Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 189: Castelo de Papel
— Bem… É isso…
A mediana estrutura da escola, em comparação à antiga, assumiu trejeitos de um ambiente titânico. Vê-la de frente foi como apreciar um castelo grande demais, sufocante perante seu tamanho diminuto.
— … Mas eu já cheguei até aqui… Não dá para voltar mais atrás.
A adolescente de fios tingidos em púrpura inspecionou a entrada ausente de muitos alunos, o esperado; Arrowbark conseguia ser ainda mais morta do que Elderlog, coisa de se julgar “impossível”.
O estado de Montana em geral sofria com esse problema; fora das maiores cidades, como Helena ou Billings, até achar emprego se tornava difícil e pensar nisso a fez questionar o motivo de seus pais terem escolhido esse lugar para morar.
“... Quer dizer, eles não tinham tanto dinheiro assim na época, então…” parou, puxada para fora dos pensamentos. “Ah… eles estão olhando para mim…”
Por mais cobertos pela franja que estivessem seus olhos, o tom dos fios e o aspecto físico não deixavam ninguém se enganar: aquela era a tal da Abigail Halsey, famosa pelo vídeo constrangedor.
“Ahhh… Droga, droga…”
Ela não sabia como reagir à imensa atenção proporcionada pelos novos colegas. Não-habituada ao novo holofote, só engolia os comentários e chamadas, tentando parecer o mais solícita quanto pudesse.
— Ah, e aí…! Se não a Abigail! — falou um rapaz, do outro lado do corredor dos armários. — Olha, não precisa ficar se preocupando com aquele cara! Ele nem aparece mais!
Pessoas que não sabiam o mínimo sobre ela, ou a respeito dos segredos guardados a sete chaves, sequer arranhavam a superfície da importância em seus pensamentos.
— Ahahaha…! — riu, sem muito desejo de fazê-lo, desajeitada.
— Agora, se quiser alguém que vá te tratar de um jeito bem melhor…
O jovem de igual idade, desconhecido, se aproximou com um desejo conhecido, nada fora do ordinário e, decidido, pressionou a mão contra a porta metálica de um dos armários.
— … Eu tô aqui…! — anunciou, olhando-a no fundo da alma, frente a frente. — Fica comigo! Confia em mim e você esquece daquele cara rapidinho.
O odor do hálito dele, tão próximo, a trouxe desgosto e, desesperada pela saída daquela situação, Abigail obedeceu ao primeiro instinto de sobrevivência em sua longa lista.
— Ahh…! Me… Me desculpa…!
De mãos trêmulas, ela empurrou o garoto para trás. O gesto foi fraco, o deslocando meros centímetros e causando mais susto do que qualquer outro tipo de reação.
— Ei…! — Um tanto surpreso, o rapaz reagiu.
— … Eu… não tô afim de um relacionamento…! — cuspiu o primeiro lance de palavras a surgir na mente. — … Boa sorte tentando com outra garota…!
Sem medir esforços ou se incomodar com os vários olhares dos outros alunos, Abigail correu o mais longe quanto pôde, agarrada nos três livros do dia e deixando o quarto para trás.
… … …
— Haaah… Haaah… Haaah… Haaah…
A água a escorrer sem parar pela pia do banheiro servia, também, para camuflar os sons de seu pânico e tumulto interno.
— Haaah… Haaah… Haaah… — Cansada de correr, Abigail se perdia entre tremer de medo ou de pura ansiedade.
Felizmente, ninguém se encontrava no banheiro às 7:47 AM, ofertando-a um pouco do conforto perdido naqueles segundos que mais se pareceram horas inteiras.
— … Eu tenho que me acalmar… preciso me acalmar…
Nenhum lugar parecia seguro e, a cada instante, a ameaça daquilo acontecer outra vez levava seu coração a quase escapar pela boca.
— … O Jacob não tá mais aqui… Ele não vai mais me procurar… Ele… Ele morreu… — Para si mesma, a menina citava os fatos, esperando poder acreditar neles a partir de algum momento. — … Eu vou ficar bem… Eu vou ficar bem…
Dizia isso, mas o espelho redondo frente à pia não mentia. Sob os olhos, as noites mal-dormidas formaram algumas olheiras escuras, pouco ocultas na maquiagem feita às pressas.
