Volume 1

Capítulo 2: Primeiro Cheat

Estava sentada em frente à uma escrivaninha. Ao meu redor podia ver várias folhas riscadas e amassadas, mas mantinha o local onde estava escrevendo arrumado. Apenas um pequeno frasco de tinta preta, as folhas que escrevia e um suporte para caneta.

Escrevia com alguma velocidade, até que parei minha mão. Consegui terminar esse trecho. Com um suspiro, coloquei a caneta de volta ao suporte.

Uah... Estiquei os braços, espreguiçando-me.

— Como dói!

Escrevi por apenas alguns minutos e ainda fiquei com os braços doloridos. Parecia que havia passado o dia inteiro levantando pesos. Não que eu já tenha feito isso antes.

Olhei para a folha que estava escrevendo há pouco tempo, era toda a informação que consegui juntar nos últimos dois dias.

Não importa, meu esforço está sendo recompensado! Vamos reler uma última vez.

 

Sou Elizabeth Wright, neta de um comerciante de armas da região: Robben Wright. Minha mãe se chama Belia e trabalha com o meu avô na loja. Apenas esses dois membros da família vivem na casa e como estão sempre ocupados, quem passa mais tempo comigo é a Wene — a empregada-gato.

— Diário da Liz.

 

Como juntei toda essa informação? Claro que eu não tinha saído perguntando, afinal, pensariam que fiquei maluca ou que tive amnésia e as pessoas já cuidavam excessivamente de mim. Não precisava de outro problema.

Foi tudo graças às memórias da Elizabeth, que estavam surgindo em minha mente como Flashes. Isso era do caralho, mas me dava uma dor de cabeça e… também levantava uma grande dúvida...

— O que aconteceu com Elizabeth? — Dei um suspiro. — Zerei o jogo várias vezes, mas nunca foi falado muito dela.

Estou com o seu corpo, a única coisa que consigo pensar é que ela pode ter morrido… Se isso tiver acontecido, foi culpa minha?

“Não vamos pensar nisso agora!”

Estou adiando o inevitável? Talvez…

Bem, preciso recapitular todas as informações que tenho do jogo. Por qual motivo? Essas informações podem acabar sendo úteis no futuro e fico mais calma quando começo a escrever.

Ainda bem que fui a pessoa que escreveu grande parte da wiki do jogo. Elizabeth era apenas a amiga da vilã, uma simples figurante sem nenhuma interação importante. Uma piada na comunidade, pois tinha um visual incrível, mas não era importante.

Olhei para um pequeno espelho em cima da escrivaninha e, assim como fazia nos últimos dias, verifiquei minha aparência: cabelos brancos, olhos violetas e pele pálida. A garota sofria de uma doença degenerativa — a infecção branca. Um visual incrível e uma história trágica.

“COMO VOCÊ NÃO ERA IMPORTANTE?!” Revoltada, levantei.

Como se estivesse esperando por isso, fui atacada por tonturas. Minha visão ficou embaçada e meus membros tremiam um pouco.

Certo... precisava daquilo. Coloquei a mão dentro da minha camisa, tirei o cordão que usava e apertei o pingente com força.

Isso, Elis. Concentração, concentração.

Tocá-la me ajudava com os sintomas da infecção branca. Tinha uma sensação refrescante e um pouco nostálgica, como se tivesse feito aquilo várias vezes.

— Com uma história dessas… — Voltei minha atenção para as folhas mais uma vez. — Por que sua história não foi contada no jogo?

Algo está errado e para descobrir o que é...

“Preciso de informação!”

Estou presa nesse quarto há dois dias e falar que me sentia bem era inútil. Tudo que consegui foi um pouco de papel e tinta.

Pelo menos meu patrono estava começando a tomar forma mais uma vez. Também preciso tomar cuidado.

— Ninguém pode encontrar isso.

Nesse momento, escutei a voz da empregada ecoar pelo corredor: — Elizabeth, onde a senhorita está?

Droga!

Abri uma gaveta na escrivaninha e, sem pensar muito, apenas joguei todos os papéis para dentro. Quando a porta foi aberta, recolhia as folhas do chão. Empregada-gato!

— We-Wene?

