Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 43: Rumo ao Vale dos Ventos

— Vou com você!

A frase foi dita com uma simplicidade que não deixava espaço para negociação. Peppe suspirou, deixando a mochila cair no chão.

— Sara...

— Não, Petrus. Não comece. — Ela ergueu a mão, interrompendo-o. Ela só o chamava pelo nome quando estava com muita, muita raiva. — Eu sei usar adagas, sei atirar com besta, sei me mover nas sombras também. Você sabe disso. Não sou mais a garota indefesa que você resgatou.

Ele suspirou internamente, pensando no que dizer. 

— Eu sei que não é. Mas isso não significa que você precise...

— Preciso. — A voz dela falhou por um momento, mas se recuperou rapidamente. — Eu não vou ficar aqui, esperando, rezando para que você volte inteiro de novo. Lembra do que aconteceu naquela noite? Quando tentaram me sequestrar para te chantagear?

Peppe lembrou. A casa em chamas. O sangue. O desespero.

Ela tocou o coldre na coxa. 

— Eu posso ajudar. Deixa eu ajudar! — Ela fez birra. Até o beicinho levantou. 

O silêncio entre eles foi longo, carregado de tudo o que não estava sendo dito. Foi então que um lampejo veio à mente de Peppe.

Ele pensou em Lux, em sua missão para Amoris. Pensou na Mão Sombria, nos planos de Derik, nos informantes que precisavam ser mantidos. Pensou na guerra que se aproximava, no exército que ainda precisava ser construído.

— Não — disse finalmente. — Não desta vez.

Ela fez beicinho. 

Essa foi a primeira vez que viu a garota insistir tanto em algo. Normalmente, quando ele falava, ela simplesmente acatava em silêncio, mesmo quando discordava. 

— Escuta. — Ele a tomou pelos ombros, seus olhos fixos nos dela. — Não é porque você não é capaz. É porque você é mais capaz do que qualquer outra pessoa que eu conheço para fazer o que precisa ser feito, porém aqui mesmo, em Celestria. 

Sara franziu o cenho, confusa.

— Lux vai para a fronteira de Amoris. Algo como "observação diplomática" pra Academia e o Congresso. — Ele fez aspas no ar. — Uma desculpa esfarrapada para colocar um duque exilado de volta em seu próprio território, onde dezenas de inimigos vão querer sua cabeça.

Ela sequer esperou antes de dar sua resposta:

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Você tem a ver com tudo. — Peppe baixou a voz, embora estivessem sozinhos. — vou precisar de alguém que coordene a inteligência daqui. Nós precisamos de informações sobre os movimentos do Clã Thoth e do Congresso na região, alguém pra manter a nossa comunicação com a Condessa. E eu... — hesitou — eu preciso de alguém que mantenha as coisas funcionando aqui na mansão enquanto estou fora.

Sara parou um momento. Afastou-se de seus braços e olhou firme em seus olhos. 

— Você está me pedindo para ser sua... espiã?

— Estou te pedindo para ser minha sócia. — A palavra saiu mais sincera do que ele pretendia. — Sara, eu não vou para o Vale dos Ventos para lutar. Vou pra lá ajudar elfos com problemas de colheita. É uma missão chata, burocrática, segura. Mas o que acontece aqui, enquanto estou fora... isso sim é perigoso. E eu não confio em ninguém mais para cuidar disso.

Ela o estudou por um longo momento, seus olhos escuros percorrendo seu rosto em busca de qualquer sinal de protecionismo paternalista. Mas não encontrou (Peppe era bom demais em mentir). 

— Você está me pedindo para ficar — disse, devagar — não porque quer me proteger, mas porque confia em mim para proteger o que é nosso...

"Caralho, deu certo", pensou. — Exatamente. 

— E se eu disser não?

— Você não vai dizer não.

— Por quê?

— Porque você sabe que eu tô certo.

O silêncio retornou, mas agora era diferente. Menos tenso. Mais... resolvido.

— Eu vou pensar — disse Sara finalmente. — Mas não decido nada hoje. Primeiro, quero ouvir esse plano direito.

— Justo.

Ela se afastou, indo até a janela. Lá fora, as primeiras estrelas começavam a aparecer.

— Elfos, hein? — murmurou, quase para si mesma. — Ouvi dizer que são terrivelmente bonitos.

— É o que dizem...

— Mais bonitos que eu?

Peppe não respondeu. Apenas sorriu. E Sara, vendo seu reflexo no vidro, sorriu de volta.

***

O pátio principal da Academia estava banhado pela luz dourada do amanhecer quando Peppe chegou.

