Volume 1
Capítulo 8: Céu Azul
— Irmãozão, pode me contar aquela história de novo?
— A da menininha que mentia?
— Sim.
Ela me olhou com seus olhos verdes cheios de entusiasmo, as bochechas levemente coradas e o cabelo bagunçado caindo sobre a testa.
— Tudo bem, mas você vai me prometer que vai dormir quando eu terminar. Promete?
— Sim…
Embora a resposta fosse afirmativa, o beicinho dizia o contrário.
Repeti a pergunta, sílaba por sílaba, encarando-a com uma expressão que deixava claro que eu ainda não estava convencido. Observei cada gesto, cada piscada, sentindo aquela mistura constante de ternura e responsabilidade que sempre surgia quando eu estava ao seu lado.
Por fim, ela respondeu de maneira satisfatória. Depois da promessa de Lyra, não resisti e baguncei seus lindos cabelos roxos.
Ela abriu um sorriso sincero, mas logo assumiu o habitual tom de irmã indignada.
— Poxa, irmãozão! Para de me tratar como uma criancinha! Eu já tenho oito anos!
— Mas você é — lembrei, bagunçando ainda mais seus cabelos. — Deite-se, vou pegar o livro.
Caminhei até a pequena estante antiga da sala, onde ficava o livro favorito de Lyra.
— A mentira que salva, a verdade que mata.
Li o título em voz baixa, sentindo algo apertar meu peito, como se aquelas palavras atravessassem minha alma.
Voltei ao quarto. Ela já estava deitada no chão, sorrindo enquanto me aguardava, coberta por um lençol rasgado — o mesmo que a aquecia todas as noites, ainda que de forma insuficiente.
— Voltei.
Sentei-me ao seu lado e abri o livro, pronto para começar o conto preferido da minha irmã.
A história falava sobre uma garota que mentia para os pais — não por maldade, mas para conseguir doces e escapar da escola. Era animada e amava profundamente a família, porém suas palavras quase sempre vinham acompanhadas de pequenas invenções.
Ela sabia que mentir era errado, mas, depois que começou, parecia incapaz de parar. Tinha também um gatinho de estimação que vivia pulando, rolando e se esfregando pelos móveis da casa.
— Yumi, venha aqui! Deixe-me fazer carinho em você!
O gatinho, como se compreendesse, disparou pela casa como se fugisse de um predador. A menina correu até a frente da casa e viu o felino escalar o telhado com agilidade.
— Hmpf… — fez um beicinho, encarando o gato, que a observava lá de cima como se dissesse: “Se quiser me pegar, vai ter que subir aqui!”
O pai assistia à cena de longe, até decidir se aproximar.
— Ele desce mais tarde. Que tal fazermos algo juntos? — sugeriu, acariciando suavemente a cabeça da filha.
— Papai, a mamãe disse que hoje vai fazer torta. Podemos ir à feira comprar maçãs?
A menina falava com tanta naturalidade que quase acreditava na própria mentira.
— Tudo bem, tudo bem. Vamos!
O pai a colocou nos ombros, oferecendo-lhe uma bela vista das ruas da cidade.
Ela sentia como se pudesse tocar o céu.
Como sabia que a filha tinha medo de cavalos, ele sempre a carregava nos ombros, mesmo em trajetos longos.
— Irmãozão, você também consegue me carregar nos ombros? — Lyra perguntou, olhando-me com curiosidade.
— Não, ainda sou fraco demais para isso.
Ela parecia querer dizer mais alguma coisa, então esperei que continuasse.
— Então eu sou pesada?!
O espanto em sua voz soava como se tivesse descoberto uma verdade proibida.
— Não é isso, sua boba. Eu só ainda não sou forte o bastante; meus músculos nem se desenvolveram direito.
Mostrei o braço, exibindo o pouco músculo que um garoto de doze anos poderia ter.
Lyra observou meu braço magro com atenção. Seu sorriso vacilou, dando lugar a uma expressão triste. Lágrimas começaram a se formar em seus pequenos olhos.
Levei a mão aos seus cabelos outra vez, de forma lenta e dramática… e os baguncei ainda mais do que antes.
— Aaah! Para com isso, irmãozão!
Percebi que seu humor já havia melhorado e decidi aceitar a rendição.
— Certo, certo. Agora você vai dormir. Garotinhas não podem ficar acordadas até tarde.
