Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 47: Expedição nas Ruínas de Aldur'thal (parte II)

No dia seguinte, antes da expedição, Peppe teve um de seus primeiros contatos reais com a cultura élfica.

Interessado após ouvir de Elara o quão bom era o banho élfico, ele se dirigiu até o Salão das Águas, uma espécie de termas. Lá, descobriu algo curioso.

Os banhos quentes eram compartilhados. Não havia separação entre homens e mulheres, fato que ele descobriu ao entrar na câmara de vapor e encontrar Nessa, a elfa herbalista, e Aylin, uma das guardas da raina, além de outras duas outras guerreiras elfas, todas nuas, conversando como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Ele congelou na entrada.

— Príncipe! — Nessa sorriu, um gesto que mostrava dentes perfeitos e olhos verdes brilhando com malícia. — Não seja tímido. A água está boa.

— Eu... — Peppe sentiu o rosto esquentar. — Acho que vou voltar depois.

— Não vai. — Aylin se levantou, a água escorrendo por sua pele morena, e caminhou em sua direção. — Os banhos são para todos. É tradição. Recusar seria uma ofensa.

Ela estendeu a mão, e Peppe, sem saber o que fazer, mas com um sorriso enorme no rosto, aceitou de bom grado.

Ele se despiu, usando uma espécie de toalha para cobrir as partes. Daí se dirigiu para uma das banheiras mais afastadas e lá ficou.

Os minutos seguintes foram um exercício de autocontrole. 

As elfas não faziam questão de esconder seus corpos. Muito pelo contrário, pareciam se divertir com a presença do jovem príncipe. Aylin, em particular, fazia questão de se alongar perto dele, seus seios fartos balançando próximo ao rosto do rapaz.

— Você é bonito, príncipe — disse ela, casualmente. — Caso não fosse um hospede da rainha, eu o tomaria como meu marido.

— Obrigado, eu acho...

Peppe achou aquela admissão incomum. Apesar de soar como algo leve, o tom de Aylin não foi de brincadeira. Ela realmente estava falando sério. 

— Tem alguém esperando por você? Você sabe, uma mulher humana?

A pergunta foi direta, carregada de um interesse que ia além da mera curiosidade.

— Tenho.

— Uma esposa?

— Não, não. É mais como... não sei que palavras vocês usam aqui, mas é algo não oficial, digamos assim. 

— Então oficialmente vocês não têm nada? 

— Não, oficialmente ela é minha escrava. Embora eu goste muito dela.

O semblante das elfas mudou de modo instantaneo. O par de melões esvoaçantes estavam lá, como um péndulo, dificultando com que prestasse atenção ao que estava sendo dito. 

Elas caminharam até o rapaz, maliciosamente. Cada passo fazia o cheiro de rosas ficar mais forte. Era muito encantador, quase hipinotizante. 

— Entendi. Então essa escrava humana possivelmente não se importaria se você... se divertisse um pouco? — Aylin se aproximou, sua mão pousando no ombro de Peppe. — Somos discretas.

"Puta merda! Como que pode exister um négocio tão bonito desses...", pensou, encarando o belo corpo da guerreira elfa. "Desculpa, Sara. Mas essas elfas são muito danadinhas, não sei se consigo". 

Peppe sentiu o coração acelerar. 

Lembrou-se da conversa que teve com Elara na noite anterior. 

Uma parte dele, a parte mais primitiva, queria se entregar ao impulso e experimentar as sensações. As elfas eram lindas, confiantes, e pareciam genuinamente interessadas. Mas Sara estava em Celestria, esperando. E ele não era do tipo que traía confiança.

A questão era: será que Sara realmente se importaria tanto assim caso ele se relacionasse com outras mulheres? Quer dizer, ela de fato esteve com ele em momentos de dificuldade, e escaparam juntos. Passaram por dificuldades juntos e ela o apoiou. Mas as regras daquele mundo eram diferentes. 

E mesmo na Terra, seu mundo natal, lugar majoritariamente monogâmico, ele estava acostumado a ter várias mulheres ao mesmo tempo. 

Também era verdade que ela era sua escrava e que não tinha muitas opções fora acompanhá-lo. E, se a quisesse possuir, podia simplesmente fazâ-lo, sem dar maiores explicações. 

