Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 187: Extração
— Primeira bateria de testes no sujeito de pesquisa 002, codinome [Lírio-Rosa], se inicia no presente momento.
Um quarto branco, de paredes frias e nada amigáveis e móveis tão mortos e imparciais quanto, inativos frente ao sofrimento dele.
— Eu, Jane Robinson, responsável pela presente pesquisa, conduzo na presente data, 19 de Junho de 2025, às 9:56 AM, o experimento no sujeito de teste 745-27-B.
Adrenalina corria selvagem por dentro, o alertando de toda a imensa dor que se seguiria dali. Acorrentado à cadeira metálica, porém, nada podia fazer.
Nada — além de transpirar a própria alma para fora e rezar para a punição durar pouco.
— O sujeito em questão responde por uma chacina que causou a morte de 31 pessoas, em Abril do ano passado, sujeito à pena por execução — fria, citou o motivo dele estar ali. — Se chama Theodore Norman.
Contudo, por mais terríveis e sem esperança que fossem suas condições…
— Haja vista sua periculosidade para com a sociedade, o conselho o sentencia a servir um propósito maior.
… Nenhuma parte do processo vencia ter de ouvir aquela doce voz falar em um tom tão frio e sórdido.
— Começar experimento.
O sangue dele ferveu e retornou ao ponto de gelo ao ouvir o último “click” do gravador de áudio, deixado de lado.
— Não… Não… Não…!
Ele foi permitido ouvir os demais, selecionados para participar desse processo; os gritos de pura agonia não o deixavam mais dormir.
— Não… Não…! Por favor… Por favor…!
TINK! — o metal do pequeno bisturi cirúrgico colidiu com a bandeja de aço a mantê-lo.
Por um instante, a moça de pele escura, olhos castanhos e grandes lábios carnosos pareceu se admirar no reflexo impecável da ferramenta.
— Isso… ISSO É DESUMANO…! — gritou, bradando até o fim de seu fôlego. — NÃO PODEM NOS TORTURAR ASSIM…!
O cenho de perfil robótico da mulher não se alterou, tampouco o foco de sua atenção. Ainda de mente presa à pequena lâmina, caminhou em direção a ele, em passos curtos.
— EU NÃO SOU UM RATO DE LABORATÓRIO…! EXIJO MEUS DIREITOS HUMANOS…! — Em meio à súplica, quase engasgou. — SOCORRO…!
Respirava tão depressa que o ar antigo já não conseguia mais sair e caso pudesse se enxergar, se veria tão vermelho e suado quanto um tomate deixado ao orvalho.
Resistir se mostraria fútil desde o princípio e ali, tal verdade saltou à frente mais que nunca.
TCHIK — a lâmina executou um deslize certeiro em direção à palma da mão esquerda, presa pela algema inescapável. Em medo, fechou os olhos por instinto.
“... Huh…?”
Mas a dor não veio. Devagar, em certificação de não estar sonhando, abriu-os outra vez e a luz revelou a verdade: nem mesmo o menor arranhão foi criado em sua pele.
— Qual o problema? — questionou a moça, como se de fato não soubesse o motivo do desespero. — Alguma coisa te assustou? Parece que viu um fantasma!
As coisas tornaram a um estado de estranha tranquilidade; ela não mais detinha da ferramenta cirúrgica e sequer a pequena mesa se encontrava à vista.
— … Huh…?! Hein?! — Paranóico, o homem buscou de um lado a outro, sem sucesso.
Qualquer ser humano com o suficiente de consciência saberia ser impossível remover algo da sala tão depressa; a porta mais próxima — e única, por sinal — não apenas se encontrava distante, mas levava diversos segundos para abrir-se.
— Tudo bem. Esse tipo de confusão aconteceria com qualquer um…
E ainda assim, a sensação geral na clausura de luzes fortes apenas amplificava a impressão de estar prestes a piorar.
— Começaremos nesse instante — disse. — Administrar primeiro grau de choque controlado.
Sequer houve tempo para questionar o significado das palavras, até tê-lo exposto e moldado na própria carne.
