Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 37: Chamas e destruição (parte II)

O corpo agiu por instinto.

Em vez de recuar, ele chutou a mesa com toda a força. Ela voou para cima com uma velocidade que quase não era visível aos olhos. 

Crack! Pah!

Estilhaços caíram. Parte do teto ficou destruído com aquilo.

O movimento súbito atrapalhou a mira do homem da besta, que tropeçou para trás na tentativa de escapar do grande móvel de madeira maciça. 

O virote silvou, mas em vez de atingir o peito de Peppe, cravou-se na ombreira da porta, quase atingindo o suposto Oficial. 

Os dois homens das adagas avançaram com a sincronia de quem trabalhava junto há tempos.

Peppe não tinha espaço para sua capoeira elaborada. O corredor era estreito demais. De relance, viu sua velha espada. Pegou-a. 

A luta seria de lâminas.

Ele desembainhou a arma, bloqueando um golpe que veio de cima, sentindo o choque nos braços. O segundo homem tentou flanquear pela esquerda.

Instinto puro o salvou naquele momento. 

Um pedaço de pano de sua camisa foi rasgado pelo assassino, passando poucos milésimos do fígado.

"Aura de batalha. Tsc! Que merda", pensou. 

Foi quando o conhecimento comprado na Loja da Ganância gritou alto, como se dissesse me use. E assim foi feito. 

Para combater aura de batalha, era a única opção. 

Peppe não tentou um feitiço complexo. Concentrou-se no candelabro de parede próximo, nas chamas das velas. Com um puxão de vontade e uma pitada de mana, ele esticou uma das chamas, transformando-a em um chicote de fogo curto e grosso que atingiu o rosto do segundo atacante.

O homem gritou, jogando as mãos no rosto em chamas. 

— Aaaaaaaaa! Seu filho da puta!

Peppe usou a distração para enterrar sua espada na barriga do primeiro, torcendo a lâmina antes de puxar, igual viu em um filme medieval. 

O grito foi abafado pelo som de metal rasgando carne.

Com as mãos sobre o metal, conseguiu sentir o pedaço de carne e vísceras sendo rasgadas. Era muito similar a rasgar papel ou a riscar um quadro com as unhas. Causou-lhe uma certa aflição, porém não o abalou muito. 

O homem da besta já estava recarregando. Peppe arremessou a adaga que tomara do primeiro morto. A lâmina girou no ar e cravou-se no ombro do besteiro, fazendo-o tropeçar.

Outro grito agudo de dor. 

Não havia tempo para finalizá-lo. Peppe virou e correu, na tentativa de finalizar o chefe de seus algozes. 

Ao virar-se, nada viu. 

— Cadê você, maldito? 

O homem havia fugido. 

Olhou de súpeto para a saída, tentando ver algo, quando o outro assassino veio mais uma vez. Seu rosto estava cheio de ódio por Peppe. 

Pah!

O rapaz chutou o outro oponente na barriga. Sem aura de batalha, sem mana, só pura força. Uma força que até então nem ele mesmo sabia que tinha. Força trazida pela pura fúria. 

O homem voou, até parar em uma das paredes do salão. 

Peppe então decidiu sair. Precisava ver Sara. 

Mas não foi para a saída principal, que certamente estaria vigiada, e sim de volta pelo corredor, na direção dos escritórios internos. Ele ouviu gritos e alvoroço começando em outras partes do prédio. 

A "armadilha", parece, não era só para ele. 

"A Guilda está sendo atacada?"

— Por ordem do Conselho Arcano das Províncias Unidas de Rochedo, decretamos a interdição e o imediato fechamento da filial da Guilda dos Aventureiros em Celetria!

Uma voz imponente, de um homem sério, podia ser ouvida.

Peppe se escondeu, mas notou que muitos homens de preto, vestidos com uma espécie de uniforme, estavam cercando a guilda. 

E o suposto oficial estava na frente deles, gritando algo, antes de ser algemado por uma espécie de feitiço que fazia plantas crescerem. 

Seja lá o que estivesse acontecendo, ele não ficaria lá para ver. 

Esgueirou-se, saindo com cautela. 