Fechei o livro e me preparei para levantar. A noite estava especialmente fria. Felizmente, havia panos suficientes para mantê-la aquecida, embora o cheiro deixasse a desejar.
— Irmãozão…
Ela me chamou antes que eu me erguesse. Voltei a atenção para ela, e fui envolvido por um abraço forte, porém delicado. O calor de seus braços confirmava que, ao menos, estava protegida do frio. Lágrimas ameaçaram escapar dos meus olhos, mas reuni forças para contê-las.
— Eu te amo!
***
Acordei suado, com o coração disparado — era só um sonho…
Olhei para o relógio sobre a escrivaninha ao lado da cama. Cinco horas. Ainda havia tempo antes de me arrumar para a academia. Levantei-me, tomei uma ducha e decidi aproveitar o começo do dia com uma caminhada pelo campus.
Andei observando os arredores. Alguns estudantes conversavam em grupos sentados na grama; outros casais descansavam nos bancos de madeira. Aproximei-me de um chafariz e permaneci em silêncio, acompanhando as gotas que surgiam e desapareciam na água.
Mais adiante, notei duas garotas idênticas treinando na grama. Tinham cabelos longos e verdes, olhos da mesma tonalidade das folhas e pele clara como mármore. A única diferença entre elas era a presilha: uma usava uma flor dourada; a outra, uma flor prateada.
Que lindas… nunca tinha visto gêmeas antes.
Observei-as por alguns instantes, até que nossos olhares se cruzaram. A garota da presilha prateada retribuiu com um sorriso gentil, antes que eu desviasse a atenção de volta para o chafariz.
Afastei-me e sentei em um banco de madeira vazio, encarando o céu azul que se estendia acima de mim. Alguns segundos se passaram, e o sonho de mais cedo voltou a invadir minha mente, ameaçando arrancar lágrimas dos meus olhos.
— Por que será que o céu é azul?
— Whoa!
Uma garota de cabelos laranja presos em um rabo de cavalo, vestindo um uniforme vermelho, surgiu de repente ao meu lado. Levei um susto e recuei, como se tivesse recebido um choque.
— Você me assustou — avisei, tentando recuperar o fôlego.
Ela me analisou com atenção, como se tentasse se lembrar de onde me conhecia.
— Você é um dos novatos, né? — disse, animada, pegando um pequeno caderno e uma caneta. — Ei, é raro ver alguém com cabelo roxo… você é um bruxo?!
— Um bruxo? — repeti, surpreso.
Ela me encarava com expectativa, aguardando uma resposta. Como eu não fazia ideia do que aquilo significava, só pude devolver a pergunta.
— O que é um bruxo?
Ela levou a mão ao queixo antes de começar a escrever no caderno, murmurando: “Ainda não encontrei um bruxo.” Soou decepcionada, mas logo voltou a me encarar.
— São usuários de magia negra! Um dia ainda preciso entrevistar um.
Fez uma breve pausa; seu olhar denunciava que já se perdia nas próprias fantasias. Em seguida, retomou o foco.
— Meu nome é Sara Westar. Prazer em te conhecer.
Retribuí a apresentação e, assim que disse meu nome, percebi sua expressão mudar.
— Então você é um plebeu! Ótimo, quero te fazer algumas perguntas: qual é sua comida favorita? Quanto você mede? Odeia nobres? E qual é seu tipo de garota? Talvez as gêmeas da casa Alderwyn que você estava encarando mais cedo?
Meu tipo de garota? Espera… como ela sabe que eu estava olhando para as gêmeas?!
Sara disparava perguntas sem parar. Incapaz de processar tanta coisa de uma vez, inclinei-me para trás, tentando escapar daquele olhar empolgado que quase me engolia. De repente, uma mão cobriu o rosto dela, afastando-a de mim no banco.
— Isso foi cruel! Seja mais gentil com as garotas ou elas nunca vão te amar!
— Não preciso disso. E, aliás — disse um garoto de cabelos negros, usando uniforme vermelho e óculos, enquanto apertava a bochecha de Sara com firmeza — não fique perturbando os calouros com esse interrogatório.
— Ai! Ai! Gindo, me salva, por favor!
Ela suplicou por ajuda, mas só consegui oferecer um sorriso constrangido, enquanto o garoto suspirava, como quem lida com um caso perdido.
