Volume 1
Capítulo 9: Magia e Insolência
Uma sensação repentina de déjà vu percorreu minha mente, como se eu tivesse levado um choque — atraindo imediatamente todos os olhares. A sala inteira tentou adivinhar minhas intenções. Rapidamente abri a boca e olhei para Cristina, tentando justificar meu movimento brusco.
— Desculpe, eu estava distraído.
Cristina me olhou sem muito interesse, soltando um leve suspiro enquanto a turma acompanhava a tensão no ar. Em seguida, pegou o giz que estava à sua frente e se voltou para o quadro.
— Tá, tá. Os nobres guardem suas reclamações para si próprios, e o garoto de cabelos roxos, sente-se.
Sentei-me imediatamente. O nobre apenas estalou a língua, insatisfeito por ter sido ignorado pela professora.
Cristina desenhou no quadro nove círculos, destacando três deles. Observou o desenho com atenção, como se conferisse se havia esquecido algo, mas apagou e refez um dos círculos, corrigindo sua forma imperfeita.
— Nessa primeira aula, vamos começar falando sobre os elementos mágicos.
A professora começou pelo primeiro elemento: o fogo. A palavra me fez fechar o punho com tanta força que parecia atravessar a palma da mão. Logo me acalmei e continuei prestando atenção.
Ela o descreveu como um elemento básico, mas poderoso para quem o domina bem. A casa Velmora foi citada como uma das principais dominantes do fogo no reino.
Enquanto falava, o mesmo garoto que a desafiou antes ria junto de outro aluno ao lado, seus pés sobre a mesa só perdendo para Knox, que permanecia no fundo na mesma posição há mais tempo.
— Aliás, as duas irmãs da casa Velmora estão na academia, não as desrespeitem — disse Cristina.
Após uma breve pausa, passou para o próximo elemento: Ar, considerado básico e normalmente relacionado a arqueiros. A memória de Grennor usando magia de levitação em mim veio à mente.
Talvez o elemento dele seja Ar.
— Terra também é comum, usada principalmente na agricultura e construções, mas nada impede que vocês a usem de forma criativa em combate.
Três elementos já haviam sido explicados. Faltavam seis. Eu poderia dizer que já havia estudado sobre todos em um livro, caso três círculos específicos não estivessem no quadro, pois desses eu não sabia nada.
Reparei Valkyrie sentada ao meu lado. Ela prestava atenção com concentração quase absoluta, como se a professora explicasse tudo exclusivamente para ela. Mais ao fundo, à esquerda, Knox permanecia com os pés sobre a mesa e os braços cruzados, como um rei entediado. Cristina não parecia se importar e continuou a aula.
— Sobre Água e Gelo, preciso esclarecer que são elementos diferentes. Água é ideal para magos de suporte; suas técnicas vão desde reforço físico até curas.
Mesmo tendo o elemento água, não conseguia fazer nada além de pequenas gotas. Passei a me perguntar se estava infectado com alguma doença mágica.
— O Gelo é uma evolução da Água: mais ofensivo, embora ainda permita curas básicas. Ambos não são tão comuns quanto o fogo.
Um aluno levantou a mão. A sala se calou, ansiosa para saber se seria outra provocação ou uma dúvida legítima. Para surpresa geral, era a segunda opção.
— Professora, é possível despertar todos os elementos? — perguntou o garoto, com olhar inseguro.
— Já é raro alguém dominar três elementos. Ter controle sobre todos é inimaginável. Pense na chance de um meteorito cair na sua cabeça agora. Já tem sua resposta.
O exemplo drástico fez o garoto hesitar, mas logo recompôs-se e assentiu, entendendo a pergunta absurda.
— O último elemento normal é o Raio. Raro e poderoso. É mais fácil reunir três usuários de Água no mesmo lugar do que um de Raio. Inclusive… — Cristina ergueu a mão, pequenas faíscas surgindo, acompanhadas de um sorriso orgulhoso — eu domino o Raio.
A sala reagiu com espanto. Alguns alunos fizeram caretas, incomodados com a demonstração. Knox abriu um sorriso, mostrando interesse na aula pela primeira vez. Cristina manteve a mão erguida enquanto a esfera elétrica roxa tomava forma, parecendo se gabar.
— Muito bem, esses foram os seis elementos naturais. Agora vamos aos três especiais. O primeiro é a Luz, despertada por poucos.
Ela fez uma breve pausa antes de continuar. Explicou que o elemento se dividia em Luz ofensiva e defensiva, sendo separado conforme afinidade com magias de ataque ou barreiras e cura.
