Volume II
Capítulo 34: Conspirações
— Você?!
Peppe ficou surpreso ao ver que Lux estava do outro lado do portal. Ele chegou primeiro, com aparente facilidade.
Ao perguntar "como?", as coisas ficaram ainda mais absurdas.
Ao chegar no primeiro teste, Lux passou após chegar à mesma conclusão que Peppe: não sentia o menor respingo de culpa sobre absolutamente nada que fazia de errado, por mais moralmente degradante que fosse. A lógica normal não alcançava jovens narcisistas.
Mas foi a segunda parte que mais gerou estranheza.
Ao chegar no Deserto Enferrujado, Lux percebeu as anomalias mágicas. Ele caiu em cima de uma delas. Ao que parecia, não haviam apenas nove engrenagens, nem apenas oito portais.
Eram vários, e ele passou por um deles injetando um pouco de sua mana diretamente sobre o espaço no pedestal que abria o portal.
— Você está dizendo que decifrou as runas e encantamentos arcanos criados pelo Arquimago Diretor e mais dois magos do Conselho, todos do nono círculo, e tudo isso em questão de minutos?!
— Minutos, não — interrompeu Lux. — Foram quarenta e seis segundos e nove milésimos. Eu contei.
Elara ficou de boca aberta.
— Bom, isso tudo isso não importa. Eu e o jovem Moretti aqui temos que conversar. Agora, se não se importa, deixa essa mocreia aí, meu caro Petrus, e vamos conversar em particular.
— Quê?! — Elara sentiu-se aviltada. — Espera! Quem é "Petrus"? E quem é a mocreia?
Deixando a garota rica para trás, Lux arrastou o companheiro até um canto lateral do salão. Era o mesmo local que estavam antes de serem teleportados. Mas agora o diretor e os outros membros do Conselho não estavam lá.
Pelo que foi explicado, eles estavam aguardando nos próprios aposentos até que todos finalizassem o Exame de Ferro. Os alunos que já conseguiram tinham que esperar os demais naquele salão.
— Bom, pelo menos tem lanche e suco — reparou Peppe, apoderando-se de um pedaço de bolo.
— Eu particularmente prefiro um "red velvet" aframboesado, mas não estamos podendo escolher. Tsc! Esses pobres da Academia.
"Não sabia que tinha red velvet nesse mundo. Caraca", refletiu, antes de se dirigir a Lux.
Apalpou a poltrona, sentando-se com tranquilidade.
— Então, como raios você sabe o meu nome?
Lux fez uma cara jocosa, gerando um sentimento de estranheza em Peppe.
— Como eu não conheceria. Nós crescemos juntos, caralho. Não se lembra? Somos vizinhos.
Tentando puxar das memórias do antigo príncipe, realmente havia algo. Uma imagem de uma criança de cabelos e olhos claros veio. Ele usava roupas espalhafatosas, era altivo e corria muito. O contrário de Petrus, mais introspectivo e quieto.
Lux Alf-Amoris era o primeiro e único filho do duque de Amoris. O duque e o antigo rei de Tullis eram amigos próximos. Parece que tinham estudado na Academia de Celestria juntos e eram magos poderosos em suas épocas.
Foi uma enorme coincidência ambos terem "desaparecido" quase na mesma época.
— Ahhh, sim. Agora tudo faz sentido, pô — Peppe disse. — Mas, pera aí. Não me lembro de a gente ser tão próximo assim.
— E não somos. Você era estranho, muito estranho. Mesmo tendo essa aparência aí, você conseguia espantar todas as mulheres. Então eu te evitava.
Peppe achou graça daquilo.
— E por que você quer fazer amizade agora? Não me acha estranho?
— Você mudou, mas não foi por causa disso. É uma longa história, mas, resumindo...
Enquanto os demais ainda retornavam, a conversa prosseguiu. De maneira prática, depois do desaparecimento repentino, o duque de Amoris foi dado como morto e ele assumiu o título de duque. Mas o jovem Lux não tinha a força do pai e era visto por muitos como um beberrão luxurioso. Boatos sobre sua sexualidade também começaram a se espalhar, e os inimigos se aproveitaram.
Alguns nobres emergentes se juntaram com um grupo de republicanos e declararam guerra a Lux. Uma revolução então se instaurou.
O tio do duque, um filho ilegítimo de seu avô, assumiu como regente, para apaziguar os conservadores, e mandou o garoto para a Academia, para protegê-lo da guerra.
— Parece um pouco comigo, com a diferença que o seu regente não tentou te matar.
— Humpf! Uma ova. Se aquele velho sem vergonha não fosse um bastardo, eu estaria morto há muito tempo. Eu tive sorte. Você, por outro lado...
