Contos Avulsos

O Zelador do Mundo



ANO 978

 

 

— Ah, os chacais... — disse o homem de cabelos brancos, apontando para o mapa mágico que flutuava no centro da cabine. A projeção pulsava em tons esverdeados, mostrando um cargueiro solitário avançando entre as nuvens da cordilheira, com as velas de propulsão batendo em ritmo pesado. — Mesmo sendo tão espertos, nunca conseguem esconder a própria natureza.

Atrás dele, um rapaz de cabelos vermelhos metálicos, longos como a juba de um leão ensanguentado, acompanhava a projeção com um sorriso tranquilo.

— O chacal nunca enfrenta uma presa saudável — continuou o velho. — Ele ronda, observa e espera. Só ataca quando tem certeza de que a vítima já está condenada.

— Uma estratégia prudente para quem vive nas franjas do mundo, Capitão Alder.

— Prudente? — Alder bufou. — Covarde.

Virou-se para o rapaz.

— Você já conhecia essa história, Phong?

O jovem ajustou o escudo ao antebraço.

— Sim, capitão.

Alder caminhou até um painel coberto de luzes arcanas e apoiou as mãos na madeira.

— Eu tinha dez anos quando entrei para a Ordem e vi você pela primeira vez. Hoje sou capitão, meu cabelo embranqueceu, e você continua com a mesma cara e a mesma patente. Nunca pensou em aceitar uma promoção?

Phong aproximou-se.

— Ainda tenho outros deveres, meu amigo. Além disso, servir já é uma honra. Alguém precisa pavimentar a estrada por onde os grandes homens caminham.

Alder soltou um suspiro derrotado.

— Não dá para discutir com você.

Uma luz piscou no mapa.

O cargueiro perdia velocidade.

Acima dele, quase confundido com a névoa, um aeroplano menor circulava em silêncio. Era uma embarcação estreita, rápida, feita para caçar. Suas velas de manobra corrigiam a rota a cada instante, enquanto a pequena ponte de comando permanecia ocupada por um único piloto.

Uma bola de cristal iluminou-se diante dele.

O rosto cansado de Alder surgiu entre interferências.

— Socorro... aqui é o Capitão Alder, da Ordem dos Paladinos. Sofremos uma avaria grave no casco. Estamos transportando doze cristais de Etherdoorium e temo que nosso cargueiro não aguente até o próximo ancoradouro.

O piloto coçou o queixo.

— Um paladino pedindo ajuda ao Chacal...

A imagem continuava tremulando.

— Suspeito demais.

Ele apoiou os cotovelos na bancada.

— Mas paladinos não costumam mentir... e, se for verdade, é areia demais para o meu porãozinho.

Puxou um dado de osso do bolso.

— Vamos deixar o destino decidir. Um, dois ou três, eu ataco. Quatro, cinco ou seis, vou embora.

O dado rolou.

Seis.

O Chacal recolheu o cubo.

— Não valeu. O vento balançou a mesa.

Arremessou outra vez.

Três.

Um sorriso apareceu sob os óculos de proteção.

— É... Parece que o destino falou mais alto.

Puxou uma alavanca.

Pequenos dispositivos desprenderam-se do casco do aeroplano e espalharam-se pelo céu. Uma onda invisível percorreu a região, silenciando as comunicações arcanas.

Em seguida, o Chacal mergulhou.

Um feixe de energia rasgou uma das velas do cargueiro.

A enorme embarcação inclinou-se no ar.

— Agora sim...

O pirata alinhou a aproximação para a abordagem.

Então a rampa traseira do cargueiro se abriu.

Doze pequenos aeroplanos deslizaram para fora.

O sorriso do Chacal desapareceu.

— Doze cristais...

As pequenas embarcações aceleraram ao mesmo tempo.

— ...doze aeroplanos caçadores.

O Chacal girou o leme com força.

— O paladino velho me enganou sem precisar mentir... Essa foi boa. Essa foi muito boa.

As balistas dispararam.

Rastros de essência mágica cruzaram o céu.

O pequeno aeroplano mergulhou entre os paredões da cordilheira, desviando das primeiras explosões.

— Agora só preciso achar um buraco... e rápido!

Três impactos atingiram a popa.

O cristal rosado do aeroplano ficou exposto.

— Ai, caramba. E agora? E agora?

O aeroplano do Chacal perdeu sustentação e espatifou-se violentamente contra a encosta avermelhada da montanha, desfazendo-se em uma chuva de estilhaços de madeira e metal.

Algum tempo depois, o cargueiro pairava sobre o local do acidente enquanto os caçadores recolhiam os destroços espalhados pelo desfiladeiro.

Alder observou o resultado através de um monóculo coberto por círculos mágicos.

— O rastreador indica que o piloto sobreviveu. Entrou no sistema de cavernas logo abaixo.

Phong ajustou a bolsa às costas e tomou a lança.

— Deixa comigo. Preciso descer de qualquer forma, capitão. Há um selo antigo naquela região.

Alder guardou o monóculo.

— E o Chacal?

Phong sorriu.

— Se nossos caminhos coincidirem, aproveito para devolver a visita.

O jovem saltou do convés.

Um brilho translúcido amorteceu sua queda sobre a terra avermelhada.

Ele fincou a lança no chão, ajustou o escudo ao braço e caminhou em direção à entrada escura das cavernas.

— Tem sido cada vez mais difícil esconder isso deles — resmungou Phong. — Mas envolver a Ordem nesses selamentos... não. Alguns fardos não devem ser compartilhados.

O paladino adentrou a caverna. A claridade do lado de fora desapareceu poucos passos adiante. Um floreio de dedos bastou para que um pequeno globo de luz surgisse sobre seu ombro, afastando a escuridão das paredes de pedra.

Uma sombra disparou das trevas. Um braço desarmado avançou na direção da bolsa lateral do paladino.

Sem sequer olhar para trás, Phong estreitou os olhos. Ele manteve a lança erguida e o escudo baixo, ocultando uma adaga de lâmina curta presa junto à mão que segurava o escudo redondo.

Quando os dedos do invasor tocaram a fivela da bolsa, recolheu a lâmina sem sequer sacá-la.

O globo de luz avançou e iluminou o agressor.

— Mas que...! — o homem saltou para trás, cobrindo o rosto com o antebraço. — Fui tentar roubar logo um descendente dos féericos, e ainda por cima na penumbra!

— Desta vez eu só o ofusquei, Chacal — respondeu Phong, mantendo o escudo à frente do corpo. — Sugiro que vá embora. Coisas muito estranhas costumam acontecer durante a manutenção de um selo desses.

O pirata mergulhou atrás de uma coluna de pedra.

— Eu é que sugiro que vá embora, soldadinho paladino! — gritou de algum ponto da caverna. O som de passos rápidos denunciava que já procurava outro esconderijo. — E saia de bico calado, ou eu... eu...

A ameaça morreu numa tosse seca.

Phong sorriu.

— Não há como cumprir sua ameaça, meu amigo. Você é o piloto do aeroplano que caiu, não é? Vá e se entregue, antes que as coisas fiquem perigosas para você.

O Chacal apareceu parcialmente por trás de uma rocha, limpando a garganta e ajustando os óculos na testa.

— Praga de Ordem... mandaram logo um paladino atrás de mim.

Deu mais um passo para o lado.

— Um paladino de verdade?

— Até onde eu sei, sim — respondeu Phong.

— Ótimo. Então me responda. Vocês não conseguem mentir, certo?

— Certo.

— Excelente. Sua frota está vindo atrás de mim?

— Por enquanto não — respondeu Phong, fixando os olhos na silhueta do contrabandista. — O capitão Alder está ocupado recolhendo os destroços da sua nave. Eles ainda não vieram aqui por sorte.

O Chacal soltou um longo assobio.

— Interessante...

Encostou as costas na parede de pedra.

— Se não vieram atrás de um criminoso procurado, o que você faz aqui afinal? Não me diga que a Ordem agora resolveu mandar paladinos para inspecionar a segurança dos tetos das cavernas.

Phong virou as costas.

— Vim cumprir uma obrigação antiga.

— Que obrigação?

Phong virou apenas o rosto.

— Recomendo que não me acompanhe.

— Por quê?

— Porque estou indo fazer a manutenção de um selo.

— E o que está selado?

Phong parou diante da passagem mais escura da gruta.

O globo de luz vacilou por um instante.

— Alguém que jamais deveria sair de lá.

O Chacal olhou para a escuridão à frente.

Depois olhou para o caminho de volta.

Por fim, ajeitou os óculos na testa.

A estrutura de pedra negra erguia-se no fundo da galeria, cercada por inscrições geométricas que pulsavam em um brilho violeta intermitente.

Phong aproximou a mão da rocha e traçou uma nova linha dourada sobre as rachaduras antigas. Um sibilo agudo percorreu a caverna, arrancando um suspiro do paladino.

— Mais um ciclo de silêncio, verme da calamidade.

— Os carcereiros féericos voltaram... — ecoou a voz das profundezas. — Diga-me: por quanto tempo ainda suportará esse trabalho? Não percebe que nem os deuses resistem à erosão do tempo?

— É verdade. Mas parece que, desta vez, você chegou atrasado.

Phong sorriu com melancolia enquanto examinava a linha recém-traçada.

— Os deuses já se foram.

— E a Phuong? Faz tempo que ela não vem.

— Ela também se foi.

Uma risada metálica percorreu a caverna.

— Maxx deve estar arrasado. Como eu gostaria de ver o espírito dele quebrado.

— Pois é. Quem sabe da próxima vez.

— Todos os seus estão partindo, Phong.

— Sim.

— E você continua carregando um mundo que sequer sabe o seu nome.

Phong passou os dedos sobre uma pequena fissura.

— Está maior do que da última vez.

— Não mude de assunto.

— Não estou mudando.

Traçou outra linha dourada sobre a pedra.

— Estou fazendo o meu trabalho.

Um riso profundo percorreu as paredes da caverna.

— Gostava da Phuong. Você sempre foi o mais tedioso dos carcereiros.

Phong sorriu.

— Já você nunca aprende.