— A Luz defensiva é poderosa o suficiente para curar doenças graves, formar escudos e aliviar maldições. O caminho para dominá-la completamente é longo e raro.
Comentou que a Luz ofensiva era considerada fraca, exceto para quem a domina em nível avançado, algo bastante raro.
Todos prestavam atenção. Eu ainda estava animado com a demonstração de eletricidade. Minha atenção foi puxada quando Valkyrie levantou a mão.
— Diga.
— O elemento Luz defensiva não é um dos mais fortes? — perguntou ela, com olhar sereno.
Cristina ergueu uma sombracelha, chocada. Esperou Valkyrie recuperar a expressão normal antes de responder.
— É excelente para magos de suporte, mas a diferença em relação à Água é pequena. Ousaria dizer que usuários avançados da Água podem ser ainda mais importantes.
Complementou que, mesmo sendo raro, isso não torna o elemento Luz mais forte. Valkyrie assentiu, silenciosa, com o olhar ainda distante, como se a resposta a deixasse triste.
Cristina riscou o sétimo círculo no quadro e passou ao oitavo.
— Elemento Sombra, frequentemente associado a demônios, mas é apenas mais um elemento que qualquer um pode despertar.
A professora reagiu ao barulho no fundo pela primeira vez, pedindo silêncio. Os nobres pareciam satisfeitos por incomodá-la, então ignoraram seu pedido.
— Sombra é extremamente raro. Temos poucos usuários no reino; os mais conhecidos são o braço direito do rei e o instrutor Clurgi Varlen. É capaz de criar maldições e magia negra.
A lembrança do dia anterior surgiu vívida — Knox avançando em alta velocidade e sendo parado por uma adaga que se desfazia em pó. O cochicho dos nobres continuava. Ouvi alguns sugerirem fazer da professora uma escrava, o que pareceu ser o estopim.
— Certo, já conseguiram tirar minha paciência. Podem sair da sala — ordenou Cristina.
— Uma plebeia ousa me dar ordens? VOCÊ SABE COM QUEM FALA?
Sua voz soou intimidadora. A sala inteira silenciou. A professora não se intimidou, mantendo a mão erguida. O aluno repetiu as palavras e apontou para o emblema em seu uniforme branco.
— Cala a boca, porra — disse Knox, tirando os pés da mesa.
— Outro plebeu? Ousa se voltar contra a casa Trelmo?!
Knox repetiu a frase, complementando-a com um soco certeiro no rosto do nobre, que sangrou imediatamente.
— Foda-se os Trelmo.
O nobre caiu, levando as mãos ao nariz. Knox caminhou até a saída, sem encarar Cristina, e se foi.
Cristina observou o nobre tremendo, depois ordenou que ele se sentasse e prestasse atenção. Pude ouvir que odiava seu trabalho.
A sala começou a ganhar voz novamente. O garoto se levantou e voltou à cadeira.
— Agora, o elemento Sobrenatural. Ele é indecifrável e cheio de incertezas.
Sem mais interrupções, a aula prosseguiu, fazendo os acontecimentos anteriores desaparecerem junto de Knox.
— Seus usuários podem quebrar a lógica e usar formas de magia surreais. Um pode atravessar paredes; outro abrir portais. Há uma variedade infinita de efeitos sobrenaturais.
Uma garota levantou a mão. Cristina permitiu que falasse.
— É igual à técnica que uma garota usou ontem no teste de entrada para criar uma miragem? — perguntou a aluna de óculos redondos e tranças curtas.
— Eu não estava lá ontem, estava dorm… — Cristina se interrompeu, corrigindo-se. — Não lembro. Mas não é impossível alguém com Gelo ou Ar formar um clone de gelo ou vapor, embora a mana necessária deva ser considerada — completou.
Parecendo satisfeita com a resposta, Cristina voltou a atenção ao quadro e desenhou dois círculos abaixo do sobrenatural, com os nomes Conceitual e Único, respectivamente.
— Existem dois tipos de Sobrenatural: o Conceitual e o Único.
Ela tocou o quadro com o giz, demonstrando que iria continuar, mas parou imediatamente ao olhar para o próprio pulso.
— Pararemos por aqui, por enquanto. Vão ao refeitório se alimentar. Mais tarde, quando o sino tocar, devem encontrar seus instrutores.
A professora deu as instruções antes de ser a primeira a se retirar da sala. Assim que saiu, o ambiente se encheu de vozes.
— Valkyrie, podemos ir ao refeitório juntos? — sugeri, levantando da cadeira.
