Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 183: Interlúdio - A Última Aventura, Ato 3
— CARLTON…! — Ambos furioso e preocupado, Lamar exclamou tão alto quanto pôde.
Bater no portão selado resultou em nada e as chapas, fortes, sequer tremeram em face da grande energia colocada.
— Droga…! — Derrotado, Lamar caiu de joelhos. — Aquele idiota…!
Carlton iria acabar se metendo em uma situação complicada ao ponto do irremediável — ele sabia disso, sentimento compartilhado pelo grupo inteiro —, logo, tirá-lo de lá se tornou prioridade, apesar de não querer.
— Lamar! — Jamie correu ao socorro do namorado, para acudi-lo. — Lamar…
— Aquele babaca…! — xingou em voz alta, alterado. — Sempre pensando em si mesmo… Sempre pensando numa maldita fama que pode nos custar caro e que nunca vai vir…!
As duas garotas não tinham como refutar a afirmação; ambas também viveram na pele os resultados dos devaneios do loiro desempregado e sem estudo, em busca da “chave” para mudar de vida em um passe de mágica.
— E ele realmente conseguiu dessa vez…! — rangeu os dentes, dividido entre sua frustração e o calor perfumado dos braços da namorada. — Conseguiu se empurrar em uma toca de coelho que vai condenar todos nós!
— Shh… Tá tudo bem, amor… Tudo bem… — Gentilmente, a cacheada acariciou-o os cabelos. — A gente vai sair dessa… Não vai acontecer nada e vai ficar tudo bem… A gente vai sair por cima dessa vez, também… E é a última vez.
Os tremores nos dedos indicavam que nem ela mesma acreditava nas palavras proferidas pelos lábios cobertos em gloss de morango; os achados a preocuparam e a história, mais ainda.
“Elderlog é um lugar onde mulheres somem sem explicação e coisas bizarras acontecem… Então… a fita de cabelo e o sapato velho…”
E justo quando estava prestes a completar a linha de pensamento, reveladora de uma perspectiva abaladora da realidade, o integrante final da reunião às sombras se fez notado.
— … Precisamos sair daqui logo, gente…! — Clara apontou a lanterna para o próprio rosto. — Eu… Eu já não tô mais afim de permanecer… mesmo…!
Dos três, a estudante de medicina foi a mais impactada pelo cenário; hesitante, encarava de canto a canto, como uma criança com medo do escuro ao ser deixada para dormir sozinha.
— … Não é isso o que ele quer…?! Vamos deixar o Carlton sozinho…! Talvez… Talvez isso faça ele aprender alguma coisa…!
A ansiedade se pintava na forma das gotas de suor a escorrer entre a franja escura, grudada na testa por conta da umidade.
— Clara… — Lamar suspirou. — Eu também quero sair daqui, mas… Não vai dar para só sair e deixar esse bobalhão aí dentro…
— Por que não?! — A pálida revoltou-se e, entre puxadas fortes do ar empoeirado, forçou-se a falar. — Não foi você mesmo quem criticou tanto ele lá atrás, Lamar?!
O desconforto da jovem transpareceu ao limite e notaram o incontrolável tremor da perna esquerda ao fim de um passo para trás. O aspecto dela se tornou combativo, atento em excesso e horrorizado.
— Ele já trouxe problemas demais para nós…! — gritou alto. — Eu nunca vou esquecer daquela vez em Michigan, onde eu quase levei um tiro… ou daquela outra vez em Oklahoma, quando um maluco tentou me estuprar naquela casa abandonada…! O Carlton quer uma aventura?! Então ele pode se foder com ela também!
— Clara, a gente… — O rapaz tentou falar.
— Vocês nunca perguntam como eu me sinto com isso! Vocês chamam e eu sempre vou… como a tonta, burra e idiota que eu sou…!
— Clara, por favor, fica do nosso lado…! — Ao notar o distanciamento da amiga, Jamie também tentou. — A gente não sabe quais são os perigos aqui dentro e você pode se machucar…!
— Eu não me importo! — rebateu. — Vocês podem ficar aí, juntinhos e se acalentando, esperando ele voltar… Eu… Eu vou embora…!
— Clara…! Não…!
O chamado de Lamar não a impediu de dar as costas e correr em direção a um dos vários corredores aleatórios sem olhar para trás. Diante da nova situação, o estresse do casal — em especial o dele — se amplificou.
— Ah, Deus… — Desolado, o atlético e alto engenheiro cobriu os olhos e suspirou. — … Quando foi que as coisas se tornaram desse jeito…? A gente nunca notou o problema, Jamie… Nunca.
Sem hesitar, ele se reergueu e, sem tirar a poeira dos jeans, se prontificou para entrar em ação.
— Vamos atrás dela — afirmou. — Não quero que nada de ruim acabe acontecendo com a Clara, também.
