Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 191: Repetição do Padrão
Em plena hora do almoço, Abigail se sentia tão presa quanto um ratinho enjaulado, ameaçada pela constante vigilância das dezenas de estudantes ao redor.
“Será que eu ainda consigo escapar…?” O desespero tomava conta, ao olhar de um lado para o outro do espaço aberto, em expectativas de achar uma saída viável.
Para sua infelicidade, as tentativas de planejar a rota de fuga não tiveram sucesso; não que tal plano fosse sequer funcionar para começo de conversa, afinal, seria apenas uma questão de tempo até que Rebecca a encontrasse.
“... Uhh… Eu não sei se isso vai dar muito certo…” recolheu-se na cadeira.
Um lado de Abigail argumentava que a nova amiga só estava tentando ajudar, mas entre revelar os seus segredos e arriscar ser chamada de “louca”, ou preservar o status quo e manter as coisas pacíficas, não restava escolha real.
— Obrigada, obrigada…! — acenou a ruiva, portando um belo sorriso. — Eu tenho certeza que ela vai gostar! De novo, obrigada!
Se a energia sobrepujante daquele raio de sol ambulante a forçaria a contar cada segredo, então a contenção de danos contava como a última opção.
— Aqui! Cheguei! — Animada, Rebecca tomou seu lugar no lado oposto da mesa. — Olha só o que eu consegui!
A bandeja do almoço continha não apenas os dois sanduíches de queijo, mas ao menos uns sete deles e, junto, veio uma porção farta de feijões cozidos.
Para os padrões da escola, aquilo era comida demais, a levando a refletir sobre qual tipo de história a menina havia contado para receber tanto.
— Uhh… Eu não acho que vai dar para comer isso tudo, Rebecca…
— Claro que eu não pedi isso só para o almoço, Abigail! — brincando com uma mecha ondulada, piscou. — Perguntei para eles se você podia levar para casa!
Ouvi-la falar a tornou ainda mais branca e semi-fantasmagórica do que antes. Por um momento, os olhos de Abigail se arregalaram e o espírito gesticulou para sair do corpo.
— … O quê…? — pasma, quis rebater. — Rebecca… A gente não pode levar comida da escola…! Eu…!
— Relaxa.
O contato entre as duas mãos trouxe choque, quando o frio — suado e molhado — da Halsey colidiu com a temperatura — vibrante e constante — da Campbell.
— Tá comigo, tá bem? — sorriu de novo, mais gentil. — Se alguém tiver que se dar mal por levar comida para casa, sou eu. Vou levar na minha mochila e te entregar lá fora.
E não fez sentido para a arroxeada; a atenção, o cuidado; o carinho, sem familiaridade ou obrigação, não parecia ter razão de ser.
“Por quê…?”
Rebecca não precisava dela, não a devia nada e muito menos tinha como parte de sua reputação a necessidade de se envolver com alguém de reputação tão decrépita.
“Por quê…?”
Seria um desafio? Conquistar o máximo de pessoas… conseguir a confiança da escola inteira… Será que, por esse tempo inteiro, a intenção era só ter mais um número no bolso?
“...”
“Deve ser isso”, pensou. Em qualquer canto da escola, a ruiva se tornava tópico de conversa. “Rebecca isso, Rebecca aquilo”... Todos — sem exceção — tinham algo bom para dizer sobre ela.
As pessoas a orbitam, a ovacionam, a apreciam e a cultuam; a colocam em posições altas e grandiosas, a tornam no representante perfeito de humanidade e virtude.
Abigail entendia o bastante sobre ser popular, a começar por saber que chegar lá de certo demandou muito trabalho, desde cultivar uma boa reputação, agir afável e carinhosa, aprender a sorrir para tudo…
E a noção de agir assim passou a enojá-la, pois, no fim, tudo o que cultivou foram relações superficiais movidas a favores e trocas simples: um grande jogo de ego.
“Ah… eu entendi agora…” refletiu. “Ela tem pena de mim… me vê como inferior. Ela só mente para se sentir mais completa.”
Ela, também, já imaginou existir algo a ganhar por se comportar desse jeito; uma pena não ter resultado em nada. Seu império — Elderlog High — virou uma pilha de cinzas e seus seguidores, cadáveres irreconhecíveis.
“Eu odeio isso… Odeio isso…”
As pessoas que antes a ovacionavam nos corredores a deixaram para morrer e Abigail não quis ser diferente.
— Então não se preocupa, tá bem? — Animada, Rebecca acariciou o dorso da mão clara. — Deixa comigo que…
— … Eu não preciso da sua pena…
— Eh?! — A reação violenta evocou reações iguais por todo o refeitório.
