Volume III
Capítulo 46: Expedição nas Ruínas de Aldur'thal (parte I)
O salão da Árvore Mãe era diferente do que Peppe imaginara.
Não havia ostentação nem cerimônia, apenas madeira polida e esculpida em vários estilos. Até mesmo os pilares da grande mansão suspensa eram feitas de madeira. As paredes brilhavam com uma luz verde e suave, provenientes de orbes encantados com magia élfica.
No centro, uma cadeira esculpida em raízes vivas, onde uma elfa os aguardava.
Lúrien.
Ela não era o que Peppe esperava de uma "matriarca".
Não havia coroa em sua cabeça, nem joias em seu pescoço, nem roupas extravagantes.
Vestia uma túnica simples de linho cru, e seus cabelos prateados estavam presos num coque frouxo. Mas seus olhos... seus olhos eram antigos. Âmbar profundo, com pupilas que pareciam guardar séculos de histórias.
Quando recebeu o olhar da bela rainha elfica, Peppe sentiu como se estivesse sendo pesado numa balança invisível.
— Príncipe Petrus Pistorius de Tullis — disse ela, sua voz clara como um sino, mas carregada de uma autoridade que não precisava ser gritada. — Princesa Elara Vermillion do Império Girassol. Executor Marcus Vorenus do Congresso. Sejam bem-vindos a Aldur'thal.
Peppe inclinou a cabeça, o gesto de respeito que aprendera nas aulas de etiqueta com a Condessa Rosetta. Também era uma estratégia para que pudesse apreciar o belo par de seios da matriarca. Belos e gigantes, por sinal.
— Agradecemos a hospitalidade, Matriarca.
— Hospitalidade? — Lúrien sorriu, um gesto que não chegou aos olhos. — Vocês ainda não viram nossa hospitalidade. O que viram foi nossa necessidade. Aldur'thal está morrendo, príncipe. Não por falta de vontade de viver, mas por falta de conhecimento para salvar a terra que nos sustenta.
Ela fez uma pausa, seus dedos tamborilando no braço da cadeira.
— Sei que foram às ruínas, mesmo sendo uma ordem direta desta matriarca que ninguém as adentre.
Peppe sentiu o estômago embrulhar. Ele abriu a boca para se desculpar, mas a Matriarca ergueu a mão, silenciando-o.
— Não vim aqui para repreendê-los. O que fizeram foi corajoso. E necessário. — Ela inclinou a cabeça, estudando-o com uma intensidade que o deixava desconfortável. — Meus guardiões os teriam impedido, se soubessem. Mas não souberam. E isso me diz algo sobre vocês.
— O quê, senhora? — perguntou Elara.
— Que são discretos. E que se importam mais com resultados do que com regras. — O sorriso de Lúrien tornou-se mais humano. — Isso é raro. E eu aprecio isso.
Peppe relaxou ligeiramente, mas não completamente.
A Matriarca era intensa. Cada palavra parecia pesada, carregada de significado.
Ela não desperdiçava gestos nem expressões. Tudo nela falava de controle, daquele tipo de controle que só quem viveu séculos aprendendo a domar a própria impaciência conseguia ter.
— O que encontraram? — perguntou ela, de forma direta.
Peppe então a contou sobre as criaturas de metal, os constructos de batalha, o altar pulsante e as runas. O "Coração da Montanha" e a inscrição que traduzira. A sensação de que algo estava sendo contido, algo antigo e perigoso.
A Matriarca ouviu em silêncio, seus olhos semicerrados.
— O Coração da Montanha — repetiu, finalmente. — Conheço esse nome. Estava presente em algumas das histórias que minha avó contava. Histórias que eu pensava serem lendas.
— O que é, senhora? — perguntou Elara.
— Não sei ao certo. Mas sei que está ligado à origem da nossa floresta. — Ela fechou os olhos por um momento, como se buscasse forças em algum lugar profundo. — Os Construtores não eram apenas artesãos. Eram criadores. E criaram coisas que não deveriam ter sido criadas. Algumas dessas coisas, eles não puderam destruir. Apenas... prender.
— E o Coração da Montanha é uma dessas coisas? — perguntou Marcus.
— É o que temo.
A Matriarca abriu os olhos, e Peppe viu ali algo que não esperava: cansaço.
