Volume 1

Capítulo 3: Protagonista

“Um adjetivo que pode me definir? Acredito que seja ‘azarada’. Seja nesse mundo ou no outro, nunca encontrei alguém pior".

— Diário da Liz.



Como as coisas acabaram assim?! Olhei ao redor, estava em um escritório luxuoso e, comigo nesse lugar, havia outras três pessoas: Wene e a dupla de mãe e filha que também se envolveram no acidente.

Fomos cercadas pelos soldados depois do acidente e, ao invés de perguntarem se estávamos bem ou dar um elogio por termos escapado com vida, nos carregaram para dentro dessa sala.

“O que fiz para merecer isso?” Posso não ter sido a melhor das filhas, mas sempre fui uma boa aluna e cumpri a maior parte das leis! Isso deveria valer de algo, certo?

Ah… Preciso ser forte… Isso, primeiro vamos manter a calma.

Observei o local mais uma vez, procurando uma forma de escapar e acabei avistando a janela. “Acho que podemos...” Enquanto formava um plano, Wene apareceu no meu campo de visão. Eu estava sentada no sofá, enquanto a empregada ficou em uma poltrona logo ao meu lado.

Ela segurou a minha mão. — Vai ficar tudo bem. Não precisa ficar com medo, tá?

“Está tremendo...” Segurei sua mão com força e me inclinei para lhe dar um abraço. — Nã-não estou com medo. Wene está aqui.

Precisava ver o lado bom das coisas. Exato, basta olhar para nós. Pensei que iriamos ser presas e jogadas dentro de uma masmorra cheia de caras maus como ladrões, assassinos, políticos ou o pior de todos: jogadores de Moba! Comparado a isso, estávamos sendo tratadas como convidadas.

Uma lembrança me veio à mente…

Vários soldados corriam atrás de mim, enquanto eu tentava me esconder atrás de um grupo de pessoas que nos cercava. Wene gritava alguma coisa, mas não escutei por estar ocupada desviando dos meus perseguidores.

… Deve ter sido por isso.  Ainda bem que decidi cooperar direitinho com as autoridades.

Um dedo cutucou meu braço. Apenas ignorei e olhei para o outro lado, mas senti uma nova cutucada logo em seguida. “Ela não vai parar, vai?” Aquela garota de cabelo castanho estava sentada ao meu lado e, por algum motivo, ficava me cutucando e se aproximando aos poucos.

Eu perdi a paciência depois da terceira cutucada e olhei em sua direção. — Você…

Assim que falei algo, ela fugiu para perto da sua mãe. No último assento, uma segunda poltrona, estava a mãe da garota. Pelo menos achava que eram mãe e filha, afinal eram muito parecidas. A mulher não trocou uma única palavra conosco e apenas cochichava algo para sua filha de vez em quando.

“Na verdade… Isso não é perfeito para mim?” Tinha definido que um dos maiores perigos desse mundo era, obviamente, a guerra que iria acontecer no futuro. Era apenas uma garota comum que viveu toda sua vida em um mundo moderno, não tinha como sobreviver a algo assim. Bem, não posso mais dizer que sou uma garota normal depois de reencarnar… Mas ainda não é legal ter que participar de uma guerra!

O caminho que iria me levar para esse final era claro para mim. Vou acabar nesta rota se me envolver demais com os personagens do jogo. O único problema era que a pessoa do meu lado...

 

✤ Evento: Primeiro encontro com a protagonista, iniciado. ✤

 

Sério mesmo?! Já fazia mais de uma hora que estávamos juntas e você decidiu me falar só agora? Pelo menos tente fingir que se importa comigo, seu sistema de merda!

Aaah… Era isso mesmo, essa garota ao meu lado era a protagonista de Loyal, Pollyanna. Queria apenas ficar longe dos personagens, mas a primeira pessoa que encontrei foi literalmente a mais importante deles. “Como posso ser tão azarada?”

Será que alguém vai ligar se eu chorar só um pouquinho?

Agora a manga da minha camisa foi o novo alvo dos puxões. Cansada daquilo tudo, apenas encostei minha cabeça no sofá e olhei para cima. “Muito, muito azarada. A deusa do azar deve me adorar.”

A porta da sala foi aberta com um rangido e uma mulher entrou, parando ao lado da entrada. Suas roupas eram diferentes das que os soldados usavam; ao invés da farda, vestia um uniforme executivo. Deveria ser uma tenente.

