Volume 1
Capítulo 7: Mundo Cinza
Respirei fundo e entrei na sala do altar. Senti inúmeros olhares recaírem sobre mim enquanto caminhava, a passos lentos, até o centro. O desconforto me fazia querer dar meia-volta e sair correndo, mas eu precisava cumprir meu papel.
Continuei com o olhar baixo até parar diante do altar. Por impulso, ergui os olhos — péssima ideia. Os instrutores me observavam fixamente.
Os olhares dos estudantes e dos instrutores eram sufocantes. Ajoelhei-me, fechei os olhos e juntei as mãos de forma rígida e apressada, permanecendo imóvel. O público parecia mais interessado nas próprias conversas do que em mim.
Por favor, Deusas, ouçam meu chamado. Concedam-me minha arma destinada. Quero me tornar alguém capaz de proteger os outros.
Os segundos passaram, e nada aconteceu. Um minuto se foi, e a conversa da multidão cessou — sinal de que agora toda a atenção estava voltada para mim. Mantive a posição, as mãos ainda mais tensas.
— Que chato, Afonso. Chama o próximo.
Um aluno gritou por trás do vidro. O comentário me deixou nervoso; a possibilidade de não despertar arma alguma fez minha ansiedade disparar. Eu não queria — nem podia — desistir.
— Garoto, já é o suficiente.
A voz de um dos instrutores me arrancou dos pensamentos. Abri os olhos e percebi o quanto havia chamado atenção. Sem alternativas ou esperança, levantei-me.
Quando me preparava para sair, o altar brilhou. A luz surpreendeu a todos. Era fraca, mas algo surgia dela. Um pingente tomou forma e repousou delicadamente sobre a superfície.
Não era uma arma, mas ainda assim eu havia recebido algo. Um sorriso escapou, porém o mundo ao meu redor tornou-se cinza. Todos estavam imóveis. Olhei para as pessoas atrás do vidro, acima de mim — ninguém se movia.
O que está acontecendo?
O ar parecia pesado, como se cada respiração fosse arrastada pelo tempo; minhas mãos tremiam levemente enquanto tudo ao redor congelava em silêncio.
— Vael’thir en Solmara… kelith ven ora.
— Sevrath. Umbra et Solara — vel’khar nox, vel’khar lumen. Nyras ith’rael.
Duas vozes ecoaram no ar. Meus tímpanos arderam de dor. Ajoelhei-me, tentando gritar, mas nenhum som saía. O mundo permanecia cinza e paralisado. As vozes continuavam, como se atravessassem o ar diretamente para minha mente.
— Thyraen… Vael ny’khor.
Uma terceira voz soou, e as outras duas se calaram. Um silêncio absoluto tomou o salão, e o cinza começou a tremer. Forcei minha voz, mas estava sufocando com minhas próprias palavras.
O ar parecia mais denso, pesado, como se eu respirasse através de água. Cada som chegava amortecido, como se eu estivesse vendo o mundo por trás de um véu de vidro.
— Memorae. Selith en’khar.
Em meio à dor, vi algo do outro lado do altar, a cerca de dois metro de mim: uma mão erguida em minha direção. Quando encarei o rosto da figura e encontrei seus olhos, senti como se uma agulha perfurasse meu coração.
— Um pingente?
— Isso nem é uma arma.
Olhei ao redor, atônito. O público comentava sobre o objeto repousado no altar. Eu, porém, suava frio com o que acabara de vivenciar.
Meu coração ainda disparava. A dor havia cessado, mas a adrenalina permanecia. Observei o pingente, lembrando-me do despertar estranho.
Era prateado, formado por um círculo perfeito de metal polido, gravado com linhas concêntricas e atravessado por quatro raios finos que convergiam para uma gema azul-clara no centro. Preso a uma corrente delicada, simples, possuía uma elegância quase hipnótica.
Peguei-o do altar. O mais chocante foi perceber que nenhum instrutor se levantara para me escolher. Permaneci com o pingente nas mãos, encarando o piso como se estivesse sendo julgado por todos.
O diretor manteve-se em silêncio, olhando para mim — ou talvez para o pingente. Quando pensei em sair por conta própria, alguém chamou por Afonso.
— Eu serei a instrutora dele.
Uma garota de uniforme preto e cabelos vermelho-escuros falou — não como um pedido, mas como uma declaração.
— Sofia, você não é instrutora.
— Não me importo. Vou ensiná-lo, assim como Veylor me ensina.
