Conto
Não assopra que tá frio

ANO 1300
Este conto é uma releitura de uma das muitas histórias que meu avô me contava na infância. Ele partiu, mas as sementes que plantou em minha imaginação floresceram; se hoje sou escritor, é porque primeiro fui o seu ouvinte mais atento.
— Esse silêncio todo não me agrada — disse o anão de barba espessa em um murmúrio, apertando o punho da espada curta na cintura. — Olha para esse mato. Nem os grilos têm coragem de cantar nessa porcaria de lugar.
— Como você reclama, Bjorn. Pensa pelo outro lado: até os monstros precisam dormir, não é o que dizem?
O sol tingia a estrada com um vermelho doentio, quase como uma ferida aberta no céu. As sombras das árvores retorcidas se esticavam pelo chão de terra batida, alcançando as botas dos viajantes.
O anão cuspiu no chão seco. Seus olhos pequenos varreram as copas das árvores.
— É, mas não foi o que o pessoal da taverna falou sobre a mantícora — resmungou Bjorn. — Pelo contrário. Ela gosta é de um petisco noturno.
O jovem parou por um segundo, olhando para o horizonte onde a estrada sumia na penumbra.
— Velhos de taverna juram qualquer coisa por uma caneca de hidromel. Mas eu prefiro não descobrir se o meu tutano é saboroso.
— É, Lorn — disse o anão. — Onde a gente foi se meter?
— Verdade — concordou o jovem humano com um suspiro, enquanto conferia os virotes de sua besta. — Sempre ouvi falar mal de Sam Brehim, mas não imaginava tanto.
Ele apontou para uma silhueta isolada no topo de uma colina baixa. Uma casa de pedra e madeira, com uma única coluna de fumaça, subia contra o céu sangrento. Duas árvores secas montavam guarda ao lado da construção.
— Ali. Se a sorte estiver conosco, os donos daquela casa vão nos poupar dessa enrascada.
Apesar do frio, o anão limpou o suor da testa com as costas da mão grossa.
— Nesse lugar, rapaz, a sorte costuma cobrar juros altos. Vamos logo antes que a luz acabe.
O aroma de gordura quente e massa frita flutuava pelo pátio, lutando contra o cheiro de terra úmida. Ao lado da casa, um jardim exibia fileiras de raízes robustas, nutridas pelo esterco das vacas que mugiam no curral próximo.
Bjorn estancou diante da porta de madeira reforçada e puxou o ar com força, mantendo as pálpebras cerradas por um instante.
— Bolo de casca — o anão murmurou, a saliva inundando sua boca. — Se for metade do que o cheiro promete, eu luto contra três mantícoras por um pedaço.
Lorn permaneceu imóvel; seus olhos não desviavam da janela de treliça, onde uma silhueta volumosa acabara de deslizar.
O anão golpeou a porta com a junta dos dedos, usando a força de quem não aceitaria o silêncio como resposta. O estalo seco da madeira interrompeu o chiado do óleo borbulhante lá dentro.
A porta rangeu ao abrir, revelando uma mulher de braços largos e pescoço curto, envolta em um avental manchado de farinha. Seus olhos percorreram os visitantes de cima a baixo, detendo-se nos ombros de Bjorn antes de traçarem a linha do maxilar de Lorn.
— Não aceito mercadores, e minhas vacas não estão à venda — a voz dela soou rouca, sob uma cadência estranhamente suave.
Lorn adiantou-se um passo e espalmou as mãos à frente do corpo, mantendo-as longe das adagas na cintura.
— Não somos mercadores, senhora. Apenas viajantes em busca de um canto no seu celeiro até o amanhecer; as estradas de Sam Brehim não costumam ser gentis com quem caminha sob o luar.
A mulher arqueou uma sobrancelha, enquanto encarava a dupla sem pressa. Um sorriso lento, que não alcançava a dureza de seus olhos, surgiu em seu rosto.
— Entrem. O celeiro é frio demais para homens tão... dispostos.
Bjorn e Lorn trocaram um olhar rápido e cruzaram o limiar. Assim que entrou, o rapaz engoliu em seco ao olhar para trás. Ele inclinou o corpo e tocou a cintura do anão com a ponta da bota, indicando com um movimento discreto de queixo o canto da entrada.
