Chamado da Evolução Brasileira

Autor(a): TheMultiverseOne


Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios

Capítulo 185: Interlúdio - A Última Aventura, Ato Final

“Espero que ela fique lá até eu voltar… Aquele barulho não me passou uma impressão legal!”

Por mais calma que se fizesse aparentar, o tumulto na alma de Jamie, mediante tanta confusão e revelações, elevou suas emoções ao ponto de estarem à flor da pele.

“Vou dar um tapa tão forte no Carlton… que ele vai esquecer até do próprio nome…!” pensou, ao chutar, sem querer, um pedaço quebrado de corrente.

CLINK! — O barulho absurdo ecoou pelos corredores e câmaras vazias, escurecidas pelo abandono e falta de energia. A lanterna, trêmula, provinha a única fonte de luz, fraca mediante tantas trevas.

— … Droga…! — Não pode evitar senão dizer em voz alta, chutando ao vento para desprender o pé do objeto.

Aquela “aventura”, dentre todas, estava sendo a pior, pois não apenas cada um deles era continuamente empurrado rumo aos próprios limites, mas também as feridas abertas de anos de convivência conflituosa afloravam e recebiam sangue novo.

“Eu imaginava que a Clara sentisse alguma coisa pelo Lamar, mas pensei que ela já tivesse superado ou, pelo menos, caído na real com relação ao nosso relacionamento…”

A cena daquele beijo não deixou sua cabeça. Por mais não-intencional e repudiável, algo nela se sentiu ameaçado, quase abatido, pela intensa investida à boca que apenas ela costumava tocar.

Lamar não desejou o gesto — e Jamie tinha plena consciência de tanto — porém, presenciar a troca de salivas, de sabores…

“... Uma parte de mim vai sentir que o sabor dele não é mais o mesmo…” cobriu a própria boca, em nojo. “Vou sempre pensar que tem resquícios dela nos gestos dele…”

A prospecção de mentalizar um beijo indireto com Clara a trazia repúdio, mas, mais que isso…

“... Eu tô me sentindo nojenta por não conseguir deixar isso passar…” refletiu. “Ele não quis… Ele não quis beijar ela, coração da Jamie… Entenda, por favor.”

Aos poucos, o caminho retilíneo revelava semblantes de iluminação a mais, indicando a proximidade com o local trancado por Carlton em sua ida, tão vacilantes quanto seu próprio espírito.

“Ele te ama e só você. Ele mostrou isso e você não deveria estar brava com ele.” Em reflexão interna, a jovem moça se deparou com as primeiras marcações conhecidas. “Ele não pensou que foi melhor… Ele não se questionou e nem hesitou…”

O portão, aberto, junto da significativa fonte de luz abaixo, a fez correr ao encontro do amado.

“Ele é meu e eu sou dele…!” acelerou ao rumo da obscura entrada. “... E ele merece o meu melhor…!”

Lamar não mereceu ser tratado daquela forma e ela iria se retratar, ambos pelo olhar frio e resposta indiferente e, também, por quaisquer dúvidas já existentes no passado.

“... Eu te amo, Lamar! E vou te contar isso…!”

Jamie alcançou o começo de um longo lance de escadas, mas, logo ao fazê-lo, seu coração gelou, graças ao intenso aperto gerado pela descoberta do que havia no piso mais abaixo, à plena vista.

— … Huh…?

À primeira vista, os olhos não acreditaram nos grotescos detalhes, estampados em cada canto do lance circular de escadas.

— Lamar… Lamar…! — Enfraquecida, a mulher admirou o corrimão quebrado, de barras de ferro tortas e inseguras.

A revelação lhe foi óbvia logo nos primeiros segundos, mas, por mais que sua mente já houvesse processado o ocorrido em todos seus nuances e especificidades, o coração recusava-se a aceitar.

LAMAR…!

Em passos trocados e instáveis, Jamie pisou o caminho pelos degraus, quase caindo em diversos lances. Ofegante, a mulher soprava longe a atmosfera empoeirada do espaço em baforadas potentes.

— … Lamar… LAMAR…!