— HUH…?! AH… AHH… AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAGH!!!
A dor demorou dois segundos para ser processada e sua causa, corretamente atribuída; a mistura dos músculos a saltarem em espasmo, com a nova sensação de dormência..
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAGH…! SEUS… SEUS MONSTROS…!
A corrente elétrica de alta intensidade durou exatos dois segundos e meio; curto tempo, feito em uma eternidade pela excruciante e repentina informação vinda de cada centímetro do corpo.
— HAAH…! HAAAH! — A respiração acelerada intercalava a queda de gotas de suor da testa. — LOUCOS… VOCÊS SÃO… LOUCOS…
— Preparem o segundo nível do choque controlado — ordenou, falando não para ele e, ainda assim, observando sua direção geral, ignorante quanto à presença de um ser humano ali. — Deixem pronto, ao meu comando.
A pesquisadora aproximou-se até poder falar diretamente contra o ouvido esquerdo dele, seu perfume, doce e suave, mais nauseante.
— Estamos te dando uma utilidade — disse, de modo tão natural quanto respirar. — Há um motivo nobre para seu sacrifício.
Sem pensar duas vezes, a bela mulher de aparência inocente estalou os dedos e uma corrente mais intensa emergiu dos eletrodos pregados à cadeira metálica e fria.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAGH…! — contorceu-se entre as algemas e amarras, a ponto de espumar pela boca.
— O que você fez de errado foi julgado inafiançável pela justiça. Matou mulheres e crianças, pais de família e idosos… Seriamente, o que se passou na sua cabeça, Theodore?
Ela ergueu a mão e o deixou ver e encher-se de medo, frente aos dedos prontos para o estalo. A seguir a lógica, o terceiro choque haveria de ser mais potente e, talvez, até mortal.
— Oh, não! Não pense isso, Theodore! — riu, exibindo belos e ajustados dentes brancos. — A voltagem que usaremos será dolorosa, mas ainda muito distante da possibilidade de te matar! Talvez ainda possamos ajustar mais umas cinco vezes, antes de apresentar qualquer risco!
Se deparar com tal informação o deixou sem chão. Assombrado com a realidade na qual foi posto, o homem de 42 anos transpirou litros, em estado espasmódico, por conta do medo.
— ELES ESTAVAM VENDENDO DROGAS NA NOSSA ÁREA! — confessou, em automático. — Queríamos passar uma mensagem… ELES DEVIAM TER OUVIDO E CAÍDO FORA! ISSO NUNCA TERIA ACONTECIDO SE TIVESSEM ESCUTADO O PRIMEIRO AVISO…!
Antes de assumir a postura de assassino, Theodore Norman era só mais um homem americano, próximo da meia-idade que, por sinal, arrecadava lucros de origem suspeita.
— Eles… Eles atrapalharam nosso comércio… aqueles… aqueles imigrantes…! — estremeceu ao explicar, em choque. — Matamos alguns deles… Os queríamos longe…!
Até mesmo tinha uma família razoavelmente estruturada, sendo pai de uma jovem em idade universitária, cujos estudos o “ramo” custeou, até sua captura.
— Depois que eles trouxeram aquele produto do Japão… perdemos mercado demais…!
— Ah, entendi! Atrapalhando o seu comércio… que belo motivo para incendiar um supermercado e sair fuzilando nas ruas da comunidade em busca de qualquer rosto não-americano, ao lado da sua ganguezinha!
Conforme Robinson preparou uma nova leva de dor excruciante, Norman só pôde assistir, horrorizado pela perspectiva de ser deixado à beira da morte novamente, sem chance de atingi-la de fato.
— Mas, alegre-se! Agora, o sofrimento que causou para tantas mães e pais de família vai valer à pena! Por que não o canalizamos um pouco, em direção a algo mais útil?
A boca dele falou por si, comandada por algum tipo de força externa. Não houve empenho próprio em dizer nenhuma dessas palavras.
— POR FAVOR, ME POUPA…!
E admitiu de um jeito tão fluido quanto já se prometeu antes nunca fazer.