A primeira coisa que viu foi Elara, encostada em uma espécie de banco perto de um enorme chafariz. Para Peppe, a atmosfera amigável e gentil de uma "pracinha de shopping" curiosamente combinava com ela. 

A princesa do Império Girassol usava roupas práticas de viagem, calças de couro escuro, botas resistentes, uma capa branca de mago que combinava com seu estilo, e carregava uma pequena mochila nas costas. Seus cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo alto, e sua expressão era uma máscara de determinação profissional que mal escondia a ansiedade.

— Príncipe Petrus — cumprimentou, de modo formal, quase forçado. 

Alguma coisa dizia ao rapaz que os Império Girassol e Reino de Tullis tinham algum tipo de relação antecedente, pois a atitude dela ficava cada vez mais estranha. 

— Alteza — respondeu, incapaz de evitar um tom irônico.

— Por favor. Estaremos viajando juntos por semanas. Pode me chamar de Elara.

— Já te falei antes, não? Pode me chamar de Peppe.

Ela ergueu uma sobrancelha. — Pette?

"Essa vagabunda tá se passando, só pode", pensou, antes de dizer: — Caralho, a gente estuda junto tem mais de um ano. Você escuta meu nome pelo menos umas 3 vezes todo dia. É como meus amigos me chamam. Pode me chamar assim também. 

— Somos amigos?

— Ainda não. Mas estamos trabalhando nisso.

Antes que Elara pudesse responder, uma terceira figura aproximou-se. 

Marcus Vorenus, o Executor designado como supervisor. Ele usava o uniforme branco padrão, ainda mais branco que a capa de Elara. 

Era impecável e sem adornos. Sua expressão era neutra, seus olhos de aço varrendo o ambiente com a eficiência de quem já fez aquilo milhares de vezes. Nas costas, carregava uma mochila maior que as deles, além de uma espada curta presa ao cinto, algo incomum para um mago, mas Marcus, aparentemente, gostava de estar preparado.

— Príncipe Petrus. Princesa Elara. — Sua voz era calma, profissional, sem traços de deferência excessiva. — Sou Marcus Vorenus, seu supervisor nesta missão. As instruções do Conselho são claras: eu os acompanharei até Aldur'thal, auxiliarei na comunicação com os elfos, e garantirei que vocês retornem com segurança. Minhas ordens são para não interferir a menos que haja risco iminente de morte. A missão é de vocês. Espero que consigamos nos dar bem. 

Eles assentiram. 

Marcus então tirou uma espécie de mapa da capa e olhou para o norte. 

— Vou avisá-los desde já: se comportem! Não se esqueçam, vocês podem ser das famílias reais de seus respectivos reinos, mas aqui atuam em nome do Conselho Arcano e da Academia de Celestria. Já eu, sou só uma garantia. 

Peppe achou aquilo curioso. 

— Uma garantia de quê? — perguntou.

— De que o Congresso também está levando a sério a situação dos elfos. — Marcus tocou a insígnia em seu peito, um gesto automático. — De que não enviaram apenas magos inexperientes para lá sem supervisão. E, sejamos francos, de que vocês não vão fazer nada que possa causar um incidente diplomático.

— Nós? Causar incidente? — Elara fingiu indignação. — Nunca.

O Executor não sorriu. Apenas assentiu, como se tivesse ouvido aquela piada muitas vezes antes.

"Tsc! Esses malditos executores do Congresso se acham só porque têm uma capinha branca e uma insígnia. Já não gostei. Espero que ele seja fácil de enrolar", pensou. 

— A carruagem nos espera. A viagem até o Vale dos Ventos leva três dias. Descansem enquanto podem.

Elara foi primeiro. 

Peppe ficou esperando Marcus entrar, porém o mago executor apenas ficou lá, parado, e fez um sinal manual para que o jovem entrasse primeiro. 

Aquela carruagem era bem diferente de tudo o que vira até então naquele mundo. 

Para começar, não era movida por cavalos, nem por mulas. Ela era movida por motor. Uma caixa semi-metálica, muito parecida com um carro antigo, em específico com um Ford Model T, "versão 1". Até mesmo as rodas estavam lá. 

"Que coisa engenhosa, como será que faço pra conseguir um?", pensou o rapaz, sentindo-se tolo por subestimar a tecnologia daquele mundo. 

Algum tempo se passou.

A carruagem era confortável, mas apertada para três pessoas. Peppe sentou-se de frente para Elara, enquanto Marcus ocupava o banco do motorista, preferindo a vista da estrada ao contato humano prolongado. 

