Chamado da Evolução Brasileira

Autor(a): TheMultiverseOne


Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios

Capítulo 181: Interlúdio - A Última Aventura, Ato 1

— Equipamento pronto… lanternas funcionando…! — Orgulhoso, ergueu a câmera de mão à altura da cabeça. — Tá top! Vamos começar a gravar, galerinha.

Para além dele, mais três jovens adultos de idade parecida se organizavam para a maior empreitada dos últimos tempos. O episódio a ser gravado nessa noite iria estourar o conceito de “hype” e render-lhes uma boa fama nas redes sociais.

— Testando… testando…! — disse o rapaz loiro para a lente da câmera. — De Elderlog, Montana, para o mundo…! Testando, testando…!

— Qual é, já tá gravando? — perguntou outro dos caras, organizando a mochila com alimentos e outros aparatos. — Deixa a gente se preparar primeiro, Carlton! Vai ter que cortar da gravação final.

— Não tô gravando ainda, Lamar! Relaxa aí!

— Eu tô relaxado — rebateu o dono de pele e cabelos escuros. — É que a gente não podia deixar para invadir isso aqui amanhã, não? Acabamos de chegar nesse fim de mundo!

— Ele tem razão — manifestou-se uma das garotas do grupo, Jamie, arrumando os densos cabelos castanhos encaracolados. — Você lembra do que aconteceu quando a gente entrou naquele residencial em Long Island, né? Um mundo e meio de crackudos vieram para cima de nós!

— Ah, deixem de ser estraga-prazeres! A gente só vai dar uma procurada! E aliás, quem é que vai querer viver na porra de um complexo industrial abandonado?!

Ele não esperava por uma resposta real. Na sua mente, o argumento usado era infalível e fazia todo sentido.

— Muita gente, Carlton… Muita gente — falou a segunda das moças, de lisos fios escuros, chamada Clara. — Foi idiota da sua parte nos trazer para cá.

Percebendo estar contrariado por unanimidade, o cameraman e principal responsável pela organização do projeto sentiu uma ponta do próprio ego rachado a ferir-lhe.

— Eu não disse que vocês precisavam vir também, mas quiseram me seguir, então não reclamem de eu querer fazer as coisas do meu jeito!

Por mais que já trabalhassem juntos desde o ensino médio, as eventuais batidas de cabeça e discussões mais agressivas só pareceram aumentar nos últimos anos, evidente no fato de alguns deles terem amadurecido mais que outros.

— Mas a gente veio porque não vamos te deixar sozinho, Carlton — anunciou Lamar, sério. — A gente sabe, tanto quanto você deveria, o quanto isso aqui é perigoso e eu não quero me sentir culpado por saber que algum chapado de heroína abriu o teu estômago no meio!

Apenas o próprio Carlton não teve tanta sorte quanto os outros, embora o certo fosse dizer que sua natureza dispersa o levou até ali; até hoje, aos vinte e três anos, ele não conseguiu ingressar em uma faculdade.

— Não precisam ficar me dando sermão, tá bom?! — rebateu, visivelmente furioso. — Eu ainda vou ser grande nesse mundo da internet e vocês ainda vão me agradecer pelo tanto de dinheiro que faremos por vídeo postado, um dia!

— Eu espero que sim…! — Jamie aplicou um fio de sarcasmo. — Até porque o meu trabalho numa multinacional realmente paga muito mal, sabe? Sequer consigo respirar ganhando 90 mil por ano…!

Grrr…! — bufou de raiva, contido nas últimas pontas. — … Esquece… Tá, a gente vai começar a gravar, então nada de ficar brigando em câmera…!

— Só diz isso para se proteger… — Clara revirou os olhos.

— Disse algo?!

— Nada, nada…! — espanou o ar com a palma da mão. — Vai logo. Eu não quero voltar para aquele cafofo minúsculo e longe de tudo no meio da madrugada. Aqui fora fica frio demais para o meu gosto.

A pura teimosia e busca pelo “sucesso” nunca antes atingido de Carlton Rodríguez os trouxe ao coração de um dos, senão o maior, mistério dos tempos atuais nos Estados Unidos.

