Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 48: Expedição nas Ruínas de Aldur'thal (parte III)

— Que bicho mais filha da puta, em...

Ainda no fundo da câmara, a batalha contra a grande gárgula tomava rumos imprevisíveis. 

As elfas lutavam bravamente, com suas lanças encantadas espetando, cortando e perfurando o ser místico. O grande problema era que os golpes pareciam muito pouco efetivos. 

— Cuidado! — avisou a guerreira na vanguarda. 

Pah!

A gárgula desceu a grande mão rochosa sob Aylin, que com muito esforço conseguiu desviar. 

— Os olhos dela, afastem-se!

Foi o tempo de o aviso entrar pelos ouvidos, Peppe e Lúrien pularam para a lateral. Instantes depois, o raio vermelho, parecido com um laser, atingiu o lugar que estavam. Poeira para todo o lado. 

Uma pequena cratera se formou. 

— Matriarca! —  gritaram as elfas. 

— Eu estou bem. — respondeu, levantando-se com certa dificuldade. — Mas precisamos encontrar alguma abertura, um ponto fraco, se quisermos neutralizar essa criatura.

A gárgula rugiu novamente, um som que parecia vir das profundezas da terra.

Suas asas de pedra se abriram, cobrindo quase toda a largura da câmara. A criatura era colossal, com pelo menos quatro metros de altura, membros grossos como troncos de árvore e uma cauda que se movia como um chicote, estilhaçando as colunas de pedra ao redor.

Pah! Blooom!

— Ela está se preparando para outro ataque! — gritou Aylin, recuando para trás de um dos pilares.

— Não deixem que ela concentre energia — ordenou Lúrien, sua lança brilhando com uma luz verde intensa. — Ataquem em formação de onda!

As guerreiras elfas se reposicionaram, formando um semicírculo ao redor da criatura. Duas elfas guerreiras avançaram juntas, suas lanças brilhando com runas azuis, enquanto Aylin flanqueava pela esquerda, com a lança também erguida.

Peppe observava do centro, sua respiração controlada. Até o momento ele evitou o combate, limitando-se a observar e a desviar dos golpes. 

Eventualmente, ele dava algum suporte, embora fosse péssimo com magia de Restauração.

A capoeira que ele aprendera na Terra, misturada com os reflexos aprimorados daquele corpo místico, era sua maior vantagem naquela ocasião.

As elfas eram guerreiras formidáveis, mas seus movimentos eram lineares, previsíveis. Para vencer, eles precisavam de algo diferente. Algo que a gárgula não esperasse.

Foi então que resolveu: ele iria agir. 

— Elara! — chamou, sem tirar os olhos da criatura. — Você consegue criar uma distração? Preciso de luz brilhante.

— Consigo — respondeu a princesa, já desenhando runas no ar. — Mas vou precisar de alguns segundos. E vou ficar vulnerável.

— Marcus cobre ela. — Peppe olhou para o executor. — Pode fazer isso?

Marcus tocou a insígnia no peito, seu gesto automático.

— Posso. Mas vou gastar mana.

— Gaste. Vai valer a pena.

O executor assentiu, posicionando-se diante de Elara com a espada erguida. Uma barreira translúcida começou a se formar ao redor dos dois, brilhando com uma luz prateada.

— Agora! — gritou Peppe.

Elara completou a runa, e uma explosão de luz branca ofuscante preencheu a câmara. A gárgula rugiu, seus olhos vermelhos se contraindo, e ela recuou um passo, suas mãos enormes erguidas para proteger o rosto.

— Aproveitem! — gritou Lúrien, avançando.

As guerreiras elfos atacaram em sincronia. Lanças e espadas encontraram a carne de pedra da criatura, abrindo rachaduras em suas pernas e braços. 

Mas a gárgula não caiu. Mesmo cega, ela lutava com uma ferocidade cega, seus golpes selvagens varrendo o espaço ao redor.

— Não está funcionando! — gritou Aylin, recuando para evitar um golpe da cauda. — A casca dela é grossa demais!

Peppe observava, seus olhos percorrendo o corpo da criatura em busca de algo, qualquer coisa, que pudesse ser um ponto fraco. As juntas, talvez? 

Ela tinha os olhos já protegidos pelas mãos. Porém a garganta ficava exposta quando ela rugia.

"A garganta! Isso mesmo!", pensou. "Quando essa filha da puta rugir de novo..."

— Matriarca! — chamou, correndo em sua direção. — Quando ela abrir a boca para rugir, consegue acertar a garganta dela com sua lança? Mas precisa ser bem no centro. 

Lúrien franziu o cenho.

— É um alvo pequeno. E ela se move rápido.

— Não precisa acertar com a lança. Vê se consegue canalizar mana através dela. Criar um projétil.

