Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulos 190: "Superpoderoso"
— Vem comigo, Abigail! Tô louca para conversar sobre as coisas! — disse a ruiva vibrante, de sorriso fácil e brilhante como o mármore.
— Uhh?! Uh… Rebecca…!
— A gente vai conversar direito depois de um bom almoço! E é melhor me contar todas as novidades dessa semana!
Para Abigail, só restou se render, pois não só a pressão dos estudantes a observá-las lhe roubava as forças para confrontar, mas também, pois Rebecca era ridiculamente forte para seu porte físico.
Ela não daria tamanha força para uma menina de aparência tão delicada, mas sabia que as aparências podiam enganar. Rebecca esboçava feitos atléticos incríveis, ou ao menos se dizia.
— Oi, oi! Boa tarde, gente! — De tempos em tempos, ela acenava para alguém e roubava as melhores reações das pessoas, cheia de carisma inato.
O currículo da jovem contava com premiações em algumas categorias de corrida, ciclismo e natação — vindas da antiga escola — e, pelo que ficou sabendo, também aplicou para o track-and-field, conversa ouvida nos quatro cantos dali.
Rebecca Campbell carregava em si um fogo inesgotável. Excepcional, não havia uma coisa em que não fosse naturalmente boa, passando a imagem de um ser de escala superior na cadeira evolutiva.
Alguém de tamanho calibre e características tão proeminentes soava quase…
“Superpoderoso…” completou em pensamento.
A arroxeada tremeu com o pensamento, antes de balançar a cabeça em negação. De certo, acabou de pensar em uma besteira das grandes.
“Não… Acho… Acho que só tô enxergando coisa demais…”
A garota popular à sua frente não parecia ter noção dos grandes perigos a rodeá-la de tão perto e, tampouco, precisava saber de detalhes tão assombrosos.
Abigail não forçaria ninguém a ouvir detalhes capazes de arrancar o sono, ou compartilharia aquelas vivências tão dolorosas do jeito mais integral.
— Abigail… — chamou Rebecca, em tom enfático. — Quero que me conte o que aconteceu na sua escola, tudo bem? Se for para te ajudar a melhorar, eu quero ouvir.
“Droga…” pensou. Infelizmente, não escaparia tão fácil.
— E eu não quero que esconda nada de mim, tá bom? Eu quero ser sua amiga, de verdade.
A pálida moça não tinha em si a força necessária para rebater ou a vontade visceral de manter aqueles segredos guardados no fundo de um abismo; no fim, não era tão forte, algo feito claro pelos últimos dias, notado pela companhia.
— Existe uma coisa te perturbando e eu enxergo isso… Você não atendeu minhas ligações, não respondeu minhas mensagens…
— Desculpa…
— Não, Abigail — encarou-a, continuando a puxar pela mão. — Eu não tô irritada nem nada assim… só preocupada mesmo, e eu não vou te deixar sair em silêncio com qualquer que seja esse problema.
Como um “super humano” de verdade, o grande foco da mais alta queimou o caminho em torno das fracas e quebradiças paredes que mantinham o trauma aprisionado.
— Você tem medo das coisas que viveu lá, não tem? — questionou, muito para a surpresa da mais tímida. — E ainda mais depois daquele cara… Ryan, né? … Bem, depois daquele dia, ele nunca mais apareceu…
O grande barulho das conversas de alunos se abafou — agora só mais um ruído de fundo —, criando um espaço metafórico para as duas, onde o peso da conversa era a única coisa a existir.
— Ele esteve lá com você, não é? Em Elderlog High… — falou, cheia de um incomum peso nas palavras. — Eu quero saber a história inteira, entender o que você pensa e o motivo de estar tão preocupada em vê-lo de novo… Eu quero entender sobre o que aconteceu com você, Abigail.
A pressão no ambiente podia ser sentida nos ombros, tal qual um fantasma de ataque recorrente. A apreensão quase esmagava seu coração, urgindo para encontrar uma saída.
— É… esquisito… Uma escola pega fogo, um cara diretamente envolvido faz uma cena e logo depois desaparece… Te deixa pensando algumas coisas.
Poucos alunos ocupavam lugares nas mesas do pequeno refeitório, algo menos mau para a conversa de desenvolvimento inevitável pela frente; Rebecca iria querer saber e Abigail não sabia o quanto revelar.