— Se arrepende das suas ações agora, quando não tem mais escapatória? — fitou-o no fundo da alma. — Deseja ter voltado para aqueles dias de uma vida oculta da polícia?
Houve choque atrás de choque, descargas um pouco mais altas a cada vez, adicionadas de forma lenta, moldadas para causar o ápice do sofrimento.
“Primeiro, vamos precisar de bastante energia.”
Mantê-lo consciente e atento à experiência consistia na pior parte; pessoas não produzem energia se não puderem sentir cada emoção em sua apresentação mais vívida.
— AAAAAAAAAAAAGH! Por favor… POR FAVOR…! … AAAAAAAAAAAAAAAAAAGH…! — gritou, repetidas vezes; único modo de livrar-se dos horrores percebidos na carne.
“Eu me pergunto o quanto conseguirei extrair dele…”
Quando se trata de extrair a coisa desejada, há uma série de intrincadas variáveis a serem seguidas para o melhor aproveitamento.
“Causar uma memória de dor nele, por pior que seja, talvez rendesse apenas um décimo dessa emissão.”
O caminho em questão — tortura física e psicológica — seria o mais eficiente. Se houvesse tempo, poderia tentar outros métodos, mas o contexto e a situação, mais genuínos e reais, apresentariam efeitos melhores.
— EU… eu não suporto mais… por favor… POR FA…! … AAAAAAAAAAAAARGH…!
“Mas só poderei extrair por mais alguns minutos ou ele vai morrer. Os estímulos sucessivos o farão entrar em síncope em não muito tempo, também…”
Logo, o ar dos arredores se encontraria saturado e a energia produzida se faria apta ao uso objetivado; se tratou de um mero experimento e grande descoberta para os observadores externos, mas para ela…
“... Só mais um dia, vivendo essa vida complicada…” pensou, em vias de auto-desabafo. “Não se preocupa, irmão… Vou logo te tirar daqui de dentro…”
De mente focada e semblante esculpido em seriedade, “Jane Robinson” inflou o peito e deu de costas para o homem exausto e besuntado na própria urina fétida.
— Onde… onde você… vai…?! ONDE…?! ME… ME TIRA… ME TIRA DAQUI…!
— Ajustem os controles — solicitou. — Garanta um intervalo maior entre os choques e estabilize em intensidade mediana. Façam uma eletrocussão a cada cinco minutos.
— … Huh… HUH?!
— Garantam que ele vivencie cada momento — olhou-o de canto, por cima do ombro. — Por hora, desejo um relatório parcial dos resultados. Continuem a monitorar pelas próximas oito horas.
As travas ruidosas segurança da porta metálica destravaram para revelar um longo corredor de luzes mais fracas.
— Não… NÃO…!
— Certifiquem de manter o sistema ativo pelo tempo determinado.
— ESPERA…! ESPERA…! Não me deixa aqui… NÃO ME DEIXA AQUI…!
O mecanismo iniciou o fechamento, separando os dois e tornando impossível para ela escutar os clamores de absoluto horror, vindos do outro lado.
“... Preciso acumular mais poder…”
Acolhida pela notável escuridão do corredor, Hannah Savoia inspecionou as próprias mãos.
“‘Jane Robinson’, huh? Que esquema… se fosse como antes, teria sido muito mais fácil e eu não precisaria medir cada ação.”
Dirigiu-se para a sala de observação em passos largos, porém firmes e, no caminho, recebeu acenos e cumprimentos dos profissionais a entregarem suas horas ao propósito por ela criado.
“Mas, fazer o quê? As coisas não vão voltar a ser como eram… Nessa altura do campeonato, eu só posso observar de longe…”
— Ah, senhorita Robinson…! Temos os resultados que pediu! É peculiar e muito interessante, assim como você propôs!
Depois do ataque à Elderlog High, as coisas seguiriam um fluxo diferente e preocupante, para o qual ela haveria de se fazer preparada.
— Estou ansiosa para confirmar as nossas descobertas, Doutor Cameron!
A equipe no grande quarto adaptado à operação a saudou com muita graça, ansiosos para a discussão das observações mais recentes.
