Chamado da Evolução Brasileira

Autor(a): TheMultiverseOne


Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios

Capítulo 188: Família

— O trabalho naquele poço nunca veio na intenção de ser fácil, mas está pesando mais em você agora do que nunca, Marilyn.

O leve impacto de quente e confortável xícara de café forte a trouxe mais perto do mundo abandonado ao acaso dos próprios pensamentos.

— Me conte sobre o que tanto te perturba, meu amor.

A forte mão de Gordon a assegurou e o leve aperto no ombro direito roubou um suave sorriso da mulher.

— Quase não temos a chance de uma conversa profunda, entre só nós dois — disse, em máximo foco. — Vamos lá; você mal tem dormido, querida.

A evidência física demonstrava a realidade; sob os olhos dela, bolsas escuras e inchadas, impossíveis de cobrir com simples maquiagem, saltavam adiante.

— Ah, Gordon…

A fala cansada se seguiu do mais profundo suspiro, como se aquele simples gesto já houvesse arrancado um peso descomunal de suas costas.

Sem saber como se sentir, Marilyn buscou com o olhar ao redor da cozinha, até fitar os dele por conta do inevitável.

— Não acha que isso é coisa demais, até mesmo para nós?

O simples questionamento o fez piscar em puro reflexo. Gordon puxou o ar e o soltou com firmeza, simpático quanto às dores da esposa.

— Já lidamos com ao menos umas três possibilidades de apocalipse nos últimos vinte anos, colocamos nossas mãos em uma das mais poderosas armas químicas de destruição em massa já criadas, desmantelamos um esquema multibilionário de produção e repasse de drogas pesadas… — suspirou. — … Mas… Gordon…

Os fios loiros, agarrados entre os dedos dobrados e forçados contra o rosto iriam deixar marcas. Em estresse, pouco se podia fazer, senão agarrar-se aos últimos semblantes de controle.

— São superpoderes, Gordon… Su-per po-de-res…! E isso é loucura…!

O silêncio se fez em simpatia. Ele sentia a mesma coisa e, se fosse falar, talvez surgisse algo parecido, embora dotado de suas próprias percepções.

— Estamos lidando com algo que cresceu sob nossos narizes por anos, sob o comando de uma administração duvidosa, incomunicável e imóvel para lidar com isso do jeito correto…! — desabafou. — … Eu… Eu já não sei mais no que pensar… Eu…

Os pensamentos divagantes da mãe de família vacilavam entre os mais diversos aspectos daquela grande missão, porém, dentre eles, um em especial se destacava.

“Lira…” mordeu o lábio, incapaz de livrar-se da impressão a infectá-la desde o instante no qual se deparou com a menina.

Grazianni e os demais a tratavam como um monstro; uma criatura a ser estudada, dissecada e explorada pelos incontáveis segredos ocultos.

“... Ela parecia tão assustada e confusa… Se eu tivesse conseguido mais chance… tido uma conversa mais franca…!”

Parte considerável da mulher não a julgava como tal monstruosidade — ou ao menos, não o faria de modo tão imediato —; ela desejava ouvir algo dela, descobrir suas circunstâncias e, talvez…

“... Não… tentar esse tipo de atitude seria impensável.” O lado lógico saltou à frente. “Libertá-la seria assinar uma sentença de morte para mim e minha família…”

Na sala de estar, visível à direita, a televisão ligada em um programa infantil mantinha as duas garotinhas entretidas.

— … Eu tenho medo de palhaço, Lucia…! Muda…! Muda…! — insistiu a mais nova, desesperada pela voz brincalhona na TV.

— Ai, ai… tá bom, tá bom! — acatou a irmã mais velha. — Eu já tô ficando velha para isso mesmo…

O mero pensamento de algum mal ocorrendo a essas duas a faria querer cuspir os intestinos para fora.

“... Talvez eu devesse só sair dessa, pedir as minhas contas, e…”

— Amor… — sentiu, em torno da mão fechada, o contato dele. — Eu não te chamei para você continuar com seus monólogos internos, enquanto eu estou aqui. Não vai ajudar.

O contato a quebrou da atenção própria e a resgatou de volta ao mundo exterior, pela segunda vez em menos de dois minutos.

— Quero que conte comigo; não me casei só para ter um rosto bonito dentro de casa. — Embora intencionada como piada, a proclamação soou séria como nada antes dito. — Eu estou aqui por você, Marilyn, e preciso saber o que se passa.

