Volume III
Capítulo 50: Nas profundezas de Aldur'thal (parte II)
Depois de alguns minutos de caminhada, chegaram em um local novo, bifurcado. A elfa Nessa indicou que havia pego o caminho da esquerda, e eles então decidiram que por ali deveriam passar.
Era escuro. O chão era lamacento e úmido.
O final do corredor dava para uma espécie de galeria, muito parecida com as dos andares acima, porém um pouco mais espaçosa.
A diferença era que as paredes eram cobertas por um tipo de substância viscosa e brilhante, que escorria lentamente em direção ao chão, formando pequenas poças fumegantes.
— Ácido? — Peppe observou a substância escorrer pela parede, formando poças no chão que borbulhavam suavemente. — Parece ser ácido. Tomem cuidado.
As elfas concordaram e eles então avançaram, desviando das poças e dos filetes que desciam do teto.
Peppe as seguiu, imitando cada movimento, sentindo o suor escorrer pela testa. Reparando bem, viu que Nessa estava com os olhos arregalados de medo. A matriarca parecia cada vez mais pálida.
Foi quando o chão tremeu.
Uma das paredes se abriu, e de dentro dela emergiu uma criatura, maior que as anteriores, com corpo de pedra e metal, e olhos que brilhavam com uma luz vermelha e pulsante.
Parecia um robô gigante.
As mãos dele terminavam em garras afiadas, cobertas pela mesma substância ácida que escorria das paredes. Sua boca era cheia de dentes serrilhados e uma baba viscosa escorria de seus lábios, queimando o chão onde caía.
"Perigoso" seria a palavra para descrever aquilo. Muito perigoso.
— Puta merda...
A criatura robótica avançou.
Peppe não esperou.
Girou em um meia-lua de compasso, já com a espada visando a articulação do joelho.
Shiiiiiin!
O golpe acertou, mas não penetrou, apenas arranhou a superfície da pele de metal, criando faíscas.
— Mais força! — gritou Lúrien, atacando com sua lança.
Ela acertou o peito do corruptor, e a criatura recuou um passo, surpresa, mas não caiu. Força bruta não era o suficiente para derrubá-la.
Seus olhos vermelhos piscaram, e ela contra-atacou com um golpe de garra que Peppe mal teve tempo de desviar.
Pah! Booom!
O golpe pegou na parede, fazendo tudo naquela área virar pó.
Peppe fechou os olhos, concentrando-se. A mana ao redor era densa, cheia de partículas mágicas. Aquilo era um sinal de que talvez estivessem mais perto da anomalia.
"Que peculiar", pensou. "Bom, isso meu deu uma ideia interessante".
— Você conjurou isso sem um encantamento... — começou Lúrien, vendo a pequena bola de fogo condensada se formar na mão livre do rapaz.
Era sua magia trunfo, uma poderosa bola de fogo, que ele manteve ela na mão livre, enquanto avançava com a espada em punho.
O corruptor tentou bloqueá-lo com o braço, já virando o outro braço com as garras ácidas para neutralizá-lo.
Por sorte, ele desviou.
Aterrizou e deu um salto, com a espada em punho. A arma cortou o metal, arranhando-o.
O objetivo do rapaz não era causar dano, não com a espada. Ele queria alcançar a retaguarda do inimigo.
Ácido caiu no lugar em que tinha pousado instantes antes, derretendo tudo.
Mas Peppe não teve tempo para ficar aterrorizado. Deslizou de novo, com a bola de fogo ainda em punho e preparada.
Ele parou, respirou fundo e mirou. E assim que o fez, uma grande convulsão de fogo surgiu, aquecendo a criatura pelo plexo solar.
A bola de fogo condensada era quente o suficiente para derreter bronze. O contato direto causou dano imediato à criatura metálica.
— Agora! — gritou Peppe, pulando para se afastar.
Lúrien atacou com a lança, mirando o peito do grande robô. A ponta penetrou a carne de pedra e metal, e a criatura começou a tremer, seus olhos vermelhos piscando freneticamente.
— Sabia! — gritou Peppe, eufórico.
O peito da criatura ardia em um tom de vermelho que indicava metal perto de alcançar o ponto de fusão.
Ao aquecer o peito da criatura metálica, ficaria mais fácil para a matriarca elfa transpassá-lo com a lança.
Foi então que algo inimaginável aconteceu. A criatura gritou, como se realmente fosse um ser vivo, demonstrando que sentia dor.
