Volume 1

Capítulo 4: Encontro indesejável

“Pensei que iria ter um pouco de descanso depois de quase morrer, mas... Comerciantes dão muito medo!”.

— Diário da Liz.


O cenário mudava muito rápido. Como sempre, era estranho viajar por esse país. Em alguns segundos aquelas casinhas com telhados redondos de arquitetura árabe foram substituídas por casas de telhados pontudos e que pareciam pequenos castelos em miniatura.

“Isso faz algum sentido?" Adrimnar nem ao menos lembrava a Inglaterra! Estava mais para a Espanha e sua mistura com os árabes no sul. Não passa de uma grande mistura sem sentido! Tinha feito algumas reclamações sobre isso no fórum, mas os desenvolvedores nunca responderam.

Hmm… Apesar disso, ainda era um cenário legal de se ver, mesmo que não gostasse nem um pouco de carru… Ai! Um solavanco quase me derrubou.

— A senhorita está bem? — Minha mãe segurou meu braço. — Tenha cuidado.

Esse era o problema das carruagens, por que isso tinha que balançar tanto? Melhor ainda, por que estava sendo obrigada a fazer essa viagem?! É tudo culpa daquele velhote! Um dia vou dar o troco por isso.

Dentro do veículo estava eu, Wene e minha mãe. Estávamos passando por uma cidade próxima da capital e, de acordo com o cronograma, iríamos chegar ao nosso destino amanhã pela tarde.

Me ajeitei no assento. — Vou tomar mais cuidado. — Em seguida, olhei para a janela mais uma vez. — Não queria viajar, o vovô é muito chato.

Tudo tinha começado naquela manhã…

 

 

— Senhorita, por favor acorde. — Escutei uma voz suave e alguns toques leves em meu ombro. — Seu avô está te chamando.

Fui balançada mais algumas vezes. — Só mais cinco minutinhos.

Porém, meu pedido não foi atendido e Wene me sentou na cama. Não lembrava quanto tempo eu dormi, mas tinha certeza que não tinha sido o suficiente… O que era tão importante que ela tinha que me acordar cedo?

— Vamos! O senhor Robben me pediu para levá-la o mais rápido possível. — A empregada-gato finalmente conseguiu me deixar de pé. — Não sei porque ele está te chamando, mas… depois de ontem...

Ontem… O que aconteceu ontem mesmo? “É mesmo!” Wene quase foi demitida quando chegamos em casa e só conseguimos evitar isso depois de uma looonga conversa.

Mais uma vez as memórias de Elizabeth voltaram…

Meu avô, como poderia dizer… Era uma pessoa um pouco difícil de se lidar. Isso, essa devia ser a palavra certa. Tinha uma sede de poder insaciável e planejava tornar a família Wright uma família nobre.

Eu mesma era a prova de sua ganância. A filha de um nobre que ele, provavelmente, estava tentando tirar vantagem e ninguém sabia sua identidade.

— Como sempre, o cabelo da senhorita quase não precisa ser escovado. — A empregada me levou até uma cadeira e começou a mexer em meu cabelo. — Vou apenas escovar e prender, já que hoje está um pouco quente.

Olhei para baixo e... “Quando foi que...” Meu pijama havia desaparecido e agora usava um vestido com um tecido leve. “Wene usa algum tipo de magia?”

— Senhorita. — A voz de Wene me trouxe de volta à realidade.

“Não vai dizer nada?!” Esperei um tempo, mas ela apenas ficou em silêncio, então levantei minha cabeça e olhei em sua direção. — Oi?

Haha… — Deu uma risada forçada e, após abaixar minha cabeça para continuar fazendo o penteado, continuou: — Na verdade, eu queria agradecer por ontem. Eu ia ser demitida, mas não pensei que a senhorita…

Como assim? Era claro que iria fazer algo! Afinal… — Não posso perder Wene de jeito nenhum!

Por um segundo as mãos que estavam sendo passadas em meu cabelo pararam. Espera um pouco… “Eu falei isso alto?!” Tinha um espelho em nossa frente e, de relance, percebi que a empregada estava limpando seu rosto.

— Obrigada, senhorita.

Não olhei mais pro espelho, pois achava que tinha ficado tão vermelha quanto ela. “Que vergonha!” Minhas emoções estavam loucas por causa da recente fusão de personalidade. A antiga Elis jamais falaria algo como isso — tinha muito vergonha para isso. Porém, eu acabo falando sem pensar. “Preciso me policiar um pouco.”