Acontece que ele viu verdade nos sentimentos dela, e não queria correr o risco de decepcioná-la. Portanto mesmo que quisesse ter outras mulheres, era bom pelo menos avisá-la disso e ver como ela reagiria. É melhor do que supostamente traí-la, concluiu. 

— Bom, eu não sei se ela se importaria, mas não me parece certo — respondeu, afastando-se gentilmente. 

Aylin ergueu uma sobrancelha, surpresa.

— Sério? Vamos lá... Ninguém precisa saber...

Ela se aproximou novamente, dessa vez tocando nas partes do rapaz. A próximidade fez o encanto ficar ainda maior. O cheiro suave de natureza o estava assaltando os sentidos pelas narinas.

O toque suave e macio daquele enorme par fez efervecer a chama ardente que tentava a todo custo conter. Era demais, até para ele.

"Quer saber, que se foda", o palavrão saiu firme em sua mente. Parecia que tinha tomada uma decisão. — Bom, que seja! Podem vir, todas vocês juntas, mas depois não reclamem. 

O silêncio que se seguiu foi carregado de surpresa. Não imaginavam que ele mudaria de ideia tão rápido e de forma tão fãcil. 

Todas as quatro sorriram, sorrisos pequenos e genuínos. 

Uma das guerreiras que estavam com Ailyn então caminhou até a porta central das termas e a fechou, trancando-a. 

— Vamos meninas, não podemos deixar nosso convidado desapontado — a líder riu maliciosamente, continuando seus movimentos. 

O que se seguiu foi uma série de barulhos e gemidos que deixaram o restante do palácio em choque por trinta minutos inteiros. 

Anestesiado pela beleza encantadora das elfas da floresta, Peppe se sentiu no paraíso.

Cada flagracia, cada toque, cada movimento, era como se ficasse mais próximo da transcendência. Ele quase entendeu o motivo de Lux fazer tantas orgias. 

Foi um banho demorado, que acabou apenas quando a própria Matriarca dirigiu-se ao Salão das Àguas, exigindo que se apressassem, para não atrasar a expedição, bem como que liberassem as termas para o restante da corte poder se banhar também. 

*** 

No salão da Árvore Mãe, a Matriarca Lúrien os aguardava. Ela estava pálida, mais pálida do que no dia anterior, e suas mãos tremiam visivelmente quando apoiou a lança no chão. Mas sua voz continuava firme.

— Hoje, desceremos às catacumbas dos Construtores — anunciou. — Não sabemos o que encontraremos lá embaixo. Mas sabemos que a fonte da corrupção está lá. E vamos encontrá-la.

Ela dividiu o grupo em duas equipes.

A primeira, formada por Ailyn e outras três guerreiras da Guarda, iria na frente, atuando como batedores. 

A segunda era formada pela própria matriarca, outras guardas elfas e Nessa, a herbalista, além de Peppe, Elara e Marcus. Eles agiriam como técnicos investigativos e desvendariam os segredos do local. 

O objetivo era acabar com a anomalia. 

Não demorou para que ela explicasse o plano. Eles partiriam no mesmo instante.

Marcus tocou a insígnia em seu peito, o gesto automático.

— Uma última coisa — Lúrien ergueu a lança, e uma luz verde percorreu seu comprimento. — Lá embaixo, nas ruínas, as regras da superfície não se aplicam. Os Construtores não eram conhecidos por sua misericórdia. Muitos são os casos de antepassados que morreram naquele lugar. Então, se algo der errado, não hesitem em recuar. Ouviram? Isso é uma ordem!

— Nem no Coração da Montanha? — perguntou Peppe.

— Especialmente no Coração da Montanha.

Ela se virou e caminhou em direção à saída, seus passos firmes apesar da fraqueza evidente. Peppe a seguiu, sentindo o peso da missão sobre seus ombros. Atrás dele, Elara ajustava os trajes, um pouco desconfortável e irritada por não ter conseguido tomar o seu "banho matinal", e Marcus verificava seus frascos de poção.

Ninguém notou o olhar do executor. 

Ninguém viu como seus dedos hesitaram sobre um frasco específico, ou como seus olhos seguiram a Matriarca com uma intensidade que ia além da preocupação profissional.

Se alguém tivesse visto, talvez as coisas tivessem sido diferentes.

Mas ninguém viu.

***

A entrada das catacumbas ficava a meia hora da vila, escondida no mesmo local que viram no dia anterior, na floresta densa próxima ao Vale dos Ventos.

A elfa Nessa, que conhecia o caminho, guiou o grupo através de uma trilha estreita que contornava o paredão rochoso das ruínas, até alcançar uma fenda na pedra, formada pela explosão arcana de Peppe no dia anterior. 

— É aqui — disse, apontando para a escuridão. 

De pronto já se sentia um arrepio na espinha. 

Floquinho ainda dormia, e aquela sensação de estar desprotegido o incomodava mais do que gostaria de admitir, embora seu poder tivesse alcançado alturas que ele jamais imaginaria no último ano. 

— Vamos — ordenou Lúrien, acendendo uma luz verde em sua palma. — Mantenham-se próximos. E não toquem em nada.

A descida foi íngreme e escorregadia. 

A trilha de pedra, coberta por musgo úmido, serpenteava para baixo em zigue-zagues irregulares. 

A luz das runas dançava nas paredes de rocha negra, revelando gravuras antigas. Era uma espécia de feitiço que as elfas entoavam. Uma mistura de pinturas rúnicas com encantamentos. Era mais eficaz que o orbe de luz que os magos conjuravam. 

Agora que tudo estava iluminado, conseguiam ver melhor. 

A primeira coisa que notaram foram as inscrições nas paredes. 

Figuras humanoides com cabeças de animais, círculos concêntricos, espirais que pareciam se mover quando se olhava fixamente.

— Isso é perturbador — comentou Elara, seus olhos grudados nas paredes.

— É a arte dos Construtores — respondeu Lúrien. — Eles acreditavam que os espíritos habitavam nas pedras. Que as gravuras podiam aprisioná-los.

— Aprisionar espíritos? — Peppe pensou em Floquinho, em Dio, nos outros espíritos ancestrais. — Como?

— Não pergunte. Você não quer saber. E eu também não sei responder. 

O grupo avançou para dentro da escuridão, deixando para trás a luz da superfície.

Após vinte minutos de descida, o túnel se abriu numa câmara ampla, com teto abobadado e paredes cobertas por nichos vazios. 

No centro, uma estátua de pedra negra representava uma criatura híbrida, corpo de homem, cabeça de lobo, asas de morcego. Seus olhos de rubi brilhavam na penumbra, acompanhando os movimentos do grupo.

— Não gosto disso — murmurou Marcus. 

— Nem eu — concordou Peppe.

— Eu não me lembro de ter visto essa estátua ontem —  comentou Elara, analisando de longe.  

Como se estivesse apenas esperando por estas palavras, a estátua se moveu.

Não foi um movimento brusco, mas sim uma abertura. Sua boca de pedra se deslocou para baixo, revelando uma fileira de dentes afiados, e de dentro dela começou a emergir uma fumaça negra e espessa, que se enrolava no ar como cobras famintas.

— Formação de combate! — gritou Lúrien, com a lança já em posição.

Da fumaça, criaturas começaram a se materializar. Eram semelhantes aos constructos que Peppe enfrentara no dia anterior, mas menores, mais ágeis, com quatro braços terminados em garras de metal. Seus olhos brilhavam com a mesma luz vermelha e pulsante.

— Vigias — identificou Nessa, recuando. — Vamos para trás. Deixem Ailyn e as outras irem na frente. 

— Deixar uma mulher na frente? Tá maluca?! Vou lá combater esses filhos da puta e...

— Não agora, príncipe — interrompeu Lúrien, avançando e o jogando para trás. — Fique aí. 

Apesar de ter a força de um atleta olímpico, ele sentiu a pressão. Foi empurrado para trás sem muita dificuldade, e lá decidiu continuar. 

A batalha foi rápida, mas intensa. 

As guerreiras elfas tinham uma coordenação impressionante. Ailyn e a outra guerreira chamada Lyra atacavam em dupla, suas espadas brilhando com runas azuis, enquanto outras duas protegiam a retaguarda com grandes escudos de metal, que também pareciam encantados. 

Aylin era uma fúria, sua espada curva cortando os constructos como se fossem feitos de papel.

Marcus usava sua magia com parcimônia, alternando entre barreiras de proteção e rajadas de luz que cegavam as criaturas. Elara atirava de longe, suas flechas de raios encontrando os pontos fracos das armaduras metálicas.

E Peppe ficou apenas observando, na retaguarda de Lúrien. 

O desafio real seria apenas a grande gárgula, que começou a se mexer depois que os subordinados foram inutilizados.

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