— Gyaaaaaaaa!
Foi aí que perceberam: aquilo não era um robô.
— É só uma armadura... — comentou Nessa, incrédula, escondida atrás de Lúrien.
A criatura caiu de joelhos, depois de bruços, seus olhos se apagando lentamente. O ácido em suas garras começou a derreter o chão ao redor, mas a ameaça havia passado.
O silêncio retornou.
Peppe ofegava levemente, com a espada ainda erguida. Resquícios de chama repousavam no peito da criatura que estava caída atrás de si, criando uma atmosfera épica.
— Você está bem? — perguntou Lúrien, aproximando-se.
— Estou. Vamos.
***
Desceram outra vez. As escadas eram íngremes, escuras, e o ar cheirava a sangue e ferro.
As paredes estavam cobertas de marcas de garras, marcas recentes, profundas, como se algo enorme tivesse passado por ali não há muito tempo.
No final, uma câmara.
Thalia e Iris estavam encostadas na parede, com os rostos pálidos. Thalia tinha uma aparência melhor e segurava o braço esquerdo, que pendia num ângulo estranho, claramente deslocado. Iris, de outro lado, tinha um corte profundo no ventre, e o sangue escorria por todo o corpo. Ela estava a ponto de desmaiar.
— Matriarca! — exclamou Thalia, tentando se levantar.
— Fiquem quietas — ordenou Lúrien, ajoelhando-se ao lado delas. — Deixem-me ver.
Ela examinou os ferimentos com mãos trêmulas, mas firmes.
— Thalia, seu braço está deslocado. Nessa, me ajude. Vamos recolocá-lo — avisou para a subordinada, virando-se agora para a elfa caída. — Vai doer.
— Estou pronta.
Lúrien puxou o braço com um movimento seco, e Thalia gemeu, mas não gritou. Seus dentes rangiam, e suas unhas cavaram sulcos na pedra do chão.
— Iris, você está... Precisamos estancar o sangramento.
Nessa se aproximou, abrindo sua bolsa de ervas.
— Q-quando eu saí você não estava...
— Aquelas coisas nos atacaram, Iris me salvou — disse Thalia, apontando para três criaturas grandes e metálicas, muito similares ao robô com garras ácidas que Peppe matou há pouco.
"Ela matou três daquelas coisas sozinha?!", questinou-se o rapaz, surpreso pela força da elfa.
— Eu cuido dela, Matriarca.
Peppe se aproximou, sua expressão séria.
Embora não entendesse muito de anatomia élfica, nem de medicina, dava pra ver que Iris tinha perdido muito sangue. Para o azar dela, ele não sabia muitos feitiços da escola da Restauração. A arte da cura não era algo que conseguisse obter na Loja da Ganância, portanto estava quase que de mãos atadas.
Para ajudar a estancar o ferimento, conjurou um feitiço de cura menor, enquanto Nessa preparava uma espécie de poção.
— Droga! Praticamente não adiantou — comentou, com as mãos acima do ventre da elfa. — Não é a melhor das alternativas, mas sem Elara aqui, acho que só tem um jeito de estancar esse negócio.
— Que jeito? — questionou Lúrien.
Peppe respondeu conjurando um pequeno lampejo de fogo.
— Cauterização. Ela tá perdendo muito sangue. Desse jeito, vai morrer em minutos.
Iris encarou com angústia.
— Vocês não sabem nenhum feitiço de cura?
Elas responderam que não.
Apesar de possuírem armamentos encantados e corpos extremamente fortes, elfos da floresta, no geral, não tinham nem aptidão, nem interesse pelo conhecimento arcano. Algo cultural, provavelmente por conta dos Construtores, que lhes passaram esse tabu.
"Mas que caralho", refletiu, antes de falar: — Bom, não tem o que fazer então. Nessa, o que esse negócio aí faz?
A elfa, ainda no canto, não parou de mexer em suas ervas, misturando-as em dois vasilhames diferentes, enquanto respondia:
— Isso é uma poção de estamina. Vai acelerar os batimentos dela e forçar o sangue a circular. — disse, apontando para o primeiro frasco. — E isso aqui é uma poção de vigor, pra ajudar ela a se recuperar um pouco até conseguirmos levá-la pro curandeiro.