— … Eu vou ficar bem… Eu vou ficar bem… Vai ficar tudo bem…
O cabelo, antes cuidado com tanto capricho, agora formava uma franja tão grande e bagunçada que chegava a cobrir o lado esquerdo do rosto, vez ou outra.
Entre o monte roxo, as raízes pretas começavam a se destacar, criando um degradê de contrastes ao longo do topo da cabeça.
— Haaaaaaah… — tomou uma respiração profunda e soltou todo o ar ao final, contemplando a situação atual e os fatores a compô-la.
O medo de Elderlog High se repetir de novo tornou-se o pior terror em meio aos seus dias. Abigail sequer conseguia dormir direito, diante das possibilidades e conspirações, criadas pelo leque aberto.
Após aquele massacre, a porta arrombada em sua mente jamais se fechou: o que o governo escondia, por trás dos vários planos de reforço tecnológico e em pesquisas de biotecnologia?
E não parava por aí, afinal, o aspecto mais importante advinha do ponto mais fundamental e humano da discussão e, também, o mais pessoal e egoísta.
“... E quando acontecer de novo… Quem vai me proteger…?”
Uma nova ameaça deixou de ser uma questão de possibilidade e se tornou uma questão de tempo — “quando”, ao invés de “se” — e o pior medo da menina jazia em sua completa incapacidade, mediante tamanho perigo.
“Naquela vez, eu só consegui correr…”
Em meio ao fogo e a dor de tantos, descobriu um fôlego que sequer sabia ter. Correr de Jacob naquele jogo de gato e rato pintou um trauma em forma de cicatriz na alma, inesquecível pelo resto da vida.
Ela se sentia revivendo aqueles instantes, perdendo a conta de quantas vezes despertou nas últimas noites, coberta de suor frio e a ponto de chorar, ausente de quem recorrer.
E por mais que tentasse e insistisse em se dizer sobre o fim daquilo, a mensagem não se encaixava e, na noite seguinte, o mesmo se repetia: os gritos, o tumulto, o cheiro da fumaça, os insetos… e ele.
“Você é minha… MINHA… MINHA! MINHA…!”
Não costumava ter medo de garotos antes, mas a experiência deixou marcas extremas. Abigail agora tremia ao menor avanço de um dos rapazes, as cenas se associando em sua psique.
“Vou te ter só para mim, gostosa… Se soubesse o quanto eu te amo…”
O mero relembre revivia a sensação das mãos nojentas a acariciarem-a o corpo. Ela sabia não haver noção daquilo ser “amor” e, por isso, a palavra a aterrorizava tanto.
“... Já tá chegando na hora das aulas… Melhor eu me apressar…” fechou a torneira e deixou o banheiro.
Sem mais tempo para se lamentar e pensar no pior. Faltavam apenas seis minutos para o começo da aula e, depois de tanto faltar, ter a atenção chamada por se atrasar tornaria as coisas piores.
Porém, como em um lance do destino, no exato instante em que sua perna direita cruzou o limite da porta, em direção ao corredor, algo aconteceu.
THUM! — O barulho do impacto do corpo da menina contra o chão do corredor ecoou pelo espaço vazio, preenchendo Abigail de uma terrível culpa.
— … AI, MINHA NOSSA! — exclamou, ambos surpresa e assustada. — MEU DEUS…! Você tá bem?!
Se ajoelhou sem hesitar e tocou as costas da menina que tentava se levantar, vitimada por um acidente: no exato instante no qual pisou fora do banheiro, a garota, correndo, tropeçou em seu pé.
— Me desculpa…! Me desculpa de verdade…! Eu não vi você chegando e…! Olha, eu juro que não foi de propósito…! Aconteceu algo?!
Mas a outra adolescente não disse uma palavra e só se reergueu. Abigail não conhecia aquela garota ou sequer a havia visto e, por isso, presumiu não compartilharem turmas.
