Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 32: Exame de Ferro (parte II)

Na transição entre o Labirinto de Vidro e o próximo portal, Peppe sentiu o mundo se liquefazer em um tornado poderoso antes de ser cuspido para fora por um vácuo que o jogou de encontro a um solo duro, frio e granulado. 

Tentou cair de pés juntos, mas acabou sendo impulsionado pelo impacto, escorregando batendo de costas abertas em uma espécie de monte metálico. 

Aquilo expulsou por completo o ar de seus pulmões.

Com um som surdo o ex-modelo apenas ficou ali por alguns instantes, estirado, sentindo um gosto amargo de ferrugem na língua. 

Ficou profundamente puto por ter tomado um baque e sujado suas melhores roupas. 

— Mas que caralho de recepção... — tossiu, apoiando-se nos cotovelos.

Ao seu lado, um arquejo agudo o fez virar a cabeça. 

Era a garota que ele havia arrastado do espelho, uma jovem de cabelos loiros como trigo que estivera encolhida no Labirinto.

Ela não teve uma aterrissagem muito melhor. 

Estava caída a poucos metros, com a túnica de seda fina, de um corte nitidamente imperial, presa em um galho de metal retorcido que brotava do chão. 

Era como se um gatinho estivesse preso no topo de uma árvore. Ninguém entendeu o motivo de ter uma árvore de metal ali, mas decidiram não questionar.

O rasgo no tecido na altura do ombro era generoso, revelando uma pele branca como porcelana. Mesmo na desgraça, havia uma dignidade nela. 

Peppe, apesar da dor nas costelas, não pôde deixar de notar a cena. 

Em sua mente doentia, deu uma nota de 8.5 para a estética dela. A garota tinha aquele tipo de beleza clássica, "distante", que parecia esculpida para ser admirada em tronos, não jogada no chão de uma floresta de metal.

Ela levantou o rosto, e o reconhecimento foi instantâneo. Seus olhos encontraram os dele. Havia uma inteligência aguçada nesse olhar, mesmo através do desconcerto.

— Você... — ela começou, a voz um fio de som educado, mas firme.

— Eu — Peppe completou, levantando-se e limpando a poeira de ferro de sua túnica escura. — O mesmo cara que te salvou daquela criatura horrorosa no espelho. Me chamo Giuseppe. Acho que pulamos as apresentações formais lá atrás.

Criatura horrorosa?! Aquela era eu mesmo, em um reflexo! Como ousa falar assim comigo?! — A tentativa de levantar foi frustrada pelo galho que prendia seu tecido com tenacidade mecânica. Um rubor subiu de seu pescoço ao rosto, uma mistura de raiva e humilhação que tornava a pequena pinta ao lado de sua boca mais visível. — Você sabe com quem está falando?

Peppe se aproximou, examinando a situação com um olhar prático que contrastava com o desespero crescente dela.

— Sei — respondeu. — Com uma gatinha presa em uma árvore de metal. 

Sem esperar resposta, agarrou o galho com ambas as mãos e torceu. Partículas mágicas se aglutinaram, emprestando-lhe a força necessária. 

O ferro gemeu e cedeu com um estalo seco.

A garota caiu para frente, e Peppe a segurou antes que ela atingisse o chão de ferro. O contato foi breve, mas suficiente para sentir a maciez por trás do tecido da garota. Aquela era carne de primeira.

Ainda com ela nos braços, notou que bem ao lado do canto da boca, ela tinha uma pequena pinta que dava um toque de humanidade à sua beleza fria. Os olhos castanhos examinavam o ambiente com uma rapidez analítica que contradizia sua posição vulnerável.

Ela se afastou num salto, ajeitando a túnica rasgada com uma eficiência que surpreendeu Peppe.

— Meu nome é Elara. Elara Vermillion, quarta princesa do Império Girassol — ela disse, erguendo o queixo num gesto que tentava recuperar autoridade, mas seus dedos tremiam levemente. — E eu não estava presa, apenas tentando entender esse novo ambiente. Há uma diferença.

Se as memórias do antigo príncipe Petrus não falharam, a garota loira à sua frente era a princesa do Império mais poderoso do Continente. Algo que não o surpreendeu, já que ele mesmo era o príncipe herdeiro de um reino relativamente rico. 

Outros nobres também estudavam na Academia de Celestria, em Rochedo, portanto nada demais. Ela era só um peixe maior, mas ainda assim um peixe. 

— Claro. Eu vi a cena, Alteza — Peppe ironizou, girando os ombros e sentindo os ossos estalarem. 

Preferia esse ferro enferrujado àqueles espelhos. Pelo menos aqui, quando ele quebrava algo, fazia um barulho satisfatório. 

A atmosfera era desértica. Só um grande vazio os fazia companhia. 

— Bom, olhe ao redor. Acho que o Labirinto era só o teste inicial.

A garota bufou, mas seguiu o conselho. 

Pó de ferro se chacoalhava para todos os lados. Ali, a natureza foi substituída por um mimetismo industrial. 

As árvores não tinham folhas ou seiva, eram colunas de ferro oxidado que se retorciam em direção a um céu cinzento e opressor. 

Galhos finos como agulhas de tricô tilintavam uns contra os outros com o vento, produzindo uma música dissonante que parecia arranhar o crânio.

O ar era espesso com uma poeira avermelhada que irritava os olhos. Não havia pássaros, mas apenas o som distante de engrenagens rangendo sob a terra, como se o próprio planeta fosse um relógio quebrado.

— A Segunda Etapa — Elara murmurou, sua voz recuperando uma clareza analítica impressionante. Ela se levantou completamente, esfregando os joelhos com uma eficiência prática. 

O que fez a seguir foi colocar as mãos sob o solo, concentrando-se. 

— O ar está saturado com partículas de ferro que interferem na ressonância do corpo com as partículas mágicas — disse a garota, depois de uma breve reflexão. — Canalizar mana aqui é duas vezes mais difícil. Dúvido que a gente consiga conjurar qualquer feitiço mais poderoso do que os de grau 2. 

Peppe fechou os olhos por um segundo, tentando sentir sua própria mana. Era como tentar ouvir um sussurro em um tornado de metal. Pesado. Opressivo. 

"Ela tá certa. Aqui tá muito instável, a mana é densa. Se não tomar cuidado, qualquer feitiço pode ocasionar uma explosão", pensou.

— Você também consegue sentir? 

Elara parecia em choque, como quando uma criança descobre que os amiguinhos da escola também conseguem fazer desenhos bonitos, ou conseguir notas boas, como ela. 

— Giuseppe, meu nome é Giuseppe. Mas pode me chamar de Peppe, Alteza. 

— Sim, sim. Pette — ela repetiu, quase que ignorando. — Veja se consegue sentir um fluxo anormal naquela direção, igual a mim. Por favor. 

A princesa apontou para o norte, onde esta uma grande colina de metal. 

Peppe fechou os olhos, tentando ignorar o tilintar incessante dos galhos de ferro. 

— Tem algo pulsando — murmurou, sentindo um ritmo lento e pesado vindo da direção que Elara indicou. 

— Exato — Elara assentiu, uma faísca de aprovação em seus olhos castanhos. — Tem alguma coisa errada lá. 

— Pode ser o portal de saída, igual no labirinto espelhado. 

— Talvez.

Com esse breve diálogo, decidiram ir em direção ao estranho pulso de partículas mágicas. O que não esperavam era o que estaria por vir. 

— Ouviu isso?

 

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