Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 51: Nas profundezas de Aldur'thal (parte III)

Aquele amontoado de bifurcações, lama e escuridão parecia não ter fim.

Peppe sentiu o ar frio das profundezas roçar seu rosto enquanto despencava por um túnel escuro e úmido. O orbe de luz em sua mão era a única fonte que os separava da escuridão completa.

O lugar onde estavam estava no final de um grande corredor. Era uma espécie de câmara, similar às que tinham visto até então. 

O teto era alto, tão alto que a chama não alcançava, perdendo-se numa escuridão que parecia sugar a própria luz. As paredes eram feitas de blocos de pedra irregulares, cobertos por musgos que brilhavam fracamente com uma luz verde e fosforescente, como olhos de animais noturnos observando das sombras. O chão era de terra batida, úmida e pegajosa, e gotículas de água pingavam do teto em intervalos regulares, criando um eco que se perdia na escuridão.

E nas paredes, runas gravadas brilhavam com uma luz azulada e pulsante, formando padrões que se moviam lentamente, como se estivessem vivos. 

Ele reconheceu aquela escrita, era a mesma do altar, a mesma dos constructos. A língua dos Construtores.

As elfas o seguiam, entrando na sala, enquanto Peppe tocava o altar.

Um rangido soou, fazendo-o franzir o cenho. 

No instante seguinte, um barulho. Luzes surgiram das inscrições do altar. Partículas mágicas se agitaram, para um lado e para o outro. Tudo ficou frenético. 

— Outra armadilha?! Mas que caral...

O voz de Peppe sumiu. Uma fincada súbita o atacou no peito. Outra na cabeça. 

[Sangue ancestral identificado. Analisando pureza... Começando extração. Seja bem-vindo, grande mestre Belial, da família Ancherion]

Do nada, o mundo explodiu em números.

Não foi uma explosão de fogo ou luz. Pior. Foi uma implosão de informação. Fórmulas algébricas que não faziam sentido, diagramas de círculos mágicos sobrepostos como mandalas enlouquecidas, nomes de ervas em idiomas mortos, temperaturas de fusão de metais inexistentes, tudo isso invadiu o crânio de Peppe como se alguém tivesse despejado uma biblioteca inteira dentro de sua cabeça com uma betoneira.

Era parecido com quando comprava algo da Loja da Ganância. 

O problema era que dessa vez ele não tinha feito nada disso. Floquinho ainda estava dormindo, e ele não tinha mais almas para trocar. Além disso, apesar da enxurrada de informações, normalmente era mais suave, como se ele tivesse tomando um licor de frutas. 

Dessa vez, contudo, as informações desceram como se fossem cachaça da pior qualidade. Queimava a mente, um préludio da ressaca que viria mais tarde. 

Ele caiu de joelhos.

— Ah, puta que pariu — gemeu, apertando as têmporas com as mãos. — Que merda é essa?!

O chão estava úmido. 

Claro que estava. Musgo, folhas podres. Sua calça, a última calça minimamente decente que ele tinha, já estava manchada com os mais variados tipos de lama e lodo.

"Floquinho!", chamou, 

Mas nada.

Ele tentou se apoiar no companheiro, mas Floquinho não estava ali. Estava dormindo, "digestando almas".

"Você só dorme quando eu to fudido, caralho!", reclamou. 

A sobrecarga piorou.

Peppe sentiu seus braços se moverem sozinhos. Não foi um tremor, foi um comando. Alguém, ou alguma coisa, estava pilotando seus membros como se ele fosse um boneco de ventríloquo mal ajustado.

Lúrien e as outras o encaram atônitas, enquanto ele rolava no chão úmido da caverna. 

“Golpe de corte ascendente. Ângulo de 37 graus. Rotação de punho para maximizar trauma.”

A informação brotou na mente dele como uma legenda automática. Seu corpo obedeceu.

O movimento era feio, pragmático.

“Bloqueio com antebraço esquerdo. Absorver impacto com rotação de tronco. Contra-golpe na lateral da quinta costela.”

O corpo dele se moveu novamente. 

"Caralho! Eu me sinto violado. Quem caralhos tá fazendo isso?!"

Trolls. Fraqueza: ácido de flor de Sombralis. Ponto vulnerável: entre a segunda e terceira vértebra cervical, onde a regeneração falha em 0.3 segundos.

"Por que eu preciso saber disso?!", Peppe perguntou ao universo.

O universo, na forma de uma bota de couro vegetal estampada com folhas douradas, apareceu diante do seu rosto.

Ele ergueu os olhos.

O corpo ainda se mexendo em movimentos estranhos. Era um tipo de convulsão. 

Thalia, alta como um poste, estava com uma lança apontada para seu pescoço, olhava para ele com a expressão confusa, sem entender se ele tinha alucinado e se tinha se tornado uma ameaça naquele momento. 

— Você está bem?

Peppe tentou sorrir. Saiu uma careta.

— Bilu, bilu, teteia — disse, com a cabeça estourando de dor. 

A guardiã não riu.

A ponta da lança subiu dois centímetros.

— Eu estou bem, ainda não fiquei louco, tá bom — disse. — Mas que caralhos foi isso?!

Demorou alguns instantes até que conseguisse assimilar aquilo tudo. 

Em seguida, viu que algo estranho havia acontecido no altar. 

Um estranho orbe de luz saiu de lá, verde-claro, brilhante como o sol. 

A mana, que já era densa, ficou ainda mais densa e pesada. O ar estava quase irrespirável. Mesmo as elfas, que não tinham afinidade com a magia, conseguiam sentir. 

