Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 36: Chamas e destruição (parte I)

Ao que parece, a condessa era membro do Conselho Arcano. E, assim, conhecia segredos que Peppe sequer imaginaria. Se ela o estava alertando, era porque realmente mais pessoas já haviam descoberto sua real identidade. 

Ele precisava ter cuidado. 

Não que ele se importasse. Era só que seria mais cômodo se pudesse passar batido, do modo como o diretor havia sugerido. 

A caminhada de volta para o casebre na periferia foi tensa. Peppe ficou se questionando sobre quem poderia saber o seu disfarce. Por paranóia, usou o mesmo caminho indireto e cheio de becos que adotara em suas incursões noturnas como o "Ladrão Fantasma", uma rotina de segurança que agora se aplicava à sua vida diurna.

Ao cruzar o limiar da porta de madeira rachada, um cheiro reconfortante de sopa de legumes o atingiu. Sara estava diante do pequeno fogão a lenha, mexendo o conteúdo de uma panela de ferro.

— Mestre — ela disse, virando-se com um sorriso que desapareceu ao ver sua expressão. — O que houve? A aula foi tão ruim assim?

— Até que não, mas preciso descansar um pouco — Peppe resmungou, jogando a bolsa de livros no chão e desabando na cadeira da sala.

Enquanto devorava a sopa, a fome, como sempre, superando a ansiedade, ele relatou a Sara os pontos principais: o tal Exame de Ferro, o corte dos "fracos" para as classes comuns, a oferta de Rosetta e que sua identidade real deve ter sido descoberta. 

— Ao que parece, esse negócio de "primo Giuseppe" foi pela culatra. Então preciso pensar em alguma forma de evitar mais conflitos. Mas o principal problema é que os malditos vão descobrir onde estou e daí podem tentar matar a gente de novo. 

Sara ficou em silêncio por um momento, limpando as mãos em um pano.

— Bom. Não parece que aquela assassina queira te matar. Não mais, pelo menos — disse Sara, lembrando-se do último encontro, quando ela os salvou. — O que quer fazer?

— Boa pergunta, Sara. Boa pergunta... Bom, consigo pensar em algo divertido, mas só para nós dois. Hehe... 

Peppe estava entrando em seu modo safado como uma forma de escapulir o estresse. Infelizmente, quando o crepúsculo começava a pintar o céu de tons de laranja e púrpura, um forte batido na porta ecoou. 

Toc! Toc!

"Ah, era só o que me faltava. Quem é o maldito empaca foda que me aparece em casa logo depois da aurora?! Puta que o paril", resmungou internamente o rapaz, tirando as mãos das nádegas bem afeiçoadas de Sara. 

Não era uma batida firme, porém nem melodiosa. Era um toc-toc-toc preciso e impessoal.

Sara e Peppe trocaram um olhar. Ele fez um gesto para ela ficar atrás da porta divisória, enquanto sua mão encontrava o cabo da espada que sempre carregava consigo, embora não soubesse muito bem como usar.

— Quem é? — perguntou, mantendo a voz neutra.

— Uma mensagem para o senhor Peppe, aventureiro de Classe E — uma voz masculina, jovem e profissional, respondeu do lado de fora.

— "Senhor Peppe"? — indagou o rapaz, curioso por terem-no chamado de "senhor".  

Abriu a porta com cautela, apenas o suficiente. Um jovem portando o emblema da Guilda dos Aventureiros estava do lado de fora. De perto, era possível ver um "Classe F". Ele não pareceu armado nem ameaçador, apenas um novato tentando conseguir alguns trocados.

— Senhor — o mensageiro inclinou a cabeça levemente. — A Guilda registrou que você completou sua missão obrigatória do trimestre. No entanto, nosso sistema indica uma irregularidade.

Ele franziu a testa. 

— Irregularidade?! Ah, não é possível que você veio aqui, tarde pra caraca, e empacou a minha fod... cof... cof... ehr, digo, a minha atividade, apenas para me cobrar um caralho de missão?!

O aventureiro novato quase caiu para trás com o esporro. 

— Veja bem, a missão da... da "Estrela Valerie" foi concluída. Eu a escoltei de volta. Recebi o pagamento.

— Exatamente, senhor — o jovem assentiu. — O pagamento foi registrado. A irregularidade diz respeito ao cliente que postou a missão. O Lorde Lux Alf-Amoris requisitou uma auditoria do contrato, alegando que os termos originais foram violados.

Peppe sorriu de nervoso. 

