Volume III
Capítulo 49: Nas profundezas de Aldur'thal (parte I)
— Elara!
A escuridão era espessa, quase sólida, como se o próprio ar tivesse se transformado em um líquido viscoso que entrava pelos pulmões e pesava os membros. Respirar era difícil; mover-se, quase impossível.
Peppe caiu por um longo tempo, ou talvez apenas por alguns segundos. O tempo não fazia sentido ali.
Quando o impacto veio, foi brutal.
Ele atingiu o chão de pedra, rolou por uma rampa íngreme, e parou num corredor estreito e úmido. Dor instantaneamente começou a tomar conta de si.
Só então conseguiu recuperar os sentidos.
O ar cheirava a mofo, no chão, sentia a terra molhada atravessando suas vestes, e a algo mais um odor metálico e doce que ele reconheceu como sangue seco.
— Caralho... — gemeu, tentando se levantar.
O ombro esquerdo doía. Não parecia deslocado, mas a contusão era profunda. Ele apalpou a área com a mão direita, sentindo o calor da inflamação sob a pele.
"Me fodi", pensou. "Me fodi pra caralho. Mas que merda!"
Puxou a espada da bainha e usou a lâmina como apoio para se erguer.
As pernas tremiam, mas aguentaram o peso. Ele ergueu a mão livre e conjurou o mais básico feitiço da escola da Restauração. Um dos únicos que sabia.
— Curatio minores.
Como não tinha nada na Loja da Ganância relativo à Restauração, ele precisava entoar o feitiço arcano, concentrando-se para mover as partículas mágicas para o local que ele queria estancar.
O local da contusão estava roxo, claramente deslocado. Em pouco tempo, uma luz branca translúcida apareceu sobre o local. Era o feitiço agindo.
Alguns minutos depois, e ele pelo menos já conseguia mover o membro novamente.
— Ainda tá uma merda, mas dá pro gasto — murmurou. — Preciso achar Elara.
Em seguida, lançou um novo feitiço, mas dessa vez sem precisar conjurar.
No mesmo instante, uma pequena chama se formou. Era fraca, instável, mas suficiente para iluminar alguns metros ao redor.
O corredor era antigo. As paredes eram feitas de blocos de pedra irregulares, cobertos por musgos que brilhavam fracamente com uma luz verde e fosforescente. O chão era de terra batida, úmida e pegajosa, e gotículas de água pingavam do teto em intervalos regulares, criando um eco que se perdia na escuridão.
— Elara — chamou, sua voz ecoando. — Elara!
Silêncio.
— Matriarca Lúrien? Nessa? Ailyn?
Nada.
Peppe fechou os olhos por um momento, concentrando-se. Precisava de calma. Precisava pensar. O pânico era um luxo que não podia pagar.
"Vou seguir em frente então", decidiu. "Uma hora encontro alguém. Tsc! Que dor filha da puta, minha nossa!"
Ajeitou o ombro e começou a caminhar.
***
O corredor serpenteava para baixo, sempre para baixo, como se aquele túnel não tivesse fim. Peppe caminhou por minutos que pareceram horas, a chama bruxuleante em sua mão sendo a única companhia. O silêncio era opressivo, como se fosse o silêncio da própria morte.
Ali, cada gota d'água ecoava como um grito.
Foi então que ouviu.
Não era um som ameaçador. Era uma respiração ofegante, irregular, como o murmúrio de alguém que estava ferido e exausto.
— Quem está aí? — chamou, erguendo a espada com a outra mão.
— Príncipe Petrus... — a voz era fraca, mas reconhecível. — Graças aos deuses.
Ele correu na direção do som. A luz da chama revelou uma figura encostada na parede, sua armadura de couro rachada e tiras de metal com rasgos, o rosto pálido.
Era Lúrien.
A Matriarca estava pior do que antes. Seus olhos âmbar estavam opacos, as pupilas dilatadas. As mãos tremiam visivelmente, e sua respiração era superficial, como se cada inspiração exigisse um esforço sobre-humano. Ou, nesse caso, sobre-élfico.
— Matriarca! — Peppe ajoelhou-se ao lado dela, sua mão procurando ferimentos. — O que aconteceu?
