Volume 19
Capítulo 1918: Memória da Lua 2
Região Divina Sul, Reino das Sete Estrelas.
À beira de um rio tranquilo, coberto por salgueiros que balançavam suavemente, Jin Yue caminhava ao lado da irmã mais nova por uma margem verdejante como jade.
No fim das contas, o povo do diabo das trevas estava longe de ser tão assustador quanto as pessoas imaginavam, e os executores aplicavam as leis do Imperador Yun com rigor, mas também com justiça. Surpreendentemente, o mundo tornara-se, de fato, um lugar mais justo e pacífico do que antes.
Após o pânico inicial ter se dissipado, a atmosfera do Reino das Sete Estrelas mudara muito em apenas alguns anos.
— Irmã, pai e vovô decidiram a data em que retornarão à Região Divina do Leste. Você… realmente não vai com eles?
Wei’er crescerá muito nos últimos anos. Muitas de suas feições infantis haviam desaparecido, dando lugar a um rosto refinado que lembrava bastante o da irmã mais velha. Ainda assim, apesar do amadurecimento, Wei’er jamais deixara de gostar de permanecer ao lado da irmã. Gostava de segurar sua mão e observar seu sorriso gentil — mesmo sabendo que, por trás dele, havia um lago de tristeza que parecia nunca se esvair.
Jin Yue balançou a cabeça enquanto fitava o caminho que parecia se estender infinitamente à frente.
— O Reino das Sete Estrelas é um lugar muito pacífico. Gosto daqui, mesmo estando aqui há poucos anos. Talvez eu até passe o resto da vida aqui.
Não era como se ela nunca tivesse desejado deixar o Reino das Sete Estrelas.
Ela simplesmente não podia.
“Ouça bem, é melhor deixar esse selo negro exatamente onde o coloquei. Não tente se livrar dele. Se eu algum dia sentir que sua existência desapareceu… voltarei e exterminarei todo o seu clã!”
Aqueles olhos antes calorosos e gentis haviam se tornado duas tempestades negras e violentas; o Jovem Mestre Yun, com quem outrora mantivera uma relação amistosa, tornara-se o Mestre Diabo, destruidor do Reino do Deus da Lua… e aquele cruel selo negro implantado em seu corpo era uma maldição da qual jamais poderia escapar enquanto vivesse.
Era por isso que era melhor que sua família partisse. Quanto mais longe estivessem dela, mais seguros estariam.
— Nesse caso, eu fico com você, certo?
Wei’er falara com firmeza. Não fora um impulso momentâneo; parecia uma decisão tomada havia muito tempo.
— Não. — Jin Yue recusou sem hesitação e voltou-se para a irmã com um olhar firme e inabalável. — Wei’er, o reino estelar do bisavô pode não ser um reino real, mas ainda é um reino estelar superior. O ambiente molda o crescimento e o futuro de uma pessoa, especialmente alguém da sua idade. Você não agirá de forma imprudente nesse assunto, ou logo descobrirá que não sou a única a discordar.
Pelo tom de Jin Yue, estava claro que não havia a menor chance de mudar sua decisão. Wei’er abaixou a cabeça, um pouco desanimada.
— Diga, irmã… você acha que vai se casar no futuro?
— ... — Jin Yue balançou a cabeça e lhe ofereceu um sorriso triste. — Não.
— Não vai se sentir solitária ficando sempre sozinha?
— Eu vou me acostumar — respondeu em voz baixa.
Embora Wei’er ainda não fosse adulta, conseguia sentir a tristeza e impotência enterradas no coração da irmã. Após um instante, fez outra pergunta:
— Você… ainda sente falta da Imperatriz do Deus da Lua, irmã?
— ...
Os passos de Jin Yue vacilaram por um instante. Ela não conseguiu responder.
Wei’er continuou:
— Esses dias, todos dizem que o Imperador Yun é uma pessoa muito boa. Dizem que ele salvou o Reino dos Deuses de uma calamidade que destruiria mundo, e que escolheu o perdão mesmo depois de se tornar Imperador Yun… Também dizem que o Reino dos Deuses certamente marchará para um futuro mais brilhante sob a liderança dele.
