Volume 1
Capítulo 6: O Ano dos Audaciosos
— Esse rapaz é bem agressivo.
O comentário de Karen tinha razão. O jovem não poupava palavras; seu desprezo pelos nobres era algo que ele não parecia disposto a esconder.
Ele começou a caminhar até o altar. Ao chegar diante dele, uniu as mãos como se fosse fazer um pedido solene… mas sua expressão dizia o contrário.
— Oh, Deusas… — disse, em tom teatral — concedam-me uma arma para acabar com a raça desses nobres.
Ele caiu na gargalhada logo em seguida, como se tudo não passasse de uma piada pessoal.
Ainda assim, um brilho intenso começou a se formar sobre o altar — vermelho como fogo vivo. A luz tomou forma e revelou cinco espadas alinhadas, que desciam suavemente.
Três delas possuíam lâminas vermelhas, enquanto as outras duas eram azuis, criando um contraste marcante sobre o altar.
— Heh. Parece que as Deusas apoiam minha causa — zombou, exibindo um sorriso torto.
Três instrutores se levantaram quase ao mesmo tempo, como predadores atraídos pelo cheiro do poder.
— Sou Hion Baraka, especialista na arte da katana — declarou, com voz firme e controlada. — Convido-o a ser meu discípulo.
— Mio Suzan — anunciou a segunda, batendo o punho fechado contra a palma da mão — especialista em combate corpo a corpo. Venha comigo e transformarei seu corpo e suas técnicas em armas.
— Jonathan Rensorf — apresentou-se o terceiro, ajustando a capa com elegância — mestre na arte da espada. Garoto, seu caminho claramente é o de um espadachim. Junte-se a mim e moldarei seu potencial em verdadeira excelência.
Ele observou cada um deles com um olhar de desinteresse. Seus olhos percorreram os três instrutores como se avaliasse itens expostos em uma vitrine.
Alguns segundos se passaram. O silêncio se intensificou.
Então ele apontou o dedo para outro instrutor — alguém que permanecia sentado, completamente indiferente à comoção.
O homem ergueu uma sobrancelha de maneira preguiçosa.
— Eu? — questionou, como se a ideia fosse absurda. — O que tem eu?
— Treine-me. Você é o especialista em assassinos, certo? Eu escolho você.
O instrutor soltou um suspiro longo, carregado de impaciência.
— Não tenho interesse em você.
Gargalhadas explodiram pelo salão. Os nobres aproveitaram cada segundo, divertindo-se com a cena como se assistissem a um espetáculo particular.
— Bate nele, plebeu! Vai que ele aceita! — gritou um, quase chorando de tanto rir.
— Hahaha! Ele estaria morto antes mesmo de se mover!
Ao meu lado, senti Valkyrie ficar mais atenta. O ar pesado, impregnado de desprezo, parecia despertar nela uma firmeza silenciosa — sua postura se endireitou naturalmente, os ombros se ergueram e seus olhos permaneceram fixos, desafiando o ambiente hostil.
— Valkyrie, está tudo bem?
— Sim.
A resposta saiu firme, mas sua atenção permanecia voltada aos nobres que provocavam o garoto diante do altar.
— Como eu amo a plebe… sempre alegrando meu dia! — debochou um dos nobres.
O jovem não reagiu. Não tremeu, não se irritou. Apenas se inclinou com calma, pegou uma das espadas de cabo vermelho sobre o altar… e a ergueu na direção do instrutor que o rejeitara.
Assisti à cena com os olhos arregalados, incapaz de desviar o olhar. Meu coração acelerou, dividido entre espanto e apreensão.
O salão mergulhou em um silêncio sepulcral.
— Mas o quê? — reagiu o instrutor.
Num único instante — quase imperceptível — o garoto desapareceu de onde estava.
E reapareceu diante do instrutor. Minha respiração falhou por um momento, incapaz de compreender o que acabara de acontecer.
A lâmina repousou a poucos centímetros do pescoço do homem. Tão perto que um passo a mais significaria morte certa.
O que impedia o golpe era uma adaga velha partida ao meio nas mãos do instrutor. Fragmentos metálicos dela caíram no chão. Eles permaneceram frente a frente, encarando-se.
— Garoto… se isso tivesse sido uma técnica de aura ou magia, sua cabeça estaria no chão agora.
Ele sorriu de forma desafiadora diante do comentário. A lâmina começou a pulsar com um brilho vermelho fraco, como um coração maligno recém-desperto. Ninguém mais dizia nada; todos observavam a audácia demonstrada, tomados por uma apreensão contagiante.