— Mas primeiro, vamos nos acomodar! Pegar um sanduíche gostoso e…! — O tom otimista e positivo voltou como a mudança da água ao vinho. — Chegou a hora de colocar nossas conversas em dia! Já tem um tempão que não nos vemos, então é justo!
O sorriso e a piscadela poderiam cegar um ser humano normal e desprevenido, mas ela estava preocupada demais com os pensamentos ansiosos para prestar atenção.
— Vou pegar um grandão para você! Espera aí um pouquinho! — tomou a frente, sem medo. — Oi! Será que eu posso pegar esse para ela?
“... Ryan… Eu… Eu…!”
Memórias estranhas — sombreadas, indefinidas — a assombravam desde o último fim de semana na escola; lembranças de pessoas, cujos rostos se faziam borrões escuros e as vozes, tons monótonos e de dizeres incertos.
“... Eu não sei o que fazer… Não sei o que pensar… Eu…!”
Lembranças, onde as únicas impressões definitivas eram o fato de não poder se mover ou fugir, apesar do grande medo a correr do cabelo aos pés.
“Eu nem sei direito o que tá acontecendo…”
Reminiscências de risadas baixas e uma lâmpada azul, de um quarto escuro e uma cadeira desconfortável, de seus próprios lábios se movendo contra sua vontade.
“... Ryan… Me desculpa… Aparece… por favor…”
Recordações de uma onda de satisfação ao ouvir aquele nome, pulsos de pura felicidade mediante a menção de só quatro letras e um sobrenome excêntrico.
“... Me salva de novo… Eu te imploro…”
O medo de ver algo horrível se passar de novo a forçava a lembrar-se dele ao passar de cada outro segundo, mas, enquanto arrastada pela radiância da Campbell, sequer imaginava não ser a única.
[...]
— Os resultados encontrados são mesmo impressionantes. O presidente vai se alegrar bastante — disse o sujeito, antes de acariciar a bem-cuidada barba branca. — Proteínas de subtipos diferentes, canais e receptores adaptados…
O monte de papéis, repletos de gráficos e análises, indicavam estruturas moleculares modificadas e seus análogos em indivíduos “normais”.
— E são condizentes com o que encontramos no corpo daquele soldado russo — completou a mulher de pele escura, elegantemente vestida. — O cadáver ficou bem preservado e isso facilitou o processo!
O carisma no sorriso dela, decorado de batom róseo, escondia suas verdadeiras capacidades e escrúpulos como uma luva de veludo esconde dedos calejados.
Mediante tal apresentação serviçal e inocente, Elieser jamais duvidaria de sua índole ou da verdadeira natureza dos achados.
— Incrível… Em tantos anos, nunca estivemos tão próximos de descobrir a verdade… — suspirou. — Enfim, saberemos o que foram aqueles soldados e, também, o que está acontecendo com nossa América.
“... E com o nosso mundo, seu babaca egoísta”, completou ela por dentro, ainda sorrindo de um jeito tão falso. — Se me permite dizer, senhor… Isso pode abrir brechas muito maiores no futuro próximo.
Um lampejo de compreensão percorreu os profundos olhos afiados do veterano no comando da CIA, um bom lembrete de ambos dialogarem na mesma língua.
Para impulsionar tal impressão, a bela moça pressionou mais.
— Podemos criar nossos próprios supersoldados, revolucionar a medicina e as artes bélicas… e os Estados Unidos serão um poder a ser temido e venerado por todo o planeta — disse, soando verdadeira. — Basta finalizarmos a última parte: destravar o código genético-chave.
O perfume de lavanda, suave, aos poucos consumiu o espaço do escritório, guardado por quinze dos mais bem-preparados e armados homens. Ali, ela se impunha como se fosse dona, ignorando qualquer semblante de perigo por saber demais.
— … E uma vez que o façamos, fica fácil modificar a estrutura do DNA humano; basta aplicar em algumas células-tronco e vemos acontecer. Se seguir tudo em um bom tempo, teremos os primeiros avanços nos próximos meses… quero dizer, durou uma semana com os camundongos.
A próxima página do relatório revelou um sujeito de teste animal: o camundongo macho 13-H, administrado com células-tronco reprogramadas a partir de um feixe de DNA extraído do [Quebra-Mentes].
— Mas isso… isso é impressionante…! — disse Grazianni, pasmo ao ler os curtos, mas explicativos parágrafos.