A Matriarca hesitou por um momento, depois assentiu.

— Consigo. Mas vou precisar de tempo para concentrar.

— Vou te dar tempo.

Peppe se virou e correu em direção à gárgula. As guerreiras elfos o viram e recuaram, abrindo espaço.

— Príncipe, o que você está fazendo? — gritou Aylin.

— Criando uma brecha.

Ele não esperou resposta. Seu corpo se moveu em um ginga baixo, desviando de um golpe do braço da criatura. 

A capoeira não era uma dança de guerra convencional, era fluida, enganosa, feita para confundir. 

Peppe girou, desviando do primeiro golpes. Depois caiu, rolou e pulou para escapar da cauda. 

Pah! Boooom!

Mais um pilar caiu. Pedaços de pedra e poeira surgiram do teto. Mas ele escapou. 

Naquele momento, estava atrás da gárgula, preparando-se para dar um grande pulo. 

— Aqui! — gritou, batendo a mão no chão.

A criatura se virou, com os olhos vermelhos brilhando com fúria. Ela avançou. Suas mãos enormes estavam prestes a esmagá-lo.

Peppe esperou até o último momento. Então, com um movimento brusco, ele fingiu pular, porém no final rolou para frente, passando entre as pernas da gárgula.

— Agora, Matriarca!

Lúrien ergueu a lança. Runas brilharam ao longo do cabo, e um feixe de luz verde e intensa disparou em direção à garganta da criatura. O impacto foi preciso, a luz penetrou a carne de pedra, e a gárgula rugiu de dor.

Sangue negro escorreu de sua garganta, e seus movimentos se tornaram erráticos, descoordenados.

— Ela está enfraquecendo! 

— Ataquem agora! — ordenou Aylin.

As guerreiras elfos avançaram com renovada ferocidade. 

Lyra, uma das guerreiras, acertou a articulação do joelho da criatura, e Sera, a outra, cortou profundamente seu braço direito. A gárgula tentou contra-atacar, mas seus golpes eram lentos e previsíveis.

Marcus, vendo a oportunidade, dispensou a barreira e ergueu a espada. Runas brilharam ao longo da lâmina, e um raio de energia pura disparou em direção ao peito da criatura. O impacto foi devastador.

A gárgula cambaleou, suas pernas finalmente cedendo.

Caiu de joelhos.

— Príncipe! — chamou Lúrien. — O golpe final é seu!

Peppe não hesitou. Correu em direção à criatura, sua espada brilhando com uma luz vermelha, vibrante como o fogo. 

Saltou sobre o ombro da gárgula, girou no ar, e desferiu um golpe descendente em sua cabeça.

A lâmina penetrou o crânio de pedra como se fosse argila.

A gárgula congelou. Seus olhos vermelhos piscaram uma última vez. Depois, se apagaram.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

Peppe caiu no chão, ofegante, sua espada ainda cravada na cabeça da criatura. As guerreiras elfos se aproximaram cautelosamente, com as armas ainda erguidas.

— Ela está morta — disse Aylin, após examinar o corpo. — Realmente morta.

— Graças aos deuses.

Lúrien se aproximou de Peppe, sua expressão cansada, mas com um brilho de respeito nos olhos.

— Foi um golpe ousado, príncipe Petrus. E perigoso.

— Funcionou.

— Sim, funcionou — Ela estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. — Você é mais do que parece. Está matriarca está surpresa.

Elara correu até ele, seus olhos percorrendo seu corpo em busca de ferimentos.

— Está sangrando!

— Estou? — Peppe olhou para o próprio braço, onde um corte superficial vazava sangue. — Não é nada. Apenas um arranhão.

— Vou curar.

Ela colocou as mãos sobre o ferimento, e uma luz suave e dourada envolveu sua pele. Peppe sentiu a dor diminuir, substituída por uma sensação de formigamento.

— Você é boa mesmo — disse, surpreso.

Ela assentiu, dando uma breve risada à medida que a ferida se fechava.

Silencio voltou a tomar conta do lugar.

— Vamos! Quero ver esse altar que vocês encontraram — disse Lúrien. 

Nessa avançou, liderando o grupo. 

***

Quando chegaram na sala dos sacrifícios, o grupo pôde ver o grande altar de pedras no centro, com as inscrições que Peppe, Elara e Marcus encontraram no dia anterior. 

O ar era pesado, carregado de uma energia que fazia os pelos dos braços se arrepiarem. Peppe sentiu o peso daquela sala nos ombros, uma pressão invisível que parecia querer empurrá-lo para baixo.

— É aqui — disse a elfa Nessa, sua voz ecoando estranhamente nas paredes de pedra. — O centro de compleixão da anomalia.