— Começamos…! — ajustou-se e fez o mesmo com a câmera, mostrando os arredores iluminados pela potente lanterna. — Opa, exploradores! Como vão? Aqui estamos na prometida cidade, Elderlog, Montana! E hoje a nossa exploração urbana promete ser mais sombria…!

Começou com um tópico que agradava os quatro: explorar edificações e locais abandonados, em busca de coisas perturbadoras ou registros inusitados.

— Essa cidade é conhecida por um mistério bem assombroso! — afirmou, em busca de efeito. — Aparentemente, uma série nunca finalizada de desaparecimentos ocorre aqui. Pelas minhas pesquisas, dentre 2022 e agora, ao menos 54 mulheres sumiram na localidade e seus arredores, sem qualquer evidência de onde seus corpos tenham ido parar.

Porém, embora nunca tenham encontrado algo paranormal ou fantástico, houveram instantes de tensão para além do aceitável, reduzindo o entusiasmo em seguir com a iniciativa.

Durante as expedições, em sua maioria realizadas nas perigosas noites estadunidenses, já se depararam com pessoas da ordem mais agressiva, felizmente sempre capazes de fugir por um fio.

Os habitantes daqueles locais raramente apreciavam visitas, mas nenhuma tentativa de fazê-lo ouvir funcionava, então, Lamar, Jamie e Clara apenas o entretinham em seu sonho bobo e perigoso… por enquanto.

— E nós vamos explorar um complexo industrial da Blue Lagoon Steelworks! O lugar foi deixado por danos estruturais causados pelo terreno instável e uma nova sede para a indústria foi construída a menos de três milhas da localidade antiga… porém, o que a gente tá aqui para ver é se tem algo mais aqui!

Esse tipo de rotina não funcionava mais. Agora, os três se encontravam empregados, ou se encaminhando em rumo a algo mais proveitoso na vida, e apenas ele insistia em permanecer, correndo riscos em busca do “engajamento”.

— A gente tá agora na frente do complexo — mexeu em uma grade de ferro, não tão fixa. — E partiu entrar!

A partir do início da gravação, teriam de assumir seus papeis, pelo bem dele e de seu conteúdo; nada de brigas ou instantes de contestação, apenas a boa e velha exploração urbana.

“Ok, vamos fazer isso…” Lamar tomou ar e assumiu o personagem. — Primeiro, a gente vai precisar entrar… Como veem, esse portão aqui tá fechado com uma corrente, mas é só a gente fazer isso aqui.

De último instante, Carlton girou em 360 graus e mostrou os arredores escuros.

— Pronto — falou Lamar ao cortar a corrente com um alicate. — Agora, podemos entrar.

— Sinistro… Olhem só para isso, um lugar grande desses sem ninguém cuidando…!

As estruturas de concreto mantinham um senso ainda existente de estabilidade, dotadas de pouquíssimas rachaduras ou avarias advindas da ação do tempo, condizentes com o relativo abandono recente.

O verdadeiro fator causador do desconforto, no entanto, era o descuido com o restante; haviam contêineres enferrujados, ainda cheios de sacos plásticos pretos, e a poeira, somada aos montes de folhas secas, geravam contraste.

— Não sabemos o que pode ter dentro, então é melhor não tocar com as mãos — advertiu Clara. — Não dá para saber se tem lixo hospitalar ou alguém colocou algo perfurante nesses sacos.

Fora do foco da filmagem, Carlton quis reclamar, mas se resumiu a fechar a cara e persistir.

“Desde que ela começou a faculdade de medicina, ficou uma chata…!” pensou. “‘Infecção isso…!’, “Bactérias aquilo…!’ Só acaba com a graça…!”

— Olha ali! — apontou Jamie, próxima de Lamar. — Tem um tipo de porta fechada ali! Talvez dê para entrar?

A raiva de Carlton quase vazou ao mundo externo quando a viu envolver a mão em torno do braço do mais alto, por tempo o bastante para ser notado.

“Eu já disse para esses dois não ficarem de carinho na frente da câmera…! Droga, agora eu vou ter que editar essa parte! Acaba com a filmagem…!”

— É, talvez dê — concluiu ele. — Não parece ser um portão muito forte e… só um instantinho…

Lamar se abaixou e deslizou cautelosamente os dedos sob a superfície enferrujada do portão metálico pintado de azul, aproveitando-se da pequena fresta entre seu final e o chão.