— Adicionamos trechos ainda não-decodificados do DNA do garoto em células de um camundongo comum e em apenas 48 horas após a aplicação, os resultados foram surpreendentes.
As imagens na página seguinte contavam mais do que dez mil palavras poderiam expressar.
— Ao ser reinserido em seu meio social 13-H eliminou todos os demais machos na clausura. Apenas as fêmeas sobreviveram, assim como esperado de um macho competitivo, mas… veja por si próprio.
No registro, 13-H dilacerava outro macho com suas presas, as quais pareciam ter crescido temporariamente de tamanho. Sem dificuldades, o camundongo irrompeu pelo estômago de seu semelhante, rasgando-o como se feito de papel.
No fim, o ambiente tornou-se um monte de vísceras e carne espalhadas, e as presas de 13-H, antes tão grandes quanto sua cabeça, reverteram a sequer serem visíveis.
— Iremos continuar observando, mas nosso próximo passo é descobrir como os genes vão se comportar nas futuras gerações. Queremos saber se os filhotes vão herdar as novas “habilidades” do pai — concluiu. — Por agora, transferimos 13-H e seu harém para uma clausura reforçada, de titânio com 3 centímetros de espessura.
O homem repousou os papéis na mesa ao fim da explicação e pareceu precisar um segundo para calcular as palavras a dizer, além das implicações encontradas pela iniciativa.
— … Manter a discrição sobre isso tem nos custado caro… — começou, mais atento ao chão sob seus pés. — Esconder da população o risco com o qual estamos lidando demandou centenas de bilhões…
Para além da janela, no topo do enorme prédio de aspecto comercial, toda a Washington D.C. se espalhava.
As pessoas viviam suas vidas ordinárias, pensando se tratar de mais uma semana comum; crianças estavam na escola e adultos trabalhavam e percorriam entre as movimentadas estradas, à bordo de seus veículos.
Ao fundo, via-se o Capitólio, sede do Poder Legislativo, imponente em sua branquitude perolada; lá podiam até ser tomadas decisões importantes, mas nada se aproximava daquele instante.
As pessoas sequer sonhavam com as verdades ocultas sob seus narizes, alheias aos pactos de silêncio firmados entre alguns dos grandes nomes políticos.
Por mais de dez anos, as coisas permaneceram bem costuradas, mas, mediante a crescente dificuldade de manter o sigilo, a nova descoberta se tornava a próxima melhor coisa.
— Malditos russos… bloqueiam nossos sinais de satélite, se fazem desentendidos, ficam nos seus cantinhos e, de alguma forma, conseguem sobreviver sem contato externo com o ocidente… Mas agora, eu sei o que estão bolando… — parou. — Agente Robinson…
— Sim, senhor — baixou a cabeça em um gesto polido.
— Desvende a tecnologia usada por esses lunáticos para minar o poderio da América! Vamos atacar em pé de igualdade, se assim for preciso, com nossos próprios supersoldados!
— Positivo, senhor — tornou a encará-lo. — Mas, antes… Eu gostaria de fazer algumas demandas que me ajudariam em meu trabalho.
— Demandas? — ergueu a sobrancelha, ambos curioso e entretido. — Pois diga! Iremos providenciar logo!
Robinson deu um passo à frente, deixando leves traços de um sorriso confiante a surgirem nos cantos da boca.
— Ah, não é uma coisa que eu só possa pedir… Vou precisar que essas demandas sejam atendidas de uma forma mais… profunda, digamos assim… Algo… que fique bem estampado na mente.
Sem aviso, “Jane” agarrou o pescoço de Grazianni pelo colarinho branco.
— … Mas…! Mas o que está fazendo..?! Espere… Traidora…! ENTÃO É VOCÊ…!
— Ah, sim… Ele te avisou, do jeito dele… Já estivemos tentando lidar com ele faz um bom tempo. Aquele cara é uma dor de cabeça sem fim.
Levantá-lo do chão demandou nenhum esforço. Ao meramente esticar o braço, os noventa quilos que compunham o homem mais se assemelhavam a um saco comum de arroz.
— O QUE ESTÃO ESPERANDO?! ATIREM!!! — ordenou, surpreendido pelo ocorrido em seguida.
