Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 44: Ruínas de Aldur'thal

Três dias se passaram sem grandes intercorrências. 

Quando escurecia, o trio parava nas cidades e vilarejos da região. Depois da pernoite, saíam cedo para continuar o percurso. 

À medida que se aproximavam do norte, os vilarejos desapareciam, levando junto todos os resquícios de civilização. O clima ia ficando mais frio também. Dava para sentir na pele a chegada do outono. 

Em certo momento, a floresta engoliu a carruagem, como se fosse uma fera faminta.

Não houve transição gradual, como Peppe esperava. Um momento, estavam numa estrada de terra ladeada por árvores comuns: carvalhos, bordos, algumas coníferas dispersas. No outro, tudo mudou. 

As árvores tornaram-se mais altas, mais antigas, seus troncos grossos como torres de castelo e suas copas tão densas que bloqueavam o céu. A luz que penetrava era filtrada, esverdeada, como se o próprio sol tivesse que pedir permissão para entrar.

Marcus parou a carruagem diante de um arco natural formado por duas árvores que se curvavam uma sobre a outra, seus galhos entrelaçados como dedos de um casal ancião.

— A partir daqui, vamos a pé — anunciou, descendo do veículo. — Os elfos não permitem veículos motorizados em suas terras. Dizem que o barulho ofende os espíritos da floresta.

— Espíritos da floresta? — Peppe ergueu uma sobrancelha.

— Baboseira élfica. — respondeu o executor. — Mas não pergunte aos elfos. Acredite, é mais fácil não perguntar.

Pegaram suas mochilas e seguiram por um trilho de terra batida, ladeado por arbustos cobertos de bagas prateadas que brilhavam fracamente na penumbra. 

O silêncio era diferente aqui, não o silêncio do vazio, mas o silêncio da espera. Como se a própria floresta estivesse prestando atenção, observando, julgando.

Não demorou muito para que fossem interceptados. 

Uma silhueta surgiu no alto dar árvores. Olhos de um verde tão claro que pareciam brilhar examinaram o grupo com uma intensidade que fez Peppe sentir como se estivesse sendo pesado numa balança invisível.

Era uma mulher, uma elfa. Pele morena e seios fartos. Era alta também, de uns 1,80 m (no mínimo). Trajava uma espécie de armadura de couro, com tiras de um metal tão brilhoso que ardia os olhos.

Ela disse algo em uma língua que Peppe não reconheceu. Palavras fluidas, cheias de vogais e sons guturais que pareciam ecoar nas árvores.

— Ela perguntou quem somos e o que fazemos em suas terras — traduziu Marcus, baixinho. — Não respondam. Deixem que eu falo.

O Executor deu um passo à frente, fazendo uma reverência respeitosa, não subserviente, mas claramente ensaiada, como quem estudou os costumes locais.

Peppe não entendeu nada, porém, ao reparar que Elara havia feito o mesmo cumprimento, resolveu copiá-los. Era melhor pecar pelo excesso. 

Ela virou a face de forma ríspida. 

Depois, mais três elfas da floresta apareceram. Tinham aparências parecidas, seis e coxas fartas, pele morena. Rostos tão lindos como o das ninfas. 

Peppe teve dificuldades em evitar encará-las. Era como se seus instintos carnais tivessem acendido uma chama dentro de si, que agora era alimentada por carvão novo e gasolina. 

Ainda que estivessem trajadas com armaduras de couro, ainda era possível ver suas belas silhuetas.

Em algum momento, haviam iniciado um diálogo com Marcus.

Uma delas virou-se de uma vez, inclinando-se para Elara. As outras fizeram o mesmo. 

— Perdão, princesa Elara. Elas acham que você é a lider, já que é a única mulher do grupo. 

Peppe franziu o cenho. A garota, porém, olhou para aquilo com uma certa naturalidade. Virou-se também para a direção da elfa que parecia ser a lider do grupo e falou algo que só poderia ser descrito como impronunciável. 

— سالام ، مەن مەدەنىيەت مەسىلىلىرىنى چۈشىنىمەن ، ئەمما بىز رەھبىرىڭىزنى كۆرۈشنى خالايمىز.

Elas se viraram para Elara, aparentemente surpresas por a garota falar tão bem o idioma. 

"Mas que caralho foi isso?".

"Uma variação da língua antiga, cheia de gírias e expressões derivadas. Hef... Imagino o que os ancestrais élficos pensariam ao ver o que sua língua se tornou", Floquinho respondeu. 

— ئەنسىرىمەڭ. كەل! ئەتە مەن سىزنى ۋە ئادەملىرىڭىزنى ئايال پادىشاھقا ئېلىپ بارىمەن. ھازىرچە مەن سىزنى ئارام ئالىدىغان جايىڭىزغا ئېلىپ بارىمەن. — responderam as guardas, em posição de escolta. 

Ainda sem nada compreender, Peppe foi levado junto dos colegas para o centro da vila. 

