Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 184: Interlúdio - A Última Aventura, Ato 4
— … Lamar…?
A voz suave — embora surpresa e confusa — de Jamie trouxe-os de volta para a realidade, na qual a linha de saliva entre as duas bocas ainda lhe conectavam os lábios.
— … Huh…?!
Pela primeira vez, Lamar tomou uma ação sem pensar nas consequências ou calcular os inúmeros modos os quais alguém poderia sair com um coração ferido.
— … Sai…! — Ele empurrou o corpo de Clara para longe, desfazendo o abraço unilateral.
A grande força da reação mal-planejada a fez cair contra a mesa na qual um dos antigos computadores se encontrava. Por causa do impacto, o monitor se desestabilizou e caiu sobre a pálida moça, ferindo-a na cabeça.
— Ah…! — Lamar estremeceu de cima a baixo, ao notar a trilha de sangue a escorrer do grande corte.
O acidente criou uma abertura no topo da cabeça de Clara, que não demorou para começar a jorrar sangue sobre os cabelos.
— … Huh…?! — Jamie se espantou ao perceber a realidade do contexto. — … Lamar… Clara…! Vocês dois…
— Não! — O rapaz tentou se defender. — Amor, eu…! Eu não tive parte nisso…! Eu…!
— Ai… Ai, minha cabeça… — Clara reclamou, antes de enfim ver os resultados do golpe sofrido. — Ahhh… AHHHH…!
Os gritos de pânico da estudante de medicina tomaram o silencioso ambiente do complexo industrial deixado para apodrecer e, de repente, sangue em peso havia tornado sua camisa branca em um mesclado de tons de rubro.
— Jamie…! Jamie… Eu… Eu…!
— … A gente não vai falar sobre isso agora… — afirmou a castanha cacheada, firme. — Clara… Deixa eu usar a sua jaqueta para pressionar esse corte…
A frieza em como o olhou congelou a paralisada alma de Lamar, sinal de um coração conflituoso. Jamie sempre foi boa em se manter controlada em situações do tipo e, nesse caso, doeu.
— Aqui… Olha para mim — chamou Clara, tentando inspecionar o ferimento. — Por favor, tira as suas mãos de cima para eu poder dar uma olhada direito, Clara.
Impotente, só conseguiu assistir, incapaz de sequer mover um dedo. Lamar teria, diversas vezes, ter recebido uma série de gritos e reclamações guturais, ou ter de lidar com o choro de uma mulher decepcionada.
— Tira a sua jaqueta… O couro pode ajudar a deixar isso fechado até chegarmos no hospital… Isso… Isso… Eu vou ficar com você aqui, até estancar melhor.
Passar pelo absurdo trabalho de se explicar e apaziguá-la, tão árduo quanto fosse, seria preferível a receber tamanha frieza e pragmatismo.
Nem sequer o menor traço de qualquer emoção podia ser lido no semblante focado da mulher com quem planejava casar, algo a preocupa-lo além de qualquer métrica.
— Lamar — chamou-o, robótica e autoritária. — Vá buscar o Carlton. A gente precisa levar a Clara ao hospital mais próximo.
Ser referido de tal forma foi para ele como receber uma descarga elétrica; de repente, todos os sentidos acordaram do transe e os músculos entraram em espasmo, conflituosos quanto ao curso futuro.
— Jamie… Eu… — tentou argumentar, em vão.
— Eu pedi para você ir buscar o Carlton, Lamar — repetiu, fria. — Isso é uma emergência. Vai logo.
A intensidade da troca de olhares o abalou, marcando o primeiro instante onde a viu de tal forma, ausente dos traços suaves e da profunda simpatia, sempre tão natural.
A distância entre os dois se ampliou em centenas de vezes e, em simultâneo, cabia na distância na lâmina de uma faca, pressionada contra sua consciência pela encarada afiada.
— … Eu… Eu vou…! — criou coragem e se arrancou da miríade de pensamentos. — … Logo volto…!
Debater o assunto iria ficar para depois e, por mais desejável que fosse a ideia de não precisar mais lidar com o problema, uma nova prioridade surgiu, criada por suas próprias reações.
“... Droga…! Eu… Eu devia ter pensado melhor…!” aprontou-se para ir em busca do último integrante. — … Até…!
Antes de sair, Lamar pegou do chão apenas a própria lanterna e um vergalhão de ferro, dentre os vários empilhados em um canto da sala.
E, conforme o som de seus passos ficou a cada segundo mais distante, o silêncio voltou à toda, quase em sua completude original.
— Hic… Hic… Hic… Hic…!