Encostado no batente, repousava um bastão de madeira polida, cujas runas de contenção pulsavam em um tom azulado e frio.
O calor da cozinha atingiu os viajantes como um golpe, carregado pelo vapor de gordura que brilhava nas paredes de pedra. Sobre uma mesa de carvalho rústica, uma bacia de barro transbordava com os bolos de casca recém-fritos, desprendendo uma fumaça que fazia o estômago de Bjorn roncar de forma audível.
O anão limpou a barba com as costas da mão e deu um passo em direção à mesa, ignorando o bastão rúnico repousado na porta.
— Minha senhora, eu já vi ouro debaixo da montanha que brilhava menos que essa massa frita — Bjorn soltou um riso curto, as narinas dilatadas. — Dizem que em Sam Brehim a hospitalidade é sagrada, e um pedaço disso aí seria melhor que...
A mulher, que mexia uma panela de ferro com uma colher de pau pesada, estancou o movimento. Ela virou o rosto lentamente, deixando que a luz da candeia acentuasse as dobras de seu pescoço e o brilho úmido de suas pupilas enquanto devorava com os olhos a largura do peito do anão.
— A hospitalidade tem o seu preço, pequeno mestre — ela umedeceu os lábios com a língua grossa. — Mas a comida é para quem descansa. Primeiro o sono, depois o sustento; não vai querer ter dor de barriga à noite.
Lorn adiantou o passo e segurou o braço de Bjorn, onde os músculos do anão estavam rígidos como cordas esticadas. A velha permanecia imóvel, as pálpebras estáticas, mantendo o foco no estrangeiro como um açougueiro avalia o peso de uma carcaça.
— O sono nos basta por agora — Lorn interveio, puxando o companheiro em direção ao corredor indicado por um aceno de cabeça da mulher.
Ela tomou uma lamparina de óleo sobre o balcão e liderou o caminho, o quadril largo batendo contra os batentes das portas. O quarto era um antigo depósito de grãos com sacos vazios e ferramentas de horta amontoados nos cantos, mas o centro do assoalho abrigava dois leitos baixos de palha seca.
— Esse quarto era feito para os filhos — a mulher disse, a voz ecoando no espaço apertado. — Mas a vida não foi generosa comigo; desde que meu marido partiu, o lugar virou um depósito para o que sobra da terra.
A velha pousou a lamparina no chão e encurtou a distância até Bjorn, pairando sobre ele com sua estatura massiva.
— Vou buscar um couro de vaca para vocês — ela sussurrou, o hálito quente carregado pelo cheiro de ervas amargas e gordura. — Não cortei lenha hoje, mas o calor de um garoto na flor da idade e de um anão vigoroso deve dar conta do frio.
Ela deu as costas sem esperar resposta; o som de seus passos pesados fez as tábuas do assoalho rangerem até sumirem na direção da cozinha.
Assim que guardaram as armas e retiraram a armadura, a lamparina foi apagada. A escuridão no depósito tornou-se sólida, um breu que parecia pesar sobre as pálpebras de Lorn. O único som era o ranger rítmico das tábuas de palha e o ronco persistente, quase como um rosnado, vindo do estômago de Bjorn.
— Eu não vou aguentar até o amanhecer — o anão sibilou, sua voz cortando o silêncio como uma lixa no metal. — Aqueles bolos estão me chamando pelo nome, rapaz. Estão esfriando lá, sozinhos, sem ninguém para dar o devido valor.
— Fica quieto, Bjorn — Lorn sussurrou de volta, estendendo a mão no escuro e encontrando apenas o ar frio. — A gente não vai roubar nada. Ela deu o teto e amanhã dá o resto; se formos pegos, ela nos joga no olho da rua sem pensar duas vezes.
O anão soltou um bufo de desprezo, sentando-se no leito de palha. Seus olhos emitiam um reflexo pálido, focando nos contornos das ferramentas espalhadas pelo quarto.
— Ela é só uma velha gorda, Lorn. Eu sou um guerreiro, sou furtivo o bastante para entrar e sair daquela cozinha antes de ela terminar o primeiro ronco.