— A queda foi longa... — ela tossiu seco. — Achou que estou velha. Velha demais para essas aventuras.
O olhar de Lúrien se arregalou por um momento, depois se acalmou.
— Precisamos sair daqui.
Peppe a ajudou a se levantar, sentindo o peso dela sobre seus ombros, principalmente no que estava lesionado. Lúrien era mais leve do que ele imaginava, ou talvez estivesse definhando mais rápido do que aparentava.
— Consegue andar?
— Consigo. — Ela se afastou dele, apoiando-se na parede. — Não preciso ser carregada por uma criança.
Peppe conteve um sorriso. Mesmo doente, exausta, e perdida nas profundezas de uma masmorra ancestral, a Matriarca mantinha sua dignidade. Isso era admirável, ou teimoso. Talvez os dois.
— Vamos — disse ele, apontando para o fim do corredor. — Temos que encontrar os outros.
Caminharam em silêncio por alguns minutos.
O corredor se alargou gradualmente, até se abrir numa câmara ampla, com teto alto e pontiagudo, coberto por estalactites que pareciam dentes de uma besta gigante.
O chão era ainda mais escorregadio, coberto por uma substância viscosa e brilhante, e o ar cheirava a enxofre e podridão.
— Não gosto disso — murmurou Peppe.
— Nem eu — concordou Lúrien, segurando a lança erguida com esforço visível.
As estalactites começaram a se mover.
Não foi um movimento brusco, e sim uma abertura. Elas se desprenderam do teto, uma a uma, caindo no chão com estrondos que ecoavam pela câmara.
Pah!
Olhando de perto, quando a poeira abaixou, deu pra notar que não eram apenas blocos de pedras comuns.
Eram criaturas, seres de pedra viva, com corpos alongados e membros finos, e olhos que brilhavam com uma luz azul e fria.
— Mas que porra é essa?!
— Devem ser constructos, mas esses não são de metal... Que curioso. Os Construtores realmente impressionam esta matriarca cada vez mais.
Peppe sacou a espada, colocando-se ao lado de Lúrien.
— Quantos?
— Muitos, pelo visto.
Ele não esperou. Avançou em direção ao primeiro, com a espada traçando um arco rápido.
A lâmina encontrou o corpo de pedra da criatura, rachando sua superfície.
Ela emitiu um som agudo, estridente, e se desfez em pó.
— Até que não é tão difícil assim matar essas coisas — comentou, encarando a espada.
— Fique atento! Eles são fracos, porém numerosos. Um deslise e morreremos.
Os outros avançaram.
A batalha foi curta, mas intensa.
Peppe lutou com uma ferocidade que surpreendia até mesmo Lúrien. Os movimentos estranhos que fazia se adaptava bem ao terreno escorregadio. Ele rolava, girava, usava a força dos inimigos contra eles mesmos.
Acada golpe, um constructo caía, com seus pedaços se espalhando pelo chão.
Lúrien, mesmo doente e fraca, lutava com a técnica a seu favor.
Sua lança não errava um golpe. Mas Peppe notou como ela respirava com mais dificuldade após cada movimento, como suas mãos tremiam mais intensamente quando baixava a guarda.
— Matriarca — chamou, enquanto decapitava o último constructo. — Pega mais leve. Pode deixar que eu dou um cacete nessas criaturas.
— Não posso. — Ela apoiou a lança no chão, recuperando o fôlego. — Se eu pegar mais leve, você morre.
— Eu não vou morrer.
— Não seja teimoso.
— Estou sendo realista.
Ela o encarou, uma centelha do antigo fogo brilhando em seus olhos opacos. Algo em seu olhar demonstrava que ela sabia mais do que falava, mas escondia o jogo.
— Precisamos ter cautela. Tenho a impressão de quanto mais fundo formos, piores serão os adversários.
— Isso faz sentido. Devem estar guardando alguma coisa importante, que deve ter a ver com a anomalia — disse, antes de limpar a espada na própria túnica. — Vamos.
***
No final daquele amontoado de pedras, encontraram uma nova entrada. Mas, diferente de antes, ali haviam escadas.