Ela assentiu, e seguimos para fora da sala, até que o garoto que causou a confusão anteriormente empurrou meu ombro. Notei de relance seu sorriso de satisfação.
— Vamos? — perguntou Valkyrie.
— Vamos.
Preferi não provocar mais confusão.
Seguimos pelo longo corredor. Vários alunos de uniformes branco, azul e vermelho circulavam: alguns comiam, outros conversavam animadamente, e alguns pareciam discutir.
Paramos diante do refeitório, e ao entrar, a quantidade de estudantes parecia ainda maior. No entanto, algo chamou minha atenção: a completa ausência dos alunos de uniforme preto e dourado.
— Será que eles comem no segundo andar? — pensei em voz alta.
— Se estiver falando dos alunos ouro e negro, provavelmente — respondeu Valkyrie.
Percebi então que havia falado alto sem pensar. Antes que pudesse me retratar, um estrondo alto de copos se quebrando ecoou pelo refeitório.
— Por favor… parem!
Uma garota de uniforme branco implorava, ajoelhada diante de um grupo de três estudantes de uniforme azul.
— Você fede a porco. Como uma plebeia ousa tentar se sentar ao nosso lado como se fosse igual a nós?! — zombou um deles.
Os garotos a cercavam, observando com desprezo cruel. A garota lutava para conter as lágrimas.
— Eu não quis ofender ninguém… só queria me aproximar… — murmurou, chorando.
A multidão assistia em silêncio, como se aquilo fosse algo comum. Cerrei os punhos e me virei para falar com Valkyrie, mas ela não estava mais ao meu lado.
— Valkyrie?
Olhei ao redor, mas não a encontrei. Voltei minha atenção para a garota ajoelhada e percebi que outra pessoa se aproximava: uma loira de uniforme azul impecável, com o olhar cheio de desdém.
— Aaagh… aargh! Aaargh! So-solte meu cabelo, por favor! Isso dói! — a vítima chorava histericamente, enquanto seus fios eram puxados sem piedade.
— Sua imunda! Tenho mesmo que ensinar vocês, novatos da classe baixa, a se comportarem aqui. Wahaha! — gargalhou a agressora, claramente se divertindo. Seus companheiros riam logo atrás dela.
Não consigo deixar isso continuar… por que precisam humilhar alguém assim?
Tentei reunir coragem para intervir, até que um garoto caminhou calmamente em direção à confusão.
— EU TAMBÉM QUERO PARTICIPAR!
O jovem de cabelos brancos gritou, aproximando-se cada vez mais, ao mesmo tempo que encarava a loira. Reconheci imediatamente: Knox.
— O que pensa que está fazendo? Saia da minha frente antes que seja o próximo — ameaçou, segurando a vítima pelo cabelo.
— Ei, eu sou bem gentil, sabia? — Knox lançou um sorriso desafiador.
Ele avançou ainda mais, ficando cara a cara com a agressora. Seu sorriso doentio era confrontado por expressões de raiva da garota e de seus aliados atrás dela.
— Então, por que vocês não somem daqui antes que eu deixe de ser uma pessoa gentil?
A loira cerrou os dentes, furiosa. A garota presa por ela soluçava, enquanto seus cabelos eram puxados com ainda mais força.
Antes que a loira reagisse, um de seus colegas se aproximou.
— Emily, deixe eu mostrar a esse plebeu o lugar dele.
— Sim, faça isso.
O nobre foi até Knox, aproximando seu rosto do dele.
— Você chamou atenção demais… por que não se ajoelha, se desculpa e sai daqui em silêncio?
A voz dele era baixa, mas audível para todos. O refeitório inteiro assistia, tenso. Dei um passo para tentar me aproximar, até que senti minha camisa ser levemente puxada por trás. Virei-me e encontrei Valkyrie.
— Valkyrie?
— Não vá.
Ela pediu, calmamente levando um bolinho de morango à boca. Mostrei minha intenção de ir até lá e tentar convencê-los a parar, mesmo sabendo que poderia ser inútil.
— Como? — questionou, com indiferença, ainda mastigando. — Mesmo que vá, não vai resolver nada. Você não é forte.
As palavras dela cortaram fundo, mas eram verdadeiras: eu sou fraco. Mesmo que tentasse intervir, jamais me ouviriam.
— Deixe ele resolver.
Ela sugeriu, apontando discretamente para a confusão que se estendia.
Voltei minha atenção ao tumulto. O nobre encarava Knox, enquanto atrás dele, a loira chamada Emily mantinha a garota presa pelos cabelos, acompanhada de mais dois garotos ao seu lado.
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