— Não seja idiota — o jovem rebateu em uma urgência ríspida. — Aquele bastão na porta, Bjorn? É um Pau de Fogo Primo. Aquilo não é brinquedo de camponês; é um disparo e pronto, um rombo de essência mágica no meio do seu peito que não fecha nunca. E se aquele bastão for de três ou cinco cargas, vamos ter que juntar os seus pedaços pela casa. Isso se ela não fizer você ensopado na panela.
O silêncio voltou por alguns segundos, preenchido apenas pela imagem do estrago mágico no ar. Bjorn coçou a barba, e o som das unhas nos fios rígidos estalou por todo o quarto.
— Um disparo só se ela me vir — concluiu o anão, já ficando de pé. — Sou um anão. Estou acostumado com o escuro das cavernas. Ela nem vai me ver.
Lorn tateou o chão à procura da bota ou do braço do companheiro, mas seus dedos encontraram apenas o vazio. O leve estalo das articulações de Bjorn e o deslizar de seus pés indicaram o movimento em direção à porta.
— Bjorn, volta aqui! — Lorn chamou em um sussurro desesperado.
Não houve resposta. Uma dobradiça moveu-se com extrema cautela, soltando um guincho quase imperceptível. O rapaz praguejou baixinho, deitando-se novamente e cobrindo o rosto com o braço.
— Espero que esse imbecil teimoso não faça das suas.
Bjorn deslizou para fora do depósito, os pés descalços tateando o assoalho com a cautela de quem pisa em gelo fino. A cada estalo da madeira, ele congelava no lugar.
— Fica quieta, tábua maldita — ele sibilou para o chão, o suor da tensão pinicando sob a barba. — Só mais um pouco.
Ele alcançou a cozinha, onde o calor do fogão de ferro ainda lutava contra o frio da noite. Suas mãos grossas agarraram o puxador da portinhola metálica.
— Achar o forno foi fácil — murmurou o anão, puxando o metal com uma lentidão extrema. — Esse babaca do Lorn subestima a minha visão.
A portinhola cedeu com um gemido agudo que pareceu um trovão no silêncio da casa. Bjorn travou a mandíbula, os olhos fixos na entrada da cozinha, à espera da velha.
— Isso... dorme, vovó — sussurrou ele, após longos segundos de silêncio. — Sonha com o Lorn.
Ele abraçou a bacia de barro. O calor da massa atravessou a túnica e atingiu o peito, um conforto que Bjorn não trocaria por um veio de ouro.
— Caminho de volta, Bjorn — disse para si mesmo, girando o corpo e começando a retroceder. — Pé por pé, no rastro que você já conhece.
Ele deu o primeiro passo de costas, mantendo os olhos no chão para alinhar a trajetória. No corredor escuro, sua visão focava apenas nas tábuas que precisava evitar.
O traseiro do anão atingiu uma superfície sólida, que cedeu ao peso. A porta girou nos gonzos sem oferecer resistência, engolindo Bjorn na escuridão do novo cômodo sem produzir um único estalo.
— Quero ver a cara dele — resmungou, antes de terminar de entrar no quarto.
Ele manteve a marcha até o calcanhar tocar a lateral de madeira da cama. O corpo escorregou pelo assoalho até as costas baterem na estrutura e a cabeça recostar no colchão, enquanto a bacia repousava firme em seu colo. O vapor da massa frita subia-lhe pelas narinas e Bjorn fechou os olhos, preenchendo os pulmões com o aroma da gordura.
Ele pescou um dos pães e o levou à boca. No momento em que seus dentes afundaram na crosta, um chiado longo e constante, como o ar escapando de um fole, sibilou logo acima de sua orelha.
Um vento quente envolveu o rosto do anão e agitou os fios de sua barba.
— Não assopra, rapaz — Bjorn resmungou com a boca cheia, sem desviar os olhos do escuro. — Não assopra que já tá frio.
O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo estalido de uma pederneira e o brilho súbito de uma lamparina. Bjorn piscou, a visão ajustando-se à luz alaranjada que revelava os lençóis encardidos e a silhueta maciça da velha sentada no colchão.
Ela vestia apenas uma camisola fina, cujas alças caíam pelos braços largos enquanto o encarava de cima. O anão permaneceu imóvel, com o pão mordido na mão e a bacia no colo.
— É — Bjorn soltou, os olhos fixos no rosto da mulher. — Pelo cheiro, já dava para imaginar que o sopro não veio da boca.
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