— Execução.
Em um piscar de olhos, o corpo do garoto foi arremessado a metros de distância, rolando violentamente pelo chão de pedra. O impacto ecoou pelo salão.
O instrutor apenas suspirou, como se aquilo não passasse de um incômodo trivial. A ação fora tão rápida que mal consegui acompanhá-la.
— Coragem demais um dia vai te matar.
Sua voz ecoou em tom alto até o jovem caído à distância. Ele fez uma breve pausa antes de continuar, apresentando-se como Clurgi Varlen, especialista no treinamento de assassinos.
O alvo das palavras de Clurgi se levantou. Após um estalo no pescoço, posicionou-se como se estivesse prestes a avançar novamente. Estendeu o braço para recuperar a espada caída à sua frente.
Antes que pudesse agir, Clurgi ergueu a palma da mão em um gesto seco, interrompendo-o.
— Certo, certo. Aceito sua proposta. Vou treiná-lo. Agora, diga-me seu nome.
O instrutor falava como se estivesse cedendo a um capricho inevitável. O salão foi tomado por comentários do público, e o olhar sério de Grennor dirigido ao jovem que enfrentara um instrutor me surpreendeu. Para mim, ele sempre parecera alegre e brincalhão — pelo menos até então.
— Knox.
— Muito bem, Knox — afirmou Clurgi, sem emoção. — Pegue suas espadas e retire-se do salão.
Knox o encarou por alguns instantes, até que finalmente decidiu obedecer. Caminhou até o altar e ajoelhou-se o suficiente para recolher as quatro espadas restantes — duas de cabo vermelho e duas de cabo azul. Em seguida, virou-se e deixou a arena sem olhar para trás.
— Eu imaginava do que ele seria capaz em uma luta real… — pensei em voz alta, arrepiado.
— Vá se acostumando. Existem monstros muito piores do que ele por aqui.
O aviso de Grennor não soou como brincadeira.
As chamadas continuaram. Outros nomes, outras armas… até que o número nove foi anunciado. Meus olhos se fixaram em Valkyrie, que entrava na sala do altar.
— Ela não estava agorinha ao nosso lado?!
Karen ficou surpresa com a descrição da garota serena; eu e Grennor, nem tanto. Já estávamos acostumados às suas entradas e saídas imprevisíveis.
Ao contrário dos demais, porém, ela não se posicionou diante do altar. Parou alguns metros antes dele, ereta e inabalável. Ergueu a mão lentamente à frente do corpo; ainda assim, seus olhos permaneciam calmos.
— Khans.
Uma corrente surgiu ao seu redor como uma serpente viva, agitada, cortando o ar com um chiado metálico.
— Esta é minha arma da alma. Khans — disse, com a voz tão apática quanto o olhar frio.
O diretor levou a mão ao queixo, intrigado.
— Interessante, jovem… não apenas já possui uma arma da alma, como também ela é nomeada.
Instrutores começaram a se levantar, cinco dos dez ao todo. Valkyrie, porém, não olhou para nenhum deles. Apenas ergueu o braço e apontou para uma das instrutoras que ainda permanecia sentada, o rosto inexpressivo.
— Quero ser sua discípula.
Grennor perguntou a si mesmo se naquele ano só havia gente audaciosa. Depois, virou-se para mim e questionou se eu também pretendia chamar mais atenção do que o necessário quando chegasse minha vez. Definitivamente, esse não era o meu plano.
O diretor Afonso estreitou os olhos diante da escolha da garota.
— Oh… sem interesse em combate, mas sim em magia? — comentou, intrigado.
O silêncio dominou o salão. Do outro lado do vidro, o público murmurava, tentando compreender a decisão dela.
A instrutora indicada parecia pronta para se manifestar: uma mulher de postura serena, cabelos dourados presos atrás da cabeça.
— Sou Vivian Elins, especialista em magia. Jovem, aceitarei você como minha discípula. Diga-me seu nome.
— Valkyrie Riend.
As palavras pareceram provocar uma reação no diretor, que passou a encarar o chão rochoso do salão, mão apoiada no queixo.
Vivian acenou com a cabeça, em seguida pediu que a garota prateada se retirasse, de forma séria, porém tranquila.
Valkyrie retirou-se com passos firmes, a corrente serpenteando ao seu redor. Observei-a com atenção até que desapareceu pela saída lateral.
Sem perder tempo, o diretor chamou o próximo número. A pessoa era fácil de reconhecer: a maga de gelo, Amanda. Ela entrou no salão e caminhou diretamente até o altar. Ajoelhou-se e levou as mãos ao peito, fechando os olhos.
