira enquanto os olhos permaneciam fechados.

O silêncio era absoluto.

A água ondulava lentamente ao redor do corpo dela enquanto o vapor cobria metade do aposento.

— “Abusada”... — murmurou baixo. — Insolente do inferno.

Ela soltou o ar pelo nariz.

Os dedos passaram pela testa.

Depois pelo pescoço.

A respiração desacelerou aos poucos.

O vapor continuou subindo.

Então a esfera de comunicação acendeu sobre a bancada.

— Capitã...? — a voz atravessou o aposento.

Os olhos se abriram imediatamente.

Ela olhou ao redor por um instante.

— Quanto tempo passou...?

Já não havia água visível na banheira.

Espuma escorria pelas bordas enquanto uma toalha era puxada às pressas.

A transmissão se abriu.

Ian apareceu coberto de poeira escura, sangue necrótico e manchas de âmbar espalhadas pelas mangas do casaco.

— Espero não ter interrompido nada importante.

Ela encarou a esfera em silêncio.

Uma gota escorreu do cabelo molhado até o pescoço.

— O senhor possui um talento impressionante pra escolher os piores momentos possíveis.

Ele piscou algumas vezes.

— ...Desculpe?

O olhar dela desviou primeiro.

— O que foi tão urgente?

A esfera virou na direção das cavernas.

Mais cápsulas douradas pulsavam presas às paredes. Entre elas, dezenas das criaturas se moviam lentamente na escuridão, magras, silenciosas e exaustas.

Um sorriso surgiu outra vez no rosto dele.

— Acho que descobri por que elas estão morrendo.

Ela analisou a cena por alguns segundos.

Depois ergueu os olhos para além da transmissão, em direção às nuvens claras do lado de fora da cabine.

— Tarde demais.

Os dedos dela apertaram a toalha úmida por um instante.

— O amanhecer chegou.

A névoa avançava entre as pedras da cordilheira enquanto mortos-vivos atravessavam os trilhos abandonados em número cada vez maior. Alguns surgiam dos portais inferiores ainda cobertos por gelo negro. Outros escalavam as encostas como insetos deformados.

Os disparos dos Paus de Fogo Primo iluminavam a montanha em flashes violentos.

O estampido arrancou metade do rosto de um cadáver antes dele alcançar Ian.

Outro surgiu logo atrás.

— Seu tempo acabou. Suba imediatamente. — a voz de Lane atravessou a esfera.

Outro disparo.

O segundo morto-vivo despencou encosta abaixo, mas mais vultos continuavam surgindo entre a névoa.

As criaturas de pescoço longo atravessaram as pedras antes que outro bastão alcançasse a mão dele.

Silenciosas.

As garras rasgaram carne podre e ossos enferrujados ao mesmo tempo.

Uma delas afundou os dentes no tórax de um morto-vivo ainda se debatendo. Flores negras estremeceram nas costas magras da criatura enquanto pequenos botões começavam a surgir entre as fibras vegetais.

A mão mergulhou na caixa metálica presa ao cinto.

Um bastão.

Vazio.

Outro.

Também vazio.

— Droga...

O construto avançou contra um cadáver gigantesco que surgia dos trilhos inferiores. As mandíbulas metálicas prenderam o braço da criatura por um instante.

Só um.

O morto-vivo esmagou o torso do construto contra as pedras.

Metal se espalhou pela encosta.

O corpo congelou.

— Não...

A esfera voltou a acender perto dele.

— Ian. — Dessa vez a voz veio rápida demais. — Sobe. Agora.

Ele correu até os restos espalhados do construto enquanto outra criatura saltava sobre um morto-vivo próximo. As garras atravessaram a cabeça necrótica, mas o animal quase não conseguia permanecer de pé depois do ataque.

Os joelhos tocaram a pedra.

Os dedos apertaram as placas metálicas destruídas.

Então a esfera foi erguida outra vez.

— Eu não posso. Você precisa me ouvir. Eu já sei a solução.

Entre a cordilheira e as nuvens, os encouraçados começavam a assumir formação de disparo. As velas de propulsão giravam lentamente enquanto runas rosadas se acendiam ao longo dos cascos.

O céu inteiro parecia pulsar.

— As armas serão disparadas a qualquer momento.

Uma criatura magra caiu perto dele depois de ser atingida por um morto-vivo enorme. As flores negras nas costas dela estavam quase fechadas por completo.

Ela tentou levantar.

Falhou.

— Você já confirmou o suficiente. Suba. Não existe mais nada que possa ser feito.

— Existe.

O olhar subiu devagar para a camada colossal de nuvens acima da cordilheira.

Outro morto-vivo surgiu entre as pedras.

As criaturas avançaram imediatamente sobre ele.

— Que mulher teimosa...

Os dedos apertaram a esfera com força.

— Eles precisam de luz.

— Não começa.

— Lane, escuta.

— Não. Você vai subir imediatamente.

Um clarão rosado atravessou as nuvens acima. Os encouraçados estavam carregando.

Ele ficou de pé.

— Eles não estão morrendo por causa da necrose.

Outro cadáver atravessou a névoa correndo. Uma das criaturas tentou interceptar a investida, mas foi arrastada pelas pedras.

Ian avançou e cravou uma lâmina curta no pescoço do morto-vivo antes dele alcançar o animal.

— Olha pra elas. Estão famintas.

— E isso muda o quê? — o corte veio imediato. — Quer que eu jogue comida daqui de cima pra eles?

— Mas Lane...

— Isso só prova exatamente o que eu disse desde o começo. Esse lugar já passou do ponto de salvação.

O olhar dele subiu outra vez para o céu coberto.

Depois para as flores fechadas nas costas das criaturas.

Depois para o âmbar espalhado pelas pedras.

A montanha inteira vibrou.

Uma voz surgiu abafada do outro lado da transmissão:

— Capitã Lane. Todos os encouraçados estão prontos para disparo.

Os olhos se fecharam por um instante.

— Não atira.

— Tarde demais.

— Atira nas nuvens.

As runas rosadas vibraram dentro da esfera.

— ...O quê?

O rosto ergueu-se na direção do céu.

— Elas estão com falta de luz.

Vozes atravessaram a cabine do outro lado da transmissão. Madeira rangeu. Alguma coisa metálica foi arrastada depressa.

— Só temos um disparo. Você quer que eu arrisque a missão inteira por uma teoria inventada no meio de uma montanha infestada?

Nenhuma resposta veio de imediato.

Uma das criaturas passou mancando perto dele antes de atacar outro cadáver junto aos trilhos.

Flores fechadas.

Corpo esquelético.

Movimentos lentos.

Mesmo assim ela continuava lutando.

— Se você destruir isso agora... eu nunca vou te perdoar.

A respiração dela falhou por um instante.

— Você está errado, Ian.

A resposta demorou.

— Por favor. Volta.

— Não estou. Eu já disse: eles são vegetais. Precisam de sol.

Outro morto-vivo surgiu atrás dele.

Antes mesmo do corpo virar completamente, uma das criaturas saltou primeiro sobre o cadáver, derrubando ambos, precipício abaixo.

O comunicador ficou em silêncio.

Então ela explodiu:

— Você não entende a posição em que está me colocando!

A voz ecoou pela esfera.

Mais alta.

Pela primeira vez desde o início da expedição.

— Eu deveria transformar essa cordilheira inteira em cinzas antes que essas coisas atravessem as fronteiras de Jillar!

— Então faz isso.

Ela ficou muda por um segundo.

— ...O quê?

— Atira.

Outro clarão iluminou as nuvens.

Mais forte.

— Porque eu não vou subir.

A respiração falhou outra vez do outro lado.

— Seu garoto inconsequente...

A voz saiu diferente agora.

Menos rígida.

— Você aparece, age como se pudesse resolver tudo sozinho, fala desse jeito insolente... fica mexendo com... com...

A testa dele se franziu.

Um morto-vivo caiu perto das pedras com o peito atravessado pelas garras de uma das criaturas.

— E agora quer morrer junto com esse lugar maldito enquanto me obriga a assistir isso?

Ele piscou algumas vezes.

— Eu... não entendi essa parte.

Muito acima das nuvens, os encouraçados permaneciam alinhados com as armas carregadas.

Então ela falou outra vez.

Baixo.

Rápido demais:

— ...Esquece isso.

Passos atravessaram a cabine de comando. Madeira e metal vibravam. Vozes começaram a se sobrepor.

Uma respiração funda atravessou a transmissão.

Quando voltou a falar, a voz saiu fria outra vez.

Controlada à força.

— Marauder IV. Recalibrar trajetória do disparo.

Os oficiais hesitaram.

— Capitã...?

— Apenas um encouraçado.

As runas rosadas mudaram de posição no céu.

— Novo alvo.

Ele permaneceu imóvel entre os mortos-vivos e as criaturas famintas.

Então a voz dela atravessou a esfera pela última vez:

— Atirem nas nuvens.

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