Chamado da Evolução Brasileira

Autor(a): TheMultiverseOne


Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios

Capítulo 182: Interlúdio - A Última Aventura, Ato 2

— Lamar…?! O que houve?! … Ow…!

Até Clara, por mais distante do casal que estivesse, pôde sentir na própria pele a tremenda força aplicada pelo rapaz atlético no braço de Jamie.

— A gente tem que sair… A gente precisa sair daqui, Jamie! 

O desespero nos olhos escuros quebrou por inteiro o aspecto de contido e controlado do engenheiro civil; a respiração de Lamar se destacava em meio ao silêncio, ecoando nas paredes vazias do complexo obscuro.

Era claro o fato de algo tê-lo perturbado e todos desejavam saber o motivo exato para tamanha reação.

— Ali… — iluminou o corredor com a lanterna, em um ponto específico do chão. — Aquilo ali não era para estar aqui…!

O único sapato empoeirado se destacou à passagem do feixe luminoso. A peça, de aspecto velho e estragado, parecia já estar lá por alguns meses ou talvez anos, fora de lugar em comparação ao resto.

Uma fábrica de peças e componentes metálicos não se comprometeria a manter algo assim e, por mais que desejasse acreditar se tratar apenas de um detalhe de limpeza ou descuido, sua intuição o apontava a impossibilidade de algo tão absurdo ser verdade.

Primeiro, a fita de cabelo e depois, há poucos metros, aquilo.

— Cancela a filmagem — ordenou, sem hesitar. — Tô te dizendo, cara. Para de filmar isso, Carlton.

Porém, e como já deveria lhe ser óbvio, não foi escutado pelo loiro.

— Haah?! — Em ambos pergunta e incômodo, o cameraman o indagou. — Por quê?!

Porque a gente vai embora daqui e agora! — respondeu, encarando fixamente a câmera. — Vamos, Jamie…!

Lamar agarrou novamente o braço da namorada com pouco cuidado, quase arrastando-a para longe dos outros dois.

— Para, Lamar…! Para! — Em desespero similar, a mulher deu tapas no forte braço do namorado. — Tá me machucando, Lamar…! Isso dói!

— Hhhkk…! — Ao notar o que fez, soltou-a depressa, trêmulo da cabeça aos pés.

— Ow…! — Jamie massageou o ponto avermelhado, no formato perfeito da grande mão, agora estampado em seu braço esquerdo.

Durante os cinco anos de relacionamento, ele jamais havia se atrevido a tratá-la com um mínimo de indelicadeza, logo, vê-lo começar agora a atingiu com imensa surpresa.

— Ei, ei…! Qual foi, Lamar?! Estragou a filmagem toda…!

O equipamento de filmagem, desligado, foi deixado sob os cuidados de Clara, que pouco mais podia fazer além de respirar e tentar compreender o curso “de 8 a 80” tomado pela exploração.

— Frustrando tudo o que eu pensei com o seu medinho…! — empurrou-o para trás. — Qual é, cara?! Qual é?!

Apto a expressar toda a sua fúria, Carlton preparou um soco e o desferiu em cheio na bochecha do amigo uma cabeça mais alto, levando-o a sentir o sabor do próprio sangue.

— Carlton…! —  Enfim, Clara reagiu ao fim do golpe. — Para com isso…!

Não larga essa câmera de qualquer jeito…! — Alterado, ordenou a estudante de medicina. — Não atrapalha aqui…!

O assunto a ser tratado esteve na mente dele por algum tempo e esse seria o momento ideal de mostrá-lo.

Para de ficar agindo contra o meu sucesso, Lamar! — gritou. — Você sempre faz isso… Sempre fez isso…!

Ensandecido, preparou outro soco, dessa vez desviado com sucesso pelo mais alto.

Sempre me colocando para baixo…! Sempre tirando da minha possibilidade de crescer…! Quer saber?! Isso não vai continuar acontecendo…!

— Carlton, para…! — Em um momento de coragem, Clara agarrou o braço direito do loiro enfurecido. — Jamie, me ajuda aqui…!

— Huh…? Ah, certo…! — Parecendo ter acordado de seu transe reflexivo, a segunda mulher ajudou a conter o braço restante de Carlton.

Vocês sempre ficam do lado dele…! SEMPRE…!

Contido em sua fúria, Carlton grunhiu e fitou a própria alma de Lamar, que agora respondia ao assumir uma postura mais hesitante e arrependida, ainda sentindo o sabor do próprio sangue.

