Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 35: Disfarce descoberto

— Eu sei sobre seu segredo...

O peso das palavras de Lux pairou no ar do salão de espera como um barril de dinamite prestes a ser detonado. 

Peppe congelou, os dedos ainda sujos do bolo que comera, cada músculo do seu corpo alerta. O sorriso jocoso de Lux não se abalou, mas seus olhos claros perderam um pouco do brilho de deboche, ganhando uma seriedade desconcertante.

— Que outro segred...

Bing! Doong! 

Antes que Peppe pudesse articular qualquer pergunta um gongo profundo ecoou pelo salão, fazendo as taças de suco tilintar.

O Grande Auditório reapareceu ao redor deles, não mais vazio, mas com os alunos sendo materializados de volta em seus lugares, um a um. Alguns poucos chegavam pelo portal principal. A maioria, no entanto, simplesmente reapareceu sentada, desorientada e com as mãos vazias. 

No palco elevado, o Diretor Valerius, Lorde Ferrum e a Condessa Rosetta materializaram-se. A aura de poder que emanava do trio era palpável, silenciando instantaneamente os murmúrios e suspiros.

Valerius ergueu uma mão e um pergaminho de luz se desenrolou no ar à sua frente.

— O exame está concluído — anunciou, sua voz seca e sem emoção, como um juiz lendo uma sentença. — Os nomes abaixo passaram na triagem para continuar na Classe Especial do Segundo Ano.

Uma lista de doze nomes brilhou no ar. Peppe viu o seu, o de Lux, o de Oliver e alguns outros que reconhecia de vista. Viu também o de Elara, que ainda estava fazendo uma espécie de "bico" por ser ignorada por Peppe e Lux. 

— Os demais — continuou Valerius, deixando o silêncio pesar por um momento — demonstraram qualidades notáveis para chegarem a este ponto. No entanto, o rigor da Classe Especial exige um padrão que, nesta ocasião, não foi alcançado por todos.

Lorde Ferrum deu um passo à frente, seus olhos de aço percorrendo a plateia como lâminas.

— Fraqueza não é tolerada. Incompetência, menos ainda. Vocês que falharam não são dignos dos recursos e do treinamento exclusivos desta classe. A partir de amanhã, serão reintegrados às turmas comuns do Segundo Ano. Lá, talvez aprendam a servir aos reinos de vocês de outras formas. Quem sabe ainda possam ajudar a irrigar campos, curar mendigos ou ajudar com a burocracia. 

A humilhação nas palavras era calculada, uma facada pública na honra de cada um que falhara. Peppe viu Oliver esboçar um sorriso de superioridade ao lado de seus colegas aprovados.

Notando bem, reparou que, apesar de todos eles terem chegado ao segundo ano, nem todos tinham um broche em formato de círculo, ou um anel, indicativos de que eram magos. 

A grande maioria dos reprovados não tinham círculos. 

"Agora faz sentido. Esses filhos da puta queriam era tirar os mais burrinhos da classe especial sem arranjar problemas com a aristocracia", refletiu.

E aquilo fazia sentido, afinal, a imensa maioria deles eram filhos e filhas de pessoas importantes. Se fossem discriminados de continuarem na Classe Especial sem nenhum tipo de teste, provavelmente muitos poderosos ficariam insatisfeitos com a Academia.  

— A Classe Especial recomeça suas aulas amanhã, com o mesmo corpo docente — finalizou Valerius, ignorando o choque e a frustração que se espalhavam pelo salão. — Dispensados.

A porta central do auditório se abriu, e uma enxurrada de alunos começou a sair, alguns em choque, outros triunfantes. Peppe sentiu um toque no ombro. Era Lux.

— Conversamos depois — sussurrou, o sorriso de volta ao rosto, mas os olhos ainda sérios. — Eu, você e nossos "amigos". 

Ele não entendeu quem eram esses tais "amigos", mas antes que pudesse responder, Lux se misturou à multidão, sendo cercado por um grupo de admiradoras novamente.

