Crônicas das Terras dos Portais Brasileira

Autor(a): Richard P.S


Contos Avulsos

O Fantasma do Seu Clóvis

ANO 1380

 

— Já colocaram até calçamento? Só faltava essa — resmungou o homem para a mulher ao lado.

As rodas da carruagem batiam contra o calçamento novo. Acima delas, uma muralha de ferro cortava o céu. No topo, um letreiro de latão anunciava:

"SE NÃO NASCEU NO NOSSO CHÃO, NÃO PISA NO NOSSO GRAMADO."

— Devem ter recebido dinheiro de Jillar.

Ele manteve o queixo erguido, encarando a linha metálica que dividia o céu através do vidro da janela.

— Querido, você dá muita importância para essas coisas — disse a mulher ao lado, acomodando uma cesta de vime sobre o colo. — Coma um sanduíche.

— Não quero nenhum sanduíche — resmungou. — Como pode? Depois de tudo o que Sam Brehim fez, essas... capivaras decidem seguir como Jillar.

— E mesmo assim você escolheu passar as férias aqui.

— Negócios.

— Que negócios?

— Estou verificando se os boatos sobre a decadência deles são verdadeiros.

— Mas será que você não consegue ficar um momento sem pensar em trabalho? — suspirou a mulher.

A sombra de um aeroplano cruzou a janela da carruagem. O garoto colou o rosto na janela.

— Pai, por que a gente tem uma Grande Muralha se os aeroplanos passam por cima dela?

O homem endireitou a postura.

— Ela existe para impedir que criaturas de outros mundos entrem no reino. Sem a muralha, nossa cultura seria engolida por invasores.

A mulher soltou um longo suspiro e estendeu um pedaço de bolo de fubá para o garoto.

— Esqueça o trabalho, querido — disse ela, limpando uma migalha de bolo do canto da boca do filho com a ponta do polegar. — A sua função como carimbador de relatórios não vai fugir do subsolo do palácio até o mês que vem.

Ele afrouxou a gola do paletó.

— Um bom servo do reino nunca descansa os olhos do perigo, querida — rebateu o homem, abrindo um mapa rodoviário sobre os joelhos e batendo com o indicador no papel. — O Sistema Jillar é uma aberração administrativa que se fincou bem no meio do nosso reino, como uma ferida, sem pagar um único centavo de imposto para a Coroa.

— É, pai, mas a estrada do reino era de chão batido, essa aqui é de pedra — interveio o garoto, com os olhos fixos nos blocos de granito encaixados do lado de fora.

— Não fale besteiras. Justamente por ser de pedra. É propaganda.

A estrada estreitou entre colinas cultivadas. Pouco depois, a carruagem parou numa praça impecavelmente limpa. Flores alinhadas cercavam um chafariz de mármore.

— Pai, cadê o lixo? — perguntou o garoto, apontando para as calçadas limpas enquanto a mãe descia logo atrás. — Esse não era o lugar bagunçado?

— Esconderam tudo — resmungou. — Tudo propaganda.

Próximo ao chafariz, uma capivara de paletó elegante dedilhava um alaúde. Duas capivarinhas jogavam moedas num chapéu de veludo aos seus pés.

O homem de colete cinza caminhou até o músico e bateu com a ponta do sapato no chão para chamar atenção.

— Onde fica o gabinete do prefeito deste distrito? — perguntou o homem, cruzando os braços sobre o peito. — Quero fazer uma reclamação.

A capivara interrompeu a melodia no alaúde e ajustou o monóculo de ouro no olho direito.

— Nós não temos prefeito aqui, meu senhor — respondeu a capivara, apontando com o braço do instrumento para as flores ao redor. — Eu sou apenas o varredor voluntário da praça e toco um pouco nas horas vagas.

O funcionário deu um passo para trás, deixando o mapa escorregar dos dedos até o calçamento limpo.

— Um varredor voluntário? — balbuciou ele, com as bochechas avermelhadas.

Um grande letreiro entalhado em madeira escura exibia o nome da hospedagem diante deles: A Toca do Capincho Barbado. Três capivaras conversavam na varanda, bebendo em taças de cristal e rindo alto.