— Não é com a sua fama que eu tô preocupado, Carlton… — começou. — Por mim, você teria todos os seguidores do mundo, seria feliz com a sua escolha de carreira…

Ah, é?! — O outro continuou tentando se livrar. — Então por que você só tá ficando no meu caminho aqui?! Se não é inveja, me diz o que é…!

— É que eu me preocupo, Carlton… — encarou-o indiretamente, antes de virar a atenção para Jamie. — Sério, eu não acho que isso daqui é seguro para nós…

A mulher de longos fios castanhos e ondulados respondeu o olhar de forma acuada, um pouco intimidada pela instância anterior de comportamento dele.

— Olha… me desculpa… — disse, mais para ela do que para Carlton. — É que… cara, aqui é Elderlog…

A visão dele mudou de foco para o chão repleto de sujeira. Os tremores haviam, em sua maioria, parado e a respiração acelerada só fazia leves barulhos.

— … Mulheres são sequestradas aos montes aqui, cara… e nenhum desses crimes foi solucionado ainda… — mencionou, com pesar. — Então, quando eu vi aquilo… Eu tive medo, Carlton… muito medo.

O suspiro cruzou o corredor como a corrente de ar de um furacão e os ombros, antes tensos e pesados, caíram em repouso.

— Cara, eu não sei se consigo continuar mais fazendo isso… — confessou, sincero. — Eu te sigo porque você se mete em enrascadas, mas… isso aqui não é para mim, entende? Invadir cantos abandonados e cheios de perigos, em busca de um take perfeito…! Eu… Eu já não aguento mais…!

O passo para trás alertou os outros, mas, em principal, fez o corpo em debate do rapaz ouvinte parar.

— Eu já tenho a minha vida, mano… tenho gente que eu amo, e eu não quero perder essa pessoa em uma dessas suas aventuras inconsequentes…!

Ao captar da mensagem, o agarro de Jamie se enfraqueceu e, felizmente, Carlton não tentou lutar.

— Me desculpa, Jamie — baixou a cabeça, arrependido. — Eu não quis te machucar… não quis ter te apertado tão forte… É só que… eu realmente não quero te perder, meu amor…! Então…!

O brilho da lanterna na mão dele estremeceu mediante a força descontrolada colocada na tentativa de controlar suas emoções. No fim, Lamar tomou o máximo de ar que pôde, soltou devagar e falou:

— Se quiser ir embora comigo, eu ficaria feliz porque é o que eu acho melhor, mas se quiser ficar, eu fico com você e me coloco no caminho de qualquer coisa para te proteger. E, Carlton…

O aspecto determinado e de foco final assustou-o ao ser visto de frente.

— Se ela ficar, saiba que vai ser a última vez em que eu te acompanho nas suas brincadeirinhas — afirmou, sério. — Se eu ficar, vou ficar pela Jamie e depois disso, a nossa amizade acabou.

O silêncio da escolha imperou pelos próximos vários segundos e a nova atmosfera pesada prometeu permanecer.

Seja qual escolha fosse feita por Jamie, os laços que uniam o grupo se partiram, sem chance de conserto.

[...]

Haaah… — O suspiro morreu nas proximidades, sem ir além da pequena sala fechada. “Talvez eu tenha sido um pouco duro demais com ele.”

A peça — um grande parafuso — se juntou ao resto de seus semelhantes ao ser jogada de volta na pilha, dentro da caixa.

TING — o eco, suficiente para chamar atenção, atraiu passos lentos em direção a ele, cuja fonte tocou-lhe, gentil, nas costas.

— Eu sinto muito por aquilo de antes, Jamie.

O comentário passou dois segundos sem ser respondido, tempo o bastante para fazê-lo pensar o pior.

— Não foi sua culpa, amor — disse ela, baixo. — Eu sei que você só quis me proteger.

— Não muda o fato de que eu te machuquei e eu me sinto horrível por isso — rebateu. — Eu… Eu não tenho uma boa impressão disso aqui…

Ele só ficou graças ao bom coração da mulher com a qual pretendia casar. Para Jamie, deixar Carlton à própria sorte ficava fora de questão.

— Não me parece certo… Tem algo mais nesse lugar em específico, uma coisa que a gente ficaria melhor evitando…!

Mas a contribuição deles acabaria ali. Até Clara, a mais neutra e facilmente guiável do grupo, concordou que os devaneios de fama de Carlton iam longe demais, às vezes.

— Essa é a última exploração, amor — falou a mulher. — Vamos só suportar mais essa, tá bom?

— … Tá bom…

Os dois se abraçaram, Lamar agora virado de frente. As lanternas, apontadas para o chão cinza, não iluminavam tanto e, enfim…

— Uhhh… foi mal atrapalhar o momento de vocês, casal, mas eu não quero continuar vigiando aquele pirralho sozinha para sempre…!