— Senhorita! — Pela sua expressão, estava claramente irritada. — Podia tentar me responder?! Pensei que tinha desmaiado de novo.

Apesar de estar recebendo uma bronca, minha atenção acabou sendo atraída para longe de sua fala.

“Orelhas... Cauda...” Seus cabelos estavam eriçados. “Como é fofa...”

— Está me ouvindo? — Semicerrou os olhos e me encarou.

— Cla-claro que estou ouvindo.

Eu não estou ouvindo.

Sentia que estava começando a ser consumida. Precisava usar toda minha força de vontade  para manter meu controle ou iria saltar em sua direção para fazer carinho. “Como uma raça tão maravilhosa assim pode existir?”

Meus pensamentos foram cortados pela sua voz: — Vou sair para fazer algumas compras, a senhorita deseja alguma coisa?

Essa era a minha chance. Precisava usar todo meu conhecimento em coisas fofas. Olhei nos seus olhos, inclinei um pouco a cabeça para o lado e tentei falar da forma mais meiga possível.

— Posso ir junto?

— Não.

Ai, uma resposta imediata.

Esse era o meu maior obstáculo nos últimos dias. Para sair de casa, precisava da permissão da minha mãe. No entanto, nos encontrávamos apenas pela noite e sempre ouvia a mesma coisa: Quando Wene achar que você está bem.

Fiz uma cara emburrada, também sem efeito.

— Hmm… mas acho que a senhorita poderá sair em breve. — Abriu um sorriso. Achei que apenas tentava me consolar. — O médico irá vir hoje antes do almoço.

Levantei. — Médico?!

— Sim, o doutor Raffolk chegará em algumas horas.

Minha mente começou a trabalhar. Ainda é o começo da manhã, então vou receber meu diagnóstico antes do almoço e, se estiver tudo bem, posso pedir para sair ainda hoje.

É isso. Precisava apenas conseguir um seguro.

— Então... posso ir se tiver bem?

? Sim, claro. — Wene ficou calada por alguns segundos. — Bem, se a senhorita estiver bem, não vejo problema algum. Precisamos apenas da aprovação da senhora.

Esquecendo do estado do meu corpo, corri até a empregada.

— Se eu estiver bem, promete que vai pedir para ela?

Após obrigá-la a prometer, a empregada saiu do quarto. Então, lembrei da dor que senti ao terminar de escrever e tive uma dúvida: vou conseguir a aprovação do médico com meu corpo nesse estado?

Fiquei sozinha no quarto. Quero escrever mais, mas talvez seja melhor terminar o resto depois. Agora estou com algum tempo livre, o que posso fazer durante esse tempo?

 

 

— Bem, acho que foi produtivo… Deve ter sido…

Estava com medo de não receber a aprovação, por causa do estado do meu corpo. Apesar do tempo livre que tive, fiquei com medo de acabar passando mal por me esforçar muito. Com isso, tive uma ideia brilhante…

Passo mal quando estou fazendo algo, certo? Certo! Então, como faço para melhorar? Aperto o pingente que está no meu cordão. Com essas informações, cheguei em uma conclusão: posso simplesmente ficar deitada abraçando o pingente, assim vou ficar bem!

… Talvez não tenha sido uma ideia tão brilhante.

Interrompendo meu momento de autorreflexão, a porta do quarto foi aberta. Wene guiava um homem de jaleco branco e cabelos grisalhos: o doutor Raffolk. Com as lembranças que possuía da Elizabeth, sabia que era o médico que cuidava da saúde dela.

“Suas memórias continuam voltando.”

— Faz algum tempo que não lhe vejo, senhorita. — Com um sorriso amigável, aproximou-se da cama.

— É bom vê-lo novamente, doutor.

Apesar de ser uma criança, ainda precisava manter as aparências. Aprendi esse fato ontem com um erro; Wene achou que estava doente apenas porque tentei falar de uma forma muito infantil. Elizabeth havia recebido uma educação de nobre e deveria agir de forma adequada.

— Você parece mais animada que o normal.

Pelo jeito essa garota não tem muitas expressões. Pensando melhor, era assim no jogo também.

Enquanto pensava no personagem que andava com a vilã, o médico se sentou em uma cadeira de um lado da cama. Wene ficou parada do outro lado, tinha que esperar caso fosse necessária sua ajuda.