Gordon suspirou pesado, antes de apoiar o rosto na mão aberta. Sem rumo, focou a visão em algum lugar próximo da grande geladeira e deixou-se falar.

— Não existem coincidências mesmo… a cada dia, eu acredito um pouco mais no destino — bufou, cansado. — Eu… conheço aquele garoto… o [Quebra-Mentes].

A revelação a chocou a ponto do coração pular batidas. Como um choque, a surpresa irrompeu em espasmo, fazendo-a apertar a mão do marido por reflexo.

— … E eu também não consigo parar de pensar nisso… Aquele moleque… ele… Ah, eu não sei definir direito…

Faltavam informações mais palpáveis para ser feito um julgamento mais apropriado quanto a Ryan Savoia — se esse se trata de um nome real, para começo de conversa.

— São todos documentos falsos e sabemos disso. Aquele garoto não tem passado; é um fantasma nos nossos registros, coisa que era para ser impossível.

Nada batia com o esperado de alguém tão poderoso. Ryan tinha notas variando de medianas para baixas e não se destacou em atividades extracurriculares.

Se qualquer coisa, o único fator coerente com a presença de superpoderes seria seu terrível comportamento aparente, registrado apenas nos últimos meses.

— Ele deixou de ir para a escola depois daqueles vídeos ganharem tração, pouco antes do Menéndez capturá-lo… Eu também não sei o que pensar direito, mas…

— …Mas…? — O urgiu a continuar, atenta ao limite à história.

— … Aquele garoto passou por alguma coisa, Marilyn — afirmou, soando categórico. — Naquela escola… ele sobreviveu. As queimaduras não mentem.

O aspecto divagante do marido a surpreendeu. Gordon não costumava ser incerto ou usar um discurso tão especulativo.

— O presidente ficou obcecado com as filmagens e quando vi, entendi o motivo… É como se ele houvesse lutado até a morte contra algo… e sobreviveu.

Porém, em simultâneo, havia ali um diferente senso de certeza, mais visceral e agudo, em comparação ao fornecido por pura lógica.

— Eu escutei uma parte do que ele disse, quando o vi pela primeira vez e… de repente, aquela loucura toda fez sentido nesse fim de semana… embora só sobrem mais dúvidas.

Não escutou muito, mas o suficiente para concluir se tratar sobre alguém que não conseguiu evitar a ocorrência de um grande erro.

— Me faz não saber o que pensar — disse, categórico. — Afeta meu lado humano… e bem mais do que eu gostaria.

Ambos se sentiam da mesma forma: confusos, cheios de conflitos internos e incertos quanto ao próximo passo.

— Gordon… — Marilyn usou das próprias mãos para acolhê-lo.

Saber disso não trazia conforto algum. Em tempos tão difíceis, eles só tinham um ao outro, para além da esperança de o mundo não vir a acabar e cair sob suas cabeças.

— … Papai, papai…!

O suave momento de cuidado e troca se viu interrompido para intromissão enérgica da menor figura dentre as irmãs.

— Oh, Louise…! O que deseja, minha princesa? — Como um bom pai, o Walker arrumou um sorriso e o expôs à garotinha. — E o que foi esse cabelo pintado de laranja? Não foi por cima do nosso sofá, ou foi?

Mas a menina não soou sequer entretida pelo comentário, apontando para a sala de estar enquanto pulava quase metade da própria altura, repetidas vezes.

— É a Lucia…! — apontou acusadoramente para a direção da irmã mais velha, largada no sofá. — Ela colocou um programa assustador e eu tenho medo…!

A diminuta figura da garotinha de cabelos enrolados e aspecto choroso aliviou a atmosfera pesada de uma conversa tão densa e carregada para ambos.

— Ah, um programa assustador? — Gordon se esforçou para soar um pouco mais leve. — Ora, não podemos deixar que fique assim, não é?

— Isso…! Isso…! — A menininha acenou com veemência. — Coloca ela de castigo, papai…!

— … Ei, nem vem…!

Não demorou para a mais velha surgir na cozinha, indignada com o tratamento e a interpretação errada do acontecido pela mente mais imatura da caçula.

— É só o jornal…! — afirmou, em tentativa de se defender. — Ela se assustou com o que o repórter falou, pai! Só isso…!