— O capitão chegou.

Como se esperasse pela a apresentação, um homem entrou. — Peço perdão pela demora.

“Ma-mais um deles!” O homem que entrou que entrou era alto e suas roupas pareciam pequenas demais para a grande quantidade de músculos que possuía, mas me foquei apenas no que mais importava: suas orelhas e cauda amareladas com listras pretas.

Um tigre… Sua aparência até que combinava, mas… Olhei para a empregada que estava ao meu lado. “Fufu. Ele não chega nem aos pés!” Não importava se ambos eram felinos, todos sabiam que o fofo sempre superava o bruto, isso era algo óbvio.

— Sou o capitão Al-Makki — disse o homem, sentando-se em sua cadeira. — É um prazer conhecê-las.

Seu olhar passou por todo o quarto e, ao fim, focou em Pollyanna e em mim. Seus olhos eram afiados e por um segundo senti um arrepio. Achava que as outras compartilharam dos mesmos sentimentos que eu, pois consegui ouvir elas engolindo em seco.

Wene ainda estava tremendo um pouco, mas apertou o punho com força e falou: — Com licença, senhor. Gostaria de saber o motivo de sermos trazidas até o quartel.

— Vocês usaram magia em área pública. — O capitão abriu um sorriso e encostou em sua cadeira. — Todos sabem que usar magia em um local assim é proibido, acredito que seja o suficiente para vocês serem presas.

— Elas são crianças! — A empregada levantou o tom. — Acidentes assim costumam acontecer nessa idade!

A discussão continuou por alguns minutos. Não sei se estou imaginando coisas, mas o homem parecia estar provocando Wene de propósito, sempre que a empregada respondia em voz alta, seu sorriso ficava ainda maior.

— Olha, estou tentando ajudar vocês. — Al-Makki limpou a garganta e arrumou-se na cadeira. — Mesmo tendo cometido um crime, ainda posso falar com alguns amigos que podem ajudar.

“Então ele realmente queria algo!”

Wene ficou calada, apenas o escutando. — Posso fazer essa situação incômoda de vocês desaparecer, mas preciso que pelo menos escutem minha proposta.

— Está nos ameaçando? — A empregada olhou em minha direção. — Exijo ver meu patrão agora mesmo!

O homem-tigre perdeu a calma e, levantando a voz, continuou: — Patrão? Você tem ideia de quem sabe do que aconteceu lá fora?

— Não me importa nenhum pouco! Exijo ver o meu patrão!

Wene tentava manter sua expressão séria, mas percebia uma expressão de medo toda vez que nossos olhares se cruzavam. Essa expressão… precisava fazer algo depois. Não vou perder minha empregada-gata, ainda mais depois dela mostrar esse seu lado agressivo!

— Poderia me responder?

Respirei fundo. Tinha que passar confiança nas minhas palavras para tentar assustá-lo de alguma forma. Já sabia o que iria fazer. Encarei o homem e, copiando a postura séria de Wene, falei: — Wright. Meu nome é Elizabeth Wright.

Falar o sobrenome primeiro causava mais impacto. Sempre tive vontade de fazer isso. Apesar de não ser uma família muito famosa, os Wright ainda eram figuras importantes para a venda de armas na capital. Falar o nosso nome provavelmente iria nos ajudar.

O capitão olhou na direção da porta outra vez e começou a falar com a secretária, mas foi interrompido.

— Edwards! — A garota ao meu lado falou um pouco alto. — Me-meu nome é Pollyanna Edwar… — Não conseguiu terminar de falar, pois sua mãe a puxou para perto.

A mulher abaixou a cabeça. — Me desculpe.

— Sem problemas. — O homem abriu um sorriso sem graça. — Certo… Você poderia confirmar isso para mim. — A calma e despreocupação que o capitão demonstrava antes desapareceu e sua atitude deu uma volta completa.

Nosso curto interrogatório começou. Na verdade, será que poderia chamar assim? Afinal, fomos liberadas alguns minutos após o início, pois um dos soldados reconheceu Wene como a empregada da família Wright.

 



Como fugitivas, saímos correndo daquela sala no momento que fomos liberadas. Não queria passar um único segundo a mais naquele lugar e parecia que as outras três pensavam a mesma coisa.

— Posso conversar com você? — perguntou Wene para a Mãe de Elizabeth.