Agora de mãos livres — graças à ajuda de Jamie — Clara cobria os olhos em um misto de dor e vergonha, regados a outras dezenas de sentimentos confusos.
— Hic… Hic…!
As lágrimas dissolveram o sangue, tornando-o líquido outra vez e, como resultado, nascia uma mistura quase pastosa, que passou a melar-lhe as bochechas e grande parte do rosto.
Em questão de meros dois minutos, o fedor de seu próprio sangue passou a enojá-la e, por conta de se misturar no senso interno de repúdio daquelas centenas de sensações indescritíveis, falou.
— … Fui eu, Jamie… Foi minha culpa… Minha decisão…!
Não conseguia se fazer ter a coragem de encará-la nos olhos e se tivesse de apostar, a julgaria como tão surpresa quanto se mostrou ao vê-los juntos.
— Eu deixei meu medo tomar conta… e eu… eu…!
— Eu sei. — A resposta a abalou. — Sei que foi tudo culpa sua, Clara.
Foi a vez dela ser despertada do estado atual de modo tão violento. Ao ouvir, Clara se desesperou e sentiu uma nova leva de lágrimas chegar, quando…
— E eu só não te dou um tapa agora porque isso pioraria a sua hemorragia. Agora, tenta ficar o mais tranquila quanto puder… Vai ajudar o sangue a coagular.
A pressão exercida pela pesada jaqueta de couro escuro sobre o corte não se alterou e sequer o menor traço de fúria ou ressentimento se permitiu transparecer na forma de tremores.
Jamie falava a partir de legítima tranquilidade, em uma lógica objetiva e direto ao ponto, a levando a acreditar em uma possibilidade.
— Jamie… Eu… Olha… Me… Me desculpa… Eu… Eu não sei no que estava pensando e…!
— Não, eu não te desculpo. Não faço isso hoje e nunca vou, Clara. A partir de hoje, nós não somos mais amigas.
— Huh…?!
— É isso — encarou-a, sem expressão. — Eu não tenho mais como confiar em você, por mais que me diga que isso não vai se repetir de novo, e por mais que isso também seja verdade. Você cruzou uma linha que eu não aceito deixar ser cruzada e isso é inegociável.
Ao alcançar das palavras aos seus ouvidos, os próprios termos da pálida lhe fugiram da garganta.
— Tolerei você por tempo o bastante, acreditando que, algum dia, iria entender a realidade e deixar de lado. Não foi assim que terminou… E sim, eu sempre soube que você tinha uma queda no meu namorado… Não é difícil de enxergar, sabia?
Jamie estabeleceu um “limite” — algo inviolável e que, se quebrado, não permitiria retorno — e ser exposta a tal conceito aplicado na prática a levou a compreender a razão daquilo.
— Não fiquei furiosa com o Lamar por ter recebido o seu beijo, mas sim por ele ter te empurrado — disse. — Se ele tivesse só respirado fundo e se explicado direito, eu ainda assim acreditaria nele… Ah, aquele cara…!
O motivo de Lamar ter caído de amores por essa mulher: a segurança e solidez de alguém sempre tão razoável e confiante.
“... Se eu tivesse colocado meus sentimentos à frente mais cedo…”
Os anos de convívio contínuo passaram pela mente dela dentro de poucos segundos.
“... Não… Ele não teria me aceitado, mesmo assim…”
A natureza volátil e necessitada de Clara estava distante de qualquer coisa que Lamar encontrou de belo na mulher que hoje ama, o que foi, por um certo lado, revelador e, por outro…
“Então eu nunca tive chance…!” retraiu-se, sentindo as lágrimas retornarem em força total.
Um abalo completo de suas esperanças, em dolorosa realidade; só funcionou tão bem por Jamie ser Jamie e Clara não podia ser algo além de si mesma.
Ela havia perdido, desde o começo da aparente competição.
— Huh…? Eu… ouvi um barulho…
Despertada pela colocação de Jamie, a primeira sensação vivida pela moça foi a de não ter mais o peso de sua mão sobre a cabeça.
— Ouviu isso…? Veio de longe… do corredor que o Lamar tomou…
Clara não ouviu qualquer barulho — não é como se estivesse atenta, afinal —, mas o medo real veio ao compreender o real movimento futuro de sua ex-amiga.
— Fica aí. Eu vou lá olhar o que é isso… Pode ter sido com o Lamar…
A cacheada não hesitou em tomar a própria lanterna e seguir rumo à escuridão. Em uma fraca última tentativa, Clara esticou a mão com fraqueza e se esforçou para dizer algo.