— Oh, foi mais fácil do que pensei! Essa coisa aqui tá aberta…! — ergueu a grande chapa de metal, dobrável para cima. — Venham! Dá para entrar!

— Obrigada, fortão! — Jamie deu-lhe dois tapas leves no ombro esquerdo.

“... E pensar que ele nem sabia como fazer uma conta de álgebra quando a gente estudava junto…!” Carlton amargou a realidade, continuando a filmar.

Ao contrário dele, Lamar se desenvolveu no exemplo-mestre de “cara correto”, nem de longe similar ao sujeito brincalhão e inconsequente de cinco anos atrás, aos meros 19.

Formado em Engenharia Civil, atuava na construção de alguns edifícios importantes, movido pela criação de bons contatos. Carlton não sabia explicar o que aconteceu, mas a impressão era de que aquele não era mais seu amigo de longa data.

“Deve ter sido domesticado pela Jamie… Só pode ser…!”

Os dois começaram a namorar desde a metade do último ano de escola e, mesmo ingressando em ramos distintos — ela em Gestão de Pessoas — persistiram e floresceram, unidos.

“Hah…! Eu não tenho nada haver com isso…!”

Eles simplesmente escolheram um caminho diferente do dele, não necessariamente melhor — ou era o que ele gostava de pensar.

— Vamos entrar, Carlton? — Ele o chamou, gesticulando para dentro. 

— Vamos, vamos…! — repetiu, na tentativa de esconder a frustração. — Vejamos o que tem lá dentro…!

A lanterna dele iluminou o grande corredor adiante, agora desprovido de fontes naturais de iluminação ao baixar suave do portão. Lamar espanou as mãos para limpar parte da ferrugem, repousou a mochila no chão e dela tirou mais três lanternas similares.

— Uma para cada um — repetiu a frase padrão de cada expedição. — Estão carregadas ao máximo, mas tenho baterias extras aqui.

— Obrigada, Lamar — comentou Clara, em sorriso. — Sempre o mais precavido de nós!

— Nada de mais! É só o básico para andar num canto assim.

— Humilde da sua parte! — A pálida trocou olhares com o rapaz afroamericano, arrumando o cabelo ao ser percebida.

“Ei, ei! O cara namora…!” pensou Carlton sobre a situação. “Que clima é esse?! E você, Jamie?! Vai só deixar?!”

Ao contrário do que ele esperava, a cacheada não esboçou qualquer reação ou agiu de forma defensiva mediante o agradecimento de Clara e, ao invés disso, estava mais ocupada testando a lanterna nos arredores.

— Aqui era uma linha de produção… — analisou os vários aparatos e maquinários empoeirados. — Talvez de correntes ou coisa assim…?

— Na verdade…! — O loiro se apressou para explicar, interrompido.

— Bem, aqui era o anexo de uma aciaria, então eles deveriam produzir algumas peças para maquinário mais específico. — Mas Lamar finalizou seu raciocínio primeiro. — Vender peças já feitas ajuda a precificar mais o produto final do que só repassar barras brutas; uma das empresas que visitei faz isso.

“Ora, seu…!”

— Sempre inteligente! — A mulher comentou. — Continue assim, afiado!

— Ah, para! Isso é conteúdo de uma das primeiras aulas do curso, e é senso comum que algo feito de um material vale mais que o material em si, peso por peso.

“... Será que a gente pode só explorar normalmente?! Eu acho que ninguém nos comentários vai querer ter recebido uma aula disfarçada…!”

— Algumas dessas peças podem ser afiadas — Clara chutou um pequeno parafuso para longe. — Cuidado para não acabarem se machucando, gente! Podem pegar tétano.

— Sim, sim…! — acenou o cameraman, às pressas. — Agora, a exploração começou de verdade!

A urgência dele os obrigou a seguir o roteiro; Carlton subestimava o potencial de seus amigos para o lerem, dado que, por mais oculta que tentasse manter, a impaciência se via escrita em cada pequeno gesto.