As primeiras horas foram silenciosas, preenchidas apenas pelo barulho do motor e do batente das rodas, além do som do vento, que naquela manhã estava mais forte do que o normal. 

Foi Elara quem quebrou o gelo primeiro.

— Você realmente não sabe nada sobre elfos, não sabe?

— Sei que existem. Que são antigos. Que têm orelhas pontudas e descendência antiga, além do que são bonitos — Peppe deu de ombros, lembrando-se da arqueira mística que o salvou logo no início de sua jornada naquele mundo. "Será que ela tá bem?" 

 Mas ele logo foi acordado de seus súbidos pensamento por Elara. 

— Isso é triste. Bem triste, pra ser bem sincera. 

— É a verdade.

Ela suspirou, recostando-se no assento.

— Os elfos de Aldur'thal são da Floresta de Prata. Uma das tribos mais antigas do continente. Eles são... diferentes.

A curiosidade do rapaz foi atiçada. Ele até revirou os conhecimentos do falecido príncipe, entretanto não achou nada muito mais profundo do que tinha dito. 

— Diferentes como?

— Isso que você descreveu provavelmente foi um alto-elfo. A maioria dos elfos que os humanos conhecem são os altos-elfos. Os elfos da floresta, por outro lado... — Elara pareceu escolher as palavras com cuidado — ...são mais terrestres. Pele morena, cabelos escuros, corpos esculpidos pela vida na floresta. São guerreiros ferozes, caçadores implacáveis, e têm uma cultura matriarcal. Mas sim, são muito bonitos. Ao menos é o que dizem.

Peppe deixou a paisagem para encarar de frente Elara. 

— Matriarcal?

Ela pareceu se sentir desconfortável pela atenção súbita, porém continuou falando: 

— As mulheres lideram. As anciãs governam. Os homens... — hesitou — Bom, eles ocupam posições secundárias. Não é uma sociedade igualitária, pelos padrões humanos. É uma sociedade onde o poder é conquistado, não herdado, e as mulheres são, em média, mais fortes e mais habilidosas em combate do que os homens.

Peppe processou a informação.

— Então a pessoa com quem vamos negociar...

— É quase certamente uma mulher. A Matriarca de Aldur'thal, se ainda estiver viva, ou sua filha mais velha.

— E você sabe disso porque...

— Estudei. — Ela ergueu o queixo, um gesto de orgulho contido. — Não sou apenas uma princesa decorativa, Pette. Estudei história, política, culturas. Sei mais sobre os elfos da Floresta de Prata do que a maioria dos chamados "especialistas" do Conselho.

Peppe quase rangeu quando escutou o "Pette" sair tão naturalmente da boca da colega. Mas conteve-se. 

— Então você vai ser útil.

A frase saiu mais seca do que pretendia. Elara corou, mas não respondeu. O silêncio retornou, agora mais desconfortável.

"Bela diplomacia, garoto", comentou Floquinho, com seu sarcasmo habitual. "Pegou bem no ponto fraco dela. Trate a princesa como uma inútil e veja como ela vai cooperar."

"Acha que essa filha da puta tem Complexo de Édipo?", respondeu o rapaz.

"Só estou dizendo. Elfos são desconfiados por natureza. Se vocês dois não estiverem em sintonia, eles vão perceber. E vão usar isso contra vocês."

Peppe suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Elara. — Ela olhou para ele, surpresa com a falta de título. — Desculpe. Não foi minha intenção menosprezar seus conhecimentos.

— Foi sim. — A resposta foi direta, mas sem hostilidade. — Mas tudo bem. Eu entendo. Você não confia em mim. Eu também não confio em você. Somos estranhos jogados juntos por uma burocracia. Isso não significa que não possamos trabalhar juntos.

— Justo.

— Justo.

Ela estendeu a mão. Ele apertou. Foi um acordo frio, profissional, mas era um começo.

— Mas que fique claro, nós não somos amigos. E eu não esqueci do incidente passado. Temos uma rixa. Uma rixa que vou deixar de lado em prol dessa missão. 

Peppe suspirou, porém fez que sim com a cabeça. 

"Então tem mesmo alguma coisa. Eu sabia! Mulheres são realmente complicadas", refletiu, deixando-se levar pela paisagem levemente escura do outono, enquanto analisava as folhas caírem em grandes quantidades das árvores daquele monte. 



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Fala galera, Petter aqui!

Bom, resolvi tentar algo novo e pedi pra IA gerar imagens de alguns personagens. Vou soltar ao longo dos capítulos. Espero que gostem.

A de hoje é Sara, "a caçadora". 

 

 

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