A voz enfática de Clara os assustou a ponto de quebrarem o quase-beijo. Por inteiro expostos, os dois tentaram, religiosamente, fingir que nada aconteceu.

Haaah… — suspirou a moça de cabelos escuros. — Ele achou uma porta lá nos fundos, e agora tá falando para todos os milhões de seguidores dele sobre o quanto toda aquela ferrugem é incrível, enquanto tenta abri-la… Também não tô aguentando mais.

— Certo, a gente vai lá dar uma olhada… Vamos, Jamie?

— Sim, sim…! Até porque não tem nada de especial nessa sala aqui também…! Hehehe!

— Sabe, vocês não precisam mais fingir; a gente não tá na frente da câmera dele mais — completou a estudante de medicina. — Vamos só acabar com isso, tá? Parece que não tem mais fábrica depois dali.

O pensamento positivo instalado por ela deu um novo senso de determinação para o casal, afinal, se pudessem só terminar a exploração o quanto antes, melhor seria.

O lugar no qual estavam consistia de uma nova zona, não usada para produção, mas sim armazenamento e logística dos materiais.

As várias salas menores ao longo do corredor mantinham desde materiais brutos, como barras de ferro, até os produtos produzidos na zona anterior.

No geral, o novo setor passava uma sensação mais claustrofóbica, não mais composto pelos grandes espaços abertos das linhas de montagem.

— Vou precisar de um bom banho para tirar esse monte de teia do meu cabelo… — A cacheada tentou balançar o fio grudento e empoeirado para longe. — Uuugh!

— Deixa que eu tiro para você! — Lamar arrancou a maior parte do material com sucesso.

No final, a área conduzia a um novo espaço aberto, destinado ao trânsito do pessoal e processos administrativos.

— Achamos esse escritório aqui, com nada de interessante dentro. — Chateada, Clara citou o óbvio. — Mas acho que vocês já estão ouvindo ele…

— É… a gente tá sim…

Um pouco mais à frente, o corredor do escritório conduzia à área onde se situavam os armários dos funcionários.

— Vamos conseguir abrir essa porta, pessoal! — Carlton falava para a câmera, estacionária sobre uma pilha de caixas. — Aí vamos ver o que essa fábrica esconde…!

O espaço continha um estranho portão selado de metal, incomum para um mero vestiário. Por estar tão fora de lugar, a primeira coisa pensada foi abri-lo prontamente.

— O que será que tem aí atrás?! — De forma fútil, continuou chutando. — Ugh, esse lugar fede a limões podres…!

Um único, porém resistente cadeado servia para manter a passagem fechada e não estava próximo de ceder.

— Não vai abrir nada desse jeito, Carlton. — Lamar, de alicate na mão, entrou. — Vê se para de fazer esse barulho.

— Hmph! — Insatisfeito, o cameraman o encarou de longe.

— Sai daí, eu abro.

O clima de inimizade se tornou intenso a ponto de quase adquirir forma física; Lamar podia agir como se não se importasse, mas, por dentro, um turbilhão de negatividade tomava conta do afroamericano.

“Depois dessa, acabou…!” pensou, tomando todo o cuidado para esconder a própria expressão de Jamie. “Esse mimado nunca mais vai me ver na vida!”

A tranca logo cedeu diante da praticidade do jovem homem. Aberto, o portão revelou um cômodo escondido que, ao ser iluminado, revelou uma notícia ruim.

— Escadas…! — comemorou Carlton. — Esse lugar vai bem mais fundo…!

Apenas ele se animou ao ver o lance de degraus rumo abaixo, perdendo tempo nenhum em tomar a câmera e começar a descida.

— Não precisam mais me seguir se não quiserem — afirmou, amargo. — Eu posso muito bem ir só. Se isso ‘tava trancado, significa que não tem ninguém lá embaixo, então não precisam mais me vigiar, entendeu?

— A gente disse que ia te seguir, então…

— Vê se cala a boca, Lamar! — disse, despreocupado com estar gravando o momento. — Agora sou eu quem não quero mais ser seguido!

Ao entrar, Carlton fechou o portão e um CLANK metálico marcou algo temido: ele havia fechado por dentro.

— Ei…! — Clara bateu no portão. — Ei, Carlton…!

— Eu também posso fazer o meu trabalho sem vocês! — A voz foi ouvida de longe. — E quando eu ficar famoso, vou ter esquecido que todos vocês existiram!

O eco metálico de cada passo no lance de escadas marcou a descida em espiral, rumo aos segredos do complexo e da mina de ouro que o loiro sempre buscou.

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