Peppe achou aquilo peculiar. Por conta de seu conhecimento alquímico intermediário, ele sabia uma gama de poções, conhecia muitas ervas e substâncias medicinais, e conseguia produzir muitas poções. Infelizmente, nunca pensou em trazer consigo um punhado delas, como Nessa fez.
"Caralho, eu sou muito burro", refletiu. "Aquilo ali é uma erva-linim... Lumus-azul e água tratada. Se ela tivesse um pouco de erva-adocicada do vale, um pouco de carvão e... Espera! É isso"
No instante seguinte, o fogo tinha se apagado.
— Nessa, não dê isso pra ela ainda! Deixa eu ver tudo o que você tem — instruiu.
Lúrien franziu o cenho ao canto. Nessa olhou com curiosidade.
— Você tem conhecimento em herbologia?
— Não, mas manjo um pouco de alquimia. Deixa eu ver... — disse, jogando os saquinhos da elfa no chão. — Isso aqui... Isso aqui também. Hummm... Mistura isso aqui e isso aí também. Me dá esse frasco.
Ao pegar os vasilhames, começou a fazer modificações na poção, em ambas. Depois as misturou em um terceiro pote. Depois acendeu de volta a pequena brasa sob suas palmas.
— Você vai...
— Sim.
— Mas se esquentar, a erva-linim vai perder suas propriedades!
— Exato. E é isso mesmo o que eu quero.
Nessa ficou em choque, porém viu que a matriarca não disse nada e continuou olhando, quieta, sem questionar.
Fumaça verde saiu, depois algumas outras medicinas foram misturadas, fazendo a cor ficar azul, e depois roxa. Até que a poção se estabilizou em um ciano profundo, muito bonito.
Por fim, ele fez algo que as elfas não esperavam.
Como se estivesse entoando um feitiço, ele colocou as duas mãos sobre o frasco. Porém não fez nada. Em instantes, a concentração de partículas mágicas quase que dobrou naquele lugar. Estavam sendo forçadas na porção.
— É isso. Dê pra ela.
— O que é isso?
— É uma poção restaurativa. Não tem um nome ainda, mas deve ajudar.
As elfas o encararam com um pouco de desconfiança, até que Nessa cheirou o pote e um brilho tomou conta de seus olhos.
— Isso é... incrível.
Iris pegou o vasilhame. A tontura tomou conta de si. De fato, já tinha perdido muito sangue, estava fraca.
Ela bebericou a poção. Em seguida deu outra golada. Por fim, forçou-se a engolir tudo.
— E então? — Agora, a elfa Thalia questionou, angustiada pela dor da companheira de lança.
Em questão de segundos, o sangue parou de sair. Iris ainda estava tonta, porém percebeu que sua visão ficou melhor. Ela teve um "boom" de energia repentina também.
— Mova-se devagar, ainda deve tar doendo pra caralho esse negócio aí — disse, parando os movimentos da elfa com as mãos. — Daqui uns 10 minutos podemos ir. Se voltar a sangrar, vou ter que cauterizar isso daí, então evite movimentos bruscos.
Ela concordou, permanecendo no lugar.
Lúrien estudou-os por um longo momento, seus olhos âmbar brilhando com uma mistura de preocupação e orgulho.
— Por que faz isso?
— Como assim? — Peppe olhou confuso, sem entender a pergunta.
— Por que arrisca sua vida por elfos que nem são do seu povo?
Ele pensou na pergunta. Pensou em Sara, em Lux, em Floquinho. Pensou na fuga do forte, na aventura, na Academia e na conspiração e em tudo o que faria a partir dali.
— Porque é o certo — respondeu, finalmente. — Porque não gosto de ver gente morrendo quando posso evitar. Porque... — ele hesitou — Bom, somos amigos, não?
A Matriarca não disse nada, mas aliviou a expressão em sua tez. Ela quase deu um sorriso sincero, que logo foi parado pelas próximas palavras do rapaz.
— Além disso... pô! É do caralho salvar a vida de uma gostosa, ainda mais uma elfa, com todo o respeito — afirmou, encarando Iris nos olhos.
Ela corou.
Alguns minutos depois, o grupo saiu dali. Duas elfas debilitadas, uma parcialmente ferida, uma não-combatente e um humano com alguns trunfos. Se enfrentassem uma horda daqueles robôs com garras ácidas, estariam muito encrencados.
E, como uma piada do destino, quando saíram daquela sala, algumas dúzias de pares de olhos vermelhos os encararam, famintos.
— Finalmente, carne fresca. Kekekeke...
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