Um cansaço profundo, de quem já viveu séculos e carregou o peso de um povo nas costas, apesar de sua pele morena parecer firme e flexível como um broto de bambu.
Suas mãos, que repousavam sobre os braços da cadeira, tremiam ligeiramente.
— Matriarca — disse Peppe, hesitante. — Você tá bem?
Lúrien sorriu, um gesto triste.
— Não se preocupem comigo. É só o excesso de trabalho — afirmou. — Amanhã, ao amanhecer, voltaremos às ruínas. Levarei nossas melhores druidas e guerreiras. Investigaremos a fundo. Se for possível, selamos o altar permanentemente.
— E nós? — perguntou Elara. — Podemos ajudar?
A Matriarca estudou-a por um longo momento.
— Podem me acompanhar, caso desejem. Mas não hoje. Hoje, vocês descansam. Foram longe, lutaram duro, e voltaram com informações vitais. — Ela fez um gesto para as elfas ao redor. — Acomodem nossos convidados. Vejam se não lhes falta nada.
— Matriarca... — começou Peppe.
— Amanhã, príncipe. — A voz de Lúrien era gentil, mas definitiva. — Agora, preciso descansar. Fiquem à vontade para conhecer nossos salões e banhos quentes.
Elara pareceu animada ao ouvir sobre os tais "banhos quentes". Fazia tempos que não experimentava aquilo.
A elfa se levantou da cadeira, e Peppe notou como seus movimentos eram lentos, quase arrastados. Seus ombros, antes eretos, estavam ligeiramente curvados. Sua respiração era superficial, como se cada inspiração exigisse um esforço.
Uma outra elfa, em trajes militares, que estava ao lado da cadeira, aproximou-se e ofereceu o braço à líder.
— Vamos, Matriarca. A senhora precisa deitar-se.
Lúrien assentiu, permitindo que a conduzisse para fora do salão. Antes de desaparecer na penumbra, ela olhou para trás, seus olhos encontrando os de Peppe.
— Até amanhã, príncipe. E obrigada.
Peppe inclinou a cabeça em respeito.
— Até amanhã, Matriarca.
— Humf! Eu achei que elas me veriam como a líder do grupo. E aquele papo de "mulheres no comando" — sussurrou Elara, um pouco insatisfeita.
— O que posso fazer, se é dos novinho que elas gosta? — brincou o rapaz.
Marcus os seguiu em silêncio. Sua expressão estava fria, dura. Os olhos hesitavam um pouco.
***
Ao chegar no quarto, Peppe jogou sua mochila num canto e sentou-se na cama, sentindo a madeira ceder sob seu peso.
O silêncio da floresta era diferente do silêncio da cidade, não era vazio, mas cheio, preenchido pelo farfalhar das folhas, pelo canto distante de pássaros noturnos, pelo murmúrio da água corrente.
No fundo, sabia que deveria estar aliviado. A missão estava progredindo e a Matriarca já estava ciente do perigo. Amanhã, voltariam às ruínas com reforços.
Tudo parecia encaminhado.
Mas aquela sensação de que algo estava errado não o abandonava.
"É só cansaço", disse a si mesmo. "Tem um tempo que não consigo um sono decente. É, isso mesmo! Eu só preciso dormir. Dormir e sonhar com essas delicinhas élficas. Hehe... Tudo vai ficar bem, eu não estou maluco."
Uma batida suave na porta o tirou dos pensamentos.
— Pette? — Era a voz de Elara, hesitante. — Posso entrar?
— Quem diabos é "Pette"? — retrucou, retorcendo o nariz. — Pode entrar. Ela tá aberta.
A princesa entrou, seus cabelos loiros ainda úmidos, provavelmente acabara de experimentar os famosos banhos quentes élficos.
Vestia uma túnica simples de linho branco, e seus pés estavam descalços. Sem a armadura e os inúmeros trajes que compunham seu conjunto arcano de maga, parecia mais jovem, mais vulnerável.
— Não consegue dormir? — perguntou, vendo ela se sentar no lado oposto da cama.
— Não.
— O que está pensando?
Peppe a olhou por um momento. Elara também parecia cansada. Agora, sem maquiagem, isso era mais nítido.