— Deusa do Gelo, atenda ao meu chamado e envolva-me em sua bênção. Que meu coração permaneça tão frio quanto suas eternas terras, pois é no gelo que habita minha força.
Diante dela, o ar pareceu cristalizar. Um orbe translúcido formou-se lentamente sobre o altar, como um coração de gelo suspenso no vazio. Em seu interior, flocos e lâminas cristalinas giravam em silêncio. O frio intenso do salão pareceu atravessar até mesmo o vidro que nos separava.
Duas instrutoras se levantaram. A primeira foi Vivian, oferecendo seu apoio a Amanda. A segunda era a especialista em magia de suporte, mas, no momento em que pronunciou o próprio nome, uma onda de tristeza e arrependimento me atingiu.
Lyra… Veyra.
A vontade de chorar aumentou ao repetir aquelas palavras em minha mente. Karen perguntou se eu estava bem e ofereceu ajuda. Forcei um sorriso para não preocupá-la; aparentemente, foi o suficiente para tranquilizá-la.
Coincidências podem ser dolorosas…
— Aceito-a como minha instrutora, Vivian.
A maga fez sua escolha, optando pela especialista em magia. Tornava-se, assim, a segunda discípula escolhida por Vivian, depois de Valkyrie.
O orbe sobre o altar brilhava como um diamante. Amanda o tomou com delicadeza, abraçando-o contra o peito até que desapareceu. Perguntei-me o que havia acontecido, mas Karen se dispôs a me dar uma explicação.
— Ela o guardou. Nossas armas podem ser armazenadas na alma; o nome é bem autoexplicativo, não acha? — riu baixinho.
Questionei o motivo de os alunos anteriores não terem guardado suas armas. Karen explicou que, para iniciantes, aquilo não era nada simples.
— Aliás, se sua arma quebrar, ela será perdida para sempre. Então, quando receber a sua, não a perca nem a negligencie — acrescentou Grennor.
O sorriso de Karen tornou-se provocativo, insinuando que ele talvez tivesse adquirido um pouco de sabedoria, mesmo faltando a um terço das aulas. Ele retrucou, perguntando se ela o havia chamado de burro. Esses dois eram realmente como água e óleo.
— Juro por meu nome e minha origem que permanecerei eternamente contra a Calamidade e seus servos.
Os olhos de Amanda estavam afiados e sérios; sua declaração firme silenciou o salão. Quando pareceu satisfeita, virou-se e deixou o local.
— Viu? Os novatos deste ano são excêntricos!
Grennor resmungou para a noiva, que, sem sequer olhá-lo, ordenou que se calasse. Ele voltou-se para mim com expressão cansada, como se dissesse “O que eu fiz?”.
— Compareça ao salão, número doze.
Meu coração acelerou quando chamaram meu número. Era minha vez de invocar minha arma. Ajustei a postura e respirei fundo, consciente de que cada movimento seria observado, cada detalhe analisado.
Ao perceber meu nervosismo, Grennor tentou me encorajar dizendo que plebeus também eram pessoas. Karen também me desejou sorte. O apoio dos dois me deu forças para seguir determinado até o salão.
Comecei a descer as escadas em direção ao andar inferior.
Ao chegar ao primeiro andar, segui pelo corredor estreito que levava ao salão. No caminho, uma garota de cabelos azul-escuros me interceptou com um “ei”. Parei e me virei para ouvi-la.
— Porra, essa coisa em você é bizarra. Kwahaha.
Suas palavras não fizeram sentido para mim, então perguntei do que ela falava. Ela permanecia encostada na parede, braços cruzados, observando-me. Quando tentou dar uma explicação, a voz do diretor ecoou no salão, chamando meu número novamente.
— Desculpe, estou com pressa!
Virei-me e segui adiante. Senti que fora rude, mas ela não pareceu se importar. Ao me afastar, vi de relance que fechava os olhos, ainda encostada na parede, imóvel como uma estátua.
Faltavam poucos passos para entrar no salão. Justo quando pensei que tudo daria certo, a mesma onda de tristeza de antes retornou, atravessando-me por completo.
Te amo.
Dei meia-volta instantaneamente ao ouvir a voz atrás de mim, apenas para encontrar o vazio — exceto pela garota distante, ainda encostada à parede. Fiquei paralisado, tomado por medo, tristeza e raiva de mim mesmo. Meu coração parecia prestes a saltar do peito de tão forte que batia.
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