Contos Avulsos
Serviço Limpo

ANO 1379
A poeira vermelha cobria as botas gastas do rapaz de cabelos castanhos. Ao lado dele, o jovem de túnica azul limpava o suor da testa com a manga enquanto arrastava o cajado pela areia. O sol castigava a terra estéril até a linha ondulante do horizonte.
— Eu não aguento mais essa porcaria — o de túnica azul cuspiu um filete de saliva pastosa na areia. — Três dias caçando besouros gigantes porque um bando de fazendeiros que nem dentes na boca têm encasquetaram que eram druidas.
O rapaz apoiou o peso do corpo sobre o cajado de madeira, fincando a ponta gasta na terra estalada pelo calor. Os olhos castanhos varreram a linha do horizonte até alcançarem a silhueta rochosa que se erguia à frente.
— É, Conni, sorte a nossa que Dursa Warra fica atrás daquela montanha.
— Deixa de chorar, Wulfen — o de cabelos castanhos jogou uma pequena bolsa de couro marrom para o alto, pegando-a no ar com uma piscadela. — Olha para essa belezinha aqui. Só essa bolsa de carga paga nossa estadia, nosso hidromel e ainda sobra para comprar adagas novas.
— Isso se o contratante não nos der calote — Wulfen ajustou a túnica no ombro, o olhar fixo no horizonte trêmulo de calor. — Você sabe como são esses nobres de Trinn.
— Ele não vai — Conni guardou a bolsa no cinto com um tapinha orgulhoso. — O capitão Beyara disse que estariam aqui, só esperando para nos pagar. Até do relatório ele se encarregou.
Enquanto avançavam sob o calor, uma sombra colossal engoliu a luz do sol, desenhando uma silhueta recortada sobre as dunas. O som ruidoso de membranas de couro batendo contra o ar seco ecoou logo acima deles, desestabilizando a areia fina da estrada.
— Mas o que é... — o jovem de túnica azul soltou um ganido estrangulado e saltou para o lado, arremessando o cajado curto para longe na poeira vermelha.
— Chão! — o rapaz de cabelos castanhos mergulhou de cara na terra estéril, cobrindo a nuca no instante em que o Wyvern, em pleno voo, esvaziou as entranhas logo acima deles.
Um estalo úmido e pesado quebrou o silêncio do deserto quando uma massa esverdeada despencou do céu. Conni ergueu o tronco devagar, cuspindo areia e respingos fétidos que haviam entrado em sua boca. Uma massa verde-escura escorria pelo ombro esquerdo do colete, pingando lentamente sobre o lenço do pescoço.
— Mas que desgraçado! — ele limpou a bochecha com as costas da mão, encarando a mancha fétida no próprio corpo com os olhos arregalados. — O bicho me cagou inteiro! Olha o estado da minha roupa!
Wulfen gatinhou pela areia até alcançar o cajado de madeira nodosa, usando-o como apoio para se colocar de pé com as pernas trêmulas. Ele apontou o instrumento em direção à uma montanha vermelha.
— Ele está descendo — o mago limpou a poeira da túnica com tapinhas rápidos, a voz ainda oscilando pelo susto. — Está indo direto para Dursa Warra. Ou seja, aquilo é uma montaria.
Conni permaneceu de joelhos, o olhar alternando entre a montanha de esterco fumegante e a pequena bolsa de carga marrom presa em seu cinto. Ele puxou o acessório com os dedos trêmulos, pesando-o na palma da mão antes de encarar o companheiro de cabelos negros.
— Wulfen, essa coisa de espaço infinito da bolsa... ela funciona com o mesmo princípio daquela sua magia de encolher?
— Teoricamente, sim — o mago ajeitou a gola azulada e ergueu o queixo. — Mas o encantamento da bolsa é permanente. Muito mais poderoso do que qualquer magia temporária que eu consiga fazer.
— E o que essa bobagem toda significa? — perguntou Conni, impaciente. — Me explica de forma que eu possa entender.
— Significa que a compressão física lá dentro dura para sempre — disse Wulfen, estreitando os olhos ao notar o sorriso do parceiro. — Mas caso o tecido rasgue, tudo o que está guardado volta ao tamanho real de uma vez só.
Conni ergueu os olhos para a montanha fumegante.
Wulfen apertou o cajado.
— Não.
***
No centro do salão, uma mulher de costas para a entrada agitava o braço enquanto o chicote estalava contra o balcão, vestindo mantos de veludo roxo que arrastavam na poeira do chão.
— Eu não voei de tão longe para ser atendida por incompetentes — a voz dela ecoou, estridente, alongando os erres de forma artificial. — Eu quero aqueles dois aventureirrrros nesse saguão até o meio-dia, ou eu mesma faço essa pocilga fechar as portas!
O taverneiro baixinho apenas encolheu os ombros sob o colete manchado, mantendo os olhos baixos no copo encardido. A mulher recolheu o chicote com um solavanco, fazendo as solas das botas estalarem contra o assoalho até alcançar uma mesa isolada no canto mais escuro do saguão.