— Ele… era uma pessoa muito boa — murmurou Jin Yue, atordoada. — Mas…
— Mas — a voz de Wei’er ficou mais baixa — também dizem que o Imperador Deus da Lua foi uma pessoa terrível. Que ela escolheu a ingratidão no momento mais crítico do Imperador Yun, e que o carma retornou para puni-la e ao Reino do Deus da Lua por suas ações. Dizem que foi uma das principais razões que levaram o Imperador Yun a escolher morte e destruição quando tomou sua vingança, o que significa que ela foi pelo menos parcialmente responsável por todos os reinos estelares e pessoas que foram destruídos…
— Pare. Pare.
Jin Yue a interrompeu e fitou a distância com cuidado, para que a irmã não visse a dor em seus olhos.
— Lembre-se disto, Wei’er. Não importa o que o mundo pense dela, ela sempre será a pessoa que mais admirei.
— Embora ela tenha mudado muito depois daquele fatídico dia, a ponto de não me permitir sequer me aproximar, ainda é a maior honra da minha vida tê-la servido.
Seus olhos tornaram-se enevoados.
— Além disso… apesar do que dizem… eu sempre tive a estranha sensação de que ela escondia algum tipo de segredo e sofrimento… de que não havia escolhido fazer o que fez porque queria…
— Mesmo agora, não consigo deixar de me perguntar se o verdadeiro motivo de ela ter me afastado… não foi para me proteger…
BOOM
De repente, um estrondo distante ecoou. Então Jin Yue sentiu uma aura aterrorizante e anormal avançando em alta velocidade.
O coração saltou à garganta. Jin Yue tentou empurrar a irmã para longe.
— Corra, Wei’er!
Rasgue!
Tarde demais.
A pessoa que ela mais temera encontrar desde aquele dia apareceu tão rápido que o próprio espaço pareceu ser momentaneamente dilacerado.
Jin Yue sentiu como se tivesse sido mergulhada em gelo. Puxou Wei’er para trás de si.
— Imperador… Yun.
Yun Che não desperdiçou palavras. Estendeu a mão e ordenou:
— Entregue-me o espelho de bronze que ela deixou.
O coração de Jin Yue afundou.
Havia algo errado no homem diante dela. Seus olhos eram como poços negros insondáveis, como sempre, mas havia algo que tremia por trás deles. Sua voz estava estranhamente rouca. Ainda assim, o tom dominador e a pressão natural eram suficientes para sufocá-la de medo.
O espelho de bronze que Xia Qingyue ordenara que destruísse era uma herança de sua mãe. Fora a primeira vez que desobedecera sua mestra, temendo que ela viesse a se arrepender. Nunca imaginara que se tornaria sua única lembrança de Xia Qingyue.
Yun Che matara Xia Qingyue… e agora levaria até mesmo sua última recordação.
Mas ela não podia negá-lo.
Wei’er estava logo atrás dela. Sua família também.
Sem poder hesitar, e incapaz de resistir, retirou lenta e dolorosamente o objeto mais precioso de sua vida.
Antes que conseguisse soltá-lo completamente, uma onda de energia profunda o arrancou de seus dedos. Quando ergueu os olhos, o espelho já estava nas mãos de Yun Che.
As lágrimas romperam imediatamente. Era como se alguém tivesse arrancado um pedaço de seu coração — ao mesmo tempo doloroso e vazio. Foi preciso toda sua força para não desabar em soluços.
O espelho de bronze era pequeno e delicado, feito de um metal considerado extremamente comum até mesmo nos reinos inferiores.
Quando o espelho finalmente estava em suas mãos, Yun Che sentiu grande alívio e excitação — apenas para serem esmagados por uma tristeza ainda maior.
Ele tinha o universo inteiro sob seus pés.
Mas Xia Qingyue possuíra apenas aquele pequeno espelho de bronze.
Ele o segurou com cuidado e virou-se de costas para Jin Yue e Wei’er, preparando-se para partir.
— Jovem Mestre Yun!
O grito embargado o alcançou.
Jin Yue estava tão desesperada que o chamou pelo antigo tratamento, e não por “Imperador Yun” ou “Mestre Diabo”.
Talvez, para ela, ele sempre tivesse sido o Jovem Mestre Yun.
— Eu… eu sei que a mestra não era digna de você, mas… mas esse é literalmente o último objeto dela em todo este mundo. Faça o que fizer, por favor… por favor não o destrua!