Nenhum dos atiradores moveu um único músculo para atender à súplica, paralisados nas estâncias de vigilâncias, surdos aos pedidos e ordens.
— O QUÊ?! Mas… MAS VOCÊ…! — tentou se debater, sem sucesso. — AHHH…! MINHA CABEÇA…!
— Vai demorar só um pouquinho… Depois, será como se essa conversa nunca tivesse acontecido.
Pequenos toques de arroxeado luminoso escapavam entre as lentes castanhas. Devagar, Hannah tomou o cuidado em substituir cada memória e frase dita, livre para reescrever a narrativa da realidade.
— Vou me certificar de fazer doer — pressionou a jugular de Elieser, ampliando sua autoridade sobre as memórias do agente.
— Uuuurgh… Aaaaargh…! — Conforme as lembranças perdiam nitidez, o calor de fortes chamas fritava-lhe o cérebro.
A manipulação afetou até o menor dos nervos, ativos ao limite da capacidade para a recepção de dor; na prática, uma mistura de queimação, torção e congelamento contínuos, explodindo e revertendo em ciclo.
— GAAAAAAAH! — Quinze segundos se tornaram dias de sofrimento incessante, até o instante onde não aguentou mais. De repente, o corpo, tenso e reclamante, ficou solto e mole.
— Ele desmaiou — citou em voz alta, sem incômodos.
Com um cuidado quase maternal, Jane carregou o corpo inconsciente do presidente da CIA no colo e o posicionou na cadeira.
— Prontinho! — sorriu, de um jeito um pouco mais sincero. — Bom soninho!
A partir dali, algumas coisas mudariam para melhor e não apenas para si mesma.
“Não tenho poder para criar uma conspiração tão grande de uma vez só, então o jogo é começar pequeno.”
A influência mantida sob os guardas cederia em pouco tempo, então, aproveitou a oportunidade para escapar do 10º andar o quanto antes.
“Tô chegando um passo mais perto de te tirar daqui, maninho…”
O elevador rapidamente desceu até 5º andar, mas ao chegar no 4º, as portas se abriram para revelar uma figura conhecida.
— Ah… olha só! Parece que eu não vou descer até o térreo sozinho! E aí?
Ser posta diante daquele rosto esculpido, barba desenhada e trejeitos soltos a irritou sem medida.
“Foi ele…”, controlou-se para não mostrar os dentes. “Esse maldito!”
Sem sentir — felizmente — o ódio destilado pelo olhar de flechas, adentrou o mesmo espaço que ela, seu próprio perfume forte brigando contra a doce lavanda pelo domínio.
— Hmm…! Tá indo para o térreo, é? Ei, você não é aquela tal de Robinson? Só tinha ouvido falar! Primeira vez que te vejo! Prazer, sou o Menéndez… Agente Menéndez!
Aceitou com muita mentira o aperto de mão do colega, sem esquecer de sorrir, por mais que se revirasse em raiva interna.
— Sou Jane Robinson! O prazer é todo meu! — gesticulou, a ponto de ter câimbra nos cantos da boca.
A troca de gentilezas já era ruim e amarga por si, mas quando não podia ficar pior…
Smooch! — Menéndez ergueu a mão de “Jane” e a beijou, como faria um cavalheiro. — Ooops! Contato curto! Foi um prazer te conhecer! Vamos conversar de novo, sim? É mesmo uma graça, Jane!
O 2º andar serviu de separação dos dois e antes que as portas fechassem, o agente ainda soltou um beijinho discreto.
— … URGH…! Que cara repugnante…!
Mal podia esperar para encontrar álcool em gel ou algo para limpar a marca daquele desgraçado invasivo; ela o faria pagar, por isso e muito mais.
— Huff! — esbravejou ao sair do elevador, cortando o térreo em passos decididos. “Eu ainda vou fazê-los pagar caro… muito caro!”
Os pesquisadores brincavam com algo muito maior do que si mesmos ou do que seriam capazes de compreender.
“... E ainda mais usando o nosso DNA… O sangue do meu irmão…!”
Hannah mal podia esperar pela chance de esmagar alguém, mas isso haveria de esperar, afinal, algo importante precisava ser protocolado e as “pessoas de confiança”, avisadas da nova mudança no jeito de guiar as coisas.
“Mentir sobre resultados de pesquisa foi só o pretexto para chegar onde quero. Agora, é só mover as peças finais.”
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios