Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 31: Exame de Ferro (parte I)

A manhã em Celestria não pedia licença; ela invadia. O sol do verão entrava pelas frestas do casebre de Peppe como lâminas douradas, mas o calor que ele sentia não vinha do astro-rei.

Sara estava aninhada em seu peito, os cabelos castanhos espalhados como uma moldura sobre a pele. O silêncio era tão raro na vida de um ex-príncipe foragido transmigrado que Peppe quase teve medo de respirar e quebrar o encanto.

Ele acariciou o ombro dela, sentindo a textura da pele macia contrastando com as cicatrizes leves que a vida de caçadora deixara. Naquele momento, ele não era o Príncipe Petrus, nem o modelo mundialmente famoso Giuseppe Moretti, ou o "primo Guiseppe" da Academia. Ele era apenas um homem tentando entender como o amor florescia em solo envenenado.

— Parece que você já acordou, mestre — Sara murmurou, a voz rouca de sono, sem abrir os olhos. Um sorriso pequeno surgiu no canto de seus lábios. — Consigo ouvir as engrenagens da sua cabeça fazendo mais barulho que o vento lá da rua.

— É a maldição da beleza, Sara — Peppe respondeu, recuperando o tom sarcástico que era seu escudo. — Muita inteligência guardada em um rosto esculpido pelos deuses. A beleza me obriga a acordar cedo todos os dias. É cansativo. 

Sara riu baixo, pressionando o rosto contra o peito dele. 

— Você vai para a Academia? 

— Sim, hoje é o primeiro dia dos segundoanistas. É estranho pra cacete, pois semana passada eu tava no primeiro dia dos primeiroanistas.  

Peppe suspirou, a lembrança da noite anterior e da conversa com Lux voltando como um soco. Petrus. Aquele nome era uma sentença de morte. 

"O filho da puta do Lux sabe quem eu sou. Eu sei lá o que caralhos o diretor falou sobre política, mas pode ser que eu tenha chamado alguma atenção. Tenho que tomar cuidado e entender o que esse Lux quer", refletiu. 

Em seguida deu um beijo suave em Sara e se levantou, vestindo a túnica de algodão escuro. 

Ela o observava da cama, a expressão suavizada pela preocupação. O vínculo de escravidão que os unia por contrato parecia cada vez mais uma piada burocrática diante da lealdade orgânica que crescia entre eles. 

***

A Ala Norte da Academia de Magia de Rochedo era uma estrutura de mármore negro que parecia ter sido erguida para intimidar. Diferente do primeiro ano, onde o pátio era cheio de risadas e magia experimental inofensiva, o Pavilhão do Segundo Ano exalava uma seriedade metálica.

Para começar, haviam bem menos pessoas, já que a maioria só tinha dinheiro para o primeiro ano na Academia. Os que ficavam, andavam para lá e para cá com a mesma velocidade de um paulistano em uma segunda-feira.

Peppe caminhava pelos corredores sentindo o peso dos olhares. Ele era o "estranho de Tullis", o garoto que quebrou o cristal, o gênio que "pulou" o primeiro ano e avançou direto para o primeiro círculo com menos de uma semana, e agora, o centro de uma tempestade política que ele mal compreendia.

Ao entrar no Grande Auditório, ele viu Lux. O nobre de cabelos brancos estava sentado casualmente sobre uma mesa de carvalho, balançando as pernas enquanto conversava com um grupo de garotas que pareciam prontas para desmaiar a qualquer palavra dele. Lux levantou a mão, sinalizando para Peppe.

— Olha se não é o meu consultor amoroso favorito! — exclamou, ignorando as caretas de desprezo dos outros nobres ao redor. — Sobreviveu à noite? Dormiu bem? E, o mais importante, tirou aquela monoselha horrorosa?

— Lux, sinceramente, se minha noite não tivesse sido "maravilhosa", eu o mandaria se foder — Peppe murmurou, sentando-se ao lado dele. — Bom, livre-se dessas travestis. Precisamos falar sobre como você sabe meu verdadeiro nome.

O sorriso de Lux não vacilou, mas seus olhos adquiriram uma frieza de vidro. 

— Aqui não, caro Petrus. Nós temos companhia.

Ele apontou para a plataforma elevada. O Diretor Valerius entrou, seguido por duas figuras que emanavam um poder opressor. No centro, um homem de meia-idade que parecia ser feito de armadura e ódio. À sua esquerda, uma figura conhecida, a Condessa Evelynn Rosetta, cujos olhos verdes brilharam ao encontrar os de Peppe.