De longe, trechos em tom baixo sobre um aparente assassinato eram narrados pelos correspondentes do jornalismo investigativo. Não muito conseguia ser compreendido, contudo o tom soava claro o bastante.

— Bem, acho que tudo não passou de um pequeno desencontro de impressões não, foi? — questionou o homem, a moderar a situação. — Ninguém vai ser punido por isso.

O grande homem espalhou os braços em um gesto conhecido e, quase como reflexo, as duas aproximaram-se, cada uma em seu ritmo.

— Isso. Não vamos ficar bravos uns com os outros, ok?

Louise se atirou no lado direito do pai e Lucia, mais tímida, apenas andou até o braço esquerdo, fechando a tríade do abraço caloroso.

— Vocês duas são jovens demais para ficar vendo sobre coisas assim… Vão procurar um programa mais legal para assistir, certo? Tem uns filmes legais passando agora.

Presenciar a cena trouxe um curto, porém genuíno sorriso aos lábios de Marilyn, que por dentro, invejava a atenção não-dividida das filhas para com o pai.

“Ah, essas duas…! Nem lembram que têm uma mãe…!”

O contato apertado durou longos quinze segundos… até que ela decidisse se juntar também. Momentos como esse eram raros e o valor da família valia mais do que qualquer riqueza.

— Façam um espaço para mim, também! — Por trás, envolveu os próprios braços em torno do marido e das meninas. — Nem pensar em me deixar de fora!

Em tempos tão difíceis e incertos, a certeza do amor familiar os manteria unidos, realidade essa, infelizmente, não compartilhada por todas as famílias.

[...]

— … Mas isso… isso é… é um milagre…!

Nenhum dos médicos mais experientes conseguiam acreditar na realidade exibida pelos exames de imagem. A recuperação do estado pleno do paciente, sob tais condições, deveria ser impossível.

— A amputação já estava marcada para daqui a dois dias… — disse o outro médico, tão pasmo quanto o primeiro. — Mas… como…?

A radiografia não exibia quaisquer sinais de dano aparente — nem mesmo a menor das rachaduras — nos ossos destroçados pela explosão sofrida no vazamento de gás da semana passada.

— Pelo jeito como está, vai ser uma recuperação completa… — cogitou o primeiro. — Podemos… podemos pedir autorização para conduzir um estudo sobre isso…!

O caso de certo levaria o hospital ao topo das manchetes mundiais e, caso escrito da forma correta, poderia trazer grande reconhecimento aos “habilidosos” doutores, responsáveis pelo cuidado.

— Mas é esquisito demais… — Ainda incrédulo, o terceiro médico tentava encontrar uma resposta lógica. — Há uma semana, os ossos dele estavam quebrados a ponto de quase virarem farinha e… espera… Não foi a mesma coisa que aconteceu com aquela menina? A filha dele?

— É verdade…! — respondeu o primeiro, entusiasmado. — Os dois são pai e filha, da família Attwood… E se for uma questão genética rara? Ainda assim podemos conduzir um estudo de caso com esses dois, ou ao menos tentar descobrir alguma coisa!

— Boa ideia! Amanhã, já terei feito o desenho da pesquisa e irei tentar conseguir o consentimento deles… mas se não der, podemos só aproveitar algumas das amostras já coletadas.

— Por que não fazemos isso logo? Nenhum comitê de ética precisa saber que os resultados foram manipulados… e desse jeito, não necessariamente conta como forjar!

— Vai ser uma grande descoberta… e mais importante, pode render uns milhões! Vamos, a gente precisa tentar coletar algumas amostras…!

Em suas ginásticas morais, os três doutores sequer sabiam estar sendo escutados. O efeito de “Aguçado”, escrito no ouvido direito, a permitia ouvir qualquer coisa em quase trinta metros.

“Não se eu puder fazer algo a respeito.”

Emily não perdeu tempo e, sem que nenhuma das demais pessoas — funcionários e pacientes — do hospital percebessem, deixou o esconderijo do banheiro e escreveu, em letras pequenas, duas palavras na porta dupla.

“Não vão nos fazer de ratos de teste!” dirigiu a última encarada amarga em direção à entrada do laboratório de exames e saiu.

O caso dela, em particular, podia se tratar de um mistério, mas a cura milagrosa milagrosa de seu pai veio por conta de incontáveis tentativas e erros.