Encontrou uma janela estreita no fundo de uma sala de arquivos. Sem hesitar, quebrou o vidro com a empunhadura da espada e se jogou para o beco escuro abaixo, rolando na sujeira para amortecer a queda.

O som do caos explodiu atrás dele. 

Não apenas da Guilda, mas de toda a cidade. 

Ao se levantar, Peppe viu clarões de luz laranja e ouviu explosões abafadas vindas de várias direções — do mercado negro, das docas, das áreas onde se sabia que outras guildas e facções criminosas operavam. Uma fumaça densa e preta começava a subir contra o céu noturno, misturando-se à bruma habitual.

"O que caralhos está acontecendo?", questionou-se. 

Parecia que uma espécie de conflito, de "limpeza", havia começado. E sua casa, seu refúgio miserável, estava no caminho.

Ele correu como um demônio, ignorando a leve dor nas costelas ocasionada pela queda. 

Pulou cercas, cortou quintais, usou cada atalho conhecido de suas incursões noturnas. O cheiro de fumaça ficava mais forte, misturado ao odor metálico do sangue e a um cheiro químico doce e enjoativo.

Quando enfim alcançou o beco de seu casebre, o coração quase parou.

A porta estava arrombada, despedaçada. 

Entrou sem hesitar. 

Dentro, o fogo do fogão a lenha havia se espalhado, engolindo os móveis pobres. As chamas laranjas iluminavam uma cena de devastação. Dois corpos estavam caídos na entrada.

Eram homens de roupas estranhas, parecidos com mercenários viajantes, "aventureiros meia-boca" ou "vagabundos”, na gíria popular. O mesmo estilo dos que acabara de matar. 

 E, no centro do pequeno cômodo, Sara lutava.

Ela segurava uma perna quebrada de uma cadeira como uma clava, girando e atacando com uma fúria desesperada contra um terceiro homem, maior e mais pesado, que tentava contê-la. 

O rosto de Sara estava sujo de fuligem e sangue, e havia um corte profundo em seu braço, mas seus olhos brilhavam com uma determinação feroz.

— Larga ela, seu imundo! — O rugido de Peppe encheu o casebre em chamas.

O invasor virou-se, surpreso. 

Foi sua última ação. 

Sem enunciar o feitiço, um raio de fogo veloz como o trovão perpassou o crânio do inimigo. Era uma flecha ardente, poderosa como um tiro de um fuzil de calibre 762. 

— Mestre! — Sara soluçou, a clava caindo de seus dedos trêmulos. 

Ela cambaleou, e Peppe a pegou antes que caísse.

— Você está ferida? Temos que sair. Agora! — Ele a envolveu com o braço não ferido, puxando-a para fora da casa em chamas.

Ela fez que estava bem, apontando para a lateral. 

Lá estava uma bolsa de viagens. Ao que parece, eram os preparativos que Sara estava fazendo antes de ser atacada. 

Ele as pegou, apoiando as coisas no braço vazio. Levou Sara no outro. 

Do lado de fora, o bairro parecia um inferno em miniatura. 

Várias outras casas e barracos também ardiam. Gritos ecoavam na noite. Figuras encapuzadas, muito mais numerosas e organizadas do que meros bandidos, moviam-se em grupos, entrando em domicílios, arrastando pessoas para fora, executando algumas no ato. Era uma operação militar de extermínio.

— A Mão Sombria... — murmurou, olhando na direção do bar de Derik, que ficava a algumas quadras do seu próprio casebre.

Uma coluna de fumaça ainda mais densa subia de lá.

Peppe olhou consternado, mas não havia nada que pudesse fazer. Ele precisava sair dali o mais rápido possível. 

Precisavam de um lugar para se esconder. Sara disse que estava bem, porém o sangramento incessante em seu braço preocupava o rapaz. 

Naquele instante, ele se lembrou da proposta da condessa, e uma ideia imprudente lhe veio à mente.

— Segure-se em mim. Já sei onde vamos. 

— Pra onde? — Sara perguntou.

— Para a toca do lobo — respondeu Peppe, mergulhando-os em meio à escuridão. 

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