— O que está acontecendo? — perguntou Nessa, com Iris apoiada sobre seu ombro. 

— A origem da anomalia. 

— O quê?!

Quando a luz verde diminuiu, todos puderam ver que algo estava flutuando no altar. Era uma espécie de arma. Uma lança, parecida com a das elfas. A diferença era que aquela em específico parecia um pouco menor, porém irradiava uma luz incomum. 

A ponta era fina, e ela era repleta de inscrições por toda a extensão do cabo e na ponta também. 

Peppe aproximou-se novamente, atônito e encantado pela beleza do armamento. 

Ele o tocou com a mão direita. 

Diferente do que pensou, ela era leve, quase que macia. Conseguiu fazer alguns movimentos, quase que de forma natural. Era um sentimento estranho, quase como se aquela lança fosse parte do seu corpo. 

Porém, ao retirar o objeto, notou que aquela não era a única coisa lá. 

Também havia uma espécie de pedra. Ela era quase toda preta, mas um pouco esverdeada nas extremidades. 

Sentindo melhor o fluxo de partículas mágicas, Peppe notou que a anomalia não vinha da lança. Ela vinha daquela pedra. Era como se aquilo fosse um imã, atraíndo a mana para si. Transformando as partículas, fazendo-as correr. 

As partículas pulsavam ao redor da pedra.

— Creio que encontramos a origem da anomalia. 

— Muito bom! Kekeke... Eu falei pra vocês que esse aí era diferenciado.

A voz ao fundo parecia vir do nada, surpreendendo a todos. 

— Quem fala? — questionou a matriarca Lúrien. 

— Oh, vejam só. Quanta carne de qualidade. Kekekeke...

Reparando bem, era possível ver algumas sombras humanóides ao fundo. Nelas, repousavam seres estranhos, com calda e garras. Tinham chifres e olhos vermelhos. 

— Diabretes! — deixou escapar a elfa Thalia, ao fundo. 

— Olhem que elfas carnudas, meus amigos. Kekekeke...

— Eu gosto é das peitudas. Kekeke...

Os répteis deliciavam-se entre si, debochando. 

Peppe ficou em posição de combate, guardando a espada e ficando apenas com a lança nas mãos. Ele encarou os inimigos, quando um pedaço de informação veio-lhe à mente. 

"Tiabretes. Variantes evoluída de diabrete. Capacidade de camuflagem em sombras. Inteligência tática superior. Ataque preferencial: feitiçaria avançada. Especializados em artimanhas e arapoucas".

Peppe achou aquilo curioso. Foi algo que começou depois que ativou o altar e pegou a lança. Possivelmente tinha alguma relação, algo que ele teria que ver com Floquinho, quando a criaturinha acordasse. 

A pele cinzenta era coberta de escamas finas, quase transparentes, que refletiam a luz das runas como espelhos d'água. As mãos tinham quatro dedos, longos e articulados, com garras que brilhavam de um azul vítreo 

Uma grande bola de fogo surgiu da mão livre de Peppe. 

Sentindo o perigo, as variantes de diabrete se apressaram em falar:

— Alto lá, mago humano! Nós temos algo que talvez você queira. Kekekeke...

Afastando-se, eles mostraram o que estava atrás de si. 

Uma gaiola feita com terra, que aprisionava três mulheres. Uma delas era humana; as outras, elfas. 

— Elara! 

— Aylin!

Elas estavam presas, sob o poder dos tiabretes. 

— Soltem elas, seus filhos da puta!

Eles riram, como hienas. 

— Você pode tê-las, contanto que passe a pedra e a lança para nós. 

Peppe apertou os dedos em volta do cabo da lança. O metal parecia pulsar, como se estivesse alerta, como se compartilhasse sua fúria. A bola de fogo na outra mão ficou ainda maior.

— Por que vocês querem a pedra? — perguntou Lúrien, sua voz firme apesar da fraqueza.

— Por que você acha, velha? — O líder dos tiabretes inclinou a cabeça, seus olhos vermelhos brilhando com um brilho ganancioso. — Ela é a fonte. Com ela, podemos... expandir nosso território. Controlar as criaturas das profundezas. Comer a carne que quisermos. Kekekeke...

— Essa relíquia pertence aos elfos — respondeu Lúrien. — Foi selada aqui por meus antepassados.

— Seus antepassados estão mortos, velha. E vocês estão morrendo. As plantações apodrecendo. Os jovens partindo. Todo este Vale está morrendo. — Ele cuspiu no chão. — Entreguem a pedra. Entreguem a lança. E talvez... apenas talvez... deixemos vocês saírem daqui com vida.

Peppe olhou para a pedra, ainda no altar. Pulsava com uma luz verde e doentia, e ele podia sentir a energia sendo sugada para dentro dela, acumulando-se, esperando.

— E se eu entregar a pedra, mas ficar com a lança?

O líder dos tiabretes hesitou.

— Não negociamos, humano.

— Pois eu negocio.

Peppe se aproximou do altar, mantendo a lança em uma mão e estendendo a outra para a pedra. Os tiabretes recuaram, tensos.

— A pedra pela garota. E pelas elfas.

— Duas elfas e uma humana pela pedra? Risada. Negócio ruim.

— Então morram.

Peppe ergueu a lança. A ponta brilhou com uma luz verde, a mesma luz que emanara do artefato quando ele o tocara.

Os tiabretes recuaram, seus olhos vermelhos brilhando com fúria.

— Você não sabe o que está fazendo, humano. Segurem a gaiola! Não deixem que...

Foi rápido.

Peppe não esperou.

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