— Eu não vou ser a coitadinha que existe para te fazer sentir melhor…
Boa parte parte da escola parou quaisquer coisas, importantes ou não, para assistir o instante em que o eco da afirmação se espalhou pelas quatro paredes.
Os grupinhos pararam de conversar, as cozinheiras pararam de servir e até a polícia, colocada de guarda para proteger a escola após a explosão de Elderlog, trouxe atenção para a arroxeada.
— Para se intrometer na minha vida…! — levantou, e começou a tomar distância de Rebecca. — Você não sabe de nada… NADA!
— Outra vez? Heh… Fé nas malucas, né? — disse um dos rapazes nas mesas mais distantes, puxando o celular para gravar. — Ah, esse drama tá sendo maravilhoso…!
A manobra dele se repetia por cada canto dali, a ponto de, passados dez segundos, não haver mais uma única alma que não gravasse o momento de 300 ângulos diferentes.
Mas ela não se importava, ou melhor, sequer tinha como fazê-lo.
— Eu não preciso da sua simpatia falsa! — exclamou, apontando acusadoramente. — Não preciso dos seus sorrisinhos, das suas palavras vazias…! Você não entende como eu me sinto, então para de agir como se entendesse…!
— A… Abigail… Eu…
— CALA A BOCA! — ressoou por boa parte do andar inferior. — Me deixa sozinha… ME DEIXA EM PAZ!
Sem deixar chance de resposta, a jovem saiu do refeitório a passos pesados, cobrindo o rosto choroso com a longa manga do moletom roxo pastel.
“Eles não entendem… Não entendem e não vão entender…!”
Ninguém tentou interrompê-la em seu caminho até a quadra de basquete. Alguns estudantes tentaram continuar gravando, mas policiais e membros do corpo docente os pararam nos corredores.
— Deixem ela em paz… E eu não quero saber de ninguém postando isso!
A psicóloga escolar falou em alto e bom tom, mas sabia estar conversando com paredes, pois ao menos algumas dezenas de versões da filmagem já deveriam estar cortando as redes.
— Todos voltando! — exclamou a Diretora Thompson. — Vão! Agora!
O enfoque da ordem se mostrou suficiente e logo a multidão curiosa se dispersou, cada pequeno grupo indo para um lado, debatendo quanto ao que acabou de acontecer.
Sem hesitar, Grace rumou até o refeitório, um pouco mais vazio e de “conversas secretas” do que antes e tomou o lugar vazio, antes ocupado por Abigail.
— Tudo bem com você? Ela te fez alguma coisa? — Simpática, a jovem adulta sorriu para Rebecca. — O que aconteceu entre vocês duas?
Naquelas poucas semanas na Arrowbark High, Grace a viu várias vezes, mas em nenhuma delas a ruiva pareceu tão apagada e pensativa.
Rebecca se mantinha encarando o branco da mesa e os sanduíches sobre a bandeja metálica, em pesada reflexão quanto ao ocorrido.
— Não aconteceu nada comigo, Srta. Thompson! — sorriu, de um jeito fraco e artificial. — Vou tentar me desculpar com ela depois!
— Acho que isso vai ser bom — respondeu com um sorriso leve próprio. — Mas, se você quiser falar sobre com alguém…
— Tudo bem! Vou manter isso em mente! Hehehe!
Se levantou, pegou um sanduíche do conjunto e saiu, sem antes deixar uma piscadela confiante para a psicóloga.
“Todos eles, presentes aqui, gente que fala e sorri para ela todos os dias… e ninguém faz nada para ajudar.”
Ela saiu sozinha, forçando uma postura forte, por mais que prestes a desmoronar.
“A deixaram só para lidar com os próprios problemas, enquanto fofocam entre si… Não é sobre isso que as coisas são? É esse o significado de ser uma ‘garota popular’; as pessoas só querem seu melhor e vão te drenar até não restar mais nada para tirar.”
Grace bufou; ainda havia trabalho para fazer. A confusão se iniciou com duas pessoas e não apenas a Campbell, afinal de contas.
“... Agora, onde será que a Halsey está?”
Sabia, a partir dos registros escolares, que Abigail veio da Elderlog High e, compreendendo a ciência por trás do desenvolvimento de aversões e traumas, restou uma conclusão óbvia.
“Os professores me disseram o suficiente… e com tanta instabilidade nas últimas semanas, tá claro que ela precisa de acompanhamento urgente e não só da psicologia.”