Gentil, estendeu a mão para a namorada, tentando parecer calmo. Estendidos, os dedos de pele escura estremeceram a ponto de quase vibrar, no aguardo pelo conforto dado por ela.
— Eu vou ficar — tocou-o com firmeza, decidida. — Alguém precisa ficar vigiando esse portão, né? Se nós dois formos, então…
— Não, eu quero te deixar sozinha, amor…! Não aqui…!
Aflito, o jovem adulto ajoelhou-se e levou a mão de pele suave até a testa, sentindo a temperatura agradável emanada pela amada.
— … Eu não vou te deixar só, Jamie… Eu… Eu não consigo… Eu…
— Eu não vou a lugar nenhum, Lamar — afirmou a mulher, brandindo no rosto um sorriso. — E acima de tudo, eu posso só gritar se ver qualquer coisa suspeita.
Em um gesto caloroso, agarrou o queixo dele e o ergueu, até os campos de visão se encontrarem e o rico castanho dos olhos dela se chocarem com o preto profundo dos dele.
— Vamos sair dessa, amor — disse, confiante. — E quando a gente sair, vou querer uma coisinha de você!
— Huh…? Uma “coisinha”...? E o que é?
— Não me faça ter que dizer! Você sabe o que é, seu bobinho…! O que toda garota espera, depois de cinco anos de um namoro…!
— Ah…!
De imediato, Lamar soltou a mão esquerda dela quase por completo, deixando apenas o dedo anelar, o qual mantinha preso pela ponta.
— … Parece que a minha surpresa acabou de ir pelos ares, né…? — suspirou, quase inaudível. — Tudo bem, eu confio em você. Vou voltar com a Clara logo… ela vai acabar se perdendo aqui.
Antes de sair, deu um pequeno beijo na unha de Jamie e a soltou.
— Ei…! Não me diz que…! — Em surpresa, tentou alcançá-lo.
— Depois que sairmos, vamos discutir isso, amor! — acenou para trás, já distante o bastante para precisar gritar.
Não demorou dois segundos a mais para os passos decididos de Lamar soarem distantes na arquitetura ampla do complexo industrial.
“Ah, aquele fofo malandro…! Ele ainda me paga…!”
Munida da mochila cheia de materiais e a lanterna, Jamie limpou o chão na medida do possível com a própria mão e sentou-se ao lado do portão selado por dentro.
“Mas é isso?! Eu vou ser realmente pedida em casamento?!”
O frio e a escuridão facilmente perdiam lugar e os longos minutos corriam como água, ao se lembrar da silenciosa promessa deixada naqueles gestos.
O relacionamento bom se tornaria, logo, no amor ideal e o final dessa história só dependia de uma coisa.
— Carlton…! — bateu no portão. — Vê se sai daí logo…! Vai!
Os próximos anos seriam perfeitos — ele a complementava da forma mais plena e vice-versa — e o pensamento de um perfeito futuro a distraiu por um instante, até escutar algo.
— Huh…?
O barulho veio detrás da porta, baixo e afastado, e embora à primeira vista não fosse discernível, com o tempo tornou-se mais alto e, também, mais claro.
— Khhh…! — O barulho do ar sugado entre os espaços dos dentes gerou-lhe um senso se urgência. — … Carlton…!
Caso o que ouviu for tão real quanto imaginou, a chance de ele estar em perigo existia e deixar para trás teria um preço caro.
— Vou chamar eles, Carlton…! — levantou-se e levou as mãos ao entorno da boca. — LAMAR! RÁPIDO!
[...]
— CARLA?! CARLA…! CADÊ VOCÊ?!
O corredor tomado pela moça não a conduziria a lugar nenhum. Na pior das hipóteses, Clara acabaria esbarrando em um novo conjunto de salas confusas e mais paredes sujas.
— CARLA…!
Lamar não se perdoaria caso as coisas acabassem mais arruinadas ainda, então, enquanto houvesse algo para salvar dos longos e bons anos como amigos, o faria sem pensar duas vezes.
E não apenas por seu próprio bem, mas o de Jamie, também.
— … A luz da lanterna…! — olhou para o cômodo ao final de um corredor à esquerda. — Clara…!
Os passos velozes depressa o conduziram ao canto sem saída, uma sala repleta de mesas e computadores destroçados, cobertos por grossas camadas dos anos de descaso e abandono.
— Clara…! Te achei…!
E no centro da área de aparência logística ou administrativa, se encontrava a moça de longos cabelos escuros, sentada em uma das velhas cadeiras de escritório.
Caso outra pessoa a visse, pensaria ser um fantasma, guiados pelo macabro contraste de sua pálida figura com o fato de estar chorando, desolada e afastada da realidade.