— O que fazemos agora? — perguntou Aylin.

— Investigamos. Descobrimos o que está mantendo o selo ativo. E então decidimos se destruímos ou reforçamos.

Marcus se aproximou do altar, seus olhos percorrendo as runas com uma intensidade estranha. O executor tocou a superfície da pedra, e uma faísca vermelha saltou de seus dedos.

— Isso é antigo — murmurou. — Muito antigo. Mais antigo do que qualquer coisa que já vi.

— Os Construtores eram assim — respondeu Lúrien, aproximando-se também. — Eles gostavam de misturar magia com outras coisas.

— Que outras coisas? — perguntou Peppe.

— Quem sabe... — A palavra saiu da boca da Matriarca como um sussurro. — Diziam os anciãos de minha mãe que eles usavam força vital como combustível.

Ela deu de ombros, forçando naturalidade. 

Peppe pensou em si mesmo e no seu pacto com o espírito da ganância, nas almas que coletava para Gal Floquinho. Era estranho ouvir aquilo de outra pessoa, como se o universo estivesse mostrando a ele um espelho distorcido de sua própria existência. Mas o que diabos era essa força vital? Seria algo parecido com as almas que coletava?

Muitas dúvidas inundaram-lhe a mente. 

— Como descobrimos o que está mantendo o selo ativo? — questionou Elara.

— Vamos precisamos ativar o altar, eu acho — respondeu Lúrien, como quem tinha algum tipo de entendimento oculto sobre as ruínas. — Fazer com que ele revele sua estrutura interna. As runas devem nos mostrar onde está o ponto fraco.

— Isso faz sentido, mas como ativamos?

— Com sangue — respondeu Peppe, quebrando o diálogo. 

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Como assim? — questionou Lúrien. 

O rapaz então apontou para as inscrições na língua dos construtores, abaixo do altar. 

— Está escrito que: "O sangue aventureiro permeia as descobertas". Então eu acredito que tenha a ver com sangue — respondeu, traduzindo com o conhecimento que adquiriu da Loja da Ganância. — Vamos tentar. No máximo, essa caceta não vai mudar nada. 

Todo o grupo encarou um tanto como ressabiado, com olhares de desconfiança. Porém Lúrien deu a ordem: 

— Que assim seja. Aylin! Ceda um pouco de seu sangue para o altar. 

A guerreira prontamente assentiu, retirando uma espécie de adaga da cinta. Contudo foi parada por Peppe. 

— Não faça isso, você não — disse, interrompendo o movimento com a mão. — De alguém que não seja élfico. O selo foi feito para reconhecer apenas a essência dos que não são Construtores. Sangue humano deve funcionar.

— Por que não pode ser élfico? — questionou Aylin, sua mão ainda no cabo da adaga.

— Porque os elfos são descendentes dos Construtores e "sangue aventureiro" dá a entender que precisa ser de alguém de fora, um "aventureiro". 

— Hummm...

— Você por acaso já viu alguém se aventurar dentro da própria casa, Aylin? — Ele sorriu, arrancando um leve rubor do rosto da elfa. 

Peppe olhou para seus próprios braços, para as veias que percorriam sua pele.

— Algumas gotas devem bastar. 

Ele se aproximou do altar, tirou a adaga das mãos de Aylin e fez um pequeno corte no dedo. O sangue escorreu, vermelho e brilhante, e caiu sobre as runas gravadas na pedra.

Por um momento, nada aconteceu.

Depois, as runas começaram a brilhar.

Não era a luz vermelha e doentia de antes. Era uma luz dourada, intensa, que se espalhava pelas paredes da sala como fogo líquido. 

O chão tremeu, e as pedras ao redor começaram a se mover, não como se estivessem desmoronando, mas como se estivessem se reorganizando.

— O que está acontecendo?

— O altar está ativando! — respondeu Peppe. — Afastem-se!

Ele tentou recuar também, mas seus pés não se moviam. Era como se algo estivesse segurando seus tornozelos, prendendo-o no lugar.

— Não consigo me mexer!

— Pette! — Elara correu em sua direção, mas uma parede de pedra se ergueu entre eles, bloqueando seu caminho.

— Elara!

Outra parede se ergueu, e outra, até que a sala foi dividida em seções. 

Em questão de segundos, cada um deles se viu preso entre quatro paredes apertadas de pedra e calcário. E mais...

Buracos se abriram no chão.

Do altar, Peppe viu Lúrien ser separada de Aylin, viu Marcus desaparecer atrás de uma cortina de pedra, e viu as guerreiras elfas tentando se reunir sem sucesso.

E então, tudo ficou escuro. E ele também foi sugado pelo solo. 

"Uma armadilha", concluiu. "Mas que caralho!"

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