— Huh… Um monte de peças… Se vocês soubessem o quão mal esse lugar cheira, não iriam querer permanecer aqui! — deu um tour nos arredores com a câmera. — O ar é cheio de pó e mofo, e fede como se tivessem dado um banho de vinagre, limões podres e xixi nesse chão…

Os demais se espalharam pelos espaços adjacentes àquela área principal. Ao redor, várias salas e corredores se estabeleciam e esticavam, levando a outras áreas ou grandes depósitos.

— Olha isso, galera! São milhares de parafusos…! — O loiro afundou a mão no conteúdo de uma caixa de madeira.

Porcas, correntes, pregos e barras ocas e circulares, organizados, ocupavam os cantos e se empilhavam uns nos outros, cobertos de teias de aranha e traços de ferrugem.

— Wow… — admirou-se ao notar uma corrente no chão. — Para quê será que usavam isso?!

CLINK! — o objeto criou um eco propagado pelo jogo de câmaras inabitadas, impossível de erguer por completo de tão pesado. Cada segmento da corrente pesava tanto a cabeça dele e tinha a espessura de um braço, culminando em um gancho robusto.

— Irado…!

E justo quando começou a teorizar a função do objeto e em simultâneo encontrar algo inteligente e cheio de impacto para dizer, um chamado de um dos demais integrantes.

— Achei uma coisa…! — exclamou a voz feminina de Jamie. — Venham ver isso, rápido!

“Heh, pelo menos ela não serve só para flertar com o Lamar!”

Um sorriso se abriu diante a prospecção de um mistério de verdade — ou ao menos, algo para entreter a audiência — e a garantia de bons rendimentos se tornou mais certa.

— O que encontraram?! — Quando chegou, os demais já haviam se agrupado diante da descoberta.

O objeto na mão de Jamie não soou tão espetacular assim e um senso de frustração tomou conta dele ao fim da primeira olhada, mas…

— E o que é isso? — perguntou, descontente. — É só um pedaço de pano?

— Não… — começou a castanha. — Isso aqui… parece uma fita de cabelo.

O objeto, rosado, encontrava-se tão sujo e largado quanto os arredores, porém, não se misturava entre as peças metálicas e máquinas não-operacionais.

— Vai ver que era de uma funcionária? — tentou argumentar. — Deve ter deixado aí e foi isso.

Não fazia sentido se preocupar com uma fitinha qualquer — ao menos na cabeça dele. Os demais não aceitaram uma explicação tão simples, fato evidente nas expressões preocupadas de cada um.

— Hmm… — A jovem mulher encarou um ponto nas sombras, um corredor.

O caminho oculto em sombras densas passava a impressão de se esticar ao infinito. No passado, serviu de conexão para outro setor da fábrica: o B-2, como apontava a placa alaranjada ao lado.

A fita foi encontrada caída no exato limite entre o início do novo caminho e a linha de montagem, excesso de coincidência para se considerar mera causalidade.

— Pessoal… A gente pode ir lá?

A escuridão, intimidadora e pesada, quase a chamava por nome para chegar mais perto.

— Isso…! Vamos! — Se aproveitando da sugestão, Carlton tomou a frente. — Vamos dar uma checada!

— Ei, Carlton…! — Lamar o chamou, em voz alta.

— Qual foi?! Não me diz que ‘tão com medinho…!

— Não é isso…! — tomou a frente. — Licença…!

O mais atlético do quarteto deu um passo dentro do corredor e iluminou-o de cima a baixo, buscando entre as aparentemente infinitas salas e bifurcações.

— Aqui…! — correu alguns metros à frente e se ajoelhou no chão.

— Ei, Lamar…! Ficou doido?! Calma aí…! … Huh…?

— Galera…! — ergueu um objeto ao ar, assombrado. — … A gente não é para estar aqui…!

O sapato feminino, sujo a ponto de tomar a cor do chão, foi visto por ele de relance quando o loiro rapidamente iluminou o caminho.

— O que um sapato de mulher tá fazendo numa fábrica abandonada?! Nem ferrando que isso é de um funcionário, Carlton…!

Nenhuma pessoa deixaria uma unidade de sapato no chão, ao menos que estivesse com pressa, ou pior…

Precisamos dar o fora… Para ontem…!

Lamar largou a peça de pano velho e correu até a entrada, aterrorizado com as várias possibilidades acerca do exato significado de seu achado.

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