— Isso só pode ser um pesadelo — murmurou o homem, encarando o brilho das taças de cristal. — Uma piada de muito mau gosto.

— Calma, meu amor — pediu a mulher, segurando-o pelo cotovelo.

— Como que eu vou ficar calmo? — esbravejou ele, marchando em direção ao balcão de carvalho maciço da recepção, que ostentava um vaso de porcelana com lírios frescos. — Olha esse lugar.

O homem puxou a mala de couro da carruagem com um solavanco, enquanto uma capivara forte, usando um avental limpo e um longo bigode grisalho bem aparado, estendia as patas sobre a madeira do balcão.

— Sejam bem-vindos às Colinas do Condado — disse o estalajadeiro, abrindo um grande livro de folhas em branco. — Como devo chamar o senhor?

— Tadeu — respondeu o homem, batendo com a palma da mão na madeira para apressar o atendimento.

— Tudo bem, senhor Tadeu — completou o capincho, anotando a palavra com uma pena elegante. — O quarto da sua família já está pronto no andar de cima.

***

No quarto da estalagem, a mulher puxou a colcha até os ombros.

— Já se passaram duas semanas, querido — disse a mulher. — Você usou a licença inteira procurando defeitos. Chegou ao ponto de medir as lanças dos guardas com um paquímetro.

O homem sentou-se na borda do colchão.

— Eu não encontrei uma única irregularidade, querida. Isso não faz sentido.

No dia seguinte, Tadeu estava novamente na praça central, com a caderneta vazia no colo. A esposa sentou-se ao lado.

— Acabe com essa obsessão, querido. Nossas economias estão chegando ao fim — disse a mulher, apontando para o garoto que corria atrás de uma borboleta azul perto do chafariz. — Aceite que este lugar funciona e vamos voltar para a capital amanhã.

O homem abriu a boca para responder, mas as palavras travaram na garganta quando a temperatura da praça despencou. Uma névoa negra brotou entre as pedras da praça.

No centro dela, uma figura esquelética flutuava alguns centímetros acima do chão.

— As sombras vão devorar a luz — ecoou uma voz cavernosa.

Tadeu saltou do banco, derrubando a caderneta no chão. Ele correu na direção de uma capivara idosa que se aproximava do chafariz carregando duas garrafas de vidro vazias.

— Afaste-se, criatura ignorante! — gritou Tadeu, abrindo os braços à frente da capivara. — Eu avisei! Se vocês tivessem a proteção e o exército da Coroa, uma calamidade dessas jamais pisaria no seu solo!

A capivara idosa piscou. Ela passou por baixo do braço de Tadeu e colocou as garrafas sob a névoa. O vidro estalou, cobrindo-se instantaneamente de geada branca.

— Saia da frente, moço, o fantasma do seu Clóvis é o único jeito de gelar a limonada antes do meio-dia — disse a capivara idosa, guardando as garrafas frias em uma sacola de pano. — E ele nunca mordeu ninguém.

Tadeu recolheu a caderneta do chão e apontou para o espectro.

— Vocês vivem em um falso paraíso de negligência administrativa!

— As sombras vão devorar a luz.

A esposa puxou-o pela manga.

— Querido, ele só faz barulho e gela bebidas — murmurou a mulher, tentando acalmá-lo.

Tadeu abriu a caderneta.

— Não importa. A Coroa precisa saber disso.

Um sorriso surgiu no canto de sua boca.

— Acabaram com as nossas férias.

***

— Doze horas sentado neste banco de jacarandá por causa de um bando de roedores anarquistas — resmungou Tadeu, limpando a pasta de couro com a manga do paletó enquanto um colega de ministério passava com uma pilha de arquivos pelo corredor.

— O Duque não gosta de ser interrompido durante o banquete da tarde, carimbador. Se eu fosse você, voltava para o subsolo antes que te mandem limpar latrinas.

— Limpar latrinas... — resmungou Tadeu enquanto o colega se afastava.

A porta dupla de carvalho finalmente se abriu, e um lacaio de libré estendeu a mão direita para indicar a entrada. Tadeu ajeitou a lapela amassada com um puxão rápido e marchou em direção ao salão principal, deixando um resmungo inaudível antes de entrar.

