Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 186: Sob Custódia
— Nova notícia do estado de Montana: na noite passada, 17 de Junho, um novo cenário grotesco foi encontrado por moradores da famigerada e antes julgada “pacata” cidade de Elderlog. Passados os recentes eventos envolvendo a localidade, forças policiais e do FBI foram envolvidas, para garantir a segurança da população.
O quase silêncio no Departamento de Polícia de Deer Lodge - MT se via quase imperturbável. No olho da madrugada, só o delegado e seu café partilhavam do ambiente com a televisão.
Isto é, até alguém, por necessidade do destino, abrir a porta.
— Oh, chegou bem cedo, Agente John — disse o homem em tom neutro, sem muito entusiasmo. Tomou um gole da xícara fumegante e bocejou, afinal, o dia seria longo.
— A gestora de pessoas, Jamie Addison, de 24 anos, foi encontrada em um apartamento alugado na cidade, após cometer suicídio. Junto dela, foi encontrado um rapaz de idade similar, Carlton Rodriguéz, morto a golpes de um objeto contundente.
— Cheguei cedo demais, né? — questionou o outro homem, John, se ajustando ao ambiente sem movimento. — Trabalho duro! Ficar vigiando gente perigosa… Deixa isso para os guardas! Eles são pagos para serviço assim.
O sujeito tomou um canto vazio ao lado do colega, na fileira de fileiras plásticas pretas, bem desconfortáveis. Elegante, o rapaz trajado em estilo formal cruzou as pernas, coçando a bela barba castanha.
— A polícia trabalha com a hipótese de assassinato seguido por suicídio. Não se sabem motivações para o crime, dado a família de ambos afirmar serem bons amigos e possuírem uma relação sem conflitos. — Afirmou a repórter, correspondente local ao jornal nacional.
— Ainda preciso conseguir extrair alguma informação sobre aquele nosso sujeito mais recente, John… Não posso me dar ao luxo de descansar enquanto não fazê-la falar.
— Dedicado! — Sorrindo pouco, o castanho suspirou. — E estou aqui para te ajudar com isso, Dan. Não se incomode em pensar sozinho!
O cerco policial em torno da residência no literal “meio do nada” revelou vários membros armados, andando de um lado para o outro.
— Uma testemunha anônima suspeitou do fato de ter encontrado a porta da frente entreaberta e ao entrar, deparou-se com uma horrenda cena: segundo a reconstrução feita pela polícia, Carlton foi arrastado das escadarias, rumo à sala de estar, já sangrando, onde foi finalizado por Jamie com golpes de uma barra metálica na região torácica. Após isso, a mulher se enforcou ao amarrar um lençol no corrimão.
O FBI tomou interesse no caso em mãos; aquilo com o qual lidariam em poucos momentos escapava do imaginário de qualquer ser humano ordinário.
— Bem, dado que já chegou, acho melhor começarmos a trabalhar… — tomou o controle, pronto para desligar.
— Uma gravação feita em uma câmera de mão corrobora a hipótese mais plausível e para além disso…
Desligou o barulhento aparelho pendurado na parede. Não poderiam demorar muito tempo em tratar de algo tão peculiar.
— Por favor, me acompanhe, Agente. — Sem mais delongas, o delegado deixou o pouco conforto para trás. — Vamos tratar desse assunto o quanto antes. É… complicado…
Em igual gesto, o jovem homem, mais forte e vivaz, menos batido pelos anos amargos no ramo, se alongou e deixou-se à disposição.
— Não seja por isso! Lidar com coisas difíceis é comigo mesmo!
— Espero que sim! — De um conjunto de fichas dispostas na estante branca por trás do balcão da recepção, Dan puxou uma em específico. — Porque esse vai ser um caso complexo, eu sinto.
— Mais “um dos casos complexos”, você quer dizer — rebateu, conhecendo bem a urgência de sua necessidade ali.