— Wene… — Encarei a empregada.

Ela olhou em minha direção. — Deseja algo, senhorita?

— A promessa.

— Não precisa se preocupar. — Fez uma reverência. — Pedi a permissão da senhora Belia. Caso esteja bem, está autorizada a sair de casa.

O médico esperou terminarmos de falar, então começou o exame.

— Como está se sentindo, senhorita Elizabeth?

— Estou ótima.

Era mentira.

Balançando a cabeça em afirmação, o homem se abaixou e começou a mexer em sua bolsa. Depois de algum tempo, levantou com um estetoscópio em suas mãos.

— Como está sua respiração? Sentiu dores no peito ou coisa parecida? — De forma gentil, o doutor colocou o equipamento em meu peito.

— Não, apenas um pouco de dor nos braços.

Elizabeth tinha muitos problemas de saúde, por isso decidi por essa estratégia. Iriam suspeitar caso dissesse que estava bem, embora não seja uma completa mentira.

 Podia ouvir alguns resmungos dele, mas nada que pudesse entender. Em seguida, quando colocou o aparelho em minhas costas, percebi sua expressão confusa.

— Estranho.

Wene se aproximou. — Alguma coisa errada, doutor?

Antes de responder, o médico repetiu o processo. — Pelo contrário, não tem nada de errado.

A empregada também fez uma expressão de dúvida.

COMO ASSIM NADA DE ERRADO?! Parece que fui atropelada!

A empregada começou a fazer algumas perguntas para o médico, mas não prestei atenção.

Olhei para baixo, em direção aos meus braços. Ainda estavam doendo, e a única coisa que tinha feito era escrever. Ficar em pé por muito tempo dói, era atacada por tonturas e cansaços repentinos...

“Esse é o estado normal desse corpo?”

Assim que pensei sobre meu corpo, consegui ouvir uma voz robótica.

 

O corpo do usuário está sendo mantido pelo sistema. Atualmente o corpo se encontra em estado crítico e todos os esforços serão direcionados para sua cura.

 

Sistema?

Recebendo outra carga de memórias, lembrei do dia em que Elizabeth desmaiou.

— Sim, o corpo da senhorita está muito bem — Raffolk colocou o estetoscópio em cima da cama. — Na verdade, nem ao menos me lembro qual foi a última vez que esteve tão bem.

Questionável. A expressão dos dois demonstrava que pensavam a mesma coisa.

Estou preocupada com meu corpo. Seu estado era ainda pior do que tinha pensado, no entanto sabia que precisava priorizar outra coisa agora.

Meu olhar cruzou com o de Wene.

— Você prometeu.

— Mas senhorita, ainda precisamos.

Me levantei, caminhei até a empregada e peguei sua mão, tentando puxá-la em direção a porta. Claro, não consegui a mover nem um único centímetro.

— Gostaria de fazer alguns exames… — O médico começou a falar, mas acabou sendo interrompido pela empregada.

— A senhorita precisa trocar de roupa.

— Minha roupa está boa, vamos!

Com nós duas saindo do cômodo, o doutor ficou em silêncio.

“Me desculpe."

 

 

— Estou… cansada…

Em minha frente se estendia uma grande quantidade de barracas. O centro comercial que tanto desejava. Porém estava com um pequeno problema: meu corpo.

— We… Wene! — chamei enquanto recuperava o fôlego.

As memórias de Elizabeth estavam mexendo com minhas emoções. Como era sempre mantida em casa, sair assim era um evento especial para a garota. Acabei sendo levada por esses sentimentos e corri na frente, um grande erro.

Esse corpo era tão fraco assim? Parecia que tinha corrido uma maratona, mas atravessei apenas um ou dois quarteirões. Como essa garota conseguiu viver até agora?

A empregada caminhou até mim. — Assim posso mantê-la em minha vista. — Pegou minha mão e continuou: — Me descuidei por alguns segundos e a senhorita saiu correndo na frente.

Não era minha intenção, juro. Além disso, podia garantir que não iria acontecer outra vez.

— Desculpa.

Agora, presa, o passeio começou mais uma vez.