Elas eram estreitas, esculpidas na rocha viva, e os degraus eram tão altos que pareciam feitos para pernas mais longas que as humanas.
Peppe sentia os músculos das coxas queimarem, mas não reclamou. Lúrien, ao seu lado, respirava com dificuldade.
A cada degrau, ela parecia encolher um pouco mais. Seus ombros, antes eretos, agora estavam curvados. Sua pele, antes brilhante, agora parecia opaca. O rapaz observava tudo em silêncio, guardando cada detalhe para relatar a Elara, ou a Nessa, quando as encontrassem.
— Matriarca — disse ele, parando no meio da escada. — Sério mesmo, você precisa descansar.
— Não posso.
— Pode. Vamos descansar.
Ele a ajudou a sentar num degrau mais largo, e sentou-se ao lado dela. O silêncio retornou, mas agora era mais suportável.
— Conte-me sobre os Construtores — pediu Peppe, para distraí-la.
— O que quer saber?
— Bom, acho que gostaria de começar por de onde vieram, por que construíram essas coisas, por que desapareceram...
Lúrien suspirou, seus olhos perdidos na escuridão do teto.
— Vieram de outro lugar. Outro plano, talvez. Ou outro tempo. Ninguém sabe ao certo. Eram antigos. Mais sábios. Mais perigosos. — Ela fez uma pausa, tossindo levemente. — Construíram muitas coisas. Cidades, templos, armas. Coisas que não deveriam ter sido construídas.
— Como essas ruínas?
— Provavelmente.
— E por que desapareceram?
— Porque suas criações se voltaram contra eles. Ou ao menos é isso que contam os relatos — A voz de Lúrien era um sussurro. — Guerras. Epidemias. Algo que os consumiu de dentro para fora. Quando meus antepassados chegaram, séculos depois, só encontraram ruínas. E segredos. Os poucos sobreviventes restantes se casaram com minha raça, mas se negaram a ensinar qualquer coisa relativa às suas criações.
— Segredos como este lugar?
Ela fez que sim.
O silêncio retornou, mas foi quebrado por um som vindo de baixo, eram passos, arrastados e lentos, acompanhados por uma respiração ofegante.
— Alguém vem — disse Peppe, erguendo a espada.
— Pode ser um dos nossos.
Eles esperaram, tensos. A figura que emergiu da escuridão não era ameaçadora. Era pequena, magra, com cabelos curtos e escuros e olhos verdes brilhando com lágrimas acumuladas.
— Nessa! — exclamou Peppe, baixando a espada.
A herbalista correu em direção a eles com braços abertos e se jogou nos braços de Lúrien, soluçando.
— Matriarca! Príncipe! Ainda bem — Ela apertou a líder contra o peito, como se temesse que ela desaparecesse a qualquer momento. — Fiquei sozinha por horas. Achei que nunca mais encontraria ninguém.
— Você tá bem? — Peppe franziu o cenho.
Nessa se acalmou, secando as lágrimas com as costas das mãos. Suas roupas estavam rasgadas em vários lugares, e havia um arranhão profundo em seu braço esquerdo, mas nada grave.
— Encontrei Thalia e Iris no caminho — disse, sua voz ainda trêmula. — Estão vivas, mas feridas. Pediram para eu seguir em frente, encontrar ajuda.
— Onde elas estão?
— Perto daqui, numa câmara cheia de armadilhas. Não consegui passar sozinha.
Lúrien fechou os olhos por um momento, concentrando-se.
— Vamos até elas. Mas antes, precisamos encontrar os outros. Aylin, Sera, Lyra, a princesa humana e o mago do Congresso.
— O Executor Marcus? — Nessa hesitou, seus olhos verdes brilhando com uma ponta de desconfiança. — Eu... eu vi ele. No nível anterior. Ele estava correndo na direção contrária.
— Correndo para onde?
— Eu não sei. Ele foi muito rápido. Parecia... apressado.
Peppe e Lúrien trocaram olhares.
— Ele está fugindo?
— Ou indo buscar ajuda — ponderou a Matriarca, mas sua voz não carregava convicção.
Eles se encararam por um momento, deixando o assunto de lado. Qualquer fosse a razão, poderiam perguntá-lo quando encontrassem o restante do grupo.
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