Uma comunicação profunda já foi estabelecida com a central do FBI, mas em todos os casos, nada vence uma conversa direta, mista da oportunidade de ver com seus próprios olhos.
— Siga-me. Vamos para a sala de custódia — entregou os documentos em pasta nas mãos do agente, que os recebeu com graça.
Sendo meras 3:10 AM, o curto caminho exalava um ar ainda mais obscuro do natural esperado por uma delegacia. O corredor para a sala de custódia tomava proporções longas e os passos lentos do cansado homem de meia-idade contribuíam para a amplificação de tal impressão.
— A encontramos em uma pequena comunidade na periferia, perto da Euclid Ave, lugar cheio de mato — começou, coçando o bigode grisalho com cuidado. — Foi a denúncia de um civil, que viu uma movimentação estranha no jardim.
As portas reforçadas e trancadas com cadeados grossos estavam vazias, com exceção de uma, cuja luz branca exalava pela grade de observação.
— A moradora reconheceu a imagem da procurada e prontamente nos comunicou. Aparentemente, ela tentou roubar o SUV de um vizinho… Má sorte de ter sido vista em plenas 2:35 AM, por alguém que só levantou para tomar água.
— É realmente uma grande coincidência… e uma bem-afortunada!.
— É verdade — confirmou, de frente para a porta. — Mas é aqui que começam as bizarrices.
A tranca aberta revelou a natureza ruidosa da pesada placa metálica reforçada a prender a pessoa ali dentro e, se não fosse o bastante, para além de tanta proteção, ainda existia mais.
— Não basta essa mera garota ter sido capaz de matar tanta gente, ela ainda apresenta alguns trejeitos deveras… incomuns.
John entendeu a impressão e também o fato daquela não ser a palavra desejada para usar em tal contexto, preciso um mero olhar analítico superficial para compreender.
E o primeiro aspecto a saltar-lhe à frente da atenção foi o odor na sala.
“Meu Deus…” resistiu ao impulso de cobrir o nariz e manteve a postura profissional, por mais terrível o mau-cheiro a emanar por trás das grades de ferro a contê-la.
O fedor pungente invadiu o nariz de imediato, um misto de azedo e apodrecido, com um leve toque do ferroso sangue a manchar-lhe as vestes, a tomar o ar inteiro. De certo, aquela garota não se banhava há tempos.
Cabelos e olhos negros como as trevas se misturavam na pele pálida e de visual desnutrido. Os lábios rachados, bochechas sugadas para dentro e olheiras profundas, a garantiam o aspecto de uma doente.
Cada fatia dela exclamava “descuido”, a queda de algo que, um dia, foi uma garota de beleza e modos razoáveis, passado impossível de se acreditar ao comparar com as informações presentes no histórico.
Uma jovem esforçada, competente na escola e aparentemente estável, de repente tornada em uma maníaca, vestida de um pijama hospitalar decrépito.
— Como pode ver, é mesmo tenebroso — falou o delegado em voz baixa. — Tentamos fazer o que podíamos e executar qualquer tentativa de contato, mas… ela só fica desse jeito!
Ela repousava contra a parede mais distante, entre a pia e a cama, sentada no chão, imóvel e se não fossem os visíveis movimentos respiratórios, se confundiria com uma dilapidada boneca hiperrealista.
— Ela não reage a estímulos desde o instante em que entrou na viatura… isso segundo os relatos policiais, a ponto de quase ser arrastada para dentro da cela, dada pura inação.
O prato de macarrão com queijo, deixado há um dia, virou comida para as formigas, intocado por ela, e o copo d’água, de início fresca e límpida, acumulava poeira da clausura.
— Se passaram dois dias dessa forma, John. Sem tentativas de fuga, sem combate, sem uma palavra sequer… mas essa não é a pior parte.
Quis acender um cigarro, a ponto de procurar no bolso, sem sucesso. Em quase vinte anos no ramo, Daniel Dyson — o “velho Dan” — jamais vira algo, ao mínimo, similar.
