Volume III
Capítulo 45: Coração da Montanha
Quando se aproximaram, viram uma formação rochosa em meio ao amontoado de árvores. A maioria das pedras já estava coberta de musgos.
Andando um pouco mais, os três notaram o ar ficar mais denso, como se parte do oxigênio fosse retirado da atmosfera e fosse preenchida com um outro tipo de gás, irrespirável.
— Que curioso...
Elara observava cada elemento daquele lugar com a curiosidade de um gato filhote que acabara de experimentar o seu primeiro cio. Estava completamente tarada pelo conhecimento.
Peppe, por sua vez, analisou o ambiente de uma outra perspectiva.
Acalmando sua respiração, concentrou-se em ver os fluxos de partículas mágicas do local. Aquilo era algo que fazia quase que de forma natural no dia a dia. Seus conhecimentos arcanos evoluiam de forma exponencial à medida que absorvia o conhecimento passado pela Loja da Ganância.
Ele estava ficando tão bom, que a maioria dos professores já o estavam liberando das lições. Exceto Corvus, para quem "conhecimento nunca é demais", e Lyra Whitetower, a mestra da magia de restauração.
Por conta das limitações de Floquinho, o conhecimento desta última escola não poderia ser comprado na Loja, o que obrigava o rapaz a aprendê-los "de verdade", junto com os demais alunos.
— Vamos por ali — Apontou Peppe, notando um amontoado incomum de partículas mágicas em uma das paredes de pedra.
Antes que Elara pudesse questioná-lo, ele lançou uma espécie de feitiço para quebrar o amontoado de pedras.
Não houve nenhuma entoação. Apenas uma grande estaca de fogo perfurando o centro de gravidade do que parecia a pedra angular daquela estrutura.
Pah! Booom!
Com um estalo, um enorme buraco se formou, revelando uma espécie de trilha, escura e coberta de cascalho.
— Uma estrada.
— Sim. Vamos!
Marcus encarou de forma silenciosa, mas não conseguiu esconder o susto no olhar quando viu o rapaz, um reles mago de 2º círculo, entoar um feitiço tão poderoso sem fazer nenhum único barulho.
"Apenas um gesto de mão. Minha nossa!", refletiu. "Desse jeito, a missão vai ficar impossível. Preciso ter cuidado".
— Lumen!
Elara caminhou ao lado de Peppe, iluminando o caminho com um pequeno orbe branco de luz artificial.
— Esse negócio foi uma das coisas mais inúteis e ao mesmo tempo mais brilhantes que já criaram — comentou o rapaz.
— Prestem atenção — disse Marcus, acelerando o passo. — Sentiram? Tem alguma coisa ali atrás. E eu não estou gostando nenhum pouco.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Era um silêncio morto, como se o próprio ar tivesse desistido de vibrar.
Os dois pararam. Seus sentidos entraram em alerta máximo.
O fluxo de partículas ao redor era estranho. Turbulento. Como um rio que encontrasse um redemoinho invisível.
— Tem algo se movendo — sussurrou, sua mão fechando no cabo da velha espada. — Não é grande. Mas é rápido.
— Quantos? — perguntou Elara, já se preparando para um enorme feitiço de área.
— Difícil dizer. A interferência das ruínas está atrapalhando minha percepção.
Marcus tocou a insígnia em seu peito, o gesto automático que Peppe já aprendera a reconhecer como um sinal de tensão.
— Vamos continuar. Mas em formação de combate. Eu na frente. Você atrás de mim. Princesa Elara, vá para a retaguarda.
— Por que eu na retaguarda? — protestou a garota.
— Porque você é a mais lenta. E a que tem menos experiência em combate corpo a corpo. — A resposta foi seca, profissional, sem malícia. — Não é um insulto. É um fato. Aproveite sua vantagem e ataque à distância.
Elara apertou os lábios, mas não contestou. Posicionou-se atrás de Peppe, mirando as sombras que os cercavam.
Precipitação. Embora conseguissem sentir, não viam nada.
Elas surgiram das sombras sem aviso.