O jogo acontecia na ilha de Noto, local inspirado na Inglaterra. Posso dizer, sem dúvidas algumas, que sou a pessoa que mais conhecia do jogo.

“Esse é o poder da Top 1.”

Fui por vários meses seguidos a pessoa com rank de progresso mais alto do jogo! No entanto, o conhecimento que tinha desse país não era grande. O motivo? Ele não tinha uma grande participação no arco final.

Uma guerra... Na próxima atualização teríamos mais informações sobre a guerra. “Mas vim parar aqui antes mesmo de jogar!”

O pensamento de ir para a guerra é assustador, mas…

— Senhorita? — Wene me puxou de volta para a realidade. — Está bem?

Isso, preciso me focar no agora. Bem… não é como se estivesse deixando as coisas para depois, tá? Vamos deixar de lado essas preocupações! Decidi me diver… pesquisar um pouco sobre esse tal sistema.

— Estou bem! — falei animada. — O que é aquilo?

Apontei para um grupo de barracas que se destacavam dos demais. Alguns objetos, que pareciam cajados, estavam expostos. Os vendedores também estavam fantasiados de magos, com mantos e chapéus pontudos.

Ah, são vendedores de cajados mágicos. Apesar de ser algo velho, ainda têm muita gente que gosta disso hoje em dia.

Um cajado mágico? Isso desperta meu espírito gamer. Precisamos olhar isso!

— Podemos ver? Podemos?

A empregada deu uma risadinha. — Não precisa ser apressada. Podemos olhar o que a senhorita desejar.

Assim como Wene disse, pude fazer o que queria. A empregada assumia o papel de mãe muitas vezes, afinal, era a figura mais próxima que Elizabeth tinha e sua mãe e avô costumavam estar sempre ocupados.

— Tem alguma coisa errada?

Merda. Acabei olhando demais para ela.

— Não. Estava apenas olhando para Wene.

Ela pareceu ficar um pouco confusa. — Para mim?

— Sim.

Quanto mais recuperava as memórias, mais percebia coisas que Elizabeth não reconhecia. Ela era sortuda, tinha uma família que a amava e, mesmo ocupados, faziam tudo por ela.

Queria ter tido um conhecimento assim enquanto crescia no outro mundo.

— Vamos continuar! — falei.

— Si-Sim.

Enquanto passava por outras barracas, uma garota passou ao meu lado com sua mãe. Apesar de parecerem pessoas normais, a criança chamou minha atenção. Era linda...

Ao observá-la, senti um aperto no coração. Era como se um imã estivesse entre nós e uma auro rosada aparecesse ao seu redor, enfeitadas com belas rosas. Seus cabelos castanhos combinavam perfeitamente com seus olhos caramelos e ressaltavam seu fino rosto.

Cruzamos os olhares e, junto com um simples sorriso, tive meu coração roubado. “Isso até parecia um evento de encontro…”

Um grito ecoou pelo local: — A carga está caindo!!!

Senti um abraço por trás e um puxão. Não entendia o que estava acontecendo no começo; mas, ao olhar para frente, notei. Uma carroça estava tombando e, com ela, uma grande quantidade de toras de madeira que iria nos acertar.

Vamos todas ser atingidas.

 

O Cheat foi ativado. Você possui as seguintes escolhas:

Poder Mágico

Controle Mágico

Magia Avançada

 

Dizem que sua vida passa pelos seus olhos próximo da morte. Não foi o que aconteceu. Minha vida passada não era algo que queria lembrar em um momento crítico como esse.

Os momentos mais felizes de Elis foram em frente à uma tela. Elizabeth já era abençoada o suficiente apenas por estar viva, seus momentos mais preciosos foram com sua família.

Agora entendi, ela não desapareceu. Estava aqui o tempo todo.

 

Poder Mágico ativado

 

Uma quantidade absurda de informação foi derramada em minha mente, assim como acontecia com as memórias. Por instinto, apontei minhas mãos para frente e uma luz arroxeada saiu das minhas palmas.

Ao mesmo tempo, uma luz dourada parecia cobrir a garota e sua mãe.

Foi tão rápido que não consegui acompanhar. Um som estridente, como de um trovão, ressoou e as madeiras foram despedaçadas.



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