Abigail perdeu vários dias de aula, tinha dificuldades em focar — de acordo com alguns professores — e, no geral, não exibia um bom estado de saúde após o ataque terrorista.
“... E ainda aconteceu essa situação mais recente com a cidade… Meu Deus…”
Precisava encontrá-la e depressa. Não havia certeza quanto a como os níveis de estresse podem afetá-la ou até qual ponto chegaria caso deixada sem apoio.
“... Talvez eu precise envolver até a Assistência Social no caso dela…”
… … …
“Eles não entendem… Não sabem o perigo que estão correndo…”
Mais uma vez, os eventos daquele dia se rebobinavam de novo e de novo.
“Eu tô com medo… Me salva…”
A fumaça, as mariposas, a pilha de corpos e partes, deixada por Jacob… Nenhum pedaço daquele instante, tão grande quanto uma eternidade, parecia capaz de se apagar de sua mente.
— Me salva, Ryan… Não me deixa só…
O buraco em seu peito doía — a falta da grande satisfação trazida por aquela segurança. Só de pensar nele, respirar ficava um pouco mais fácil.
— Volta… por favor… volta… e me protege…
[...]
— VOCÊ O QUÊ?! — perguntou a barulhenta mulher de cabelos escuros. — Quando as diretrizes da investigação foram mudadas?! Que decisão foi essa?!
Os demais no escritório, por mais incomodados que estivessem, não reagiram para além de só fechar as caras, quando ela gritou; muitos ali já tentaram repreendê-la pelo comportamento várias vezes e nunca resultou em nada efetivo.
Nem mesmo os novos buracos em seu pulmão esquerdo e o braço engessado se mostraram efetivos em conter a transbordante energia da “prodígio da companhia”.
— VOCÊ vai ficar com o caso do moleque que o Menéndez pegou?! AAAAH…!
A frustração de Melissa se espalhou por todo o ar do jeito mais espalhafatoso e, derrotada pelas prerrogativas, a agente de elite da CIA só pôde se deixar cair na cadeira acolchoada, pouco confortável.
— Era meu sonho continuar… Minha missão… — Vencida em espírito, olhava o teto. — Por que tomaram de mim…?
Ela sabia da resposta, só não queria ter de ouvi-la, mas o problema é que alguém estava disposto a dizê-la, de qualquer forma.
— … Talvez porque você representou um risco para o objeto em captura? — Outra voz feminina, mais comedida e madura, se fez ouvir. — Sabe o quanto o presidente reforçou para não causar danos aos sujeitos de teste… e lá você foi…
— Ah, cala a boca, Marilyn! Foi só um choque…! Foi só para intimidar…! Ele não era para ter considerado uma coisa assim! É parte do protocolo padrão de interrogação quando não querem falar a verdade…!
Mas a loira não teria nenhuma das más desculpas da irresponsável Melissa e, admitisse ou não, vê-la em tal situação de desconforto a trouxe um mórbido senso de satisfação.
— Da próxima vez, experimente crescer um pouco. Poderia se inspirar em um bom exemplo, tipo aquela novata, a Robinson.
Pérez tomou os passos certos para mirar no cerne da ferida — agora, Melissa mais parecia um tomate maduro de tanta raiva, a ponto de explodir, graças à comparação.
— Não venha me comparar com aquela Virgem Maria sem graça…! Tudo o que ela faz é ficar agradando os outros e eu NÃO nasci para isso…!
— … Então eu só posso questionar o quão bem você vai se adequar aqui e rezar que as minhas perspectivas quanto ao seu futuro estejam erradas… — Marilyn deu de ombros, sorriso orgulhoso no rosto. — Mas então, o que achou da troca de função, Gordon?
A menção dele trouxe boa parte da atenção em sua direção. O agente Walker, até então em silêncio, possuía o aspecto de alguém que ainda tentava digerir a novidade.
Por ao menos uns cinco minutos, ele encarou, preocupado, a tela do e-mail enviado por Grazianni, direto do escritório protegido. A mensagem em si se lia curta e direta, dizendo…
— “Ao Agente Gordon Walker será dirigido o interrogatório do sujeito A-003, codinome [Quebra-Mentes]. O caráter do trabalho é obrigatório. Compareça ao Setor de Inteligência para informações.” … Haah…
A expressão pasma e um tanto para baixo denunciava a verdade: o homem de físico forte não soube como reagir e ainda se esforçava em elaborar um raciocínio convincente à ele próprio, em especial.
— Não que eu esteja reclamando, mas… com base em quê, em específico, ele considerou isso?