— Na Matriarca — respondeu a garota, um pouco complacente. — Acho que ela está doente.
— Doente?
— Você não viu? Os olhos dela, as mãos tremendo, a respiração superficial. Algo está consumindo ela. E eu creio que seja alguma doença.
Peppe franziu o cenho.
— Ela disse que era cansaço.
— Pois acho que ela mentiu.
O silêncio se instalou entre eles, carregado de preocupações não ditas.
— Ela me lembrou meu pai — disse Elara, baixinho, quase para si mesma. — Deve ser "mal de rei". Ele também sempre escondia suas fraquezas. Sempre com aquela postura de "mandão", com a voz firme, mesmo quando mal conseguia ficar de pé. Faz um tempo que ele tá assim, talvez seja a mesma doença...
— O que ele tem?
— Ninguém sabe dizer. Os melhores curandeiros do Império não conseguiram salvá-lo. — Ela olhou para as próprias mãos.
— Sinto muito.
— Não é sua culpa. — Ela ergueu os olhos, e Peppe viu neles algo que não esperava: uma tristeza oculta, guardada a sete chaves. — E ele não está morto também. Só não tem uma qualidade de vida muito boa, apesar de ser rei.
Ela quase sorriu.
— Bom, isso explica o porquê de você ser tão dedicada à escola da Restauração. Quer salvar seu pai, estou certo?
Ela fez que sim com a cabeça, ainda tímida.
— Vou torcer por você. Vai dar certo!
Ela sorriu, um tanto sem graça, porém não respondeu.
O silêncio retornou, mas agora era mais suportável.
— E você? — perguntou Elara, quebrando o gelo e mudando de assunto. — Tem alguém esperando em Celestria?
Peppe pensou em Sara. Seu rosto, seu sorriso, a forma como ela o olhava quando ele dizia alguma bobagem.
— Tenho. Até que eu tenho, sim.
Elara se interessou.
— Uma princesa? Uma nobre? Ela é de onde? Se conheceram na Academia?
— Não. Ela era caçadora antes, aconteceu um incidente e acabei a tomando como escrava.
O choque no rosto de Elara foi visível.
— Uma escrava? — repetiu, como se não tivesse ouvido direito. — Bom, tudo bem ter uma escrava, você é um príncipe, afinal. Mas se importa tanto com ela assim?
— É complicado... — Peppe hesitou. — Na prática, ela não é só minha escrava. Tá mais pra minha... Minha...
Olhou para o teto, tentando encontrar alguma palavra daquele mundo que definisse o conceito de "namorada".
— Sua o quê?
— Minha.
A palavra foi dita com uma simplicidade que surpreendeu até mesmo Peppe.
Elara o estudou por um longo momento.
— No meu Império, homens poderosos têm haréns. Concubinas. Amantes. Ninguém se importa com quantas mulheres um príncipe possui. Mas se importam com quem elas são. Uma escrava... — ela balançou a cabeça — ...os conselheiros do seu reino aceitam "de boa" você ser tão próximo de uma escrava?
— Quando meus pais desapareceram, o reino foi tomado por um usurpador. Meus conselheiros meio que "não existem". E eu não ligo para o que "caralhos" pensam, de qualquer forma.
— Você é teimoso.
— É o que me dizem.
Elara riu, um som suave e breve.
— Acho que entendo por que ela gosta de você.
— Quem disse que ela gosta de mim?
— Você disse. Pelas entrelinhas.
Peppe não respondeu. Porque, no fundo, ela tinha razão.
— Bom, acho melhor a gente voltar pro papo da expedição de amanhã, ou talvez eu acabe tomando você como "minha" também, princesa. — Ele riu, provocando.
Ela enrubesceu, mas logo voltou à si.
— Humpf! Eu sou muita areia pra você, Pette — retrucou. — Sou a quarta princesa da maior nação do Continente, vai precisar pelo menos de um império para me fazer "sua".
— De novo com esse papo de Pette, em...
Concluindo a conversa, os dois jovens chegaram à conclusão que deveriam observar com mais afinco a matriarca, e quem sabe tentar curá-la.
Também decidiram que deveriam investigar melhor as ruínas, já que o tal "coração da montanha" pode estar intimamente conectado com a situação dos elfos e até à própria saúde da matriarca.
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