Assim que foi solta, Sara puxou novamente o caderno e começou a escrever, sussurrando: “Temos um torturador de garotas fofas na academia.”
— Depois que essa matéria for publicada, talvez surja até um assassino…
Diante da ameaça do garoto de óculos, ela estremeceu e rabiscou a frase até apagá-la por completo. Claramente se conheciam bem. Aproveitei a brecha para me apresentar a ele.
O garoto soltou uma risadinha, como se eu tivesse feito uma piada leve. Ajustou os óculos antes de responder.
— Não precisa de tanta formalidade. Meu nome é Ethan Justerdaler, sou o vice-presidente do clube de jornalismo. E essa fofoqueira aqui é a presidente.
— Não sou fofogueirra! — protestou, quase mordendo a própria língua.
— Eu finjo que acredito, e você finge que é verdade. Agora vamos, ainda temos coisas para resolver no clube. Novato, vá se arrumar, as aulas já vão começar.
Ethan segurou Sara pelo colarinho e a levou consigo.
Ela apenas se deixou levar, cobrindo a boca para aliviar a dor na língua mordida.
Melhor voltar e me arrumar também.
Olhei mais uma vez para o céu — um azul profundo, quase como o mar, convidando-me a mergulhar. Levantei-me do banco e iniciei o caminho de volta ao dormitório.
Ao chegar ao quarto, peguei o uniforme branco entregue no dia anterior. Era simples, mas impecável: camisa de manga longa, gravata azul-marinho escura, blazer de gola sailor e calça reta no mesmo tom.
Abri a primeira gaveta da escrivaninha e encontrei minha arma espiritual, convocada no dia anterior: um pingente prateado, formado por um círculo perfeito de metal polido, com uma gema azul-safira no centro. Guardei-o no bolso. Depois, comi um pão, tomei banho e me vesti, pronto para sair.
Entrei na academia e percorri os corredores até o mural de avisos. Procurei meu nome na lista de turmas. Encontrei-o no meio: Gindo — 1ºB. As salas iam do A ao C. Virei-me e comecei a procurar a minha.
O prédio tinha três andares e era imenso, repleto de salas de treinamento e outras que pareciam pertencer a clubes. Continuei andando, lendo as placas acima das portas, até finalmente encontrar a correta.
A porta já estava aberta. Ao entrar, senti como se tivesse atravessado um portal — o ambiente mudou quando fui atingido pelos olhares dos alunos que já estavam ali. Não eram hostis, mas avaliadores. Um a um, pareciam chegar às próprias conclusões antes de desviar os olhos.
Caminhei até o fundo e sentei-me na penúltima carteira. Ao observar o outro lado da sala, reconheci o garoto que havia desafiado o instrutor Clurgi no teste do dia anterior. Desviei o olhar discretamente, voltando-o para a janela ao meu lado.
— Ei.
Uma voz suave e tranquila me chamou. Procurei sua origem e encontrei uma garota de longos cabelos prateados e olhos cinzentos serenos: Valkyrie.
— Então você também está nesta sala?
Perguntei, incapaz de esconder a alegria no olhar. Ela respondeu com um leve aceno e ocupou a cadeira vazia à minha esquerda.
Mais alguns minutos se passaram, com outros alunos chegando, todos vestindo uniforme branco. Então, uma mulher de roupas pretas e cabelos azuis curtos entrou e posicionou-se à frente da turma.
Reconheci-a imediatamente — era a mesma do dia anterior, que nos advertira sobre os dormitórios do sexo oposto. Ela aguardou até que todos se acomodassem.
— Muito bem — começou. — Sou a professora de vocês. Meu nome é Cristina e acompanharei o desenvolvimento acadêmico de todos ao longo deste ano. Alguma dúvida?
Um garoto levantou a mão. Cristina o observou por alguns segundos antes de conceder a palavra.
— Sim?
— Cristina, você é da plebe. Por que devemos aprender com alguém como você?
O nobre, de longos cabelos negros e expressão austera, lançou a provocação como se estivesse falando com algo inferior. Alguns alunos concordaram com discretos acenos; outros o encararam com indignação.
Cristina cruzou os braços e sustentou o olhar do rapaz, como quem já ouvira aquilo muitas vezes. Então, abriu um leve sorriso.
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