Ele ficou surpreso. Não esperava ver a condessa, amiga de seus pais, ali. Ela tinha dito que tinha negócios ali. Quais seriam esses tais negócios? 

— Bem-vindos ao Segundo Ano — a voz de Valerius ecoou, amplificada por mana, quebrando as divagações. — Para esta sessão solene, tomei a liberdade de convidar dois membros do Conselho Arcano de Rochedo. 

Peppe ainda olhava para a figura feminina ao lado do diretor. A condessa de Rosetta estava diferente do que se lembrava. Ela usava um longo robe cinza, com hornamentos, e tinha um broche de identificação formado com nove círuculos unidos. Com aqueles trajes, nenhuma tatuagem era visível, mas em suas mãos haviam nove anéis, um pouco parecidos com o que estava em na própria mão de Peppe. 

"Ela é uma maga do Conselho?", refletiu. "Uma maga de nono círculo?!" 

Fazia sentido, afinal ele não conseguia sentir as partículas mágicas antes dos acontecimentos recentes na Academia. Ela provavelmente não conseguiria esconder aquela presença avassaladora de mana nem se quisesse, era só que Peppe não a conseguia sentir antes. 

— O tempo das teorias acabou — continuou o diretor.  Lorde Ferrum exigiu uma demonstração imediata de competência. Ou seja, no teste de entrada deste ano, não haverá provas escritas para a triagem. Haverá o Exame de Ferro.

Um murmúrio de pavor percorreu o salão. Ninguém entendeu o que seria esse tal Exame de Ferro. Todos ficaram apreensivos. 

Foi então que Valérius passou a palavra para o homem de semblante duro ao lado. Ele também tinha nove anéis, o que demonstrava seu poder como mago do nono círculo. 

Todos ficaram em silêncio. 

— A pureza do sangue se prova no campo de batalha — declarou Ferrum, sua voz cortante como uma guilhotina. — Muitos aqui entraram por conexões ou por sorte. O Exame de Ferro eliminará as impurezas. 

Ele disse isso olhando para a direção de Peppe. 

— Ai, mas que cacete! De novo... — sussurrou. 

A condessa também olhou com curiosidade. Ela com certeza não esperava que o jovem afilhado seria um prodígio que conquistou um círculo com apenas uma semana de aulas.

Ela piscou, como quem dissesse "precisamos conversar", tirando um suspiro de preguiça do rapaz. 

E assim se seguiu a cerimônia da abertura. 

— Bom, quanto aos que se perguntam no que consiste esse exame... Eu digo que é bem simples: sobrevivam!

Quando estas palavras foram ditas, um estalo soou.

Em seguida o Auditório se transformou.

O chão de mármore se abriu, e os alunos foram tragados por portais individuais. Peppe sentiu a sensação de queda livre, como se tivesse sido jogado de em um poço infinito, até atingir um solo frio e translúcido. Parecia até um sonho, ou um pesadelo. Ela caia e caia no completo nada. 

E não foi apenas ele. Todos desapareceram.

Estava sozinho. 

Fi então que as palavras "Labirinto de Vidro" apareceram escritas em uma espécie de placa acima de um portal. Encarou-as por instantes, antes de desviar a atenção para as laterias, como quem procurasse algo. Não hesitou. 

Entrou.

Tudo o que viu a seguir o deixou sem fôlego. O ambiente brilhava com uma espécie de brilho prateado. Gotículas voavam para lá e para cá. Mas alguns blocos acinzentados o cercavam. 

Ele os encarou. 

Aquelas eram paredes de espelho. Pareciam delicadas, porém algo mágico exalava delas. Era como se fossem catalisadores de mana, sugando tudo o que fosse partículas mágicas para lá.

Essas paredes eram espelhos mágicos que não refletiam a imagem atual. Na realidade, tudo o que viu estava distorcido. 

Foi então que Peppe decidiu andar. E olhar. 

No primeiro espelho, não estava o jovem de cabelos negros e pele pálida. Não... aquele jovem era um rapaz de cabelos loiros, bem cortados e de pele cuidada, levemente bronzeada pelo sol de Veneza. 

— Mas que caralho... Esse sou eu! 

Peppe viu a si mesmo na Terra, e a imagem não estava parada. Na realidade, se movia livremente, sem refletir os movimentos que fazia no mundo real. 

Olhando para o espelho, ele se viu caído no chão após uma overdose de drogas. Algo que por vezes fazia antes ou depois de uma festa — normalmente depois. 