Após algum tempo, a empregada deu os toques finais, colocando uma tiara no meu cabelo e guardando a escova sobre a escrivaninha. — Está tudo pronto — disse estendendo a mão para mim.

Depois de alguns minutos, as quatro pessoas que participaram da discussão de ontem estavam em um escritório. “Espera um pouco. Isso é a mesma coisa de ontem!”

Meu avô estava sentado em sua mesa, mexendo em uma pilha de papéis que pareciam ser importantes. Era um homem baixinho e magricelo que parecia ter dificuldade até mesmo para passar as páginas do caderno que havia acabado de pegar.

“Acho que ainda não existe magia para crescer o cabelo, coitado.” Mesmo assim, ele ainda passava uma pressão estranha para todas que estavam no quarto. Nem minha mãe, nem Wene tinham coragem de fazer o menor barulho que fosse.

— Recebi um convite dos Percy. — O homem pegou uma carta de cima da mesa e nos mostrou. — Vocês duas vão aceitar o convite para participar do encontro entre nobres. A viagem para Lumem é amanhã e eu quero que vocês tentem formar laços com a família Percy durante essa viagem.

Lumen, certo? Essa era a cidade neutra entre os países da ilha Noto. Tinha poucas interações lá durante o jogo, acontecendo apenas em umas passagens rápidas durante as viagens.

Não podia aceitar isso. Essa parece aquela típica festa onde os personagens se encontram na infância. Tinha certeza que iria dar merda. “Não quero ir!”

Mas ninguém questionava as decisões do patriarca, era assim que a família funcionava, então pensei que acabaria por isso. Para minha surpresa, mamãe se ajeitou na poltrona e falou: — Pai, o senhor sabe que...

— Você sabe muito bem — começou a falhar o velho enquanto soltava seus papéis e olhava para nós —, a importância disso para nossa família.

A mulher pareceu murchar com cada palavra. — Si-sim…

Lembrei de tudo que passei no outro mundo, quando era apenas uma colegial normal… tive muitas relações desse tipo, onde o medo me dominava. Sem pensar muito, peguei a mão da minha mãe e a apertei.

Ela olhou em minha direção e abriu um leve sorriso, em seguida voltou a falar: — Na verdade, não acho que seja bom para Elizabeth. — Devolveu o aperto na minha mão. — Mesmo entrando na família, ela ainda seria desprezada como uma filha ilegítima.

Com um suspiro, Robben voltou a mexer em seus papéis.

“É isso, acho que ele está considerando!” Também precisava falar alguma coisa, então respirei fundo e reuni um pouco de coragem. — Vovô, quero ficar aqui com vocês.

Ataque em conjunto, essa era uma tática básica em jogos de estratégia e iria ser minha escolha para esse combate! Era impossível rejeitar o pedido de uma garota fofa como eu, ainda mais depois do discurso emotivo da minha mãe.

Meu avô pegou um jornal e chamou Wene. Movendo-se pela primeira vez desde que entramos na sala, a empregada pegou o jornal e entregou para minha mãe.

— Acidente na Avenida das Flores. — A mulher começou a ler. — Uma carruagem que carregava toras de madeira… — Sua voz foi ficando mais baixa e tudo que consegui ouvir foi o final. — Testemunhas afirmam que as madeiras foram paradas pela magia de crianças.

O velho levantou da cadeira. — É uma notícia que se espalhou muito rápido entre os nobres e você sabe como eles são — falou, caminhando em nossa direção.

Então era isso que aquele Al-alguma-coisa estava falando.

— A nobreza — continuou — sempre valorizou muito crianças com grandes qualidades mágicas. Bem, normalmente não procuram abertamente assim, mas dessa vez pareceu chamar muita atenção.

Senti um frio na espinha. Já tinha lido sobre isso no novo patch de atualização de Loyal. Não tinha conseguido jogar, afinal vim parar aqui, mas as novas missões tinham causado um problema na comunidade.

Loyal, apesar de possuir uma história de fundo pesada, ainda era um jogo fofo para garotas conquistarem príncipes. No entanto, essas novas rotas iriam mostram um lado ainda mais pesado desse mundo — o tráfico humano. Crianças plebeias com grandes poderes mágicos eram vendidas para a nobreza ou exército e transformadas em armas humanas.