O diretor voltou o olhar para um dos instrutores sentados. Ele, de braços cruzados, apenas fechou os olhos, ignorando a situação. A garota caminhou até mim e parou à minha frente.
— Meu nome é Sofia Rastelius. Sou do quarto ano e, a partir de agora, sua instrutora. Qual é o seu nome?
Apresentei-me, animado e desconfiado ao mesmo tempo. Sua expressão séria parecia me avaliar, mas logo percebi que estava enganado. O semblante rígido suavizou-se em um sorriso gentil.
Mesmo enquanto segurava o pingente, não pude deixar de notar a determinação nos olhos de Sofia, um contraste tão forte com meu próprio nervosismo.
— Qual foi, Sofia? Me ensina também! — gritou um estudante de uniforme dourado.
Ela ignorou o comentário e pediu que eu me retirasse da arena. Segui a orientação e caminhei em direção à saída. Antes de sair, olhei para trás e a vi conversando com o instrutor de braços cruzados.
Enquanto percorria o longo corredor, observei o pingente. A gema central brilhava como uma safira, e os quatro raios apontavam para direções opostas. Havia algo especial nele. Pensei em voltar para Grennor e os outros, mas o cansaço falou mais alto.
Decidi passar no refeitório antes de ir ao dormitório descansar. O corredor estava vazio; a maioria ainda devia estar no salão do despertar.
Entrei no refeitório quase deserto — não fosse pela presença marcante de Arinar. Uma das líderes da Ordem estava sentada próxima ao balcão, onde a senhora atendia os alunos.
Sem alternativa, aproximei-me. Tentei agir naturalmente, embora preferisse evitar chamar sua atenção.
— Boa tarde, poderia me servir um ensopado, por favor?
— Claro, querido.
Ela lançou um olhar pelo salão vazio e indicou a mesa próxima.
— Pode se sentar ali. Já levo o seu prato.
Ferrou…
O tom gentil tornou-se assustador ao perceber que a mesa indicada era justamente a de Arinar. A atendente virou-se, e eu troquei um breve olhar com a garota que se deliciava com uma montanha de sobremesas.
Concluí que o melhor era não contrariá-la. Sentei-me à sua frente em silêncio, tentando focar na paisagem além da janela para ignorar sua presença.
— O que você despertou?
A voz soou tão próxima que meu corpo reagiu antes da mente. Voltei-me para ela quase instantaneamente.
Seus longos cabelos azul-acinzentados e os olhos profundos, semicerrados como se estivesse sempre à beira do sono, davam-lhe a aparência de uma pintura imóvel. Permanecia em silêncio, os lábios fechados, a expressão inalterada.
— Algum problema?
Piscar foi suficiente para romper o transe.
— Ah, desculpe! Sim… despertei este pingente como minha Arma da Alma.
Mostrei o objeto que trazia no bolso. Ela o analisou com leve curiosidade; seus lábios se entreabriram antes de responder.
— Entendi. Você deve estar muito cansado.
A conclusão me confundiu, mas concordei com um aceno. Ela empurrou um dos pratos com uma fatia de bolo em minha direção e se levantou.
— Tia, já estou indo. Obrigada pelos doces.
— Não há de quê. E lembre-se de não arrumar problemas!
Arinar assentiu, os olhos ainda semicerrados, e seguiu em direção à saída. Seus passos eram lentos, quase arrastados, porém firmes. A atendente trouxe meu ensopado com um sorriso caloroso. Comi sem hesitar; o sabor era melhor do que qualquer refeição da antiga casa onde vivi.
— Gindo.
Engasguei ao ouvir uma voz repentina ao meu lado. Parecia que os fantasmas do dia não me davam trégua. Virei o pescoço e encontrei uma Valkyrie com os olhos brilhando, fitando-me com intensidade.
— O-Oi… você me assustou.
— Estava com fome, então pensei em vir ao refeitório.
Por algum motivo, ela alternava o olhar entre meu rosto e a mesa, ainda com aquele brilho nos olhos. Entendi quando segui sua direção: a fatia de bolo de chocolate. Devia ser aquilo que a distraía. Perguntei se ela queria, e Valkyrie aceitou, os olhos cintilando ainda mais.
O ensopado parecia ficar melhor a cada colherada. O bolo, pelo visto, também estava excelente, pois o rosto naturalmente inexpressivo da garota ao meu lado suavizava-se a cada pedaço levado à boca.
— Parece que você ama doces.