— O quê?! — Peppe sentiu um calafrio de raiva. — Que termos? E por que razão você veio aqui a essa hora? Não dava pra me falar isso amanhã?!

"Mas eu me encontrei com esse maldito hoje. Ainda há pouco a gente tava junto. De fato ficamos de nos falar, só que a Guilda não tem nada a ver com isso", refletiu, chegando à conclusão de que algo estava errado. 

O jovem afastou-se mais um pouco, talvez por medo, ou apenas para evitar os "cuspes involuntários" do anfitrião. 

— Senhor, eu só vim a essa hora porque estava escrito que era urgente. Precisamos que vá se encontrar com lorde Lux agora, na sala de reuniões da Guilda.

Nesse momento, Peppe teve a confirmação que precisava. De fato, havia algo errado. Afinal, por que motivos o fariam sair de sua casa, a noite, apenas para falar de algo trivial, e ainda utilizando o nome de Lux, que o conhecia pessoalmente. 

Talvez alguém que tenha alguma posição na Guilda tivesse conseguido informações sensíveis e agora as estava utilizando para armar uma armadilha. 

— Isso é um absurdo — contestou, fingindo consternação. — Eu cumpri a caceta da missão. Mas tudo bem. Vamos! 

Olhou de relance para fora, porém não viu nada. O rapaz estava sozinho. 

Mas mesmo assim sentia algo. Era estranho, um tipo de sensação que vinha da intuição. Como que para indicar que algo não estava certo. 

— Deixe-me só pegar meu casaco — disse para o mensageiro, fechando a porta parcialmente. Em segundos, sussurrou para Sara: — Não saia daqui. Vou ver do que se trata. Tranque a porta depois que eu sair. Se não voltar antes do amanhecer, pegue o dinheiro debaixo da tábua solta do assoalho e some. Não me siga! Vá até a condessa e peça ajuda. Ou então para Lux. Eles moram na área nobre, próxima da Academia. E, o mais importante, não me siga!

Sara abriu a boca para protestar, mas Peppe já estava de volta à porta, um casaco surrado sobre os ombros, sua espada discretamente presa sob o tecido. 

— Vamos lá, então. Vamos resolver essa caceta pra eu poder dormir em paz. 

A caminhada pela periferia noturna foi tensa. O mensageiro, um rapaz realmente inexperiente chamado Leo, tagarelava nervosamente sobre os regulamentos da Guilda, tentando justificar o incômodo. 

Peppe mal ouvia. Seus sentidos estavam afinados como lâminas. Observava os becos, os telhados, as janelas escuras. O cheiro da bruma úmida do rio parecia mais forte, carregado de um odor químico estranho.

Entretanto tudo aparentava estar normal. Não pareciam estar sendo seguidos. O silêncio reinava em Celestria, o que era relativamente comum naquela época do ano, já que não tinha nenhum feriado ou festa programada. 

Andaram mais um pouco. 

A filial da Guilda dos Aventureiros em Celetria era um prédio imponente de pedra no limite entre o Distrito Comercial, a periferia leste e o centro. 

À noite, deveria estar silenciosa, como o restante da cidade, com apenas um ou dois guardas. Mas quando se aproximaram, Peppe viu luzes acesas em vários andares, e a porta principal estava escancarada, um filete de luz derramando-se na calçada.

— Estranho — murmurou Leo, sua confiança vacilando.

Ao entrar, a sensação estranha voltou. O grande salão de registros, normalmente um caos organizado de mapas e anúncios, estava vazio. 

As mesas estavam arrumadas, os candelabros acesos, mas não havia alma viva. Apenas o eco de seus passos no chão de madeira polida da guilda.

— Leo? — Uma voz seca e autoritária ecoou do balcão principal. Um homem mais velho, com as insígnias de um Oficial de Contratos, estava lá, seus olhos frios passando por Leo e fixando-se em Peppe. — Você trouxe o aventureiro Petrus para a sessão de mediação?

"Espera. Petrus?", questionou-se. 

Na filial da guilda de Vila Verde, em Amoris, Peppe havia dado seu primeiro nome para a atendente. Contudo, "Peppe" era o nome que constava em seu broche de identificação, como ele havia pedido para Lia na época. 

Como esse documento foi o unico que recebeu, "Peppe" deveria ser seu nome oficial na guilda. Sempre que pegava alguma missão, era esse o nome que ele dava. 

"Como caralhos esse maldito sabe o meu nome?", questionou-se mais uma vez. 

— Sim, senhor — Leo engoliu em seco, tirando Peppe de suas divagações.

O novato murmurou algo, apressando o passo para fora. 

— Muito bem. A sala de mediação é a três, no corredor leste. Lorde Lux e os árbitros já estão à espera.

Foi o suficiente para que Peppe tivesse certeza de que se tratava de uma armadilha. Era tudo muito formal, muito correto. E por isso mesmo, completamente falso. 

Lux não marcaria uma reunião oficial. 

Ele simplesmente o interceptaria nos jardins da Academia, durante as aulas. Esta encenação burocrática era obra de alguém que não conhecia os hábitos de Lux, mas tinha acesso aos registros da Guilda.

Peppe seguiu o Oficial, sua mente calculando. A sala três era uma porta maciça de carvalho no final de um corredor estreito e mal iluminado. O Oficial abriu a porta, fazendo um gesto para Peppe entrar.

Dentro, não havia luxo, nem Lux. Havia três homens. Não vestiam as cores de nenhuma casa nobre ou guilda conhecida. Usavam roupas práticas e escuras, de tecido grosso, e seus rostos estavam parcialmente ocultos por lenços. 

Dois deles seguravam adagas curvas e largas, o tipo usado por degoladores. O terceiro, que estava sentado à mesa, tinha uma besta de mão já armada e apoiada sobre a madeira, apontada para a porta.

— Deixe a espada aí — apontou para a lateral da parede, perto da porta. 

Sem escolha, foi o que ele fez, antes que o homem continuasse a falar:

— Agora sim. Boa noite, primo Giuseppe — disse o homem da besta, sua voz áspera e carregada de sarcasmo. — Ou devemos chamá-lo de Príncipe Petrus? 

— Como? 

— Não foi difícil chegar a essa conclusão. Você deu muitas pistas, falou e fez o que não devia, alteza. Você é muito burro. 

Ele riu.

Peppe manteve a calma. Sabe-se lá o motivo, mas acabou que, naquele momento, estava diante de uma situação delicada. 

Analisou com calma o ambiente. 

Estava muito perto do besteiro para ter certeza que conseguiria escapar. Para ter alguma chance de sair dali, precisaria distraí-lo. E então poderia lançar algum feitiço se tivesse tempo. 

Era isso: tinha que conseguir afastar a atenção do besteiro. 

— Veja bem, eu sei que você planeja pegar o aventureiro Lucas desprevenido, mas ele é um classe B, você não vai conseguir fazê-lo desviar a atenção. Desculpe. 

Parecia que o inimigo era inteligente. Decifrou em segundos os pensamentos do rapaz. 

Peppe hesitou. 

— Só queremos conversar, seja gentil e não reaja. 

Ele fez que sim, à contragosto. 

Depois, sentou-se com calma na cadeira preparada para si, ainda na mira do besteiro. 

— Vou ser rápido. Você é o príncipe de Tullis, correto? Mostre-me o broche. 

Peppe arrancou o pequeno broche real do bolso. Ao analisar, o suposto Oficial conseguiu ver que era real. Era o documento oficial da família Pistorius. Ele de fato era o herdeiro do reino nortenho.

— Certo, Alteza — dessa vez o tom era de fato respeitoso. — Precisamos que você fale com um certo alguém. Esse alguém não quer confusão, só está querendo que você faça uma certa "tarefa" para ele. 

Peppe achou aquilo estranho, mas manteve a calma. Até fingiu que escutava com atenção. Isso até o homem com roupas elegantes continuar a fala. 

— Nesse momento os garotos já devem estar com aquela sua serva. Então, se você cooperar, vamos manter a integridade física dela. Só não posso prometer que eles não façam nada nesse primeiro momento, afinal, os meninos estão sedentos por carne nova. 

O besteiro riu, junto com os demais na sala. 

— Venha conosco silenciosamente, e a escrava não precisará sofrer.

O sangue de Peppe esfriou. Eles sabiam sobre Sara. 

E pior, ameaçaram ela. Eles a usariam para forçar Peppe a seja lá o que fosse. 

Haviam usado a Guilda como isca, mas o alvo final era ele em casa, desprevenido, com Sara como refém. Tinha caído como um idiota, saindo de sua única fortaleza.

Se antes estava calmo, agora tudo foi embora. Era como se uma bomba nuclear tivesse caído sob a Groenlândia. Todo o gelo e a frieza foram explodidos.

O rugido que saiu de sua garganta não foi de medo, mas de fúria cega. 

— Malditos... Vocês... Vocês realmente não temem a morte!

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