— Tô fudido pra caralho.
— Sim — confirmou. — Mas não é por isso também que eu me aproximei de você, caro Petrus.
Peppe ficou confuso.
Lux se aproximou, chegando próximo aos ouvidos do rapaz.
— Eu sei sobre o seu segredo — sussurrou.
— Como?
***
Enquanto isso, em Tullis...
O salão do trono ecoava com uma fúria que fazia os vitrais tremerem.
— Então me digam, porra! — a voz de Morius Pedra-Alta trovejou, fazendo dois cavaleiros recuarem um passo. — Como caralhos o príncipe inútil não só escapa do forte, como ainda chega vivo em Rochedo e passa na porra do exame de admissão, merda?!
Ele não estava sentado no trono, estava diante dele, um homem parrudo e moreno em meio a uma corte de nobres pálidos, seu tamanho fazendo a poltrona real parecer coisa de criança. A capa preta agitava-se com seus movimentos bruscos.
O Capitão da Guarda, Garen, engoliu em seco, suas cicatrizes de batalha parecendo queimar sob o olhar do regente.
— Nós contratamos o Clã Noxum, meu lorde. Eles enviaram a assassina conhecida como "Lâmina Sombria". O-o relatório f-foi... Ela o encontrou no navio. O trabalho deveria ter sido...
— Deveria?! — Morius cortou, o desdém na voz tão afiado quanto uma lâmina. — Deveria é o caralho! Agora recebo notícias que o fedelho quebrou o cristal de teste, pulou de ano e recebeu um círculo arcano! Ele é a porra de um mago do 1º círculo! Isso soa como um aleijado pra vocês? Soa como o pirralho inútil que trancamos no forte?!
O silêncio que se seguiu era mais pesado que armadura completa. Marcius, o velho conselheiro, manteve os olhos baixos, mas suas mãos enrugadas se contraíram levemente.
— A Lâmina Sombria... — o capanga continuou, sua voz era um fio de som naquele salão enorme — ela se retirou da missão. Recusou o pagamento final.
Morius parou de andar. Seu rosto, moreno e marcado por cicatrizes antigas, contraiu-se num espasmo tão puro de raiva que vários cortesãos baixaram os olhos.
— Retirou? — a palavra saiu baixa, perigosamente calma.
— Sim, lorde Regente — confirmou, recuando outro passo. — Deixou mensagem. Disse que o alvo é... 'propriedade pessoal' agora. Que qualquer interferência seria guerra contra ela e seu clã.
Morius riu. Um som seco, sem humor, que ecoou nas paredes de mármore como o rangido de uma porta de tumba.
Ele se virou de golpe para a janela, seus punhos cerrados branqueando. Lá fora, os jardins do palácio estavam praticamente mortos, com as antigas tulipas que davam vida à corte sendo retiradas e substituídas por um grande pátio de concreto.
— E Rochedo? Nós ainda podemos contratar outro sicário, de outro clã, pra dar um fim no moleque, enquanto ele ainda não é uma ameaça.
— Os acordos de neutralidade são antigos, Lorde Morius. O território da Academia é um espaço neutro. Mandar um sicário para dentro seria visto como declaração de guerra não só contra Rochedo, mas contra todos os outros reinos.
— Então o desgraçado tá intocável — Morius concluiu, cuspindo as palavras.
— Enquanto estiver dentro dos muros, sim — Marcius assentiu. — Mas a Academia não é um convento. Eventualmente, ele terá que sair. Para missões, estágios...
Morius virou-se, um brilho novo em seus olhos escuros.
— Só tem um porém — dessa vez foi o capitão da guarda a falar. — Nossos olhos em Celestria dizem que a Condessa de Rosa Vermelha, lady Rosetta, o protege.
— E quem seria essa?
Nem a brisa suave do verão era capaz de aplacar a raiva que estava contida no peito de Morius naquele instante. Ele socou a mesa, furioso, aguardando a resposta.
— Ela é uma maga poderosa — O Conselheiro Marcius os interrompeu, de modo sereno —, mas tem tido muitos problemas em suas terras e não tem muito poder militar. Ela parece querer contornar isso espalhando sua influência no Conselho Arcano de Rochedo. Parece ser da facção dos Reformistas.
— E por que isso deveria ser importante para mim?
— Porque isso significa que ela está no lado contrário dos Conservadores. Em outras palavras, Lady Rosetta tem inimigos poderosos, como o Lorde Ferrum, do Riacho.
A raiva em Morius deu lugar a algo mais calculista. Um sorriso lento surgiu em seus lábios, não de alegria, mas de predador que encontrou uma nova trilha.
— Diga-me mais...
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