— Não gosto.
Mas você está comendo.
Enquanto comíamos, mais alunos começaram a ocupar o refeitório. Eu já havia terminado e me preparei para sair, mas, ao me levantar, senti uma leve dor no ouvido. Valkyrie percebeu e pediu que eu me sentasse novamente.
Ela tocou meu peito por cima da camisa e fechou os olhos, sussurando uma palavra em tom tão baixo que não pude ouvir. Mais uma vez, senti uma onda de calor e conforto se espalhar pelo corpo. Meus olhos se fecharam quase por conta própria, o sono ameaçando me puxar ali mesmo, na cadeira.
Foi então que ouvi alguns sussurros ao redor.
— Eles estão…?
— Sério? Bem aqui no refeitório?
As vozes eram baixas, mas suficientes para atravessar a névoa que se formava em minha mente. Comentários contidos, risadinhas abafadas — claramente interpretando a cena de maneira equivocada.
Abri os olhos de repente e encontrei o olhar prateado de Valkyrie fixo na minha cabeça. No instante em que percebeu que eu havia notado, desviou com naturalidade.
— Você parecia machucado. Eu te curei.
Franzi a testa.
— Você sabe magia de cura?
— Meu elemento é luz — respondeu com simplicidade. — Magia básica de cura é o mínimo que se espera.
Disse aquilo como se não fosse nada extraordinário. Ainda assim, meus olhos voltaram instintivamente ao ponto onde ela parecia estar olhando antes.
— Obrigado… deve ser só cansaço.
— Você estava pior do que imagina — interrompeu. — Eu vou para dormitório.
A ausência do artigo passou despercebida para ela. Valkyrie ainda tropeçava em detalhes simples da língua — algo comum para alguém que claramente vinha de fora.
Seu tom, porém, continuava calmo. Controlado demais.
Por um breve segundo, seus olhos voltaram à minha cabeça — rápidos, quase imperceptíveis — antes de se afastarem. Ela se levantou para deixar o prato junto aos demais, perto da atendente.
Levantei-me também. Não consegui terminar todo o ensopado, mas comi a maior parte. Levei a tigela até o local da louça suja e segui de volta para o dormitório.
— E aí, Gindo.
Grennor me chamou logo atrás de mim. Estávamos no corredor de saída da academia. Esperei que se aproximasse e passamos a caminhar juntos; ao que tudo indicava, seu destino também era o dormitório masculino.
— Sua arma foi algo bem peculiar, mas não diria que é exclusiva. Já houve casos como o seu.
— Sério?
— O líder do clube de jardinagem tem um espelho como Arma da Alma.
A informação despertou minha curiosidade. Talvez até acessórios pudessem ter utilidade em combate. Transformei meus pensamentos em palavras.
— Seu raciocínio está certo. O espelho dele parece selar a mana de quem é refletido. Não sei exatamente como funciona.
Só a possibilidade de algo que não fosse uma arma tradicional ter utilidade já me animava. Ainda assim, despertar meu pingente não me deixara decepcionado.
As Deusas me deram um presente. Não posso demonstrar ingratidão por sua bondade.
— Mas esses truques podem não significar nada numa luta de verdade.
Perguntei o motivo daquele julgamento. Suas palavras sérias poderiam esclarecer ainda mais minhas dúvidas.
— Cara, só de você passar perto da Seraphina, já sentiu o calor da presença dela queimando.
— A aura dela está sempre ativada?
Já tínhamos chegado ao dormitório, mas a conversa poderia durar até a porta do meu quarto. Grennor fez um gesto pedindo um momento para explicar melhor.
— Aura é como roupa: você está sempre vestindo. Agora pega a Arinar, por exemplo. Só de ficar perto dela, já dá sono… ou até alucinação.
A analogia foi simples, mas eficaz. Ele olhou para a porta do meu quarto, murmurou o número algumas vezes e se despediu de mim, me lembrando antes que amanhã seria o primeiro dia de aula.
Despedi-me também e entrei. O anoitecer daquele dia me deixara mais exausto do que os anteriores. Deitei-me na cama, envolto pelo cansaço, ainda reunindo forças para tomar banho.
— Que dia cansativo… é como se algo tivesse acontecido, mas não consigo me lembrar direito.
Meus ombros pesavam, e a sensação de dever cumprido misturava-se a um alívio silencioso. O cansaço tornava cada movimento mais lento, mas, ainda assim, havia uma leveza sutil em simplesmente poder descansar.
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