— Clara… Eu sinto muito se pisei na bola com você durante todos esses anos… Eu realmente não sabia que você passava por tudo isso… — chegou mais perto, devagar. — Devia ter prestado mais atenção e ter considerado melhor…
Para o bom e velho Lamar, no entanto, não havia outro sentimento que não fosse a vontade de protegê-la dos perigos, como sempre fez.
— A gente pode conversar? Desculpa… eu devia ter imaginado que você se sentia coagida… Afinal, você nunca foi muito boa em expressar as suas necessidades, né…? Sinto muito…
Se aproximou e ajoelhou ao lado da cadeira, atento à figura em hiperventilação e por inteiro abalada pela ansiedade, deixando sua presença ser sentida do modo mais respeitoso pensado.
— Não vai acontecer de novo — afirmou. — Não vamos te deixar para trás e não vamos te deixar pensar que é menos importante… porque você não é, Clara… Não é mesmo.
Ele não esperava que suas palavras fossem aceitas e muito menos a julgaria, caso viesse a pensar se tratar apenas de uma conversinha motivacional; Clara sofreu o bastante ao lado deles, arrastada como uma “amiga” por um bando de malucos que invadem cantos abandonados.
“Nunca foi fácil para ela dizer ‘não’ para nós, afinal, éramos os únicos amigos dela na época… Ela teve medo de nos decepcionar…”
Mas se algo ele queria que ficasse, seria uma coisa:
— Nós nunca iríamos te detestar por querer seguir seu próprio caminho… por não gostar disso… Então, não se preocupe, porque isso aqui não vai mudar nada entre nós, Clara — falou, tranquilo. — Vamos te escutar quando sairmos, inclusive o tonto do Carlton, e por quanto tempo você precisar, então…
Estendeu a mão para ela, a sorrir.
— Vamos sair juntos, porque não interessa o que você pensa de nós ou até se nos odeia agora, pois ainda vamos te ver como a nossa amiga e vamos todos honrar isso, tá bom?
O silêncio de alguns segundos foi quebrado no preciso instante no qual ela correspondeu-lhe o olhar.
— Você sempre foi bom assim em resolver os problemas, Lamar… — falou em voz baixa e chorosa. — Em acalmar as pessoas, em definir o que precisa ser feito… e em me salvar dos perigos que eu mesma gero e atraio…
Os olhos dela, inchados, eram tão escuros e profundos quanto os dele, formando um reflexo perfeito entre os espelhos da alma.
— … Eu me lembro de como a gente se conheceu… — começou. — Era início do primeiro ano e aquelas crianças vieram mexer comigo… Você entrou e me defendeu, assustou eles quando eu não pude dizer nada por conta do medo…
— É, eu lembro disso bem — respondeu, sorrindo de canto. — Mas não foi tão impressionante quanto você tá fazendo parecer…!
— Eu sempre apreciei isso em você… Tão vigoroso… Tão dinâmico e altivo, alguém que consegue se impor com maestria… e ao mesmo tempo, tão humilde — mencionou, cheia de brilho. — Mesmo quando você não era tão maduro, eu já sentia que iria me servir tão bem…
Ambas as mãos pálidas da moça cobriram a grande palma aberta do rapaz de pele escura, pequenas em comparação.
— Eu pensei que se fosse egoísta demais, ia acabar perdendo você… Então, eu nunca me expressei demais ou tentei quebrar a dinâmica do grupo, Lamar… Mas, dessa vez, eu quero ser egoísta.
— Uh… Carla…
Um espasmo na forma de choque percorreu-lhe todo o corpo quando ela tomou a liberdade de entrelaçar os dedos entre os dele.
— Foi o contrário, Lamar… e por eu não ter sido egoísta o suficiente, deixei isso acontecer e só pude ficar calada… Por eu não ter colocado os meus interesses à frente, ela fez isso primeiro…
A enorme tensão tornou a sala em um universo metafórico onde apenas os dois existiam; ali, os problemas do mundo sumiram e só o outro passou a existir.
— Eu não ligo mais. O que aconteceu, aconteceu e se eu fui estúpida o bastante para deixar passar a oportunidade, já não me incomoda, porque eu posso fazer isso…
— … Carla…! — Sem saber o que fazer, faltou ao cérebro do rapaz o senso de reação e, assim…
— Me deixa aproveitar isso… só dessa vez.
Os lábios tocaram e antes de perceber, aquele sabor desconhecido invadiu-lhe a boca em uma explosão — o sabor de Carla, em todo seu pânico e reparação —, deixando sua marca.
— Isso é o que eu sempre quis… — Ao fim do contato, sorriu, amargamente satisfeita com o resultado.
O som dos passos apressados no corredor cessou no instante exato e a queda da lanterna marcou o começo de um novo e maior tumulto.
— … Lamar…?
Jamie congelou em frente à entrada, estarrecida pela imagem de seu possível futuro marido, envolto pelos braços de outra mulher — e não qualquer uma —, aquela que ousava chamar de “melhor amiga”.
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