— Ahr, Luxzinho, não deu pra mim dessa vez... Queria tanto continuar na mesma classe que você! — disse uma delas.

— Eu também!

Deixando as vozes ao fundo, ao sair do auditório, Peppe viu Elara parada à sua frente, bloqueando o caminho. Seus olhos castanhos faiscavam.

— Moretti — disse ela, o título soando como um insulto. 

— Alteza — Peppe respondeu, mantendo a voz neutra.

— Não gosto de você — declarou. — Mas você não é burro. E em Rochedo, inteligência vale mais do que linhagem, às vezes. Não espere minha gratidão. Mas espere… que eu estarei de olho. E-e, bem, obrigado por me a-ajuda..., por me acompanhar no teste.

Ela virou-se e saiu, a cabeça erguida, desaparecendo entre os alunos das classes comuns.

Peppe achou aquilo curioso. 

***

O retorno às aulas no dia seguinte teve um gosto amargo de anticlímax. O mesmo corredor de mármore, a mesma porta circular marcada com o símbolo do infinito. Uma sala idêntica, só que dessa vez tinha um "zero" a mais.

"Sala 0000". 

Mas o ambiente era irremediavelmente diferente. Dos vinte e poucos alunos do primeiro ano, apenas doze ocupavam as cadeiras. O espaço parecia grande demais, vazio demais. O silêncio era pesado, cortado apenas pelo som dos passos do Mestre Corvus ao entrar.

O professor arcano-matemático não perdeu tempo com condolências.

— A seleção natural, novamente. Não estou surpreso — começou, seus olhos escuros passando por cada rosto remanescente, até chegar no de Peppe. — Abram o Tomo de Geometria Dimensional no capítulo sete. Quem não compreender a transposição de matrizes mana-psíquica tridimensional até o final da semana será o próximo a encontrar uma carteira mais… adequada, nas classes gerais. 

Era a mesma ameaça, mas agora carregada do peso da realidade. Peppe sentou-se sozinho, na última fileira. O conhecimento arcano básico que comprara Loja da Ganância ainda zumbia em sua mente, deixando as monótonas palavras de mestre Corvus compreensíveis. 

Todos aqueles símbolos estranhos e runas pareciam formar padrões previsíveis. 

"Não sei como eu achava esse negócio difícil", refletiu. 

A aula do mestre Iggy Feldspar também foi tranquila. O ruivo demonstrou um feitiço de segundo círculo, um "Lança-Chamas Controlado", e esperou que cada um tentasse replicar a forma básica. 

Peppe conseguiu produzir uma chama estável e quente, surpreendendo Ignis. 

— Bom progresso! — bradou o mestre, sempre otimista. — O fogo interior arde! Mas não se acomode. Estava pensando, já que consegue conjurar feitiços do segundo círculo com alguma facilidade, por que não tenta algo mais "complexo"?

Peppe não entendeu, mas aceitou o desafio. 

Iggy, então, sacou uma espécie de livro da bolsa e passou para o rapaz. 

"Manual da Escola da Destruição, Tomo III: Introdução aos Feitiços de Área".

Era bem pesado e Peppe se surpreendeu com os desenhos estranhos sobre a capa. Começou a lê-lo ali mesmo, enquanto os demais aprendiam a conjurar a lança de chamas de Iggy.

Foi na saída da aula de Feldspar que Peppe, finalmente, encontrou-se com a figura que não via há mais de um mês.

Ele descia os degraus da Torre Leste quando uma voz melodiosa, carregada de uma autoridade suave, o chamou.

— Senhor Moretti. Um momento, por favor.

Ele se virou. A Condessa Evelynn Rosetta estava parada sob o arco de uma janela, a luz da tarde tingindo seus cabelos ruivos de fogo. Ela usava um vestido simples, mas de corte impecável, e sorria, mas havia uma sombra de cansaço sob seus olhos verdes.

— Condessa — Peppe inclinou a cabeça, ativando seu modo "príncipe educado" instantaneamente. — É uma honra.

— A honra é minha, finalmente conseguir cruzar seu caminho — respondeu ela, com uma leve ironia. — Você tem se tornado um jovem notoriamente difícil de se encontrar. Eu tenho tentado falar com você desde que soube que você havia ingressado na Academia.

Peppe manteve a expressão neutra. 

— Oh? Eu não tinha conhecimento. A rotina de estudos tem sido… intensa.

— Sim, deve ter sido — ela concordou, caminhando lentamente para ficar ao lado dele, como se admirassem juntos o pátio abaixo. — Eu entendo que sua situação deve ser precária. Um jovem de um reino distante, sem o apoio de sua família aqui… As despesas da Academia, a vida em Celestria, não são insignificantes.

Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairaram. Era uma abertura clara.

— Por que você não vem morar comigo? Tenho uma casa na área nobre de Celestria. Eu quase não a utilizo, já que prefiro ficar em minha mansão. Também posso te oferecer ajuda financeira com os estudos. Sei que as taxas são bem caras e que ainda tem os gastos com material.

Peppe ficou em alerta máximo. Onde estava a armadilha?

— Sua oferta é muito generosa, Condessa — disse ele, cauteloso. — Mas eu me sustento. Consegui algum trabalho ocasional na cidade.

— Trabalho? — Ela ergueu uma sobrancelha perfeita, uma ponta de preocupação genuína em sua voz. — Peppe, um Pistorius não deve se rebaixar a… trabalhos. Além do mais, há olhos inimigos por toda parte. Em Celestria, a política é um jogo de xadrez com facas. Você precisa de aliados. De proteção.

Ela olhou diretamente para ele, puxando-o para um canto, para que não fossem ouvidos. 

— Deixe-me ajudá-lo. Posso providenciar uma bolsa de estudos discreta, um patronato. Acesso a certos círculos que poderiam blindá-lo das investidas de… certas facções conservadoras que não vejam com bons olhos o fato de você estar aqui.

— Como assim? Eu tenho um disfarce. Ninguém sabe quem eu sou. Ehr... quer dizer, quase ninguém.

A condessa olhou com uma cara de "será que eu conto?", mas decidiu não dizer o que queria dizer.

A oferta era tentadora. Era exatamente o que ele precisava: recursos e abrigo político. Mas o preço? Lealdade? Peppe ainda não entendia bem o que estava acontecendo, e o diretor Valerius o alertou para tomar cuidado com os movimentos políticos de Rochedo. 

— Eu… preciso pensar, Condessa — respondeu Peppe, fazendo seu rosto mostrar uma gratidão hesitante. — Meu pai sempre disse para eu não dever favores que não pudesse pagar. Sua bondade me comove, mas não posso aceitar assim, de imediato.

Rosetta estudou seu rosto por um longo momento, e então um sorriso mais suave, quase maternal, surgiu em seus lábios.

— Inteligente. Seu pai ensinou bem. — Ela assentiu. — Pense. A oferta permanece. E saiba isto: há aqueles no Conselho, como o Lorde Ferrum, que veem qualquer ressurgência do nome Pistorius como uma ameaça à nova ordem que tentam forjar. Eles acreditam que reinos como Tullis e Amoris são emergentes que deveriam pertencer ao antigo Império das Flores, e não existir como países autônomos. A "neutralidade" da Academia os protege até certo ponto. Mas nem sempre.

Ela tocou levemente seu braço.

— Cuidado com quem confia, Peppe. Até mesmo entre esses muros. Nem todos caíram nesse disfarce de "primo caipira do príncipe de Tullis". 

E com um último aceno, a Condessa afastou-se, deixando-o sozinho com uma nova camada de paranoia e a confirmação de que sua farsa o colocara no centro de uma tempestade muito maior do que imaginava.

Seu disfarce havia sido descoberto.

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