Seus corpos eram feitos de uma substância escura e vítrea, como obsidiana polida, e seus olhos brilhavam com uma luz vermelha e pulsante.
Pareciam máquinas. Robôs em formato de lobos, só que com seis "patas" e duas "bocas". Sua pele era formada por espinhos de metal.
— Constructos? — avaliou Marcus. — Constructos de batalha! Antigos. Muito antigos.
— Como derrotá-los? — perguntou Elara, disparando uma flecha de raios que ricocheteou no peito da criatura mais próxima sem causar dano.
— Não sei. Nunca enfrentei um.
Peppe avançou antes que pudessem discutir estratégia. Sua espada, envolta numa fina camada de mana em chamas, atingiu o primeiro inimigo bem no ponto médio central.
O metal escuro rangeu, mas não quebrou, apenas rachou levemente.
"Mas que caralho", pensou. "Essa caceta de encantamento deveria ser capaz de parar um caminhão em movimento".
Peppe recuou um passo, concentrando-se.
Foi então que uma ideia veio à mente e ele correu para a direção do perigo.
Em vez de cortar, ele empurrou. Uma onda de força bruta, desprovida de sutileza, explodiu de sua espada e atingiu o constructo em cheio.
A criatura voou para trás, batendo numa árvore com um som metálico. Sua forma se contorceu, tentando se reerguer, mas algo em seu interior havia se quebrado. Ela caiu novamente, seus olhos vermelhos piscando fracamente antes de se apagarem.
— Funcionou? — murmurou Peppe, surpreso.
— Dois ainda — alertou Marcus, engajando o segundo constructo com sua espada luminosa.
O executor lutava de forma diferente de Peppe. Seus movimentos eram calculados, econômicos, cada golpe medido para causar o máximo de dano com o mínimo esforço. A técnica de alguém que passou anos treinando contra inimigos mais fortes, mais rápidos, mais perigosos.
Mesmo assim, o constructo não caía. Sua pele vítrea absorvia os golpes, distribuindo o impacto por todo o corpo.
— Estou só atrasando ele! — gritou Marcus, suando. — Preciso de mais poder!
Elara disparou novamente. Desta vez, desenhou uma espécie de runa onde o mago supervisor estava. Em um instante, uma área de 5 m² ficou coberta por um brilho azul. Era um encantamento de área.
— Isso deve atrair o fluxo local de partículas mágicas pra você por alguns segundos. Tente acabar com essas aberrações rápido!
Ele assentiu.
No momento seguinte, uma grande explosão.
Boooom!
Uma grande bola de raios saiu da mão livre de Marcus. Amplificada pelo encantamento rúnico de Elara, o feitiço ganhou grandes proporções, atingindo a criatura metálica bem no focinho.
Restava um.
Peppe não esperou. Avançou em direção ao terceiro constructo, sua espada brilhando com uma luz vermelha ainda mais intensa. Desta vez, não tentou cortar ou empurrar. Ele perfurou.
A lâmina entrou no peito da criatura como se fosse manteiga, saindo do outro lado. O inimigo estremeceu, seus olhos vermelhos piscando freneticamente, e então se apagou.
O silêncio retornou.
Ofegantes, os três se entreolharam. Peppe estava um pouco suado, apertando ligeiramente o cabo da espada para sentir melhor a mão. Marcus respirava fundo, recuperando o fôlego. Elara, com dedos trêmulos, se escorava nas paredes da construção.
— Quantos mais? — perguntou a princesa.
— Espero que nenhum — respondeu o executor. — Mas duvido.
Ele se aproximou dos restos do primeiro constructo, examinando os fragmentos com atenção.
— Isso não é élfico — disse, finalmente. — Nem humano. Parece muito anterior.
— Era dos Construtores? — perguntou a princesa.
— Provavelmente.
O nome pairou no ar como uma sentença. Elara empalideceu.
— Era dos Construtores ou não, que se foda. Vamos. Quanto mais tempo ficarmos aqui, mais desses filhos da puta aparecerão.
***
—
A trilha de cascalho terminou numa abertura ampla, quase circular, onde o chão de terra cedia lugar a um pavimento de pedra negra e polida. No centro da clareira, uma estrutura se erguia.
— Um altar?
Era feito do mesmo metal escuro das ruínas, mas suas superfícies eram lisas, quase líquidas, como se tivessem sido moldadas ontem. Runas gravadas em sua base pulsavam com uma luz vermelha e doentia, no mesmo ritmo que o coração de Peppe.
— É aqui — disse Elara, sua voz um sussurro. — A fonte da anomalia.
O rapaz se aproximou do altar, seus olhos percorrendo as runas. Não reconhecia aquela escrita. Não era élfica, nem humana, nem qualquer coisa que tivesse visto nos livros da Academia.
— É a língua dos Construtores — Elara observou. — Precisamos de um dicionário.
Peppe olhou de perto. Estranhamente, ele conhecia aquele dialeto.
"Aqui jaz o Coração da Montanha. Que os sábios o temam. Que os tolos o busquem. Que os mortos o guardem."
— Coração da Montanha — murmurou Peppe, em voz alta.
— O quê? — perguntou Marcus.
— O nome da coisa que está enterrada aqui. Coração da Montanha.
Elara franziu o cenho.
— Você conhece a língua dos Construtores? — questionou, atônita.
Marcus também encarou ao canto.
Aquela era uma língua antiga, que desde o princípio só era falada por um conjunto muito pequeno de pessoas e há muito deixou de ser usada.
— Bom, eu manjo de Linguística — desconversou.
Marcus ignorou o diálogo dos jovens e tocou a superfície do altar.
Era fria, mas pulsava com uma energia que não era térmica. Era ao mesmo tempo fria e quente. Uma sensação indescritível.
— Como destruímos isso? — perguntou Elara.
— Não destruímos, eu acho. — A voz dele era grave. — É melhor contemos. Pelo menos até descobrirmos mais.
Ele se afastou do altar, examinando o ambiente ao redor.
Aquela era basicamente uma redoma de pedra. O formato era de círculo, tipo o teto de uma mesquita. Não havia nada aparente que não fosse o altar.
— Aqui deve ter sido uma câmara de rituais. Não vejo outra explicação melhor que essa — asseverou.
Peppe também observava, sem tirar os dedos do alcance de sua arma.
— Vamos sair, rápido! Não quero estar aqui quando o sol se pôr.
— Por quê? — perguntou Elara.
— Porque coisas que dormem durante o dia acordam à noite.
Ela não precisou de mais explicação.
***
A caminhada de volta foi tensa, carregada de um silêncio que não era apenas cansaço. Havia algo no ar, uma expectativa, uma ansiedade, como se a própria floresta estivesse prendendo a respiração.
Quando as luzes de Aldur'thal surgiram entre as árvores, Peppe sentiu um alívio momentâneo. As plataformas de madeira, os canais de água cristalina, as casas esculpidas nos troncos, tudo parecia normal.
— Vamos falar com a Matriarca — disse Marcus, acelerando o passo. — Ela precisa saber o que encontramos.
— Concordo — respondeu Elara. — Aquela energia no altar não é natural. Pode estar se espalhando. Se não fizermos algo, a floresta inteira pode ser contaminada.
Peppe assentiu, mas algo o incomodava. Não conseguia identificar o quê. Apenas uma sensação incômoda, um formigamento na nuca, como se estivesse sendo observado. Como se algo estivesse errado.
"Floquinho", chamou mentalmente. "Tá aí?"
Silêncio.
"Floquinho?"
Nada. O espírito estava em seu sono profundo, digerindo as 97 almas que Peppe gastara na Loja. Inútil. "Como sempre nos piores momentos, não é mesmo, seu corno?!"
— Vamos — disse, afastando a preocupação. — Quanto mais cedo falarmos com ela, mais cedo poderemos...
Não terminou a frase. Algo o distraiu, um movimento, talvez, ou uma sombra que não deveria estar ali. Mas quando olhou, não havia nada.
"Apenas a floresta", pensou. “Apenas a maldita floresta”.
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