Conni e Wulfen caminharam discretamente até o balcão, ocupando as banquetas de madeira. O jovem de túnica azulada apoiou o cajado contra a madeira, enquanto o parceiro se acomodava ao lado.
— Duas cervejas — pediu Conni, tirando o lenço sujo do pescoço para esconder a mancha fétida de bosta de Wyvern. — Da mais barata.
— Um momento e eu já sirvo — respondeu o taverneiro, limpando o suor da testa com o pano úmido enquanto tentava se recompor.
— E uma informação, mestre — Wulfen levantou o dedo, indicando a janela. — Por acaso o senhor conhece quem é o dono do lagarto voador ali fora?
— Duquesa Triannele — o taverneiro baixinho bateu duas canecas pesadas de estanho na mesa, cuspindo no chão logo em seguida. — Veio avaliar as terras conquistadas dos druidas na semana passada, e agora acha que é dona do meu estabelecimento.
— Pois é, meu caro — Conni bebeu um gole com o canto da boca. — Nós vimos ela gritar com o senhor com esse jeito arrastado de Trinn de falar. É sempre irritante.
— O bicho dela quase matou a gente na estrada — Wulfen tomou um gole longo da bebida morna, limpando a espuma com a manga. — Nos salvamos por sorte, se não...
— Ei — Conni interrompeu, debruçado no balcão. — Olha a cintura dela.
Wulfen estreitou os olhos, acompanhando a linha do olhar do parceiro até o cinto de veludo roxo.
— Uma bolsa de carga.
— Ei, taverneiro — Conni chamou baixo, um sorriso de canto surgindo entre os lábios enquanto gesticulava sutilmente na direção da mesa. — O que você me diz de darmos uma lição nela? A gente faz um serviço limpo e divide o que tiver lá dentro com você.
O taverneiro baixinho parou de passar o pano no balcão, olhando fixamente para o canto do salão onde Triannele batia o pé de forma impaciente. Ele soltou uma risada nasalada, seca.
— Eu limpo a mesa dela agora mesmo — murmurou o homem, pegando um balde de água cinzenta. — Mas se ela mandar algum assassino atrás de vocês, eu nunca vi suas caras por aqui.
O taverneiro arrastou os pés em direção ao canto escuro, batendo o balde de água cinzenta contra o tampo de uma mesa vaga próxima à Duquesa. O pano encardido estalou contra a madeira, levantando uma lufada de poeira.
— Mas que falta de modos, saia daqui com essa sujeira! — Triannele esbravejou, erguendo os pergaminhos acima da cabeça para protegê-los dos respingos. — Saia, seu verme imundo!
— Só estou fazendo o meu trabalho, milady — o homem respondeu baixinho, derrubando de propósito uma cadeira de madeira no chão para gerar um estalo seco que fez dois mineradores na mesa ao lado olharem feio.
— É a minha hora...
Conni levantou-se da banqueta com uma das mãos pressionando o estômago, o rosto torcido numa falsa careta de dor. Ele deu três passos vacilantes na direção do corredor dos fundos, onde uma placa de madeira indicava as latrinas.
— Essa porcaria de bebida já me fez mal — murmurou o rapaz, cambaleando levemente para o lado no exato instante em que um grupo de caçadores cruzava a entrada, esbarrando de raspão no ombro da Duquesa que ainda discutia com o taverneiro.
O rapaz seguiu o caminho até o corredor escuro das latrinas sem olhar para trás. No balcão, Wulfen girava a cerveja na caneca enquanto os dedos médio, indicador e anelar tamborilavam um ritmo seco na madeira.
— Depois dessa, ela vai aprender a não cagar por cima de mais ninguém — o mago sussurrou bem baixo contra a borda do copo, no exato momento em que Conni retornava, deslizando novamente para a banqueta ao seu lado.
— Serviço limpo — Conni sorriu de canto, mantendo a bolsa escondida sob o casaco enquanto piscava para o taverneiro, que agora retornava ao balcão com o balde vazio. — Agora é só ela montar naquele lagarto e ir embora.
O taverneiro baixinho recolheu o pano úmido, enquanto abria um sorriso fino.
— Por conta da casa — ele derramou mais um pouco de cerveja na caneca de Conni.
Ele e Wulfen fizeram um brinde silencioso.
A Duquesa recolheu os pergaminhos da mesa com um movimento seco e bateu o chicote contra a própria bota, ajeitando o manto de veludo.
— Bando de incompetentes. Vão me deixar aqui até o pôr do sol assim — Triannele resmungou para si mesma, ajustando as dobras do tecido roxo para se dirigir à saída.
Conni acompanhou o movimento com o canto dos olhos, desferindo um tapa ruidoso nas costas do companheiro de cabelos negros enquanto erguia a caneca cheia.
— Vira isso de uma vez, Wulfen, que o dia hoje rendeu! — o rapaz de cabelos castanhos soltou uma risada alta, chamando a atenção de dois sujeitos de braços cruzados e cicatrizes nos rostos que bebiam na mesa ao lado.
Triannele travou os passos no meio do salão poeirento. Ela virou o tronco devagar, estreitando os olhos pintados de preto na direção do balcão onde os dois jovens compartilhavam a bebida.
