Volume II
Capítulo 38: Ganância
A mansão da Condessa Evelynn Rosetta podia ser vista de longe. Era maior e mais imponente que a de Lux, com mais a diferença de estar um pouco mais adentro no distrito nobre.
Era escondida em um bosque privado na meio da área nobre, longe da agitação do centro mas com vista para a cidade em chamas. Seria linda, não fossem as atuais circunstâncias.
Ela era feita de pedras chamativas e grandes janelas de vidro tingido.
Quando Peppe, carregando uma Sara cambaleante e ensanguentada, surgiu no portão principal, os guardas, vestidos com as cores da rosa vermelha e da prata, quase os atacaram.
— Parem! — A ordem veio da própria condessa, que apareceu na varanda, mais alta que os muros. Estava envolta em um robe de seda carmesim. Seu rosto, iluminado pela luz âmbar das lanternas, mostrou primeiro surpresa, depois alarme e, finalmente, uma compreensão calculista. — Deixem-nos entrar. Agora.
Minutos depois, estavam em um aposento luxuoso com tapeçarias caras que contavam histórias de antigas batalhas aleatórias daquele mundo.
Sara estava deitada em cima de um grande sofá, com a condessa Evelyn colocando as mãos sobre si após tê-la feito ingerir uma série de poções.
— Scutum Lux Minoris — Ela recitou.
No mesmo instante, uma luz esbranquiçada pairou sobre a ferida no braço da garota.
— Escola da Regeneração?
Peppe ficou surpreso. De todas as escolas arcanas, a da Regeneração era a mais complexa. Tanto que nem ensinavam isso nos primeiros anos da Academia. Apenas magos do 3º círculo e acima podiam ter acesso aos Tomos e Manuais de Regeneração.
Vasculhando os conhecimentos que comprou da Loja da Ganância, não havia nada parecido com magia de cura. A Escola da Regeneração não fazia parte dos conhecimentos antigos? Seria ela uma invenção recente? Ou será que Floquinho simplesmente não quis vender a Peppe?
Seja qual for o caso, agiu em instantes.
O corte no braço era profundo, mas não vital. Um antídoto geral para venenos foi administrado pela condessa, apenas para garantir que nada havia passado para a corrente sanguínea.
Sara caiu em um sono profundo.
Peppe, por sua vez, estava sentado na sala de estar principal, sujo, com cheiro de fumaça, suas mãos ainda tremendo levemente de adrenalina residual.
Ele bebeu um copo de vinho forte que Evelyn ofereceu, sem cerimônia.
— Então — começou Rosetta, sentando-se na poltrona oposta, seus olhos verdes escrutinando-o. — O que aconteceu?
— Alguns caras da guilda, eu acho. Eles sabiam quem eu era — Peppe disse, ainda com resíduos de raiva. — Usaram a Guilda como isca. Queriam me coagir a fazer alguma coisa. E usaram Sara como moeda de troca.
Peppe deu mais detalhes do ocorrido.
Rosetta ouviu todos eles com calma, depois suspirou, um som de profunda frustração.
— Tinha reparado o caos. Até mandei um dos guardas para verificar o centro, mas ainda não voltou. Chuto que seja Lorde Ferrum. Ou alguém muito próximo a ele.
— O mesmo que estava com você no dia do exame?
Ela fez que sim, reclinando-se na poltrona de couro. Ela fez um gesto para a empregada ir pegar mais vinho, ficando à sós, com um Peppe agitado e uma Sara dorminhoca.
— Esses conservadores sempre foram mais hábeis em chantagens e jogos sujos. Hump! Eles se veem como os guardiões da pureza arcana e da velha ordem. Qualquer anomalia, qualquer poder que não venha das linhagens tradicionais, é uma ameaça.
Peppe ficou consternado. Ele de fato viu alguns homens com uniformes do conselho mais cedo, similares ao que a própria condessa e o lorde Ferrum usavam no dia do Exame de Ferro.
Acontece que aqueles eram homens da facção conservadora. E, pelo visto, tinham realizado uma espécie de massacre nas áreas periféricas e no centro.
— Por quê? — perguntou o rapaz.
— Ainda não sei, estou esperando Tibúrcio voltar e...
Ele balançou a cabeça de forma negativa.
— Não, não é sobre o massacre. Quero saber por que diabos viriam atrás de mim com uma chantagem tão filha da puta?
Ela pausou por um instante, antes de responder.
— Porque você é o filho de Alexandrus Pistorius — O tom dela era solene. — Seu pai não foi apenas um rei. Ele foi um dos arcanistas mais brilhantes de sua geração, uma mente que moldou décadas de política no Conselho.
— Okay, então meu pai é um grande mago. Só por isso vieram atrás de mim?!
Ela fez que não, corrigindo-o:
— Ele era um Reformista, um visionário que acreditava que a magia deveria ser estudada, compartilhada e evoluída, não guardada como um tesouro de família. Você não tem ideia, Peppe, o quão influente seu pai era. Por causa dele, o Conselho abriu a Academia de Celestria para os plebeus.
Peppe riu, lembrando-se de quando entrou na Academia.
— Os plebeus que podem pagar, né?
— Sim. Foi a condição que os conservadores colocaram. Tudo é política, no final das contas.
Ela inclinou-se para frente.