Atravessou salas que não pôde se dar ao luxo de investigar, pilhas de sucata e lixo jogadas nos cantos e até uma possível entrada para uma galeria de esgoto… Tudo irrelevante, perto do objetivo de alcançá-lo.

— … Lamar…!

Ao chegar tão perto, veio o segundo choque de realidade e suas pernas fraquejaram enfim, pela junção de verdade e cansaço, ajoelhando na poça de vermelho.

— … Não… Não…!

Deslizou os dedos pela bem-cuidada pele negra, de olhos ainda abertos em uma expressão de pânico, congelada no tempo por aquele evento tão catastrófico. Suor frio lhe banhava, mas não respirava.

Lamar havia morrido, vítima de um fatal acidente, advindo das circunstâncias agrupadas de forma tão exata.

As barras do andar mais acima cederam durante sua busca por Carlton, levando-o a uma sequência de dolorosos impactos contra as paredes do lance circular de degraus.

Se fosse supor, Jamie diria que, ao chegar no fundo, seu amado já se encontrava morto, dadas as grandes marcas de sangue nas paredes e a violência das deformidades em seu rosto e costelas.

— Lamar… Meu Lamar… Não… Não… NÃO!

A exclamação reverberou pelos andares inferiores, um poço de ainda mais profunda escuridão e um odor fétido, a remeter carne e lixo apodrecidos.

— Lamar… Meu Lamar… Não… Meu Lamar não…

Lágrimas incontroláveis se misturaram ao sangue empoçado sob ambos. Jamie, sem se incomodar, apoiou a cabeça do amado nas coxas e o passou a acariciar com toques leves.

— Meu amor…! — Gargalhadas de pânico saíam entre os soluços do choro.

Os eventos os conduziram até tal ponto. Durante os anos passados, os acontecimentos os levaram a enfrentar e perigos diversos e desafios muito além do aceitável para qualquer um com sanidade o bastante.

— Meu amor, eu sinto muito… sinto muito… — acariciou-lhe os cabelos crespos, sem resposta.

Era sempre muito, mas, em simultâneo, insuficiente — Carla quase tomou um tiro, Carlton já perdeu equipamento, destruído em fuga —, pois o fato de saírem vivos e bem tornava tudo em uma grande história para se rir sobre e vangloriar, depois.

Foi minha culpa… Foi minha culpa… — soluçou. — Se eu não tivesse ficado brava… Se eu não fosse tão fria… Se eu tivesse tentado ser compreensiva…

Não foi o caso dessa vez. Parte dela — ou melhor, de todos eles — sabia das consequências de se viver assim.

Meu amor… Meu amor…! Me desculpa… Me desculpa… Me desculpa…!

Os planos, sempre tão mirabolantes, em busca de um pouco de fama ao se falar de alguns mistérios e coisas bobas, histórias para adolescentes burros e inconsequentes como eles eram…

— Me desculpa… Me desculpa… Me desculpa…!

A “ideia genial” de um louco, comprada por um bando de patinhos que sabiam melhor, mas não quiseram se opor por dez mil motivos, julgados válidos.

— Não foi sua culpa, meu amor.

HUH?! — Tomada de surpresa, Jamie fitou o semblantes estático de Lamar. — Lamar…?! LAMAR?!

O rosto dele não havia mudado e nenhuma expressão facial tomou lugar no cenho frio do homem morto. Dada a emoção, se presumiria tratar de uma mera alucinação…

— Foram eles, Jamie. Foi culpa deles. Eles nos colocaram nisso e eles são os responsáveis.

— Lamar… — A moça de cachos castanhos cessou as lágrimas, paralisada em contemplação.

— Eles são o problema, meu bem. Foi tudo culpa deles.

A voz ouvida não veio do cadáver, por mais que se tratasse dele. Era inconfundível; Lamar falava não apenas com sua mente, mas também, seu coração, vindo de dentro, do centro do peito.

— Eles merecem sofrer pelo que nos fizeram, amor. Eles precisam pagar.

— Hnnk…! — Jamie tocou o próprio peito, sobre o coração.

Uma nova emoção a invadiu e tomou conta da culpa e da percepção de insuficiência; veio de repente, como se um tiro a tivesse atravessado.