— Criminosos tendem a ser combativos o bastante e até mesmo aqueles que tentam agir como ela logo apresentam sinais de fadiga e não conseguem manter essa fachada de “forte e silencioso” por muito tempo… No caso dela, parece até se tratar de seu estado natural.
Nem o isqueiro, fiel companheiro, se encontrava em seu bolso de confiança. Pelas mais diversas margens, o profissional da lei se sentia despreparado, sentimento evidenciado pelo aspecto sombrio do olhar de Isabella Clarks.
— Continua vivaz por todo esse tempo, do mesmo modo que a deixamos, se comportando como uma máquina obsoleta e sem baterias… — fungou ao final, insatisfeito por encontrar um monte de nada. — E é porque eu nem comecei a falar das lesões.
— Fui informado de algo a respeito antes de vir… — John coçou a barba, sem desejo real por arrumá-la.
— Se tiver maiores dúvidas, está no portfólio — apontou para os papéis por meio de um gesto com a cabeça. — Ao menos nove diferentes cicatrizes foram encontradas no corpo dela, cinco de duas armas de fogo de diferentes calibres e mais quatro, advindas de objetos perfurocortantes. O sangue nas vestes não são dela, entretanto… ao menos em sua maioria.
O volume de informações extremas trouxe grande peso à sala de custódia, adicionado ao odor impossível de suportar. No lugar, Isabella absorvia as informações, passiva e alheia à problemática.
— Os familiares dela já sabem que a encontramos? — indagou. — Digo… eles foram informados previamente, antes do caso ser comunicado à mídia?
— Sim, eles já foram — acenou de leve, cheio de pesar. — Estão bastante chocados com o ocorrido. A mãe vai fazer uma visita pela manhã, até onde estou sabendo… Ela ainda se recusa a acreditar… o que não é para menos!
A observação se acumulou no estômago, refletida no tremor apresentado pelos dedos do agente, pondo-se no lugar dos familiares, acostumados com a mansa e polida Isabella Clarks.
— Está com as chaves? Quero investigar mais de perto… Posso tentar conversar com ela.
A menção se seguiu de um passo à frente, mas antes de tocar as chaves, uma impressão avassaladora irrompeu através de alma e coração do investigador.
— Pensando melhor…
Não havia modo de descrever o vivenciado por ele naquele mísero fragmento de tempo, somente a terrível impressão de estar a ponto de cometer algo para se arrepender.
“... Não me restam dúvidas…”
A hesitação levou Dan a concordar, acenando de forma culta e abreviada.
— Não sabemos quais tipos de pegadinhas ela lançou, mas se conseguiu matar mais de dez pessoas, pode tentar outra loucura — citou o mais velho. — Nada de abrir essas grades, por enquanto. Venha comigo e vamos esperar.
Para quaisquer fins, a escolha mais sábia. Sem responder com palavras, o agente do FBI deu de costas para a garota na cela e uma última olhada se empregou antes de sair.
“... Realmente… As fontes estavam certas… Nossa… Eu… Eu nem sei como reagir…!”
As ondas de adrenalina o apresentavam um terror antes inconcebível; era como estar de frente para uma bomba, prestes a explodir seu rosto aos ares.
— Me parece ter algo a dizer, agente — falou o delegado, ao trancar a porta. — O que é?
— Não agora… — suspirou, baixo. — Vamos a um ponto mais afastado.
De volta à recepção, ambos tomaram locais na frente do balcão, ausente de demais humanos em pleno dia de semana.
— Aqui é tranquilo assim porque quase não acontece nada. A maioria das forças policiais fica na State Prison, então o serviço começa tarde e termina cedo… Mas não se preocupe, logo tem gente chegando.
Sem avisar, o mais velho deslizou um copo descartável de café amargo para o outro, preso em pensamentos.
— Pode falar agora. Não tem como ela nos ouvir, se é o que teme.