Em outro, viu sua imagem rodeada de mulheres, as mais belas. Só que em seu semblante faltava algo. Ele não sorria, mesmo depois de uma noitada conhecida pelas celebridades locais como "festa do sexo". 

Peppe deu uma risada, relembrando de algo. 

Depois, foi andando até o próximo espelho. Lá, observou o Príncipe Petrus, em Tullis. Ele estava estudando, sozinho, em uma salinha. O rosto com o mesmo semblante de Peppe. 

Ele estendeu a mão para tocar a superfície do espelho onde via Petrus, mas seus dedos não encontraram resistência sólida. O vidro era como uma película de água gelada, uma membrana que pulsava conforme o ritmo de seu próprio coração acelerado.

Solidão é uma palavra engraçada, não é? — A voz que sussurrou não vinha das paredes. 

Peppe olhou para tentar descobrir de onde vinha, mas nada havia lá fora ele mesmo. Até achou que pudesse ser Floquinho, só que a criaturinha estava dormindo, já não falava com ele há dias.

E a voz de Floquinho era andrógena. Aquela era diferente. Um tom grave, contudo sútil. Afiado, pórem na medida certa. Parecia até com...

— Pera aí, caralho. Essa é a minha voz!

Sim. Era a sua voz, mas com o sotaque polido e a arrogância blasé que ele usava nas entrevistas para a Vogue Italia.

A imagem do Petrus começou a se dissolver, transformando-se em uma cena da infância do príncipe. Peppe viu um menino pequeno, sentado no chão de uma biblioteca vasta e fria, cercado por tomos que eram maiores que seu próprio torso. 

Não havia brinquedos, não havia amigos. Apenas o som da pena arranhando o pergaminho e a luz mortiça de uma vela. O pequeno Petrus estudava até os dedos sangrarem, não por ambição, mas porque o silêncio dos livros era menos doloroso do que o silêncio do castelo, onde seu pai era um rei ausente e sua mãe uma memória de perfume e seda.

Ele era igual a você — o reflexo de Peppe na Terra disse, agora saindo de um espelho lateral. O "Peppe de Milão" estava impecável em uma roupa de grife, mas seus olhos estavam vermelhos e injetados. — Você se cercou de luzes. Arranjou uma penca de putas e se afundou na droga pra não ter que ouvir o vazio dentro de si. Ele fez pior: cercou-se de teorias e livros para o mesmo fim. Você fugiu procurando coisas externas; ele fugiu para dentro de si mesmo. Dois lados da mesma moeda.

Peppe sentiu uma pontada no peito. 

— Ah, pera aí... Não é possível que eu esteja delirando...

Sem refletir muito, julgou que aquele feitiço o jogou para uma espécie de espaço paralelo. Talvez fosse uma ilusão, talvez realmente ele tivesse sido arrastado para outro local. Não sabia. Poderia ser qualquer uma dessas duas coisas. 

Perdendo a noção da situação, acabou deixando-se levar pelas imagens à frente. 

Uma certa culpa começou a tomar conta de si. Será que ele viveu certo? Será que o que fez na Terra foi certo? 

Peppe viveu como quis, se esforçou para ganhar os palcos, para fazer sucesso na vida. Mas será que ter sucesso era tudo?

Você se lembra daquela noite em Paris? — o reflexo insistiu, aproximando-se. 

A imagem mostrava Peppe no auge da fama, em uma suíte de luxo. Havia champanhe de cinco mil euros e modelos famosas desmaiadas no sofá. Peppe estava no banheiro, encarando-se no espelho, de onde conseguiu ver uma carreira de pó branco descansando na bunda de uma das modelos que estava deitada de bruços. 

Ele olhou com estranheza. 

E o Petrus? — A cena mudou para o príncipe, anos depois, recebendo elogios por uma tese brilhante sobre a geologia das colinas nortenhas. Ele estava em um banquete, cercado por alguns professores da corte, mas seus olhos buscavam a porta, desejando estar em qualquer lugar, menos ali. Ele era o herdeiro de uma linhagem real, e ainda assim, sentia-se um impostor. — Ele morreu sozinho, Peppe. Envenenado por quem ele deveria confiar. E você... você morreu com a porra de um piano, enquanto olhava para a própria aparência numa vitrine. Muito patéticos, ambos. 

— Ah, pera aí de novo, caralho! — disse, interrompendo a imagem. — Você quer mesmo me convencer que cheirar pó em cima da bunda de uma gostosa é triste ou errado?! 

Foi quando ele percebeu. 