— Wulfen? Conni? — a mulher deu dois passos à frente, os mantos roxos arrastando na sujeira enquanto apontava o chicote curto na direção deles. — Os aventureirrrros de Jillar que o capitão Beyara contratou?
Os dois rapazes congelaram com as canecas a meio caminho da boca, as colunas eretas e rígidas contra as banquetas de madeira.
— Sim — respondeu Wulfen. — Somos nós.
O taverneiro baixinho soltou o pano encardido na tábua. As pupilas do homem dilataram enquanto o olhar dele pulava da bolsa marrom que Conni segurava direto para a outra, de mesmo couro e fivelas, que ainda balançava intacta no cinto da Duquesa.
— Mas como... — o homem do bar murmurou com a voz engasgada, arregalando os olhos enquanto dava um passo involuntário para trás. — O que vocês...
— Eu passei a manhã perguntando por vocês para esse imundo — Triannele bufou, interrompendo o homem do bar e cruzando os braços de forma imponente diante da dupla. — O capitão me garantiu que vocês eram eficientes, apesar do ar de incompetência que exalam.
Nenhum dos dois rapazes respondeu; Wulfen manteve os dedos esticados sobre a madeira do balcão. Conni puxou a bolsa de couro debaixo do casaco por impulso, quase exibindo o troféu sobre a tábua antes de recolhê-la depressa contra o peito. O rapaz passou as costas da mão pela testa, deixando um rastro de poeira úmida na pele.
— O relatório da ruína druídica está correto e o trabalho foi aceitável — a Duquesa moveu o queixo levemente para baixo, o olhar escorregando brevemente pelo objeto no balcão antes de retornar para os próprios dedos na cintura, onde afrouxava os nós do tecido. — Aqui está o bônus em moedas de ouro prometido, e já tenho o próximo contrato pronto para vocês.
Quando o nó do cordão cedeu sob a pressão dos dedos da mulher, Wulfen e Conni se entreolharam e dobraram os joelhos em uníssono, despencando em um mergulho coordenado para trás da barreira de madeira do balcão. Um estalo seco e incandescente partiu a costura lateral da bolsa de couro marrom na mão dela.
— Droga.
Uma massa esverdeada rompeu o tecido com a violência de um estouro. O impacto atingiu Triannele em cheio, arremessando a Duquesa contra as portas da taverna.
O estrume atingiu o teto, as mesas e os clientes próximos antes de começar a pingar pelo salão inteiro.
O taverneiro passou a mão direita pelo rosto para abrir caminho entre a camada pastosa que cobria seus olhos. Ele cuspiu um naco verde no chão, debruçou-se sobre a madeira e olhou para baixo, onde a dupla se recolhia contra as caixas de bebida.
— Seus idiotas — o homem berrou, a voz esganiçada. — Vocês disseram que o plano era um serviço limpo. De onde veio essa imundície?
— Abaixa a cabeça, imundo — Conni rebateu lá de baixo, cobrindo o próprio rosto enquanto o teto gotejava.
As folhas de vaivém da entrada bateram de volta contra o batente, revelando a silhueta da Duquesa sob a claridade do meio-dia. A mistura viscosa do estrume havia grudado na terra vermelha do lado de fora, cobrindo os mantos de veludo numa camada nojenta de lama e areia.
— O que significa isso, seu verme? — ela deu um passo para dentro do saguão, cuspindo areia enquanto tentava enxergar através dos cílios grudados. — Você estava me roubando?
— Não, milady — o homem do bar gaguejou, mudando o tom de voz instantaneamente enquanto dava um passo para trás. — Foram eles. Eles estão bem aqu...
O dedo apontou para o vão atrás das caixas de bebida. A folha de madeira da janela dos fundos balançava escancarada, batendo contra o marco externo sob o assobio do vento seco de Dursa Warra.
***
O vento arrastava lufadas de areia vermelha para o interior da fenda rochosa. Sentado sobre uma pedra lascada, Conni virou a bolsa de couro marrom de cabeça para baixo, fazendo uma chuva de moedas douradas tilintar sobre uma manta estendida no chão. Ao lado dele, Wulfen recolheu um maço de pergaminhos oficiais com o brasão de Trinn e jogou-os na fogueira baixa, observando as chamas consumirem o papel.
— Trinta e oito, trinta e nove... quarenta — Conni organizou o último monte de moedas e puxou o lenço do pescoço, limpando o colete. — O capitão Beyara vai querer nossas cabeças numa bandeja.
— O capitão Beyara, aqueles caras mal-encarados da taverna, o taverneiro, todo o reino de Trinn... — Wulfen limpou a ponta do cajado na areia, deitando-se contra a parede de pedra e abraçando os próprios ombros.
— Valeu cada moeda — Conni mostrou os dentes sujos de areia, jogando metade do quinhão para o parceiro.
— Vamos precisar de pelo menos um mês inteirinho escondidos neste buraco — o mago pegou as moedas no ar e fechou os olhos. — Até o cheiro daquela taverna desaparecer da cabeça deles.
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