“Revirei o dicionário inteiro, em busca de uma palavra que funcionasse para consertar uma perna quebrada… Ugh…! Só pensar no trabalho me dá uma dor de cabeça…!”

“Reparado” foi a palavra, escrita no pé afetado. Ao ativar seu efeito, o rebote foi intenso, a ponto de quase levá-la ao desmaio.

“Agora eu entendi as minhas habilidades um pouco melhor…” pensou, ainda escutando conversas ao longe. “É como uma troca.”

Fornecer energia e capacidade mental, em troca do efeito desejado; caso não houvesse o que trocar, não se poderia atingir o efeito.

— … Foi por isso que eu não consegui te salvar, hein, Isabella…? — contemplou, admirando a visão da cidade pela janela do espaço aberto.

O lugar costumava ser mais frequentado pelos pacientes e acompanhantes, em busca de algo diferente do leito; à noite, contudo, ficava vazio.

“Melhor para mim…”

Emily se apoiou nas grades do quarto piso, admirando as luzes de Helena — em especial, a catedral acesa, destacada entre as casas — e sentiu o impacto do vento gélido, junto da pequena dor no fundo de seu cérebro.

— … Ah… começou… — trancou os dentes. — … Dá para suportar um pouco…

… … …

— Huh…? A porta… tá emperrada…

— Emperrada? Como assim? Essa porta nem tem fechadura!

— Olha só. eu empurrei aqui, mas…

— Deixa eu olhar aqui… … … URGH…!

— Que foi?! Que aconteceu…?!

— Essa porta… Ela me deu um choque…!

— Um choque…? Mas… ARGH…! É VERDADE…!

— Droga…! Quem tá fazendo essa brincadeira de mau-gosto?! ABRAM ESSA PORTA…! ANDEM!

Os médicos não sabiam, mas ninguém do exterior podia ouví-los. Na porta, foram gravadas duas palavras de sentidos complementares para a situação, escolhidas com raciocínio.

“Selado”, além de manter a passagem fechada, impedia o vazamento de qualquer som do interior, abafando-o a ponto de se tornar quase inaudível.

“Chocante” foi aplicado especificamente aos puxadores, para mostrá-los uma pequena lição.

Emily sabia que suas ações trariam atenção indesejada eventualmente, mas preferiria ter de lidar com isso sozinha.

— Eu não preciso envolvê-los — falou sozinha, deslizando mensagens no celular.

David a mostrou a imagem do quarto criado para ela, com cama e móveis comprados nos últimos dias, mobiliado ao nível de luxo.

— Foi mal, maninho… Não vai rolar.

Ela já tinha um plano e iria executá-lo assim que seus pais conseguissem se assentar na casa de David; haviam coisas a serem resolvidas e passaria pelas dificuldades o quanto antes.

Os eventos dos últimos meses abriram seus olhos para a verdade. Agora, ela participava de algo muito maior e deveria tratar disso de acordo.

“Me desculpem, mas…”

Emily pulou — do quarto andar, direto ao chão. O impacto da queda, suave, sequer foi ouvido ou notado pelos escassos indivíduos nas ruas àquela hora da madrugada.

“Amortecer” desapareceu da perna esquerda, escrita acima do joelho. Como se feita de areia, a tinta preta se desfez, soprada ao vento. 

Junto disso, uma solitária gota de sangue desceu pela narina esquerda.

“Uma caminhada pela cidade não vai fazer mal. Tô precisando colocar umas ideias no lugar.”

Estar segura ao lado de toda a família era o que ela desejava, mas entendia o desvalor de sequer os ter vivos por tentar mantê-los perto em tamanho egoísmo.

“Eles não são como eu… mamãe, papai… David…” mordeu a ponta da língua. “Eles… não merecem sofrer assim…”

Emily convivia a cada instante com a incerteza e os questionamentos quanto aos próximos passos; de repente, sua vida virou de cabeça para baixo, perdeu coisas importantes e agora se vê entre a frigideira e o fogo.

Não agir significava a morte e agir, talvez resultasse no mesmo fim — um impasse, injusto e imoral.

“... Mas… eu tenho que tentar…” segurou as lágrimas, tanto quanto pôde. “... Eu preciso… tentar…!”

Iria protegê-los desse novo mundo, pelos meios necessários e seja de perto, ou a centenas de milhas de distância.

— … Eu não vou perder mais nada de importante…! — trancou os dentes, trêmula pelo choro.

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