— Quando ele desapareceu junto com sua mãe, o Congresso e o Conselho Arcanos entraram em caos completo. E os reformistas vêm perdendo força desde então.
O tom de consternação e melancolia mostravam que aquela era uma grande questão para a condessa.
Peppe não se lembrava, das memórias de Petrus, o quão próximos ela era de seus pais. Até então imaginou que eram algo como "amigos distantes", mas parecia ser mais do que isso.
— Acreditávamos que sua linhagem estava extinta e que você era um aleijado. Os conservadores até te usavam como um símbolo da "degeneração", por conta da linhagem da sua mãe. E então você aparece, destrói o cristal de teste e pula um ano inteiro de estudo. Isso causou um alvoroço na última reunião do Conselho, na semana passada. É esse o principal motivo pelo qual eu e Ferrum estamos aqui.
Peppe processou as informações. Pelo que parecia, a condessa Evelyn era uma maga poderosa e influente do nono círculo, membro da facção Reformista do Conselho Arcano de Rochedo.
Seu pai era um mago ainda mais forte, uma espécie de chefe CEO megapoderoso. E, agora que ele se foi, de alguma forma, pela sua própria burrice, acabaram descobrindo a existência dele.
Se ele se juntasse aos reformistas e, no futuro, acabasse se tornando tão poderoso quanto o pai, então dominaria os conservadores de novo. Algo que os Conservadores não queriam, por óbvio. Então eles fizeram um plano para capturar Sara e o chantagear, usando a influência da facção na Guilda dos Aventureiros para isso, já que o próprio Peppe era um aventureiro de classe E.
— Tá, isso faz sentido. Mas o que continua não fazendo sentido nenhum é esse caos lá fora. Isso também é parte do jogo? Por que caralhos o Conselho está queimando tudo?
Um frio passou pelos olhos da condessa.
— Bom, eu não sei — Ela suspirou profundamente. — Quando soube que você queria se juntar à Academia, achava que ainda não tinha condições de aprender magia. Só que eu vi algo em seu olhar. O brilho. Não podia jogar água fria em você. Então pensei em deixá-lo ver isso por si mesmo, para não te frustrar, e oferecer apoio depois.
— Você pensou que eu era aleijado?
Ela se desculpou, depois explicou que voltou às pressas ao descobrir que ele tinha talento. Parecia que o Diretor Valerius havia se omitido o máximo que conseguiu em seus relatórios para o Conselho, para proteger Peppe. Mas o garoto chamou atenção demais, de modo que uma nova disputa entre as facções fosse iniciada.
Oficialmente, ela e Ferrum tinham instruções de restaurar a ordem na Academia de Celestria, em especial testar os novos magos do 1º círculo da classe especial. Deveriam instruir os novos alunos e reforçar as defesas da Academia.
Quanto ao caos que ocorria em Celestria, ela não sabia de nada.
Notando a dúvida nos olhos da mulher, Peppe achou melhor não insistir no assunto. Parecia que, mesmo sendo poderosa, havia coisas que ela não sabia no momento. Política era, de fato, complicado.
— Acho que eu não tenho escolha a não ser me deixar ser arrastado pra isso, né?
Ela fez que sim, relutante, porém com uma certa felicidade estampada no olhar.
— Gostaria que morasse nesta mansão. Eu raramente fico aqui, e vou me afastar ainda mais para não instigar muito os conservadores. Mas nada acontece aqui sem que eu saiba. E tem os guardas e serviçais para te proteger e cuidar das necessidades. O que precisar, pode contar comigo. E deixe que eu financio seus estudos.
Não que tivesse muitas opções naquele momento. Bom, Peppe até poderia arranjar um outro aluguel, e continuar com os roubos e assassinatos para conseguir dinheiro, e almas.
Floquinho ainda estava em sono profundo, porém uma hora acordaria, e a expectativa era que exigisse mais almas para se alimentar. Isso seria um problema se Evelyn o tivesse sob sua guarda e vigilância.
"Espera aí!", pensou.
— Tia Evelyn, gostaria de fazer uma pergunta.
— Pois não?
— Se eu aceitasse sua proteção e me juntasse aos Reformistas, é possível que houvesse conflitos, como os de hoje. Não é?
A tez da condessa ficou rígida instantaneamente.
— S-sim. Talvez sim. N-na verdade, pode ser que tentem te emboscar novamente. Mas não se preocupe! Eu vou cuidar para que os guardas não deixem e...
— Então — Ele a interrompeu. — Isso significa que baixas poderiam ocorrer, correto?
Ela não sabia o que responder. Balançou a cabeça. Pensou por instantes em mais uma desculpa para convencê-lo de que era seguro, mas sequer conseguiu dizer, antes de ser novamente interrompida.
— Isso significa que se eu quiser matar uns conservadores, ou qualquer outra pessoa ligada a eles, eu posso, né?
A condessa quase caiu para trás de perplexidade. Ao olhar no rosto rígido do rapaz, assustou-se ainda mais. Ele tinha um sorriso que ia da uma ponta à outra da boca. Parecia salivar com a ideia de matar pessoas.
Um olhar de possessão era pouco para descrever aquilo.
Muitas coisas ficaram mal explicadas naquela noite, mas o brilho macabro era claro como o sol de verão: naquele momento, era como se Peppe fosse a própria ganância.
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