Aquela nova noção se implantou e floresceu em seu peito, consumindo-a do mais profundo ódio pelos responsáveis por tal ato.

— Deles… Foi culpa deles

A moça não mais pareceu ferida e conflituosa por dentro, agora exibindo a encarada mais focada e determinada de sua vida.

— É claro…! — exclamou em epifania. — É óbvio que eles foram os responsáveis…! No que eu estava pensando?!

Se reergueu e do chão, ao lado do amado, pegou dois objetos: uma enferrujada barra de ferro pontiaguda — parte do corrimão do andar de cima — e um pequeno adereço brilhante, pouco visível na escuridão.

— Se a Clara não tivesse sido egoísta e mimada, nada desse mal-entendido teria acontecido…! Se ela não fosse um pé-no-saco tão grande no nosso relacionamento, Lamar estaria vivo…!

Frágil, o pedaço de metal ainda se mostrava eficiente o bastante para o planejado.

— … E se o Carlton não fosse um babaca tão grande, tão fã de ser o centro das atenções… Ah, ele vai ver…!

O anel de casamento, símbolo da união eterna. Com graça, colocou-o no dedo anelar esquerdo, admirando o objeto de forma breve.

Um único pensamento tinha espaço em sua mente lógica e de processos simplistas. Um serviço importante precisava ser feito: a vingança por todo o mal causado ao longo de anos.

Jamie beijou a carne largada de Lamar e limpou dele qualquer traço da intrusa, puxando para si parte do sangue a vazar-lhe da boca.

[...]

— Hehehe! Quando será que eles vão chegar? Vão ficar muito bravos quando descobrirem que eu tinha uma rota para sair de lá…!

Contente ao pensar nas possibilidades de sua última pegadinha, o loiro cameraman arrumava seus equipamentos e bagagem para partir de Elderlog. 

O sol já quase nascia no horizonte, o relógio do celular marcando “04:12 AM”.

— Mandei bem nessa “última aventura”! Nunca mais vão se esquecer de mim!

A câmera, de última geração, em muito supera a antiga, deixada para criar atmosfera de desaparecimento misterioso na fábrica.

— Ah, eles nem sabem do contrato bacana que firmei com o Urban Mysteries…! Vão ficar tão pasmos de descobrir que o “crianção Carlton” vai ganhar um programa de TV com uma equipe de profissionais de verdade!

Toda a pegadinha já havia sido armada desde o princípio — desde o cenário, até a rota de fuga — nos mínimos detalhes para a maior insatisfação de seus amigos de longa data.

— Eles finalmente vão parar de me zoar e me darão o respeito que eu mereço, quando estiver fazendo milhões por ano! Vão me implorar por dinheiro!

Satisfeito, fechou o zíper da mochila carregada. Partiria da casa alugada no mesmo dia e diria “adeus” ambos a Montana e à vida de poucas felicidades.

— Vou pegar a garota que eu quiser quando for famoso…! Quem sabe até…

TOC-TOC.

— Huh? — Interrompido, demorou para ligar os pontos. — Oh, devem ser eles…!

TOC-TOC.

— Já vai…! Já vai…! — respondeu, entre risadas. — Nossa, eles devem estar bravos mesmo…! Eu deveria gravar isso!

Pegou da mesa da cozinha uma pequena câmera de mão e iniciou uma gravação, pronto para pegar as expressões indignadas dos amigos.

— Abrindo…! Só um instantinho…! — Ele mal pôde conter as expressões de gozação ao girar a maçaneta.

A porta se abriu, mas ao invés de um grupo de três pessoas exclamando o quanto queriam esganá-lo, houve apenas silêncio e a encarada penetrante daqueles olhos saltados.

— … Huh… Jamie…? Onde estão os outros? E… por que você tá…

— Oi, Carlton! — falou, soando amigável como sempre. — Eu procurei por você em todo lugar lá dentro, sabia? Mas achei e é o que importa!

Ela deu um passo à frente e a luz acesa da sala de estar revelou o resto. Jamie sorria de leve, com as roupas cobertas de sangue e uma barra de ferro degradada na mão destra, também sangrenta.