O perigo real aqui não era ser cortado pelo vidro, mas ter sua mana drenada pela apatia. Se ele aceitasse aquela versão de si mesmo — o homem que não pertence a lugar nenhum — ele se tornaria apenas mais uma imagem estática naquelas paredes, uma alma guardada no estoque da Academia.

— Pô, eu não sei quanto ao príncipe Petrus não, mas eu tava tranquilo. Não me lembro de ser triste assim não. 

— O quê?

Ele caminhou em direção à imagem. 

— Eu de fato não tinha namorada, nem esposa ou filhos, mas isso não me afetava. Uma hora ou outra eu acabaria achando alguém. Nessa imagem aí que você mostrou eu só tava curtindo a vida. Qual o problema? Vai dizer que nunca sonhou com um harém de gostosas...?

A imagem o encarou de volta, incrédula. 

— É isso aí. Você se fudeu. Não me sinto triste — complementou.

Quando chegou em frente à imagem, ergueu a mão, fazendo jorrar um pouco de mana. 

Crack!

As paredes de espelho começaram a se fechar. O espaço, que antes parecia infinito, agora o apertava. A mana de Peppe começou a vazar por seus poros, atraída pela "fome" do Labirinto de Vidro. Ele sentiu os joelhos fraquejarem um pouco. A tentação de simplesmente sentar e deixar o frio o levar era quase irresistível. Era tão fácil desistir. 

Ele respirou fundo, o ar saindo como uma névoa fria. Depois olhou para o próprio reflexo de Milão e depois para a imagem de Petrus na biblioteca.

— Vocês estão errados — Peppe disse, sua voz ganhando uma cadência nova, uma força que não vinha do orgulho, mas da sobrevivência. — Petrus era sozinho porque não tinha escolha. Eu era sozinho porque eu quis. Escolhi me desenvolver na carreira e depois curtir um pouco. Uma puta aqui, outra colega bonitinha ali... Que mal tem isso? Eu era solteiro. Mas agora...

Ele pensou em Sara. Pensou no jeito que ela o olhava quando ele fazia uma piada idiota. Pensou no peso do abraço dela na noite anterior.

— E outra. Se eu não pertenço a lugar nenhum — Peppe rugiu, lançando um chute de "armada" direto no espelho que mostrava o banheiro de Paris —, então eu vou criar o meu próprio lugar.

O espelho não apenas quebrou; ele explodiu em poeira estelar. A imagem do Peppe drogado desapareceu em um grito silencioso. Peppe continuou o movimento, girando, chutando, socando as imagens de seu passado. Cada vidro quebrado o aliviava mais.

Atravessou a parede de Petrus, sentindo a melancolia do príncipe por um segundo antes de estilhaçá-la. Ele aceitou a dor do falecido príncipe, mas recusou o destino dele.

Quando o último espelho caiu, Peppe ainda estava no labirinto, mas um corredor pôde ser avistado. Ele estava ofegante, o suor pingando de seu rosto. 

Mais à frente, o portal brilhava em um tom de prata, similar ao da mana que exalava das paredes de vidro espelhadas.

Só que antes que pudesse avançar, ouviu um soluço. 

Era uma voz feminina, ecoando no canto do corredor. 

Peppe estranhou, mas decidiu quebrar outro espelho lateral do corredor para ver do que se tratava. 

Pah! Crack!

Uma outra estudante — uma garota da nobreza local que ele vira no auditório — estava encolhida, os olhos fixos em um espelho que ainda restava. Ela estava sendo consumida pela própria imagem.

Peppe parou. Reparando bem, viu que as paredes estilhaçadas de vidro que o cercavam davam lugar para muitas outras ao redor. Ele realmente não estava sozinho, aquele labirinto não era individual. Provavelmente todos foram mandados para lá. 

Olhando para a garota no chão, um dilema se formou. Deveria ajudá-la ou isso era proibido?

O "Peppe de Milão" teria continuado andando, focado apenas no seu próprio sucesso. O Príncipe Petrus teria ficado paralisado pela etiqueta. Mas o Giuseppe Moretti de Celestria apenas disse "foda-se" e estendeu a mão.

— Ei — ele disse, com uma voz surpreendentemente gentil. — Não olha para o vidro. Ele só mostra o que está morto. Olha para mim.

A garota levantou o rosto, aterrorizada. — Eu... eu não consigo... eu sou um fracasso... meu pai disse...

— Seu pai não está aqui. E o vidro é mentiroso. Vamos — ele a puxou pelo braço com uma força inquestionável. — Temos um exame para vencer e muitos filhos da puta para irritar.

Ele quebrou os espelhos dela e a arrastou pelo portal, cruzando a primeira etapa.

 

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