— Nunca vi um cérebro se comportar desse jeito… É tão único que me dá até calafrios!
Brad Cameron se destacava pela aparência jovem, evidenciada na idade de meros 31 anos e o semblante repleto de fascínio e desejo pelo saber.
“Um gênio.” Hannah pensou. “QI de 148, diagnosticado com Altas Habilidades. Não me surpreende ter sido pescado tão cedo… Ele pensa nisso como só mais um desafio e não vai parar até resolver.”
O sujeito de aparência um tanto descuidada e cabelos castanhos espalhados de ponta a ponta, já ganhava mais por ano que um ator famoso de Hollywood, envolvido nos mais secretos experimentos humanos.
— Veja aqui! — apontou o monitor de um dos quatro computadores. — Mesmo em um estado comatoso, a atividade límbica no cérebro da garota apresentou picos e vales consistentes com uma manifestação emocional de sofrimento… e não só isso! Essa informação se integrou aos córtex frontal e parietal, formando um padrão de cérebro inteiro!
— Oh, e o que isso significa? — Questionou, tentando soar curiosa.
— Quer dizer que o cérebro dela interpreta informações de uma forma inovadora! — respondeu, sem de fato oferecer algo construtivo. — Precisamos olhar com mais afinco… Vou esperar os resultados captados nas próximas horas!
Sorriu de canto, amistosa apenas o bastante para legitimar o ânimo do jovem homem.
— Isso deve lançar luz em como exatamente ela interfere com as ondas eletromagnéticas ao nosso redor… Se desvendarmos o mecanismo, as perspectivas abertas serão incontáveis! — empolgado, tornou a falar. — Imagine o quanto podemos avançar em termos de biotecnologia!
“... Ou seja, criar armas de destruição em massa…” revirou os olhos por dentro, nada impressionada pelo discurso. “O pensamento é sempre otimista… até não ser mais.”
A agente trajada nas vestes mais formais se aproximou da vidraça a separar a sala em dois lados. Lá dentro, rodeada de pessoas vestidas até o último fio de cabelo em roupas protetivas, estava a garota.
“Tudo o que criamos, por mais nobre em intenção, acabará sendo usado para infligir dor em alguém.”
O discurso acertava no coração. Desacordada, Lira era mantida viva por acessos venosos e aparelhagem, empurrando líquidos e ar em seu frágil sistema.
“Não queríamos que ficasse desse jeito, Lira. É uma pena o rumo disso ter saído de nosso controle…”
A esperança não foi perdida, porém. Hannah tinha um plano sólido e próximo da execução.
“Eu vou tirar vocês daí e desmantelar esse esquema. Estou chegando perto… só um pouco mais.”
Caso pudesse retirar Ryan dali, já o teria feito. Infelizmente, o ocorrido em Elderlog High deixou marcas irreparáveis e entre elas, estava a limitação de seus poderes.
“Não consigo manter o dano na [Parede] contido por muito mais tempo… Meus poderes, sozinhos, não são o bastante…!” olhou a própria mão, em forma de garra. “... E para piorar as coisas… ele tá indo cada vez mais fundo…”
Hannah vivia a contínua hesitação de não saber o quanto esperar do inevitável futuro e, se por um lado desejava proteger seu amado irmão, por outro, a realidade de deixá-lo confrontar a verdade ganhava cada vez mais espaço em sua mente.
“... Irmão… Eu… eu não sei o que fazer…”
O dano causado se provou maior do que seu potencial de suprimi-lo se mostrou capaz. Por escolha dela, Ryan não podia mais ler memórias.
Ela o fez na esperança de poder fechar a fenda, deixá-la curar naturalmente, mas não contou com o fator mais importante.
“Ele tá arranhando as barreiras… aumentando a ferida…” trancou os dentes. “Mesmo comigo tentando meu máximo, continua vazando…”
O conflito quanto ao próximo passo adquire piores proporções a cada instante.
“... E se quebrar…”
De uma coisa tinha certeza: por puro descuido, os fatores fugiram do controle e só restaria rezar para que as coisas dessem certo.
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