— Hhhhk…! — A revelação o fez cair de costas no chão, horrorizado.

— Eu logo descobri que você não estava mais lá dentro e que armou para nós! Nossa, que amigo você é…! — Ela ergueu a barra, como um lanceiro usaria sua arma para executar o inimigo.

— Jamie…?! Jamie…! Foi uma brincadeira, Jamie…! E… e esse sangue…?! Jamie…!

Conforme ela avançava, Carlton retrocedia, se arrastando no chão de carpete da pequena casa na periferia da cidade.

— Eu… Eu posso explicar…! Eu… Eu assinei um contrato e…!

— Explicar? — questionou. — Mas não tem o que explicar! As coisas nunca foram tão claras quanto são agora, Carlton! Eu sei de tudo!

— Jamie… Por favor, para…! Tá me assustando…! Desculpa…! Desculpa! 

— Eu estou fazendo a coisa lógica e razoável em uma situação como essa! — Firmou o agarro no metal, apontando para ele. — É apenas o correto e justo por tudo o que aconteceu até agora, Carlton!

Socorro…

O loiro se ergueu com todas as forças, derrubando a câmera e atropelando a mobília pela frente, em rápidos movimentos na direção do andar de cima.

— SOCORRO…! ALGUÉM ME AJUDA…! SOCORRO! — bateu e trancou a porta de um dos quartos em um piscar de olhos, movendo móveis para montar uma barricada.

O semblante de Jamie não mudou de seu estado pacífico e focado, tomando passos lentos e graciosos rumo a ele.

SOCORRO…! SOCORRO…!

Escolher o imóvel mais barato no aplicativo de aluguel mostrou sua grande desvantagem naquele instante: a ausência de vizinhos, e enquanto ninguém disposto a ajudar podia ouvir seus clamores, presenças próximas, mas desinteressadas nisso, discutiam detalhes a respeito.

— Você e seus caprichos…! Devo dizer que não te compreendo tão bem, tomando decisões que, por fora, parecem tão impulsivas… Seus gestos são sempre meticulosamente calculados, não são?

Os dois admiravam a vista das estrelas da madrugada, ao pé de um pinheiro há poucos metros da casa. O rapaz pálido, sentado, arrumou a franja negra a cobrir-lhe um dos olhos e sorriu.

— Escolhendo pessoas com emoções fortes, sentimentos intensos… Ah, acho que eu entendi…! É entretenimento, não é? Você também gosta de se divertir com as inúmeras possibilidades oferecidas por seus poderes!

A garota, não tão branca quanto, teve os fios castanhos soprados pelo vento e, de pé, escolhia focar em uma janela e na cena a se passar em seu interior.

— Será que seus motivos não são tão nobres assim? Unir as pessoas pelo amor… Isso não é a única coisa que seu poder faz, apesar de seu nome, Lyubov.

À menção de sua identidade, a jovem permaneceu imperturbável, mais similar a uma estátua, em face da provocação.

— Não que eu critique ou pense ser algo ruim! Muito pelo contrário — arrumou outra vez os cabelos. — Só achei peculiar, até entender o padrão… Primeiro, Jacob Egan, depois, aquele casal em D.C… e agora, essa simples garota comum, que sequer o potencial para ser um de nós possui…

Os gritos de Carlton soavam diminutos ali de fora, abafados pela madeira local, um tanto robusta. 

— Divirta-se o quanto quiser! Isso é caos, e é precisamente meu desejo, minha aliada.

Lyubov ajustou o cachecol vermelho a cobrir-lhe boca e nariz, rebaixando-o para revelar o mais sutil e indetectável dos sorrisos.

— Heh. Você me entende, afinal. Por isso gosto de você — citou, o rapaz. — Agora, vejamos como aquela outra situação nossa vai se desenrolar.

A página de jornal eletrônico na tela do celular dele expunha um título interessante, de um evento recente: “Capturada a ‘paciente fugitiva’, responsável por mais de dez mortes no estado de Montana”.

— Nos divirta bastante, Isabella Clarks! Espero ouvir bastante de você por aí!

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