— Um dia vou sair daqui.

— Provavelmente.

— E então este mundo vai cair.

— Sim. Não teríamos chances contra você.

— Então por que continua?

Phong apoiou a mão sobre o selo.

— Porque hoje...

O brilho violeta vacilou.

— Pouco importa. Não é com você que desejo conversar.

Phong virou-se.

Atrás de uma pilastra, o Chacal caiu de joelhos, apertando a própria garganta enquanto veias negras se espalhavam por seu pescoço. Seus olhos tornaram-se completamente escuros.

— Pequeno ladrão...

Agora a voz saía da boca do pirata.

— Passe a eternidade fugindo, se desejar.

— Sai da minha cabeça! — gritou o Chacal, golpeando a própria testa.

— Dê-me apenas um instante do seu corpo.

— Não!

— Farei dos seus inimigos os meus. Voe comigo para céus nunca antes alcançados.

— Não! Eu só trabalho sozinho, coisa feia!

— Isso foi em tempos passados.

O corpo do Chacal disparou contra Phong.

O paladino ergueu o escudo redondo, mas o impacto o despedaçou em fragmentos de metal e o fez deslizar alguns metros para trás.

Levantou-se, suspirou e olhou para o escudo destruído.

— Isso vai atrasar bastante o serviço.

O Chacal arregalou os olhos negros.

— Paladino! Ajuda!

Phong aproximou-se e pousou a mão brilhante sobre a testa do pirata.

— Solte-o, Xal'Koth.

— Ele é só um ladrão.

— É.

— Um mentiroso.

— Bastante.

— Um trapaceiro.

— Também.

O Chacal fez uma careta.

— Valeu pela defesa.

Phong quase sorriu.

— Mas ainda é dono do próprio corpo.

A luz aumentou.

Xal'Koth rugiu.

— Você protege qualquer miserável que cruza o seu caminho!

— Não.

Phong fechou os olhos por um instante.

— Apenas aqueles que ainda decidem escolher.

A fumaça negra explodiu para fora do corpo do Chacal e tomou forma no ar, transformando-se em uma massa de sombras e dentes impossíveis.

— Está vendo? Eu disse que um dia ia sair.

Phong deixou os restos da armadura comum racharem e caírem ao chão. Sob o metal destruído, uma luz verde-celestial envolveu suas mãos, materializando uma naginata luminosa e um grande escudo coberto por runas.

Xal'Koth hesitou.

— Ainda guarda essas armas...

Phong girou a naginata uma única vez.

— Você tem tempo demais para pensar bobagens. Não posso baixar a guarda.

— Um dia elas não bastarão. Um dia eu vencerei. Um dia você falhará!

Phong assentiu.

— Sem dúvida.

O ser cósmico gargalhou.

— Então por que continua?

Phong deu um passo à frente.

— Porque hoje ainda não é esse dia.

A naginata descreveu um arco luminoso.

Xal'Koth dividiu-se ao meio, e as sombras foram sugadas de volta para o selo. As rachaduras fecharam-se, o brilho violeta apagou-se, e pedras despencaram do teto até que o silêncio voltasse à caverna.

O Chacal tossiu algumas vezes e olhou para Phong. A armadura desaparecera, e as feridas do paladino fechavam-se lentamente.

— Salvou minha vida.

Phong apenas assentiu.

— E agora?

O Chacal ajeitou os óculos tortos.

— Vai me entregar? Paladinos não podem mentir. Diga logo a verdade, rapaz de recados.

Phong fitou o contrabandista por longos segundos antes de se afastar da parede de pedra onde se apoiava.

— Não creio que seja necessário. Você perdeu o seu aeroplano, sua operação acabou no desfiladeiro e vai levar muitos anos para reconstruir o que perdeu. Acho que o mundo já recebeu alguma reparação pelos seus crimes.

O Chacal soltou uma risada fraca, interrompida por um gemido nas costelas.

— Resposta honesta pra caramba. Adoro as regras de vocês.

Usou a parede da caverna para se levantar enquanto Phong caminhava em direção à saída.

— Quando voltar ao convés, direi a verdade ao Capitão Alder.

O Chacal ergueu uma sobrancelha.

— Que verdade?

— Direi que o velho Chacal morreu no desastre da cordilheira e que os caçadores fizeram um bom trabalho. Assim, deixarão o novo homem em paz.

— Ei, descendente dos féericos!

Phong olhou sobre o ombro.

— E se eu tivesse aceitado a proposta daquela coisa?

O sorriso cordial voltou ao rosto do paladino enquanto ajustava a bolsa no ombro.

— Ah... aí eu teria que matar você.

O Chacal engoliu em seco.

Phong fez uma pequena reverência com a cabeça e saiu da caverna.

O contrabandista esperou alguns segundos, olhando para o selo restaurado, depois para a saída iluminada e, por fim, para os próprios pés. Ajeitou os óculos quebrados e soltou um longo suspiro.

— Certo...

Olhou uma última vez para a passagem por onde o paladino havia desaparecido.

— Acho que está na hora de arrumar um trabalho mais honesto... e bem menos perigoso.

 

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