— É…! — Melissa se intrometeu. — Eu também quero saber…! Qual foi o critério usado para tirar a responsabilidade de mim e aplicar ela para você?!
— E não é a única coisa. — Marilyn tomou um lugar na cadeira ao lado do marido. — Onde está o pedido formal? Do modo como foi escrito, parece muito mais um pedido pessoal… Não é o tipo de coisa a se fazer quanto a algo desse tamanho.
Os experimentos já viraram o principal tópico de conversa na sede e não era mais tão incomum escutar os funcionários discutindo os pormenores dos testes realizados pela equipe de pesquisa.
Os resultados eram estranhamente promissores, otimistas e revelavam “novos horizontes, nunca antes cogitáveis pela humanidade” — fato é, a maioria apenas escutou de terceiros, que ouviram de outros e assim segue.
Contudo, uma coisa que qualquer um dos digitadores de papelada e administradores de sistemas sabiam, era com quanta segurança os sujeitos eram mantidos.
Nenhum deles viu o rosto de um dos capturados ou sequer tinha o conhecimento de onde se encontravam lá dentro, mas as camadas de segurança e criptografia em cada registro não mentiam.
Logo, ter um agente de campo — não um pesquisador ou agente de inteligência — desempenhando o papel de interrogar diretamente o “mais notável dos experimentos”, segundo o próprio presidente dos Estados Unidos…
“Tem algo muito errado nessa história…” Marilyn manteve para si mesma, visando evitar o questionamento de Melissa. “Será que…?”
Um claro padrão se repetiu: Elieser escolheu alguém cuja história pessoal se correlaciona de forma direta com o sujeito em questão, algo sem base ou respaldo prático, além de combustível para problemas.
“Foi a mesma coisa que aconteceu comigo e a Lira… Mas qual a intenção real disso…? Interferir diretamente depois e boicotar o nosso progresso nas investigações…? Mas o que ele ganharia com isso?”
— Aquele desgraçado é muito mimado, eu conto para vocês…! Souberam? O presidente pediu que a gente o remanejasse… para uma sala confortável e mobiliada…! Tch! — A pálida zombou amargamente ao vento. — Aquela coisa não teria tratamento VIP se permanecesse nas minhas mãos…!
A insatisfação de nada poder fazer a corroía, rendendo-a à posição de gastar suas horas batendo os pés no ar. Frustrada, a mais jovem do trio falava pelos cotovelos.
— O único motivo do moleque ainda estar vivo é por conta do “potencial”...! — exclamou, sem grande preocupação com os possíveis ouvintes. — Ele falou alguma coisa sobre usar o poder daquele pirralho apático para servir os Estados Unidos… Mais fácil ele estar sendo manipulado!
A inexperiência em como lidar com as informações entre colegas acabou revelando uma mina de ouro em forma de contexto, usada do jeito mais sábio: a deflexão na resposta.
— Bem, de qualquer forma, só vamos saber depois de aprender os detalhes… Não acha, Gordon? — sorriu, urgindo-o a participar da mentira.
— É o que precisa ser feito… — Ao dar uma leve piscadela, revelou compreensão. — Irei questioná-lo a Inteligência quanto aos protocolos e, talvez, descobrir qual a natureza exata da missão.
— Ótimo! — Novamente partiu os lábios, desta vez de forma genuína. — Tenho certeza que tudo vai se resolver!
— Vou te dizer… É o trabalho que eu queria…! — completou Melissa, largada no lugar. — Se quiser quem te cubra, viu… qualquer dia desses…
Alguns soavam confiantes; outros, entediados… Gordon, porém, se sentia incerto — como um esquiador tentando descobrir onde a neve não é fofa — em face das várias perguntas, sucedidas de nenhuma resposta.
“Por que eu…? Por que eu fui escolhido para interrogá-lo?”
O modo de se guiar as demandas já gerava dúvidas, mas a novidade amplificou em dez vezes o sentimento. O que mais apareceria em seu caminho, de agora em diante?
“... O destino dá voltas… E pensar que eu ia acabar dando de cara com aquele garoto de novo…”
Ele olharia a púrpura de novo e questionaria suas motivações e desejos… acima de tudo, como o garoto reagiria a vê-lo outra vez?
“Haah… Mais dor de cabeça…”
Ele sequer tinha como supor e a verdade o assombrava. Quais revelações bombásticas se escondiam sob os panos? E, em primeiro lugar, estaria o rapaz disposto a revelá-las?
— O [Quebra-Mentes], né…? Melhor não deixar isso pra depois — levantou, expulsando as dúvidas. — Quanto antes eu souber, melhor.
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