— Vão levar a gente para uma pousada para descansarmos. Amanhã iremos ver a tal anomalia — sussurrou a princesa. 

Pouco tempo se passou. O dia escureceu. 

***

Na manhã seguinte, Peppe acordou com a luz filtrada das árvores invadindo a janela. 

Seu alojamento era numa espécie de casa na árvore. Todo de madeira, incluindo móveis e cama. O colchão era uma mistura de folhas e raízes, porém, ao contrário do que se pensaria, era bem macio. 

Alongou-se com calma, vestiu a túnica limpa que encontrara dobrada sobre uma cadeira, um gesto de hospitalidade que a princípio o surpreendeu, e saiu para o "corredor", uma plataforma de madeira que circundava o tronco da árvore, conectando os diferentes aposentos.

Elara já estava lá, apoiada no parapeito, olhando para a vila que despertava. Seus cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo solto, e ela usava uma camisa leve de linho, os braços cruzados sobre o peito.

— Dormiu bem? — perguntou, sem virar o rosto.

— Como um bebê. E você?

— Acordei com barulho de passos no telhado. Acho que eram elfos.

— Ladrões?

— Não, eu não acho que existam ladrões aqui. 

— Então foram felinos, será que existem gatos élficos?

Ela finalmente se virou, um sorriso involuntário nos lábios. O gesto suavizou seu rosto, tornando-a mais humana, menos princesa.

— Não... Com certeza não — respondeu com uma leve gargalhada, antes de se virar novamente. — Vamos? Marcus já está lá embaixo. Diz que não quer perder tempo.

Desceram por uma escada em espiral esculpida no próprio tronco, seus degraus gastos por séculos de uso. 

Ao chegar ao chão, Peppe percebeu que algo estava diferente.

Os elfos — as mulheres, especificamente — os observavam. Não era o olhar de desprezo ou hostilidade que esperava. Era algo mais... intrigado. Seus olhos percorriam o grupo, mas pousavam em Peppe com uma frequência que o deixava desconfortável.

Uma delas, alta, com cabelos lisos trançados e olhos cor de mel, passou por ele e murmurou algo em élfico, uma palavra que Peppe não entendeu, mas que soou como um cumprimento, ou uma avaliação.

— O que foi que ela disse? — perguntou a Elara, baixinho.

— "Pele de luar" — traduziu a princesa, com um tom que misturava surpresa e diversão.

— Como assim?

— Ela disse que você tem "pele de luar". É um elogio. Entre os elfos da floresta, significa que alguém é... digamos... muito bonito. De uma forma que não é comum entre humanos.

Peppe sentiu o rosto esquentar. Uma certa animação involuntária tomou conta de si.

"Floquinho", o rapaz chamou. "Essa língua élfica que você falou, tem como comprar isso?"

"Sim", respondeu a raposinha gananciosa, com um leve sorriso. " Tem sim, e hoje é o seu dia de sorte. Vou fazer um desconto pra você: 97 almas e o Tomo I dos dialetos originários é seu".

Peppe quase caiu para trás.

"Mas isso é tudo o que eu tenho, seu ladrão!".

"Por isso o desconto, hehehe...", Floquinho respondeu. "É pegar ou largar, humano. O que me diz?"

Ele pensou por alguns segundos, encarando as nadegas da elfa de tranças que acabou de passar por si e pensando que aquele seira um ótimo investimento.

"Eu concordo", respondeu, segurando para não ranger os dentes. "Bom, ao menos vou entender o que essas elfas rabudas dizem". 

Voltando a atenção para o ambiente externo, parou o passo por dois segundos. Era o tempo que precisava para absorver o conhecimento linguístico que havia comprado. 

— Você também não é feia — disse ele, em élfico. 

Sara ficou supresa. 

— Ei! Não diga isso em voz alta — alertou.

— Por quê?

— Porque aqui as mulheres tomam a iniciativa. Se você elogiar uma elfa, ela pode interpretar como um... ehr... convite.

Peppe engoliu em seco, lembrando-se de Sara. Por um instante, esse conflito interno o fez refletir se não tinha acabado de tomar uma péssima decisão por impulso. 

— Entendi. Vou ficar quieto.

— Ótima ideia.

Marcus os aguardava próximo à Árvore Mãe, seu uniforme branco impecável apesar da viagem. 

Ao lado dele, uma elfa que Peppe não reconheceu, mais baixa que as outras, com cabelos curtos e escuros e olhos de um verde tão claro que pareciam brilhar.

— Esta é Nessa — apresentou Marcus. — Ela será nossa guia até os campos do norte, onde os danos são piores.

— A Matriarca pediu para acompanhá-los — disse Nessa, sua voz suave, mas direta. — Ela quer que vocês vejam com seus próprios olhos a gravidade da situação. 

— Quanto tempo? — perguntou Elara.

— Se as colheitas deste ano falharem, Aldur'thal não terá estoques para o inverno. Muitos dos nossos mais velhos não sobreviverão.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Peppe sentiu o peso das palavras, não como uma ameaça, mas como uma constatação. A fome não escolhia lados. Não se importava com política ou orgulho.

— Vamos — disse. — Mostre-nos.

Não demorou para que chegassem ao Vale dos Ventos. 

No geral vales eram locais perfeitos para plantações, pois eram planos estavam afastados o suficiente das árvores para que as raízes não fossem uma ameaça para as culturas. 

Ao contrário do senso comum, entretanto, os campos do norte da Floresta de Prata dos elfos eram um testemunho silencioso da decadência.

Peppe já vira plantações doentes antes, na Terra, em documentários sobre pragas e secas, mas nunca algo assim. 

As plantas não estavam apenas murchas; estavam deformadas

Caules retorcidos, folhas cobertas por um bolor acinzentado que parecia pulsar fracamente, como se tivesse vida própria. O cheiro era doce e nauseante, um odor de decomposição que se misturava ao perfume natural da floresta.

— O que causou isso? — perguntou Elara, agachando-se para examinar uma planta mais de perto.

— Não sabemos — respondeu Nessa, sua expressão tensa. — Começou há dois anos, nas bordas do território. Pensamos que fosse uma praga, algo natural. Mas se espalhou. E continua se espalhando. Não importa que remédio ou pesticida usemos, nada faz efeito. 

Peppe caminhou entre as fileiras de plantas mortas, seus olhos percorrendo o solo. Não era apenas a superfície que estava afetada. A terra parecia exausta. Como se algo estivesse sugando sua vitalidade de dentro para fora.

Ergueu a cabeça após um pouco de reflexão, examinando a linha das árvores ao norte. 

A floresta ali era mais densa, mais escura. As árvores pareciam se curvar para longe daquela direção, como se tentassem escapar de algo.

— Que mistérios repousam para lá daquela cortina arbórea? — perguntou em élfico, apontando.

Nessa o encarou com surpresa. Marcus também. 

— O quê houve?

— A forma como você fala. É um pouco peculiar — Elara falou. — Você usa expressões antigas, que já caíram em desuso tem pelo menos uns seiscentos anos. 

— Bom. Culpem o meu professor de élfico. Ele é um velho dinossauro ganancioso e mesquinho — disse, referindo-se a Floquinho. 

— Não percam o foco — alertou Marcus. — Vamos ao que interessa. 

A elfa que estava com eles hesitou, mas apontou para o lugar do qual o rapaz humano havia se referido.  

— O que tem ali? — reforçou Peppe, olhando para a pequena colina no meio da densa floresta. 

Uma aura obscura emanava dali. Mesmo o adepto menos sensitivo da Academia conseguiria notar a grande concentração de partículas mágicas que vinha dali.  

— São ruínas. Da Era dos Construtores. Nossos ancestrais nos ensinaram a não nos aproximarmos.

— E vocês obedeceram? — questionou, escolhendo as palavras élficas com cautela. 

— Por séculos. — A elfa cruzou os braços. — Até agora. Alguns dos nossos jovens foram até lá, nos últimos meses. Dizem que o chão está rachado. Que há uma fumaça escura saindo das fendas e que o ar cheira a enxofre e morte.

Marcus, que estivera em silêncio até então, franziu o cenho.

— Fumaça escura? Rachaduras no chão? Isso não é normal, nem para ruínas antigas.

— Nós sabemos — respondeu Nessa. — Por isso pedimos ajuda.

Peppe olhou para Elara. Ela olhou para Marcus. O executor tocou a insígnia em seu peito, seu gesto automático de nervosismo.

— Precisamos investigar essas ruínas — disse Peppe, quebrando o gelo.

— A Matriarca não vai permitir — Nessa respondeu, imediatamente. — É território proibido.

Dessa vez foi Elara a se pronunciar:

— A Matriarca também não vai permitir que seu povo morra de fome. E pelo jeito, uma coisa está ligada à outra.

A elfa abriu a boca para retrucar, mas fechou-a. Porque eles estavam certos.

— Vou falar com ela — disse — Mas não prometo nada.

Ela se afastou, deixando os três humanos sozinhos entre as plantas moribundas.

— Você está mesmo sugerindo que entremos em ruínas proibidas? — perguntou Elara, baixinho. — Sem permissão? Sem supervisão?

— Estou sugerindo que investiguemos a fonte do problema. Se for preciso pedir perdão depois, que seja.

— O Conselho não vai gostar.

— O Conselho não está aqui. — Peppe olhou para Marcus. — Você vai nos impedir?

O Executor o estudou por um longo momento.

— Eu não sirvo ao Conselho. Sirvo ao Congresso. E minhas ordens são apenas para garantir sua segurança. Não para controlar suas ações. — Ele fez uma pausa. — Desse modo, se vocês forem para essas ruínas, irão comigo. E irão preparados para o pior.

Peppe assentiu. Era o máximo que conseguiria.

— Obrigado. 

 

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Conforme prometido, vamos para mais uma arte.

A personagem de hoje é a princesa Elara. 

 

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