— … Ei, eu sinto muito, tá? Se machucou? Eu deveria ter prestado mais atenção…
A menina parecia ser mais nova, um pouco menor que ela e dona de ordinários cabelos castanhos-médios; nada sobre ela saltava à atenção, vestida em um moletom cinza e calças jeans.
— … Se quiser, eu te acompanhar à enfermaria e…!
Pegou os livros deixados no chão e foi embora, correndo para longe do mesmo jeito como fazia antes. A visão de seu rosto entre as mechas onduladas, na altura do pescoço, foi curta mas impactante.
— … Espera aí…! — estendeu a mão e tentou alcançá-la, sem sucesso.
Ela estava chorando. O rosto vermelho e as trilhas brilhantes ao longo das bochechas não mentiam, não sendo necessário mais do que o curto vislumbre para determinar o fato de estar sofrendo.
— … Nossa…
Agora, nem mais o barulho dos passos pesados se ouvia, de tão longe que deveria estar, mas enquanto esse grande mistério só crescia, o tempo continuava a rodar.
— Ah…! A aula…!
Faltavam apenas dois minutos. Ágil, a imitou ao reerguer-se e gastou mais um pouco de oxigênio a mais para chegar na hora, poucos segundos antes do período se iniciar.
— Ah…! Senhorita Halsey! Vejo que voltou! Vamos, sente-se! A aula já vai começar.
Não reconheceu o professor, mas também não se deu tempo para o estranhar.
— Obrigada…! — Depressa, andou até o local determinado pelo mapa de sala e o ocupou.
— Muito bem, aos que não me conhecem, sou o Professor Bartholomeo e hoje iremos continuar o tópico da semana passada. — anunciou. — Abram os livros na página 22. Vamos discutir sobre os fundamentos da moral e da ética.
A aula seria de Filosofia, um bom começo para o primeiro horário. Os alunos eram obrigados a selecionar ao menos uma disciplina optativa, então, selecionou a mais suave, aparentemente.
“... Mas… espera…”
— Atenção ao terceiro parágrafo. Quero que alguém leia — escaneou a sala, brevemente. — Pode ser você, senhorita Halsey! Por favor, nos agracie com sua voz!
Congelou. Um evento com chance de 1 para 4 aconteceu e para seu azar, acima de tudo.
— Eeeeh…
— Qual o problema? Não pode ler?
Os olhares penetrantes outra vez se focaram nela, cheios de expectativas e, principalmente julgamento.
Na mesa, ela tinha os livros de Matemática, História e Programação, mas não o de Filosofia.
— Senhorita Halsey, por favor, seja breve! A sala toda está esperando…!
Sua vida havia se tornado uma tragédia após a outra, até mesmo nos pequenos incidentes.
“... Eu só quero sair daqui…”
[...]
As coisas eventualmente se arranjaram. O professor percebeu a ausência do livro e emprestou o seu próprio para a leitura; o vexame ainda foi o mesmo, contudo.
As duas aulas da manhã passaram de uma forma pesada e o peso dos pensamentos e ideias nos ombros a fizeram não prestar atenção na maioria das explicações.
A velha Abigail, aplicada e sempre atenta, falhou em ocupar seu lugar na nova escola, agora se esforçando aos limites para ser mais um fantasma despercebido.
“... Eu só quero que esse dia acabe…”
Para a infelicidade dela, passou-se apenas metade dele e a hora do almoço, repleta de barulhos de conversa e do trânsito dos estudantes, a lembrou outra vez da terrível data.
— Ugh… — Foi em um dia como esse, de pessoas despreocupadas e apenas vivendo suas vidas.
Guardou os livros no armário, para deixar a carga de guardar o restante mais leve. Não queria perder mais tempo do que o necessário na hora da saída.
“Ouvi que o almoço hoje vai ser um sanduíche… Não sei se quero.”
O gesto de trancar fez mais barulho do que deveria e ecoou pelo espaço amplo e cinzento, a ponto de assustá-la um pouco. Olhou para os lados, em busca da reação das pessoas e foi quando se deparou com ela.
— … Oh…! — tomada de surpresa, levou a mão ao peito por instinto. — É você…! Uhm.. Olha eu não quis esbarrar em você hoje de manhã… me desculpa…
A menina tinha um curativo em torno do nariz, possivelmente machucado pela queda, mas, para além disso, pôde notar outros detalhes.