No centro da sala, uma mesa de banquete exibia travessas de faisão assado. Dois criados contavam moedas de ouro enquanto uma criada limpava as unhas do Duque com uma adaga ornamentada.

— Vossa Excelência, o Duque de Vasteras, precisa ouvir meu relatório urgente sobre um condado que adotou aquelas políticas temerárias de Jillar — disse Tadeu, batendo os calcanhares no tapete aveludado e estendendo os papéis.

O homem gordo sentado à cabeceira nem ergueu os olhos do prato, mastigando uma coxa de ave com a gordura escorrendo pelo queixo.

— Jillar não recolhe impostos. Por isso eles perderam quase todo o território para os druidas.

Tadeu deu um passo à frente, espalhando as anotações sobre a mesa de carvalho, bem ao lado das pilhas de ouro.

— Mas a questão é de soberania, senhor Duque de Vasteras — retrucou Tadeu, apontando o indicador para um parágrafo rabiscado. — Há espectros naquela região. Tecnicamente, pela interpretação correta do código penal, isso configura imigração clandestina.

O Duque de Vasteras deu de ombros, recolhendo uma moeda de ouro da pilha com as pontas dos dedos sujos de graxa.

— Se eles viessem de fora, acha que a nossa muralha não dispararia um alarme? — rebateu o nobre, bocejando ruidosamente. — A muralha nos protege de invasores há mais de mil e trezentos anos.

— Mas a Muralha só detecta matéria física densa, Excelência. São aparições vindas do Plano Etéreo. Pela definição jurídica vigente, invasores extraplanares.

O Duque engasgou com o faisão. A taça virou sobre os relatórios e ele se levantou tão rápido que os candelabros tremeram.

— Outro plano de existência? — esbravejou o Duque, limpando a boca com a manga de seda e encarando o funcionário com as bochechas trêmulas. — Uma brecha dimensional que ridiculariza a segurança da Coalizão das Três Coroas bem debaixo do meu nariz?

Tadeu estufou o peito e recolheu a pasta de couro com um movimento firme.

— Exatamente, senhor. E, por sorte, eu já tenho a solução — respondeu o burocrata, exibindo um sorriso contido nos cantos dos lábios. — Só preciso de verba suficiente e da assinatura para o cargo de Diretor Extraordinário de Defesa Etereoumbradimensional.

O Duque de Vasteras pegou a pena de ganso, mergulhou-a no tinteiro de prata e rabiscou uma assinatura violenta no topo de uma folha em branco.

***

Tadeu abriu um mapa das colinas sobre a mesa. O Duque observava o papel enquanto mastigava uma ameixa em calda.

— A primeira fase já começou, Excelência — disse Tadeu, ajeitando o quepe de Diretor Extraordinário. — Enviei uma esquadrilha para distribuir o Decreto Real nº 48: recolhimento compulsório domiciliar preventivo.

Os panfletos anunciavam:

"EPIDEMIA DE MORTOS-VIVOS INCORPÓREOS.

FIQUEM EM SUAS TOCAS.

DEFENDA A VIDA.

TENHA EMPATIA."

Nas Colinas do Condado, três aeroplanos militares cruzaram o céu e abriram as comportas. Uma chuva de panfletos cobriu os telhados, os jardins e o chafariz da praça.

— Agora até a fofoca do rei cai do céu. — comentou uma capivara de óculos escuros, sacudindo os papéis grudados no chapéu de palha.

O estalajadeiro recolheu uma braçada de panfletos do chão, amassou-os e os atirou no forno à lenha.

— Pelo menos o churrasco de domingo já tem combustível. — disse o estalajadeiro, empurrando os papéis para dentro do forno.

— E desde quando comemos carne? — perguntou a esposa, cruzando os braços na porta da cozinha.

— E desde quando eu disse que o churrasco não vai ser de alcachofra? — rebateu o estalajadeiro, limpando a fuligem da pata.

Pela praça, os decretos serviam para nivelar mesas, embrulhar legumes e anotar listas de compras.

— E eles obedeceram? — perguntou o Duque de Vasteras, limpando os dedos melados na toalha de mesa de seda.

— Quando perceberem o risco sanitário, vão exigir uma resposta da Coroa. — respondeu Tadeu, batendo o dedo contra o mapa.

Dias depois, o Duque bateu na mesa pela terceira vez naquela semana.

— E quando exatamente eles vão implorar ajuda? — perguntou o nobre, ajustando os anéis nos dedos com impaciência. — Essa política pública está muito custosa para os cofres das Três Coroas.

— Chegou a hora da fase final. Vamos eliminar o foco estrangeiro e restaurar a ordem administrativa.

O Duque assinou o pergaminho com um traço rápido e jogou a pena de ganso sobre a mesa.

***

Três aeroplanos militares surgiram sobre as Colinas do Condado.

As comportas se abriram e uma nuvem verde caiu sobre o vale.

Flores, cercas e plantações dissolveram-se numa massa escura e fumegante. As capivaras correram para as encostas carregando filhotes e pertences. O rio transformou-se numa corrente espessa de gosma borbulhante.

O chafariz da praça desmoronou.

No meio da destruição, porém, o fantasma continuava exatamente onde sempre estivera.

A chuva ácida atravessava seu corpo sem deixar marcas.

Os mantos negros permaneciam secos.

— As sombras vão devorar a luz — ecoou a voz cavernosa.

Uma gota atravessou sua cabeça.

Outra atravessou seu peito.

Nada aconteceu.

O fantasma ergueu lentamente um dos braços incorpóreos.

— As sombras vão devorar a luz.

Depois voltou a ficar imóvel.

***

As cortinas de veludo foram abertas com um puxão brusco.

O Duque de Vasteras apoiou as duas mãos na sacada e inclinou o corpo para a frente. A estrada que subia até o castelo estava tomada por capivaras. Centenas delas avançavam em fila, carregando folhas brancas erguidas acima da cabeça.

Atrás dele, Tadeu ajeitou o quepe de Diretor Extraordinário e cruzou as mãos atrás das costas.

— Eu sabia — disse o Duque, exibindo os dentes engordurados num sorriso satisfeito. — Olhe para isso. Vieram se render.

— Exatamente como previsto, Excelência.

A fila continuava avançando.

— No fim, todos entendem que precisam da Coroa.

Um oficial surgiu na porta do gabinete carregando uma pasta abarrotada de documentos.

— Excelência.

— Agora não — respondeu o Duque, sem desviar os olhos da janela.

— É sobre as capivaras.

O Duque estendeu a mão.

O oficial entregou o primeiro pergaminho.

O sorriso desapareceu.

— O que é isso?

— Pedido formal de reparação.

O Duque passou os olhos pelas páginas e amassou o documento entre os dedos.

— Oitenta milhões de moedas de ouro?

— Sim, Excelência.

— Oitenta milhões?

— Sem contar os juros.

— Então prendam todas elas.

— Não podemos.

— Como assim não podemos?

— Elas vieram acompanhadas por uma comitiva de paladinos de Jillar.

O gabinete ficou em silêncio.

O Duque largou o papel.

— Quantos?

— Doze.

— Doze?

— Sim, Excelência.

O Duque passou a mão pelo rosto.

— Então não podemos prender ninguém?

— Não.

— Expulsá-los?

— Não.

— Confiscar os documentos?

— Também não.

O Duque foi até a janela. Voltou. Foi até a janela outra vez e voltou novamente.

— Pelo menos me diga uma coisa.

Tadeu endireitou a coluna.

— Sim, Excelência?

— Os espectros foram eliminados?

Outro oficial ergueu os olhos de uma prancheta.

— Todos, menos um.

— Qual deles? — perguntou Tadeu.

— O da antiga praça, Excelência.

O Duque esfregou as têmporas.

— Então gastamos oitenta milhões de moedas e nem terminamos o serviço?

Ninguém respondeu.

O Duque puxou uma cadeira e sentou pesadamente.

— Muito bem.

Ele apontou para Tadeu.

— Seu plano foi um sucesso parcial.

— Excelência?

— Falta um.

— Sim.

O Duque pegou uma pena e assinou um documento.

— Então vou promovê-lo.

A assinatura terminou com um risco violento.

O Duque empurrou o papel pela mesa.

— Vá eliminar o último fantasma.

Tadeu pegou o documento com as duas mãos.

— Imediatamente, Excelência.

— E tente não conseguir outra vitória dessas para o reino.

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