— Tenta descansar… Poupa a sua energia, Clara… E fica pondo pressão! — ordenou. — Droga… ela perdeu muito sangue…
O mero ato de levantar o braço a fez sentir como se fosse desmaiar e, sem oposição a mais, se obrigou a permití-la.
[...]
“Droga… Droga… Droga…!”
O passar de cada segundo só tornava as coisas piores e, entre os passos apressados na direção do portão selado por dentro, Lamar se questionava o que faria a partir de tal ponto.
E por mais que suas pernas corressem rumo a um lugar determinado e certeiro, a consciência do rapaz atlético existia no espaço vazio criado naquela sala.
“Eu preciso me justificar… explicar que tudo não passou de um mau-entendido…!”
Jogou fora o vergalhão — percebido ser inútil para quebrar uma barreira tão sólida quanto — e no lugar, catou do chão a primeira ferramenta que viu: uma grande chave inglesa ajustável.
— … É melhor abrir esse portão quando eu chegar, Carlton… Ou nós vamos ter problemas grandes…!
Saltou para além do escuro corredor em um ato de confiança sem intensidade real, pronto para dar uns bons golpes na coisa, mas, logo ao entrar, o cenário encontrado o atingiu com o pior tipo de novidade.
— Huh?! — Alterado, exclamou em questionamento. — Carlton…?! Carlton…!
O portão se encontrava aberto e o caminho para o andar inferior, exposto, revelando apenas a densa sombra a partir de além da entrada.
— Carlton, onde você tá?! ISSO NÃO É UMA BRINCADEIRA…! APARECE E VAMOS DAR O FORA DAQUI…!
Sem resposta. A luz de sua lanterna piscou brevemente ao apontar para a entrada, revelando ali, no chão, a presença do equipamento de filmagem do rapaz com devaneios por fama.
— Carlton…! — correu até a entrada e ajoelhou, inspecionando o objeto. — Não… Isso… Isso aqui não tá certo… de jeito nenhum…
A câmera, ao lado da entrada, havia caído de lado e entre o perfeito preto polido da superfície plástica, linhas de avaria indicavam ter sido derrubada, ao invés de meramente repousada ali.
— CARLTON…! — chamou em alto e bom tom, rumo ao interior da passagem. — CARLTON, CADÊ VOCÊ?!
Novamente, apenas o silêncio imperou e, entregue à escuridão — física e de coração — Lamar pensou nas piores possibilidades.
— Ele sempre teve um ciúmes doentio e um zelo que beirava a obsessão com os equipamentos de filmagem… Não é o tipo de coisa que ele derrubaria assim e deixaria para trás… Essa câmera era quase uma namorada para ele…
Como melhor amigo do buscador de problemas e aventuras, ele sabia do que falava mais do que ninguém. Carlton sempre costumava evitar até coisas tão fúteis como repousar a câmera sobre superfícies irregulares.
Ele polia o equipamento quase de hora em hora, checando a lente para evitar qualquer pequeno sinal de avaria; uma vez, até teve um acesso de fúria ao notar um fio de cabelo na lente e imaginar se tratar de uma minúscula rachadura.
Logo, algo tão extremo não soava como ele — não havia como ser.
— Droga… O que será que ele viu lá embaixo…?
Lamar tomou o máximo de sua coragem e se reergueu para inspecionar. A sala ao redor consistia de um espaço minúsculo, grande o bastante para as escadas a seguirem as laterais da descida.
— … Carlton…?! Cara, se isso for uma pegadinha, eu admito que não é nada engraçado…! Você tá preocupando a gente…! — disse ao nada, pouco confiante. — Cara, por favor, só aparece…! Olha, me desculpa pelo que disse, mas vamos nos resolver depois, tá? A Carla… A Carla se machucou…! Precisamos de um hospital…! É sério…!
O único óbvio caminho a se seguir seria para baixo, mas se o portão estava aberto e a câmera aqui em cima…
— … É a lanterna dele…?
Lamar se recostou contra as barras de ferro do corrimão, movido por curiosidade. Lá embaixo, um outro corredor se estendia e nele, um fraco foco de luz permitia a pouca visibilidade de um chão de concreto.
— Esse complexo… continua por baixo do chão…?
Distraído nos poucos segundos de desleixo, Lamar apenas notou o estado de deterioração das barras ao ouví-las rangerem.
Rrrrrrnnnnk… — entortaram e se moldaram como chiclete, desistindo do trabalho de sustentar o peso dele. Em um piscar de olhos, partiram por completo, em queda livre rumo ao fundo.
— WAAAAH…!
O eco do grito de Lamar consumiu a ambiência da fábrica abandonada, alertando a qualquer que pudesse estar ouvindo.
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