A mulher apenas balançou a cabeça de forma afirmativa e as duas seguiram para um canto, onde não conseguia ouvir. “O que estão tentando esconder?” Tentei me aproximar, mas fui impedida.

Minha manga foi puxada mais uma vez. — E-ei, não podemos ser…

Decidi continuar ignorando, mesmo que isso me doesse muito! Irei ficar longe com todas minhas forças e dessa forma definitivamente vou conseguir ficar longe da guerra! Juntei toda a coragem que me restava e virei em sua direção.

— Não podemos…

 

Rota de Pollyanna Edwards desbloqueada.

 

EU NEM FIZ NADA! Estava sendo prejudicada por esse sistema. Exijo uma recontagem! Não irei aceitar isso de forma alguma! Ela ainda estava falando alguma coisa, mas estava muito irritada para continuar prestando atenção.

“O que essa garota ainda está falando?” Decidi apenas falar qualquer coisa. — Tá, tá. Tanto faz.

 

O primeiro marco de Rota de “Pollyanna Edwards” foi concluído: Promessa de Reencontro.

 

Não é possível… Voltei minha atenção para a garota em minha frente mais uma vez. Sua franja cobria seu rosto até agorinha, mas agora conseguia ver seu rosto estava corado e seu grande sorriso.

Precisava ter certeza. — A-assim… Eeeh… O que você tinha perguntado mesmo?

— Como assim? — Pollyanna pegou minhas mãos e deu uma risadinha. — Perguntei se você queria ser minha amiga.

Wene, por algum motivo, começou a chorar. — Pensei que a senhorita não iria conseguir fazer amigas da sua idade — disse enquanto abraçava a mãe de Pollyanna. — Ela nunca brincou com as outras crianças.

Ei! Isso tinha sido bem rude, senhora-gata. Mas isso não era o mais importante! Agora que a conversa de vocês acabou, poderiam me ajudar aqui! Vai acabar parecendo que eu sou a garota má da história.

— Também queria agradecer. — A garota apertou minha mão com mais força.

Forcei uma risada. — Não precisa agradecer. — Tentei colocar força para me soltar, mas eu era mais fraca.. — Fomos liberadas por causa da minha família…

— Não por isso! — Seu tom de voz aumentou. — Muito obrigada por nos salvar!

Ah, era sobre isso. Fiquei tão nervosa que esqueci tudo que tinha acontecido antes de ir pro quartel. Além disso, na história do jogo o mesmo acidente acontecia, e Pollyanna conseguia salvar sua mãe sozinha, ou seja… “Tudo que fiz foi inútil!”

Não importa, vou sair daqui agora! Não importa o quão fofa essa garota seja! Mesmo que suas bochechas estivessem coradas e… ela me atraísse por algum motivo… O poder da protagonista realmente era algo aterrorizador.

— Elizabeth… — Ela abaixou a cabeça e seu cabelo escondeu seu rosto novamente. — Podemos nos encontrar de novo, certo?

“Não posso falhar agora de forma alguma”. Era fácil, tudo que tinha que fazer era recusar. — Não po… — Quando iria recusar, minhas palavras foram cortadas.

Senti um abraço por traz junto com o cheiro de shampoo para animais, e escutei a voz de Wene. — É claro que podem, vou falar com a senhora! — Não tinha conseguido aguentar e agora derramava lágrimas.

Ei! Meu plano estava sendo estragado! Sim, Elizabeth não conversava muito com as outras crianças, mas era porque não podia sair para festas ou para brincar, não precisava ficar tão emotiva assim. Uma hora ou outra eu vou fazer amigos. “Eu acho...”

— Com toda certeza ajudarei vocês! — falava Wene entre algumas fungadas.

O céu estava começando a escurecer, então nossa despedida foi rápida. Precisávamos voltar para casa logo, e eu tinha muita coisa para pensar e escrever em meu diário. Meu plano tinha sido arruinado e ainda tinha outra coisa que ficou em minha mente.

Quem eram os nobres que o capitão disse que conhecia? Sentia que lembrava de alguma coisa relacionada a poder mágico e nobreza, mas precisava pensar mais sobre. Deveria ser de alguma trama secundária para eu não conseguir lembrar.

Peguei a mão de Wene e começamos a andar em direção a minha casa, quando vimos duas pessoas se aproximando. A empregada começou a tremer mais uma vez. 

“Ainda tem esse problema.”



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