Imperceptível tensão criou pequenas ondas no fluido escuro e a respiração dele um pouco se destacava em pleno nada. John pensou em tomar um gole antes de falar, mas desistiu.
— Aquilo não é loucura, Delegado Dyson. As ações daquela garota…. são todas deliberadas.
— Hmm…? — Ao preparar para si mesmo uma bebida semelhante, o chamado de atenção o puxou. — Então o que me diz é que…
— Sim… É no que acredito. As ações de Isabella são escolhas conscientes e durante o tempo inteiro, ela nos esteve escutando atentamente… Aquela garota nos compreendeu, ouviu e processou até os menores argumentos…
A dose, amarga como a realidade de seus pensamentos, desceu pela garganta em desconforto.
— Está esperando, Delegado — afirmou. — Aquela garota está esperando pelo momento certo para fazer seu próximo movimento… E eu quase caí.
— Foi esse o motivo do seu susto? — questionou, recebendo um mero aceno como resposta.
— Não foi impressão minha e eu sei… Assim que cheguei um pouco mais perto, eu… senti o olhar dela… Sei que isso não vai soar profissional, mas… Não foi a mesma coisa, antes e depois.
O instinto humano de se sentir observado alarmou, apesar do fato de seus cabelos cobrirem a maior parte do semblante.
“... Preciso criar um argumento convincente o bastante para que não existam entraves. Se eu conseguir pintar a imagem daquela menina como a de um sujeito perigoso ao extremo, vai ser fácil.”
Bebeu outro gole e balançou a cabeça, enquanto pensava nas próximas palavras. Em pouco tempo, uma equipe de homens armados e capazes estaria aqui, juntos do comboio para levá-la embora.
“Vou atestar a periculosidade de Isabella Clarks e então, não haverá como ele me impedir de levá-la a um presídio federal.”
John até já tinha o plano em mente, mas, por agora, o importante a se fazer seria coletar informações e fingir pertencer ao FBI, logo, abriu a pasta de arquivos e se prontificou a investigar.
— … E o que é isso…?
O investigador encontrou, em meio aos boletins escolares e fotos com família e amigos, uma folha de papel diferente do restante.
— Ah, isso? Foi cedido pelos pais dela, encontrado no quarto. É uma carta não-finalizada… uma confissão de amor.
A escrita, bela e coesa, descrevia nos mais belos termos a forma como Isabella se sentia frente a uma pessoa. No relato, a garota quase vomitava seu coração para fora, o entregando ao receptor.
— Não está terminada… Não tem como saber para quem foi escrita… Aliás, será que isso é mesmo uma prova?
Mas, justo quando se propôs a descartar a representação sentimental como mera emoção adolescente e a reservou em um canto aleatório do balcão, bastaram dois registros para ver algo mais.
— “Para minha sempre amada, Emily Attwood”... — leu o texto escrito à mão no verso, em tom baixo.
A foto em sua mão se tratava de um recorte perfeito de um registro encontrado antes. A primeira versão contava com quatro garotas e essa, apenas duas.
— Hmm… Eu suponho que a carta seja… para ela…?
Os cortes preservaram somente as duas silhuetas, de Isabella e outra garota, de cabelos castanhos e olhos a brilharem em verde-vivo. As duas sorriam, bochecha com bochecha em contato, abraçadas para a selfie.
— … Isso não deve nos levar a lugar nenhum…
Deixou as fotos próximas à carta, longe de receberem atenção e sem hesitar, voltou ao trabalho de estudar o passado deixado pela adolescente.
“... Mais um relacionado à Elderlog High… A ponte com a central já está praticamente formada.. Iremos transportá-la logo.”
Como um profissional treinado, não se podia permitir deslizar, controlando até os menores gestos corporais, para falsear os níveis adequados de tensão e inexperiência.
“A CIA terá suas mãos em um novo espécime e logo”, pensou. “Hora de avançar o plano de captura.”
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