A força abandonou seu corpo. Ela caiu de joelhos e começou a chorar incontrolavelmente.
Por alguns instantes, Yun Che permaneceu imóvel. Então, lentamente, virou-se.
— Ela nunca… foi indigna para mim.
Em vez de brutalidade ou escuridão, sua resposta foi permeada por tristeza e dor que quase ecoavam as dela.
Jin Yue ergueu o olhar. A opressão negra de antes não estava mais em seus olhos.
— Jin Yue — disse suavemente — quase ninguém neste universo não a odeia. Todos escarnecem de suas decisões e zombam de seu fim. Você foi a única que a recordou com carinho e protegeu seu objeto mais importante até hoje.
Jin Yue sentia-se completamente perdida.
Yun Che ergueu a mão e tocou seu ombro.
Uma fumaça negra saiu silenciosamente de seu corpo.
O selo sombrio que ele implantara nela havia desaparecido.
Antes, ele a humilhara por ter servido Xia Qingyue.
Hoje…
Não sabia como expressar gratidão ou compensar seus erros passados para a única mulher que jamais perdera a fé nela.
— Sob a Cidade do Imperador Yun, o antigo Reino do Deus do Mar do Sul será reconstruído como o Reino do Deus Imperador Yun em no máximo um século. — Sua voz era solene. — Você e seu clã poderão unir-se a ele e desfrutar de cem gerações de proteção.
A visão de Jin Yue tremeu. Parecia um sonho.
— Mais uma coisa — continuou. — Nunca encontrei os Deuses da Lua e Mensageiros Divinos da Lua que desapareceram. Aposto que Qingyue os escondeu em algum lugar seguro antes de partir.
Ele respirou fundo.
— Eu os encontrarei e… não importa se levará dez mil, cem mil anos ou toda a minha vida… um dia retornarei o Reino do Deus da Lua ao Reino dos Deuses.
……
Yun Che partiu, mas Jin Yue ainda parecia em sonho.
— Irmã! Irmã!!
A voz de Wei’er a trouxe de volta.
A luz das estrelas retornou aos seus olhos. Ela abraçou Wei’er e chorou por muito tempo.
Seu choro ecoou pela margem verdejante por longos minutos. Havia chorado sozinha inúmeras vezes ao longo dos anos, mas nunca com tamanho alívio.
…………
Yun Che não deixou o Reino das Sete Estrelas. Encontrou um lugar desabitado, afastou todas as criaturas com sua aura e sentou-se.
Encostou-se a uma rocha seca e dura, segurou levemente o espelho de bronze contra o peito e fechou os olhos.
Desta vez, a voz transitória soou imediatamente quando mergulhou no mundo da alma:
— Parece que encontrou um meio adequado para realizar uma Recordação do Nada.
— A marca do nada dela já era incompleta, e a aura de nada neste objeto enfraqueceu com o tempo. A recordação não abrangerá toda a sua vida.
— Não posso prever o que irá vivenciar, mas acredito que será… suficiente.
Yun Che não respondeu. Estava completamente focado em seu desejo de saber tudo.
Um poder invisível e intangível conectou o espelho de bronze à sua alma.
A voz da mulher tornou-se distante, e o mundo cinzento desapareceu.
Uma luz intensa e uma rajada de vento o envolveram — e então um mundo incrivelmente vívido surgiu ao redor.
Sua alma se esticou como uma corda no instante em que reconheceu o cenário. Toda sua atenção convergiu para uma figura vestida de branco.
Sangue escorria de seus lábios, e seus braços estavam manchados de vermelho. Ainda assim, sua palidez não diminuía a beleza que não poderia ser retratada por tinta ou cor.
Qing… yue...
Seu grito silencioso ecoou em cada canto de sua alma.
Mesmo sendo uma ilusão vazia, ele finalmente a reencontrara.
Mas aquela Qingyue não era a Imperatriz do Deus da Lua que se tornara. Suas feições mais jovens e os olhos ainda não maculados pelo peso da realidade pertenciam a um tempo distante.
As vestes brancas que usava…
Yun Che as reconheceu imediatamente como as vestes do Palácio Imortal da Nuvem Congelada.
Traduzido por Moonlight Valley
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