Me pegunto como fui de ficar presa em uma masmorra com jogadores de Moba para tráfico humano em um único dia. “Não posso ser derrotada assim!” Farei meu último ataque.

— Mas vovô… — Porém minha voz desapareceu com um simples olhar.

Ele semicerrou os olhos. — Pelo que me lembro, ontem nós combinamos que você iria fazer o que eu mandasse. — Voltou para sua cadeira e se sentou. — Pode ficar aqui, mas vou reconsiderar a permanência de Wene nessa casa.

“Merda.”

Abaixei a cabeça. Meu plano de ficar longe dos personagens principais mais uma vez tinha falhado. Parecia que tudo que eu fazia piorava as coisas ainda mais. Por que nada dá certo nunca?!

Pela noite, enquanto escrevia no meu diário, a porta do meu quarto foi aberta. — Mãe? — Assim como tinha planejado antes, troquei as folhas com as anotações por folhas com desenhos que tinha preparado.

A mulher entrou no quarto. — Queria dormir com você hoje. — Já estava com um pijama e trazia um travesseiro. — Posso?

“Parece que os papéis estão invertidos.” Levantei da escrivaninha. — Cla-claro.

Pelo que sei, Elizabeth não era muito próxima da sua mãe.  A mulher era bem afetuosa com sua filha, embora passasse muito tempo fora de casa trabalhando.

Ela também caminhou até a cama e se sentou. — Não precisa deitar agora — Abriu um sorriso e começou a arrumar a colcha. — Amanhã vai ser um dia cansativo, então aproveita para brincar um pouco agora.

Balancei a cabeça de forma negativa. — Não, prefiro ficar com a senhora.

Apagamos as lamparinas mágicas que iluminavam o quarto e deitamos na cama. Era bem grande, mas a mulher se aproximou de mim e me deu um abraço.

Queria fazer algumas perguntas, porém não queria forçá-la a dizer. Sabia que Elizabeth tinha o sobrenome da família Percy no jogo, então provavelmente era filha daquele cara. E irmã daqueles dois…

Faz sentido minha mãe ter chamado atenção de um nobre. Era bonita, jovem e uma pessoa muito boa de conversa por causa dos anos como comerciante. Muitos dos comerciantes locais queriam torná-la sua esposa, mas não conseguia se aproximar por causa do meu avô.

O que não faz sentido é Elizabeth não ser importante no jogo! Levantei essa discussão no fórum do jogo, mas nunca chegava em uma conclusão satisfatória. “Estou tão curiosa...”

Ela deu um beijo na minha testa. — Você sempre foi uma boa garota, por isso que nunca perguntou.

Tentei me segurar, mas, derrotada pela curiosidade, perguntei: — Quem é meu pai?

A pergunta devia ter acertado em cheio, pois senti um aperto no abraço. — Haha. Pensei que esse dia nunca chegaria. — Ela passou a mão em meu cabelo. — Bem, você já sabe sobre os quatro reinos, certo?

Balancei a cabeça de forma afirmativa.

— A família Percy… — A mulher pareceu engolir em seco.

 

 

… Mais uma vez isso aconteceu. Eu devo ter sido uma péssima pessoa em outra vida.

Havíamos acabado de chegar na casa da família Percy e, após uma pequena apresentação da empregada chefe da casa, fomos levadas para dentro da mansão.

O primeiro encontro foi logo na entrada. Parado em nossa frente estava um homem alto e de cabelos grisalhos. Usava um terno parecido com o de oficiais do exército com detalhes vermelhos e um brasão dourado em seu ombro, onde a imagem de um Leão podia ser vista, em seu peito.

Eh. Grifi...” Seu olhar focou em mim e um arrepio subiu pelas minhas costas.

— Vossa Majestade… — Minha mãe foi a primeira a agir, dando um passo para frente e levantando levemente a borda de sua saia enquanto abaixava sua cabeça. — É um prazer revê-lo.

Tentei me apresentar também, mas travei quando fui falar a primeira palavra. Pensei que estava pronta para esse momento… Os sentimentos de Elizabeth, na verdade, meus sentimentos estavam confusos.

Não sabia como falar. Sua presença me dava medo…

Então esse era… o meu pai.



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