— Nossa… você… se machucou muito… — falou, sentindo-se culpada. — Tem… Tem alguma coisa que eu posso fazer…?
Suas mãos estavam repletas de pequenos cortes vermelhos, tão finos que poderiam ter sido desenhados com a ponta de uma agulha. Os dedos também se encontravam quase todos cobertos de curativos, sinal de maiores danos ocultos.
— Não foi sua culpa…
— … Eh…?!
Sem perder tempo, tirou do moletom um envelope feito em papel de caderno, às pressas.
— Pega — disse, entregando-o nas mãos de Abigail. — Lê quando estiver sozinha, por favor…
— Huh?! Eu…! — Antes de poder dizer algo, a menina misteriosa já se aprontou para sumir.
— Não abre na frente de ninguém…! — ordenou, em uma voz trêmula.
— Ei…!
Desapareceu, igual à primeira vez. A entrega do envelope criou um ar ainda maior de mistério e a bizarra situação confundiu-lhe da cabeça aos pés.
— Uhh… — inspecionou o objeto, pequeno o bastante para caber na palma da mão.
A impressão inicial estava certa: a coisa foi feita nas pressas, sem cuidado estético ou sequer o rigor de dobrar o papel corretamente, mantido junto de forma pobre com mera cola branca.
Na frente, havia escrito: “leia quando estiver sozinha”, mas nada além ou qualquer dica acerca do conteúdo. Talvez ela só devesse abrir logo e verificar.
— Ah, é você…!
A voz estridente e conhecida arrancou-a do foco, na forma de uma onda de choque a correr pelo corpo. Seu cérebro computou de quem se tratava de imediato.
— Abigail…! Tô feliz em te ver…!
As mechas na cor de cobre e o cheiro de frutas vermelhas vindo do abraço-surpresa a invadiram com uma energia faltosa em qualquer que fosse o lugar, como se ela a tivesse tomado só para si.
— Ahh…! Rebecca… Oi…! — Sufocada, esforçou-se para corresponder à altura.
— Ah, Abigail…! Eu senti sua falta, sabia?! Passei a semana querendo conversar mais!
Agora, toda a atenção possível de se juntar naquela escola de uma única vez focou-se nelas e, principalmente, no sinônimo de “perfeição” à frente.
— Não respondeu às minhas ligações… Eu fiquei preocupada! Pensei que algo pior tivesse acontecido!
A presença dela chegava a brilhar como o sol, sendo o único problema o fato da vista de Abigail estar cansada.
— Não aconteceu nada…! Desculpa! Eu só fiquei um pouco ocupada demais e…
— Abigail…
E de repente, a energia radiante assumiu um único foco. Rebecca segurou-a pelos ombros — gesto suave, mas cheio de significado — e a olhou no fundo dos olhos, séria.
— Você não tá bem e isso não é coisa que estar ocupado faz com alguém… E nem vem me dizer que é por isso ou criar qualquer outra desculpa…!
Uma cabeça maior, a ruiva tornou-se até um pouco intimidadora, ao ignorar o resto do mundo para dar-lhe atenção. Sombra recaiu sobre as belas íris castanhas e os lábios brilhantes de gloss se retraíram.
— Vem, a gente vai almoçar juntas e eu quero que você me conte tudo. Somos amigas, okay?
Não custou a entender a impossibilidade de escapar, arrastada pela mão até o refeitório, ciente de que seu dia acabara de ficar mais longo.
“... Vou ler depois…” sentiu o envelope da carta no bolso dos jeans, oculto do resto do mundo até ser dado o momento certo.
Mas a dúvida não deixava de persistir. O que haveria em seu conteúdo? E por quais motivos ela não poderia ler na frente de outros? E, o mais importante de todos, quem é aquela garota e por que parecia estar sofrendo tanto?
— Vou pedir um sanduíche a mais para você! Com certeza vão deixar! — Rebecca sorriu, desatenta à dispersão da amiga.
Abigail iria descobrir, por bem ou por mau, o tipo do segredo a rondar as salas e corredores da Arrowbark High.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios